19.07.2005

Alguém procurou meu nome no Google e encontrou um velho blog, do qual eu mesmo não tinha qualquer lembrança. Esta pessoa deve ter solicitado a chave do blog clicando em “esqueci a senha” e a mensagem foi parar na minha caixa de e-mails (óbvio). Agradeço a recordação e a oportunidade de republicar aqui alguns escritos que de outro modo estariam perdidos. E talvez continuem perdidos de qualquer modo.

Trabalhava no shopping havia exatamente noventa e três dias e tinha uma coisa certa: existem pessoas com absolutamente nada pra fazer. Não estou falando das “desocupadas” que enchem a praça Tiradentes ou os botecos ao redor da rodoviária, nem de qualquer pessoa com uma flanela na mão e um colete velho no corpo, alguém com um bebê no colo te pedindo uma moeda. Essas pessoas têm trabalho, não importa o que você me diga.

Não é fácil viver de caridade num lugar onde Cristo fugiu da cruz e a religião do momento é um culto à sua própria personalidade. Não é, de jeito nenhum, fácil esmolar qualquer migalha num lugar onde há tantas revistas de moda e de decoração e de música e de comida e de cinema e tantos canais de tv e academias e cinemas e teatros pra mostrar a miséria e a plenitude do ser humano. Onde você precisa ter câmeras e seguranças e pagar um plano de saúde e ter um carro legal e talvez uma arma, juntar uma grana pra casar também. Um lugar onde há tantas festas e tantas bebidas e tantas drogas e computadores como esse que abrem janelas para o mundo e celulares que o fotografa e ah… Todas essas maravilhas que tornam nossas vidas tão mais…. frias? Mas com tudo isso, quem precisa acreditar numa mudança? Tudo leva a nada e não há lugar para ir, nem porque sair. É só acabar com a corrupção. Mas tire meia-nota, ok? porque o governo morde tudo. E me arrume uma receita e aqueles remédios tarja preta vão deixar mais tranqüilas essas nossas mentes tão terrivelmente stressadas. Afinal, o mundo anda tão complicado, não é mesmo?

Ah sim, aquelas pessoas nas ruas, já estava quase me esquecendo delas, olha que cabeça a minha! Eu tenho certeza que não é fácil fortalecer seus anticorpos contra o frio e todo tipo de infecção quando se come lixo. Nem apanhar da polícia cada vez que uma madame se sente ameaçada porque você está cantando alto e dançando cambaleante, abraçado com a garrafa que te fez esquecer por um momento a miséria que você é. Deve haver uma longa história de hematomas e hemorragias e dores infernais até você desistir de limpar e curar as feridas porque o hospital é sempre uma humilhação, perda de tempo, sair de lá com a fome arranhando sua barriga e correr atrás de uma sopa quente antes de descobrir que algum filhodaputa queimou seu cobertor de papelão quando o céu despeja o frio com toda fúria de um deus que te odeia e só o inferno deve estar quente esta noite. E o inferno, o inferno são essas casas que você passa em frente e os senhores e os doutores entram em grupo para trair suas esposas com lindas mulheres que eles chamam de putas.

Demora muito, eu acho, pra você passar a desacreditar em tudo e odiar tudo e achar que não importa o esforço, porque tudo leva à nada e não há lugar para ir, nem a chance de sair. Anos de humilhação e de fome e frio e políticos e promessas e igrejas, padres, curas, procuras, sonhos feitos em pedaços e então, mais humilhação e dor. Até que você desiste. E o desequilíbrio no seu coração se transforma em ódio puro ou indiferença para com você mesmo. Um silêncio de morte toma seus ouvidos e nada mais faz qualquer barulho, pro bem ou pro mal. Isso deve ser a paz ou a dor absoluta.

Quanto mais quanto é necessário para construir um ser humano sem humanidade? Alguém cujos olhos não vêem arte, os ouvidos não escutam música, a cabeça não tem um teto e os pés não tem chão? Quanto mais quanto nossa humanidade precisou trabalhar e acumular e roubar (o que nesse mundo parece ser parte imutável do mesmo processo produtivo) para garantir que exista este tipo de…. monstro? Alguém a sua imagem e semelhança, mas tão impiedosamente distante que você pode colar uma etiqueta em um punhado e chamar de “eles”. Mas quem são eles? Quem somos nós? Quem é você?

A diferença entre quem tem e quem não tem pode ser sempre definida por uma palavra simples, como trabalho, família ou então esforço e qualificação. É sempre algo que você tem ou não tem. Sempre a culpa é sua.

A culpa, não a responsabilidade, porque o mundo é assim mesmo e tudo é tão maior que você e eu juntos. Reclamar não vai adiantar, você tem a chance de fazer alguma coisa importante dentro das instituições. É a única forma, não é? Mudar a vida das pessoas. Entrar para um partido. Montar uma ONG. Pagar os impostos. Votar. É isso. Um dia você se pega votando no menos pior e acha que o G8 podia mandar uma ajuda pra África e que os políticos são todos corruptos, que o imposto é alto demais e cada um devia ter seu plano de previdência e, afinal, eu trabalho a semana inteira, me dê um pouco de tranqüilidade, ta bem? Eu não preciso resolver os problemas do mundo uma vez que eu já tenho os meus! Então, você cresceu. Passou a desacreditar em tudo e duvidar de todo mundo e achar que não importa o esforço, porque tudo leva a nada e não há lugar para ir, nem a chance de sair.

Que coisa, eu descubro que a semelhança entre quem tem e quem não tem, nos mais diversos degraus que acumulação permite, é que todos e eu digo absolutamente todos estão com suas cabeças fodidas e dominadas pelo mesmo processo de trabalhar e acumular e roubar. E todos se ajoelham na frente do maldito altar que não tem mais uma cruz, senão uma cifra. E as pessoas desocupadas da rua enchem o corpo de álcool e pedra e qualquer coisa barata, enquanto os patrões e patroas desocupadas, os herdeiros e herdeiras desocupadas, passeiam o dia inteiro nesse lugar onde o ar de verdade nunca chega e gastam um pouco mais em remédios que os fazem inchar e dormir e emagrecer e enlouquecer mais ainda, infartar e morrer. Mas elas morrem por cima. Elas morrem com um nome e deixam por aí tudo que puderam juntar numa vida tão dedicada ao seu deus-dinheiro. Como aqueles faraós talvez, que mandavam escravos construir suas pirâmides, morriam e deixavam todo o esforço e a privação dos outros por aí. Um grande monte de pedras, suor e sofrimento para o turismo. Um monumento da extravagância e me pergunto quando será o tempo em que turistas vão visitar os shopping centers e as mansões o os iates e se as roupas da Gap, Armani, ….. as bolsas da Louis Vitton e os bonés Von Dutch vão durar alguns milhões de anos ou não. Talvez as jóias e as canetas Mont Blanc….

Para garantir o futuro absoluto das coisas nós vivemos este presente estúpido.

A magia do cinema e a indústria do lixo

Vik Muniz e o “Lixo Extraordinário” merecem incontáveis elogios. Talvez o mérito mais evidente do filme é lançar as luzes do cinema sobre uma situação que permanece obscura para a maioria. Todos sabemos que existem pessoas em algum canto lidando com aquilo que descartamos. Mas não lembro de uma pesquisa de opinião pública em que o lixo e a vida daqueles que trabalham com ele sejam apontados entre os grandes problemas da sociedade.

A verdade é que nós diariamente escondemos o problema em sacos plásticos (muitas vezes sem separar ou sem limpar aquilo que separamos) e jogamos fora como se não fosse nosso. De modo muito mais envergonhado, evitamos olhar o cara passando com uma montanha de 2 ou 3 metros de material reciclável em cima de uma carroça. O que “Lixo Extraordinário” faz é te deixar pouco mais de uma hora na frente disso tudo.

O que não chega a incomodar… Diferente de “Estamira”, que trata o mesmo tema com temperos bem menos suaves, “Lixo Extraordinário” é um filme fácil de engolir. Você chora, se comove, concorda e vai pra casa. Suave. Talvez olhe com mais simpatia o cara da carroça, lembrando do Tião. O que já é uma grande coisa. Mas aquelas pessoas invisíveis que então são vistas na tela se tornam tão próximas que quase desaparecem. O que sem dúvida faz parte da magia do cinema mais do que de qualquer outra forma de arte.

O movimento do visitante de museus na frente de um quadro – descrito por Muniz para explicar aos catadores o seu projeto de fazer arte com materiais inusitados – é parecido com o movimento do espectador na frente da tela do cinema. Todo filme nos faz ver uma nova ideia formada pelo material da vida real, ou seja, ele nos faz olhar para a realidade de um modo diferente. Não importa se é Avatar ou um documentário sobre catadores. Mas este efeito iluminador do cinema também pode causar ofuscamento. Afinal, a fragilidade do limite entre a realidade e a fantasia é justamente o que torna a arte possível. Então você passa a enxergar os catadores e no momento seguinte eles se tornam apenas personagens daquele filme.

Este efeito iluminador/ofuscador não é exclusividade de “Lixo Extraordinário”, mas algo com o qual todo filme engajado precisa lidar e, no fim das contas, acho que ele lida bem. Mas se tem uma coisa que eu realmente senti falta no filme é a perspectiva da indústria de reciclagem, ou melhor, das grandes indústrias que se beneficiam com a reciclagem. O filme chega a mencionar que os valores dos materiais funcionam como em uma espécie de bolsa de valores, mas não fala muito sobre quem dá as cartas neste cassino. Acontece que diante do Jardim Gramacho não é possível sustentar o discurso socialmente responsável da reciclagem, utilizado pelas empresas para promover sua reputação. O que as indústrias fazem pelos catadores é incomparavelmente menor do que os catadores fazem por elas, garantindo matéria-prima barata e uma consciência “limpa”.

Um esboço da “sociedade de controle”

Texto-base para apresentação de seminário sobre

DELEUZE, G. “Post-Scriptum Sobre as Sociedades de Controle”. In: Conversações. Coleção Trans. São Paulo: Editora 34, 1992.

II. Lógica

Aqui o texto está organizado em oposições que demonstram aquilo que é característico da nova sociedade de controle, em contraste com a sociedade disciplinar. Importante destacar que embora parta da descrição de Foucault da sociedade disciplinar, Deleuze também mescla novos conceitos e novas imagens.

No caso das instituições disciplinares, embora sejam distintas umas das outras existe comunicação entre elas. O indivíduo, diz Deleuze ainda na primeira parte do texto, “não cessa de passar de um espaço fechado a outro” (p. 219). Existe, portanto, entre os diferentes meios de confinamento uma comunicação que permite esta passagem. Comunicação que pressupõe uma linguagem, no caso, uma linguagem analógica. Já os modos de controle não se constituem como espaços separados, mas formam “um sistema de geometria variável cuja linguagem é numérica” (p. 221).

Esta diferença de linguagem fica mais clara na sequência do texto.

Por aqui basta entender que se a sociedade disciplinar precisava de cercas para criar um espaço diferente de todos outros e “fechado em si mesmo” (Foucault, M. Vigiar e Punir. Petrópolis: Editora Vozes, 1984, p. 130), o controle dispensa este confinamento. Não se trata mais de formar o indivíduo de acordo com a estrutura de cada instituição, porque as próprias instituições se auto-deformam e mudam continuamente. A imagem de Deleuze é exatamente esta: os meios de confinamento são moldes (pensemos em um molde de gesso ou em uma garrafa, que determina a forma dos elementos que contém), enquanto os controles são uma modulação (como uma bexiga ou uma rede, que não possui limites definidos).

Para ilustrar esta diferença o autor nos apresenta a distinção entre a fábrica e a empresa, e nos chama a pensar como se dá a remuneração dos trabalhadores nesses diferentes tipos de organização do trabalho. Na fábrica os salários são rígidos e representam os diversos setores que compõe o grande corpo industrial e as diferentes posições que cada indivíduo pode ocupar nele, lembrando o quadriculamento de que fala Foucault. Este é o princípio da carreira, quer dizer, uma organização da vida e do corpo de cada trabalhador que representa a própria organização produtiva. Nela, cada indivíduo se coloca em uma determinada posição, da qual pode ascender ou decair, e este movimento se faz sentir nas diferentes faixas salariais.

No caso da empresa, desaparecem estas seriações e os salários cada vez mais são substituídos por prêmios. Hoje, por exemplo, para os trabalhadores do comércio, o salário-base não é mais do que o resquício de uma legislação “antiga”, que garante uma renda mínima e alguns direitos. O grosso da remuneração está dada por metas de vendas e outros bônus que variam a cada mês. Deleuze fala de como os jogos de televisão mais idiotas fazem sucesso por mostrarem exatamente o que acontece nas empresas. De fato, hoje em dia as empresas utilizam uma série de jogos e até mesmo “testes de sobrevivência” para garantir a “motivação” de seus “colaboradores”.

As diferentes formas de remuneração são apenas um aspecto, que revela a diferença mais fundamental entre a fábrica disciplinar e as empresas da sociedade de controle. A fábrica era um espaço fechado, concentrado, estável e maciço, que organizava seus elementos em um grande corpo e propiciava assim uma dupla vantagem: de um lado, para a dominação do patrão que podia vigiar cada pessoa de acordo com a sua posição na grande máquina e, de outro, para a resistência dos trabalhadores, que estavam de tal modo unidos e conectados que se tornou possível sua organização na forma histórica dos sindicatos. A empresa não é mais este corpo; ela é dispersiva, modular, instável e fluída; ela não precisa de pessoas em um trabalho cooperado. Pelo contrário, ela coloca uns contra os outros. Mas a rivalidade da empresa não separa apenas um indivíduo do outro; ela estraçalha a própria pessoa. Porque o estímulo não é mais a conquista de uma nova posição e, portanto, de alguma garantia. De fato, o “colaborador” da empresa não conquista nada, nunca garante nem termina nada. Portanto, ele nunca é nada. Por muito tempo a pergunta “quem é você?” foi idêntica a “qual sua profissão?”. Mas esta é uma pergunta cada vez mais difícil de responder… Na sociedade de controle você é muitas coisas e ao mesmo tempo não é nenhuma. O discurso está na nossa boca: é preciso estar sempre “aprendendo”, se “qualificando”, etc.

Assim os cursos ou testes que faziam o trabalhador conquistar outro grau na sua carreira são substituídos por uma competição e um controle contínuo. A formação profissional se transforma na reciclagem de conhecimentos, um processo sem fim. Assim como, nas escolas, o exame vai sendo substituído pela formação permanente. Segundo o autor, “é este o meio mais garantido de entregar a escola à empresa” (p. 221).

Parece que neste momento do texto fica mais claro o que seria a diferença de linguagem entre os dois tipos de sociedade, a passagem de uma linguagem analógica na disciplina para uma linguagem numérica no controle. Nas sociedades disciplinares a pessoa é definida por uma assinatura e uma matrícula. A assinatura marca a sua diferença para com todas as outras pessoas, sua individualidade, enquanto a matrícula indica a sua posição no meio de uma massa de iguais. O importante é que as duas coisas se relacionam, ou seja, a assinatura remete a uma posição e matrícula a um indivíduo. Já nas sociedades de controle esta analogia, que em última análise determina a unidade do indivíduo, é substituída pelo uso de cifras ou senhas. São elas, diz Deleuze, “que marcam o acesso à informação, ou a rejeição” (p. 222). Não se trata mais de encontrar a posição do indivíduo na massa, porque o próprio indivíduo se tornou divisível e as massas se tornaram amostras ou dados.

O indivíduo se tornou divisível. Pensemos em nós mesmos: todos possuimos uma série de senhas e cartões de acesso para os mais diferentes espaços e serviços. Em cada um deles, você é uma pessoa diferente. Alguns lugares são fechados por catracas que interrompem o acesso físico; outros são abertos à circulação, mas o acesso a seus bens e produtos depende da liberação da sua senha. Se o cartão de crédito não funciona, como afirma Rogério da Costa, “você não é mais você para aquela operação (…) Você é você para algumas coisas, e não é para outras…” (“Sociedade de Controle”. In: São Paulo Perspectiva, 18(1): 2004, p. 166). Ainda segundo Costa, a diferença entre a assinatura individual e a senha é que “a assinatura é produzida pelo indivíduo, e o código é produzido pelo sistema, para o indivíduo” (idem). Quer dizer, a disciplina é sempre autodisciplina, uma conformação no próprio corpo do sujeito; enquanto o controle não o molda, mas permite ou barra o poder ser.

E o que significa dizer que a massa se tornou amostra? Talvez que não exista mais em um conjunto de elementos humanos a totalidade que estruturava a fábrica, a escola, o quartel, o hospital, etc. Agora este conjunto pode ser tomado em recortes cada vez mais diversos, que atravessam perfis individuais e formam um quadro relativo. Assim funcionam, por exemplo, as pesquisas de opinião e de comportamento que determinam as estratégias de marketing.

Para entender o papel do marketing nos dias de hoje, ajuda pensar o que Deleuze chama aqui de “uma mutação do capitalismo” (p. 223). Para isto, ele utiliza as máquinas como outro elemento ilustrativo e inclui também uma imagem da antiga sociedade de soberania. Nela, as máquinas eram simples, mecânicas, como alavancas, roldanas e relógios. Já nas sociedades disciplinares as máquinas se tornaram energéticas e nas sociedades de controle, são máquinas de informática e computadores. A estas mudanças corresponde a “mutação do capitalismo”, pois as máquinas energéticas da disciplina pressupõem a concentração e a produção, enquanto as novas máquinas informáticas revelam uma organiza dispersiva e baseada na sobre-produção. A idéia de sobre-produção também nos é cada vez mais familiar. Sabemos que as grandes empresas não possuem mais fábricas, mas compram os produtos acabados de empresas terceirizadas e agregam a ele o valor imaterial de sua marca. Nas palavras de Deleuze, este “já não é um capitalismo dirigido para a produção, mas para o produto, isto é, para a venda ou para o mercado” (pp. 223-224)

Hoje, muitas de nossas ações são registradas e se transformam em dados. Isto acontece, por exemplo, quando usamos um cartão de crédito, fazemos ligações telefônicas, enviamos e-mails ou visitamos sites na internet, entre outros exemplos. A este respeito, Rogério pergunta: “O que se pretenderia obter através da análise de um tal conjunto de informações? É seu conteúdo que interessa, ou é seu padrão de composição e acesso?” (p. 162). O conteúdo, diz ele, apontaria para o indivíduo (para onde foi, com quem falou, o que comprou, etc.), mas o padrão apontaria para o que? Na Internet, por exemplo, não possuímos uma identidade e sim um perfil. É cada vez mais através destes perfis que as empresas organizam seu marketing, ou seja, a planificação de seus produtos e serviços. Para Deleuze, “o marketing é agora o instrumento de controle social” (p. 224).

Enfim, se a fábrica e todos os meios de confinamento tinham a imagem de um grande corpo, “o serviço de vendas tornou-se a ‘alma’ da empresa” (p. 224), que é também o modelo para a escola, o hospital e a prisão da nova sociedade de controle. De fato, o próprio homem não é mais ser pensado como um corpo que deve ser disciplinado, corrigido e conformado. Ele próprio é um elemento fluído, móvel e mutável; mas sua mobilidade e mutabilidade não é livre. Ela obedece à participação em diferentes redes, cujo acesso depende de compromissos sempre renovados. “O homem não é mais o homem confinado, mas o homem endividado” (p. 224).

No fim desta segunda parte fica uma questão: como lidar com aqueles que são “pobres demais para a dívida, numerosos demais para o confinamento”? Este talvez seja o único lugar do texto carente da oposição disciplina / controle, pois ainda não está claro o que virá substituir as cercas e fronteiras que separavam os trabalhadores, os estudantes, os doentes, os prisioneiros, etc., dando a cada pessoa seu lugar próprio, ainda que sob a pena da atrocidade. Não é possível mais cercar as cidades e deixar para fora os não-cidadãos, nem utilizá-los como escravos sem direitos dentro do território, nem trancá-los em prisões e hospícios. E isto não apenas por uma questão ética, mas principalmente porque estes mecanismos disciplinares são menos lucrativos do que os mecanismos de endividamento e controle. Daí – e não da vontade piedosa ou politicamente comprometida com o povo – a necessidade de uma ampliação do crédito e do consumo para todas as camadas da população. Uma ampliação que também encontra seus limites e que, portanto, vai encontrar as suas próprias resistências.

Minha nova ocupação

No último sábado, dia 31, inauguramos uma pequena loja no Govardhana Yogashala.

O espaço pretende reunir bons livros (novos e usados) sobre filosofia, yoga, arte, política e literatura, além de roupa, música, comida orgânica, quadros, gravuras, fotos e outras produções de artistas locais.

Abaixo estão algumas fotos, amorosamente cedidas por Francinne M. Weffort.

GOVARDHANA
Rua Augusto Stresser, 207
Tel. (41) 3254-5657

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Encontre aqui seu novo emprego

OK, já estou descumprindo meu próprio aviso. Hoje é sexta-feira. Mas durante a semana foi impossível para e escrever qualquer coisa. Então vou quebrar a regra desta vez.

Preciso escrever sobre o que mais me incomodou durante a semana. And the winner is… Não, não é a eleição do Cristiano Ronaldo. A situação toda que arrancou minha paciência nesta semana tem relação com o tema do trabalho e do emprego. Mas para começar, preciso voltar até poucos dias antes do Natal. Vocês sabem tão bem quanto eu como são esses dias. Eu não gosto. Não gosto mesmo. Para mim, não existe expectativa pelo Natal e Reveillon. Existe stress, encheção de saco (com o perdão do pleonasmo). Então, estava saindo de casa, atrasado, para procurar presentes, ops!… lembrancinhas e resolver mais uma ou outra coisa que as pessoas chamam de preparativos e eu sinto como preocupação. O telefone tocou. Fiz a merda de atender. Telemarketing.

Não, não vou meter o pau no telemarketing. Todo mundo faz isso porque todo mundo odeia, inclusive quem faz a ligação. Vou meter o pau na proposta que me fizeram e na minha própria burrice em aceitar. Mas é preciso compreender as circunstâncias. Fim de ano, compras, contas, férias, viagem, desemprego, mais contas, a bolsa de janeiro que não vem porque a universidade está em recesso e… Enfim, eu havia recusado por mais ou menos dois meses a “oportunidade” que me era oferecida insistentemente, por e-mail, para incluir meu cadastro no banco de empregos desta empresa chama Manager Online. Mas naquele dia e diante daquelas circunstâncias, acabei fornecendo meus dados à atendente. “Você tem sete dias de serviço gratuito, senhor. Podendo cancelar seu cadastro em nosso site antes deste prazo”.

Não sei porque fiz aquilo. Ou melhor, sei. Você sabe. Todo mundo sabe. Nos cinco dias depois desta decisão estúpida, entrei no site da Manager buscando oferta de empregos. Nada. Claro que não. Eles até mandam uma porção de ofertas, mas parece até que você não fez cadastro algum, porque nenhuma delas corresponde aquilo que você já fez ou pretende fazer.

No sexto dia, entrei no site para cancelar a inscrição. Mas eles me ofereceram outros sete dias gratuitos. E eu… acreditei. Passei mais cinco dias consultando a porcaria e nada! No sexto dia, novamente, entrei e acabei com a palhaçada. Tenho aqui o e-mail da empresa confirmando o cancelamento. Se tiver fôlego, vou usá-lo como prova. Porque alguns dias depois fui surpreendido – no meio de uma série de cheques que caiam na minha conta como meteoros – com um débito de R$ 28,50. Adivinhem de onde?

Vocês podem imaginar minha raiva. Contra a empresa e contra mim mesmo. Quem é estúpido o bastante pra cair em um golpe desses? Bom, falei com um cara no banco – daqueles que ficam orientando pra você não entrar na fila errada – e ele disse ter passado pela mesma coisa. “Cara, agora você tem que ficar esperto todo mês, pra ver se eles não agendam outro débito. Então você cancela”. Todo mês! “Mas você pode ainda tentar fazer o estorno deste débito”. Entrei, peguei a senha, esperei e não consegui fazer o estorno. “Você não é o primeiro”, disse a mulher ao ver no meu cadastro que o débito era da Manager Online. Ela me passou o endereço e o telefone da empresa, que fica em São Paulo. Não sei o que vou fazer com isso. Pensei em ligar todos os dias pra encher o saco. Mas o valor do interurbano me desanima.

Antes de sair, o gerente percebeu minha raiva e veio até a mesa. Segundo ele, o banco tem um contrato com esta empresa e ela pode simplesmente agendar débitos. “Mas eu não autorizei nada! Você não vai encontrar nenhuma assinatura, nem mesmo um ‘li e aceito’ onde eu tenha clicado, nada”. Acontece que o contrato do Banco compete à empresa a obrigação de possuir a autorização do cliente. Quer dizer… foda-se você, correntista! Uma empresa espertalhona só precisa do número da sua conta para arrancar o seu dinheiro. É oito vezes mais fácil do quer ser hacker e provavelmente mais seguro. É oitenta vezes mais fácil do que arrumar um emprego de verdade e, sem dúvida, mais lucrativo.