19.07.2005

Alguém procurou meu nome no Google e encontrou um velho blog, do qual eu mesmo não tinha qualquer lembrança. Esta pessoa deve ter solicitado a chave do blog clicando em “esqueci a senha” e a mensagem foi parar na minha caixa de e-mails (óbvio). Agradeço a recordação e a oportunidade de republicar aqui alguns escritos que de outro modo estariam perdidos. E talvez continuem perdidos de qualquer modo.

Trabalhava no shopping havia exatamente noventa e três dias e tinha uma coisa certa: existem pessoas com absolutamente nada pra fazer. Não estou falando das “desocupadas” que enchem a praça Tiradentes ou os botecos ao redor da rodoviária, nem de qualquer pessoa com uma flanela na mão e um colete velho no corpo, alguém com um bebê no colo te pedindo uma moeda. Essas pessoas têm trabalho, não importa o que você me diga.

Não é fácil viver de caridade num lugar onde Cristo fugiu da cruz e a religião do momento é um culto à sua própria personalidade. Não é, de jeito nenhum, fácil esmolar qualquer migalha num lugar onde há tantas revistas de moda e de decoração e de música e de comida e de cinema e tantos canais de tv e academias e cinemas e teatros pra mostrar a miséria e a plenitude do ser humano. Onde você precisa ter câmeras e seguranças e pagar um plano de saúde e ter um carro legal e talvez uma arma, juntar uma grana pra casar também. Um lugar onde há tantas festas e tantas bebidas e tantas drogas e computadores como esse que abrem janelas para o mundo e celulares que o fotografa e ah… Todas essas maravilhas que tornam nossas vidas tão mais…. frias? Mas com tudo isso, quem precisa acreditar numa mudança? Tudo leva a nada e não há lugar para ir, nem porque sair. É só acabar com a corrupção. Mas tire meia-nota, ok? porque o governo morde tudo. E me arrume uma receita e aqueles remédios tarja preta vão deixar mais tranqüilas essas nossas mentes tão terrivelmente stressadas. Afinal, o mundo anda tão complicado, não é mesmo?

Ah sim, aquelas pessoas nas ruas, já estava quase me esquecendo delas, olha que cabeça a minha! Eu tenho certeza que não é fácil fortalecer seus anticorpos contra o frio e todo tipo de infecção quando se come lixo. Nem apanhar da polícia cada vez que uma madame se sente ameaçada porque você está cantando alto e dançando cambaleante, abraçado com a garrafa que te fez esquecer por um momento a miséria que você é. Deve haver uma longa história de hematomas e hemorragias e dores infernais até você desistir de limpar e curar as feridas porque o hospital é sempre uma humilhação, perda de tempo, sair de lá com a fome arranhando sua barriga e correr atrás de uma sopa quente antes de descobrir que algum filhodaputa queimou seu cobertor de papelão quando o céu despeja o frio com toda fúria de um deus que te odeia e só o inferno deve estar quente esta noite. E o inferno, o inferno são essas casas que você passa em frente e os senhores e os doutores entram em grupo para trair suas esposas com lindas mulheres que eles chamam de putas.

Demora muito, eu acho, pra você passar a desacreditar em tudo e odiar tudo e achar que não importa o esforço, porque tudo leva à nada e não há lugar para ir, nem a chance de sair. Anos de humilhação e de fome e frio e políticos e promessas e igrejas, padres, curas, procuras, sonhos feitos em pedaços e então, mais humilhação e dor. Até que você desiste. E o desequilíbrio no seu coração se transforma em ódio puro ou indiferença para com você mesmo. Um silêncio de morte toma seus ouvidos e nada mais faz qualquer barulho, pro bem ou pro mal. Isso deve ser a paz ou a dor absoluta.

Quanto mais quanto é necessário para construir um ser humano sem humanidade? Alguém cujos olhos não vêem arte, os ouvidos não escutam música, a cabeça não tem um teto e os pés não tem chão? Quanto mais quanto nossa humanidade precisou trabalhar e acumular e roubar (o que nesse mundo parece ser parte imutável do mesmo processo produtivo) para garantir que exista este tipo de…. monstro? Alguém a sua imagem e semelhança, mas tão impiedosamente distante que você pode colar uma etiqueta em um punhado e chamar de “eles”. Mas quem são eles? Quem somos nós? Quem é você?

A diferença entre quem tem e quem não tem pode ser sempre definida por uma palavra simples, como trabalho, família ou então esforço e qualificação. É sempre algo que você tem ou não tem. Sempre a culpa é sua.

A culpa, não a responsabilidade, porque o mundo é assim mesmo e tudo é tão maior que você e eu juntos. Reclamar não vai adiantar, você tem a chance de fazer alguma coisa importante dentro das instituições. É a única forma, não é? Mudar a vida das pessoas. Entrar para um partido. Montar uma ONG. Pagar os impostos. Votar. É isso. Um dia você se pega votando no menos pior e acha que o G8 podia mandar uma ajuda pra África e que os políticos são todos corruptos, que o imposto é alto demais e cada um devia ter seu plano de previdência e, afinal, eu trabalho a semana inteira, me dê um pouco de tranqüilidade, ta bem? Eu não preciso resolver os problemas do mundo uma vez que eu já tenho os meus! Então, você cresceu. Passou a desacreditar em tudo e duvidar de todo mundo e achar que não importa o esforço, porque tudo leva a nada e não há lugar para ir, nem a chance de sair.

Que coisa, eu descubro que a semelhança entre quem tem e quem não tem, nos mais diversos degraus que acumulação permite, é que todos e eu digo absolutamente todos estão com suas cabeças fodidas e dominadas pelo mesmo processo de trabalhar e acumular e roubar. E todos se ajoelham na frente do maldito altar que não tem mais uma cruz, senão uma cifra. E as pessoas desocupadas da rua enchem o corpo de álcool e pedra e qualquer coisa barata, enquanto os patrões e patroas desocupadas, os herdeiros e herdeiras desocupadas, passeiam o dia inteiro nesse lugar onde o ar de verdade nunca chega e gastam um pouco mais em remédios que os fazem inchar e dormir e emagrecer e enlouquecer mais ainda, infartar e morrer. Mas elas morrem por cima. Elas morrem com um nome e deixam por aí tudo que puderam juntar numa vida tão dedicada ao seu deus-dinheiro. Como aqueles faraós talvez, que mandavam escravos construir suas pirâmides, morriam e deixavam todo o esforço e a privação dos outros por aí. Um grande monte de pedras, suor e sofrimento para o turismo. Um monumento da extravagância e me pergunto quando será o tempo em que turistas vão visitar os shopping centers e as mansões o os iates e se as roupas da Gap, Armani, ….. as bolsas da Louis Vitton e os bonés Von Dutch vão durar alguns milhões de anos ou não. Talvez as jóias e as canetas Mont Blanc….

Para garantir o futuro absoluto das coisas nós vivemos este presente estúpido.

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Mais um texto técnico

O treinador morreu, de boca fechada, quando o jogo deixou de ser jogo e o futebol profissional precisou de uma tecnocracia da ordem. Então nasceu o técnico, com a missão de evitar a improvisação, controlar a liberdade e elevar ao máximo o rendimento dos jogadores, obrigados a transformar-se em atletas disciplinados. – Eduardo Galeano

Nunca assisti ao treinamento de um time de futebol profissional. Ou melhor, assisti alguns treinos do Londrina na infância. Mas tinha lá meus 12 anos e aparecia no Estádio do Café muito mais pela graça de matar aula do que por qualquer interesse no treinamento em si. Além do mais, não entendia patavinas sobre esquema de jogo. Pra mim era nós contra eles. Acabou.

Ando pensando bastante nesta carência da minha formação, especialmente quando tento montar um time na cabeça. Você pode dizer que isto é problema do técnico de futebol, como meu computador é problema do técnico em computação e minha bicicleta é problema do bicicleteiro. Mas é sempre bom entender e conhecer um pouco melhor essas coisas todas com as quais a gente tem uma ligação tão íntima e diária, ainda que no caso do futebol o conhecimento signifique pouco poder efetivo. Sendo menos do que um cronista esportivo de relativa audiência, o máximo que a gente vai conseguir é assunto pro boteco. Mas já está valendo.

Acompanhando um programa esportivo algumas semanas atrás, ouvi que o Geninho pretendia montar um time no 4-4-2. Ainda estava no ar a novela sobre a transferência do Netinho para Grécia. Ora, caso o negócio fosse concretizado estaríamos com os cofres cheios e com um buraco na ala esquerda. Mesmo com a permanência do guri nossa fragilidade canhota é evidente num esquema de dois zagueiros e dois laterais. Neste esquema, o Netinho voltaria a jogar no meio (o que seria uma boa), mas a lateral ficaria entre Márcio Azevedo e Alex Sandro. O primeiro chegou a disputar boas partidas ano passado, mas caiu de rendimento vertiginosamente e sem explicações. O segundo é ainda uma promessa das divisões de base. Isto significa que sair do 3-5-2 agora seria fazer uma aposta na recuperação de um atleta ou na revelação de outro.

Felizmente ficou mais claro depois que o técnico estava falando em treinar algumas possibilidades, não em mudar o esquema de jogo. Tudo bem que o Paranaense é o campeonato de menos expressão a ser disputado neste ano, mas não se trata de desconsiderar a briga e tomar o certame como pré-temporada, de jeito nenhum! O Paranaense é pra ganhar. O Geninho sabe disso, a diretoria sabe, a torcida, os jogadores, todo mundo sabe que tem que entrar rasgando. Mesmo que a primeira fase classifique 8 de 15 times, o campeonato começa dia 25 e o único amistoso foi contra o Batel de Guarapuava. Agora é valendo ponto.

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Mas já que falamos em promessa, não dá pra deixar de lado o fio de esperança que a Copa São Paulo trouxe para a torcida rubro-negra. Aliás, um fio não, trouxe logo um novelo ou já uma trama muito bem costurada. Porque o time base do Furacão está muito bem organizado, além de ter jogadores que se destacam individualmente. E o assunto da Copinha cabe aqui muito bem, porque esse time também está no 3-5-2. Se o Manoel jogar durante o ano o que ele fez contra o Cruzeiro, quem sabe a gente possa ver o Chico ao lado do Valência. Ali pelo meio ainda tem o Willian, que parece ser um guri bom: quieto, com personalidade, toque de bola e muito raçudo. Pela direita tem o Raul, que é um baita jogador e deve ser uma sombra atrás do Nei e do Alberto, um se recuperando de lesão e outro que infelizmente foi habitué do Departamento Médico no ano passado. Lá na frente, Patrick e Eduardo Salles são bons centroavantes, mas a briga já está quente…

Posso queimar a língua, mas acho que o Lima vai ser opção de segundo tempo e que a briga pela vaga ao lado do He-Man fica entre Júlio César e Preá. No meio, Geninho está apostando suas fichas no Julio dos Santos, o que cria outra “briga”entre Ferreira e Marcinho. Puta merda… essa é boa! Deixar um no banco com certeza vai ser uma pressão violenta para quem entrar jogar tudo o que sabe e o que não sabe. Mas outra opção pode ser o Ferreira no meio e o Marcinho no ataque, como ele mesmo disse que gosta de jogar.

Enfim, me perdoem o absurdo da comparação, mas acho que montar um time deve ser mais ou menos como escrever. Primeiro você tem alguma formação e experiência nisso. Entende alguma coisa técnica, manja umas jogadas, estuda umas regras. Depois tem algumas idéias e vai ensaiando na sua cabeça aquilo que quer fazer dentro das quatro linhas. Então começa. Coloca uma peça aqui, outra ali. Elas se movimentam. Algumas do jeito que você esperava, outras não. Então você apaga, substitui, joga de novo. Nada estava pronto antes de começar a partida e no final você tem um resultado impossível de ser alterado. Definitivo. Para o bem ou para o mal. Uma diferença óbvia e com vantagens para quem escreve é que seu resultado pode continuar sendo debatido com argumentos contra ou a favor de suas escolhas. O técnico não. Seu resultado aparece em um placar. O escritor lida com palavras. O técnico de futebol, apesar de toda a magia do jogo, com a frieza dos números.

Conhecendo a máquina de escrever

Lembro quando meu pai chegou em casa com nosso primeiro videocassete. Minha irmã e eu nos abraçamos e começamos a pular no meio da sala. Naquela época, parecia que todo mundo menos a gente tinha videocassete. Você sabe como são as crianças. Eu nem sabia direito para que servia aquele negócio, mas sonhava com um desses embaixo da minha televisão.

A coisa mais incrível que o novo eletrodoméstico fazia era gravar programas ainda que ninguém estivesse em casa. Era legal porque sempre passava alguma coisa interessante na hora de ir pra igreja. Juntamos algumas dezenas de fitas VHS debaixo do armário. Então passamos a gravar por cima, da mesma forma que já acontecia com as fitas cassete de áudio. Mas a coisa funcionou por apenas alguns meses. Depois perdeu a graça. Tudo era gravado e assistido uma vez ou duas, no máximo. Virou estoque de poeira.

As instruções diziam que também era possível assistir a um canal e gravar o que passava em outro. Mas nem chegamos a aprender isto. O interesse por essas funções mais elaboradas durou pouco e durante anos o aparelho funcionou apenas recebendo os filmes da locadora. Seis botões resumiam nossa relação com o antigo objeto de desejo: play, pause, forward, reward, stop, reject. Hoje o trambolho cinza jaz em algum armário da casa, tornado obsoleto por seus irmãos mais novos cujo empenho da família talvez alcance uma dúzia de botões.

As máquinas sempre entraram na minha casa com um pouco de atraso em relação à maioria dos meus amigos. Ainda assim, nunca deixaram de despertar paixão e curiosidade, seguidos de perto por uma espécie de acomodação e desinteresse. O caso mais ilustrativo é o da centrífuga de alimentos. A festa durou exatamente 3 dias e contou inclusive com um campeonato de sucos. Agora todo mundo morre de preguiça de limpar aquele treco que fica cheio de bagaço de fruta colado em toda parte.

Mas sem dúvida, entre todos os aparelhos domésticos, o que por mais tempo conserva sua magia é o microcomputador. Este é o mais ferrenhamente disputado, o que fica mais horas ligado, o que todo mundo quer usar.

Minha relação com ele data do início dos anos 90. Fiz meu primeiro curso diante de uma tela verde e preta, utilizando aqueles disquetes gigantes e digitando comandos que minha memória apagou. Depois de uma tardia redescoberta via Windows, consegui aprender o suficiente para garantir a sobrevivência virtual. Mas cada vez mais sinto que meus conhecimentos não são o bastante para me conferir uma cidadania neste novo mundo. Comparativamente, é como se eu fosse semi-analfabeto ou alguém que foi educado para um tipo de atividade que não existe mais. Eu ainda consigo me virar. Mas se tudo der certo para a tecnologia, antes dos 40 anos devo me sentir como meu avô de 90 na frente do computador. Não entendo metade dos termos e utilizo muito menos que a metade do que esta moderna máquina de escrever tem pra me oferecer.

Além de me incentivar a escrever, este blog faz parte do meu esforço (quase) autodidata. Digo “quase” porque na internet a relação entre mestre e aprendiz muda radicalmente, mas não deixa de existir. Dia desses, em meio a brusquetas e suco de cranberry, meu amigo Raphael Neto me ensinou a usar o Google Reader e me apresentou alguns professores interessantes. Entre as lições, destaco estas dicas de como montar um blog. Outro texto interessante é este meio-manifesto por uma blogosfera mais madura.

O resultado destas leituras e de alguma exploração desajeitada foram pequenas mudanças, como os tags que aparecem agora antes de cada postagem. No canto inferior direito você pode ver agora uma “nuvem de tags” que destaca os assuntos mais postados. Acima dela tem ainda uma relação de links ainda em fase de construção… Tentei encontrar também outro template, onde estas mudanças ficassem mais visíveis, mas os dois estilos mais interessantes já são usados pelo Nils e pelo Felipe .