Prefeito, quero deixar o carro em casa e andar de bicicleta! Me ajuda??

Por Jorge Brand

Leio a última notícia: o novo super-ônibus de Curitiba é movido a soja!! Bio diesel, ou melhor, agro-diesel. Aquele que vem das grandes monoculturas detentoras de sementes modificadas em laboratórios, aquelas que conseguiram erradicar quase que totalmente a cobertura vegetal nativa do estado. Combustível que ajuda a consolidar a industrialização da vida rural. Soa bastante sustentável e isto é o que importa. O povo logo esquece, com a novidade do super-busão azul, que R$2,50 é uma tarifa absurda e o povo também certamente já esqueceu que a licitação realizada há alguns meses foi uma das maiores farsas já vistas.

Com tudo isso não dá nem pra pensar em classificar nosso transporte de público – coletivo, pode ser, mas é privado, tem gente ganhando muito dinheiro em cima disso. A lavagem verde segue adiante, alimentando os mitos da cidade inovadora. O vídeo da CNN segue neste caminho, mostrando o quanto é ´fantástica´ esta nossa provinciana e altamente motorizada Curitiba.

Perguntamos, no entanto, até onde vai o compromisso efetivo com mudanças – socias, ambientais, culturais e econômicas – e onde exatamente começa este ‘green washing’, esta lavagem publicitária que não é nada mais do que um discurso do mercado e do capital para justificar a continuação de toda degradação e destruição da natureza?

Até onde vai a retórica e o mito da capital ecológica, e onde entra a verdade sobre o aterro da cachimba, as ruas entupidas de automóveis, a falta absoluta de uma política de estímulo ao uso da bicicleta como meio de transporte?

Até onde vai o discurso ‘green’ da capital sustentável e onde começam as ações efetivas, despretensiosas e autênticas de transformação de hábitos e atitudes?

Outra super-notícia, também já esquecida com certeza, foi o corte de cerca de 99% do orçamento destinado a estrutura cicloviaria na capital. Há anos os ciclistas reivindicam melhorias significativas para a bicicleta ser cada vez mais aceita como meio de transporte. As melhorias passam pela necessidade de rever uma rede de ciclovias antiga, mal sinalizada, que conduz aos parques e que não oferece a segurança ideal para quem pedala; melhorias seriam as instalações de paraciclos e bicicletários por toda a cidade; a criação de ciclofaixas e ciclo-taxis; a integração dos ônibus com as bicicletas; a adequação do espaço urbano a mobilidade realmente limpa – se for movida a soja, que seja tofu e missoshirô!

A política dos binários levada a cabo pelo atual prefeito, seguindo a mesma linha de seu antecessor, é a de destruir as ruas pacatas e tranqüilas da cidade, transformando-as em vias de acesso rápido ao sempre crescente fluxo dos automóveis. O que antes era uma rua que dava até pra jogar bola, se torna um lugar hostil, mais uma zona de conflito e velocidade inumana.

A cidade agoniza em medidas paliativas, que oferecem uma sobrevida muito curta ao atual sistema. Quanto mais estímulos para os carros, mais carros teremos nas ruas. Que silogismo perfeito!

Algumas sugestões que certamente serão ignoradas pelos nossos obtusos gestores:

Subsídios maciços ao transporte público oriundos de diversas fontes: Estar, pedágios urbanos, impostos sobre os automóveis, dinheiro das empresas e revendedoras. A lógica seria fazer com que o privado sustente o público. Se eu quero andar de carro, devo pagar para que alguém possa ir de ônibus.

A bicicleta deve ser valorizada, elogiada e estimulada. Inserir a bicicleta no cotidiano das escolas e de todas as repartições públicas. Favorecer a cultura do diálogo, da troca, da liberdade e do prazer que só a descoberta da cidade pela mobilidade auto-propelida pode nos trazer.

A herança que toda esta gente deixa para o futuro é esta, não nos esqueçamos disto. Uma cidade que dançou a música do grande capital, que destruiu sua cultura autêntica, seu passado, suas ruas conviviais, sua criatividade. Que gerou falsos mitos e discursos de uniformidade. Uma cidade que passou a abdicar da política, que transformou todo ímpeto democrático num protocolo administrativo.

Curitiba, uma cidade que agoniza sob a montanha do lixo publicitário que a enaltece.

Jorge Brand, 31, é filósofo e professor de yoga


www.artebicimob.org

www.atmatattva.wordpress.com

Não queremos celebrar Tel Aviv

Artigo de Naomi Klein, publicado no jornal norte-americano “The New York Times” e reproduzido no portal “Terra Magazine“, de Bob Fernandes. Postado em 13/09/2009 no portal UOL.

“Quando eu soube que o Festival Internacional de Cinema de Toronto estaria fazendo uma “mostra” Tel Aviv, me envergonhei de Toronto, a cidade onde moro. Imediatamente me veio à cabeça Mona Al Shawa, ativista dos direitos das mulheres palestinas que eu conheci numa viagem à Gaza que fiz recentemente.

“Tínhamos mais esperança durante os ataques”, ela disse. “Pelo menos acreditávamos que as coisas iriam mudar.”

Al Shawa explica que enquanto choviam bombas israelenses em dezembro e janeiro, os moradores de Gaza estavam grudados às suas TVs. O que eles viram, além da carnificina, foi um mundo em completa indignação: protestos globais, quase 100.000 pessoas nas ruas de Londres, um grupo de judias em Toronto ocupando o Consulado Israelense.

“As pessoas chamavam de crimes de guerra”, lembrou Al Shawa. “Sentimos que não estávamos sozinhos no mundo.” Se os moradores de Gaza pudessem sobreviver, parecia que o seu sofrimento seria, pelo menos, um catalisador de mudanças.

Mas hoje, Al Shawa disse, essa esperança não passa de uma lembrança amarga. A indignação internacional havia evaporado. Gaza já não estava mais nos noticiários. E parece que todas aquelas mortes – quase 1.400 – não foram suficientes para trazer justiça. Sem dúvida, Israel está se negando a cooperar até mesmo com a missão exploratória da ONU, liderada pelo respeitado juiz sul-africano Richard Goldstone.

No primeiro semestre, enquanto a missão de Goldstone estava em Gaza colhendo testemunhos assustadores, o Festival Internacional de Cinema de Toronto alinhavava sua seleção para a mostra Tel Aviv, marcada para coincidir com o centenário da cidade israelense.

Muita gente quer nos fazer acreditar que não há qualquer relação entre o desejo de Israel para permanecer imune ao escrutínio de suas ações nos territórios ocupados e as instalações glamorosas do evento em Toronto. Tenho certeza de que até Cameron Bailey, co-diretor do festival, acredita nisso. Mas ele está enganado.

Por mais de um ano, os diplomatas israelenses falam abertamente da sua nova estratégia para combater o crescimento do ódio à postura desafiadora de Israel à lei internacional. Não basta, dizem eles, apenas evocar Sderot (uma cidade de fronteira israelense e alvo de ataques de foguetes) cada vez que alguém menciona Gaza.

É preciso também mudar de assunto para tópicos mais agradáveis: cinema, arte, direitos dos homossexuais – coisas que estabelecem amenidades entre Israel, Paris, Nova York e Toronto. Depois do ataque a Gaza, e com o crescimento dos protestos, essa estratégia foi colocada em funcionamento. “Mandaremos escritores conhecidos para o estrangeiro, bem como companhias de teatro, exposições”, disse ao New York Times Arye Mekel, vice-diretor geral de assuntos culturais do Ministério do Exterior de Israel. “Dessa forma, mostramos a face mais bela de Israel, para que não se lembrem de guerra sempre que pensarem em nós.”

E Tel Aviv, cosmopolita e sempre na moda, celebrando seu centenário com “beach parties” em Nova York, Vienna e Copenhagen durante todo o verão, mostra-se um belo porta-voz.

Toronto teve um gostinho dessa nova missão cultural. Há um ano, Amir Gissin, o cônsul-geral de Israel em Toronto, explicou que a campanha da “Marca Israel” incluiria, de acordo com uma notícia do jornal Canadian Jewish News, “uma presença israelense maciça no próximo Festival Internacional de Cinema de Toronto, com presenças estelares de inúmeros artistas israelenses, canadenses e de Hollywood.” Gissin declarou, “Estou certo de que nossos planos se concretizarão.” Como de fato se concretizaram.

E que fique bem claro: Ninguém aqui está sugerindo que o governo israelense esteja manipulando a mostra Tel Aviv, sussurrando na orelha de Bailey quais filmes exibir. A questão é que a decisão do festival de dar voz ao orgulho israelense, declarando que Tel Aviv é “jovem e dinâmica como Toronto e celebra sua diversidade”, serve como uma luva para os objetivos de propaganda do governo israelense.

Gal Uchovsky, um dos diretores em foco na mostra, aparece no catálogo do festival dizendo que Tel Aviv é “um paraíso para onde os israelenses podem fugir quando quiserem esquecer-se da guerra e das agruras da vida cotidiana.”

Talvez em resposta a isso, o genial diretor israelense Udi Aloni, cujo filme “Local Angel” estreou no festival, enviou uma mensagem gravada em vídeo, desafiando os programadores do festival a combater o escapismo político e, em vez disso, “mostrar temas desconfortáveis”.

É irônico que a seleção de filmes esteja sendo chamada de “mostra”, porque celebrar aquela cidade isolada – sem olhar para Gaza, sem olhar para o que fica atrás dos muros de concreto, arames farpados e guaritas – acaba escondendo mais do que efetivamente mostrando algo.

Há alguns filmes israelenses sensacionais no programa. Eles merecem ser vistos como parte da programação normal do festival, fora desse escaninho poluído de enfoque político.

Foi com este mote que um pequeno grupo de cineastas, escritores e ativistas, do qual eu fazia parte, elaborou a Declaração de Toronto: Sem Celebração Sob Ocupação.

Foi assinado por artistas do calibre de Danny Glover, Viggo Mortensen, Howard Zinn, Alice Walker, Jane Fonda, Eve Ensler, Ken Loach, e milhares de outros. Entre eles também o celebrado diretor palestino Elia Suleiman, além de muitos cineastas israelenses.

Os contra-ataques – disparados pelo Centro Simon Wiesenthal e a radical Liga da Defesa Judaica – mostraram-se ao mesmo tempo previsíveis e criativos. A tecla mais batida é que os signatários seriam censores, tentando boicotar o festival.

Na realidade, muitos dos signatários têm filmes esperadíssimos no festival deste ano e de forma alguma tentamos boicotá-lo. Estamos é nos opondo à mostra Tel Aviv.

Mais criativa ainda foi a afirmação de que em nos negarmos a celebrar Tel Aviv como qualquer outra metrópole da moda, estaríamos questionando seu “direito à existência”. (O ator republicano Jon Voight chegou a acusar Jane Fonda de “apoiar e compactar com aqueles que desejam destruir Israel.”)

A declaração não diz nada disso. Na realidade, é apenas uma mensagem de solidariedade que diz o seguinte: Não queremos celebrar com Israel este ano. A declaração é também uma forma singela de dizer a Mona Al Shawa e milhões de outros palestinos vivendo sob ocupação que não nos esquecemos deles.”

Problema seu ou problema nosso?

Texto-base para o debate na 4ª Verdurada de Curitiba.

Como alguns de vocês devem ter lido no cartaz, o tema da minha fala é “hardcore e política”. Tenho medo disto parecer uma coisa normal. Meu esforço é justamente mostrar que não existe nada de natural em associar as duas coisas. Então, pra começo de conversa é preciso, no mínimo, achar estranho pensar em hardcore junto com política. É preciso colocar uma questão sobre isto: o que o hardcore tem a ver com a política? Se é que tem alguma coisa.

Mas fiquem tranquilos porque não vou fazer nenhum tipo de discurso. Não vim aqui convencer ninguém a se envolver com uma causa, não vim defender nenhuma causa. Na verdade, eu, Rodrigo, estar aqui falando sobre isto é outra coisa estranha. Porque, na prática, estou muito distante das duas coisas. Meu envolvimento com o hardcore tem sido escutar bandas velhas de vez em quando ou conversar sobre “aqueles tempos” com algum amigo não menos distante. Em relação à política, não tenho militado em nenhuma organização. Quase todo meu interesse foi desviado para uma compreensão da política. Então, de um lado eu tenho conversas de bar sobre o hardcore e, de outro, tenho teorias sobre a política. Juntando as duas coisas, o que a gente vai ter aqui é mais ou menos uma teoria de bar sobre hardcore e política. Sem álcool e sem cigarro, é claro.

Outro aviso um tanto óbvio, mas que vale a pena ser dado: eu não acho que esta seja a coisa mais importante do mundo. Não acordo todos os dias pensando “caralho, será que o hardcore é político?”. Não é a pergunta que move a minha vida. Mas, como ainda não entrei para o Clube dos Cínicos Maduros, ainda acho que as duas coisas tem alguma importância. E ao propor este debate julguei que algumas pessoas que vão à Verdurada pensam o mesmo.

Sem mais delongas, vamos voltar à questão e colocá-la de um modo ainda mais simples: hardcore é política?

A gente não costuma ter problemas pra dizer que uma coisa é outra. Também não costuma pensar que é diferente, por exemplo, dizer “Curitiba é uma cidade” ou “a CELU é um espaço para shows”. As duas afirmações são verdadeiras. Mas Curitiba não pode ser outra coisa senão uma cidade, enquanto a CELU pode não ser um espaço para shows. Então, se você diz que “hardcore é política”, você está dizendo de um jeito ou de outro? Ele pode ser outra coisa ou ele é essencialmente político?

Com certeza, existem visões diferentes sobre o que é hardcore. A gente precisa fazer um acordo pra continuar com a conversa, quer dizer, a gente precisa pelo menos estar falando da mesma coisa. Digamos então que o hardcore é uma reunião entre pessoas, em torno de um estilo de música mais ou menos parecido. Esta música a gente pode chamar de “hardcore” ou de “punk”. Não importa aqui se você acha que uma banda não é hardcore. A pergunta é se esta reunião tem alguma coisa de política.

Indo direto ao ponto, eu não acho que os livros anarquistas, as camisetas com mensagens ou as letras de protesto fazem isto aqui ser político. As lojas do shopping podem vender os mesmos livros e camisetas, o Capital Inicial pode ter uma letra de protesto. E prestem atenção: eu nem estou julgando se é “certo” ou “errado” que eles façam isto. Estou dizendo que isto tudo, aqui, no shopping ou em qualquer lugar, por si só não é política. O que eu quero defender aqui é a política como atividade. Daqui em diante a minha fala está carregada de autores da filosofia, especialmente dois: Hannah Arendt e Jaques Rancière. Mas não vou ficar citando ninguém pra deixar a coisa um pouco menos chata.

Quando falo em atividade, por favor, não pensem naquele velho discurso que “não adianta só falar, tem que ter atitude”. Porque a “atitude” sem debate não é política. Ela é um dever-ser, uma moral, uma regra social, coisas que podem ser importantes pra manter as coisas funcionando. Mas a política nunca pode ser separada da fala, do argumento, da discussão. Ser politicamente ativo é poder debater com outras pessoas assuntos que interessam e estar pronto pra agir a este respeito, ou seja, a começar algo novo. É preciso estar livre para expor as suas opiniões, confrontá-las com outras opiniões e, em comum acordo, decidir o que pode ser feito. Então, as duas primeiras características da atividade política que eu queria destacar aqui são essas: 1) ela se dá no debate e 2) ela é uma ação em conjunto.

A terceira característica é que o assunto da política é sempre uma injustiça ou, pelo menos, algo que um determinado grupo acha que é injusto. Quando as pessoas se reúnem para discutir e agir, o que elas pretendem é reparar um dano. Nem todo mundo precisa concordar que aquilo é mesmo injusto. Isto é o que vai ser debatido. O mais importante, e prestem bastante atenção nisto, é que as pessoas e o problema que estão levantando sejam reconhecidos. Por isto a disputa política é diferente de outras disputas já estabelecidas e reguladas. Por exemplo, se eu compro um tênis e ele estraga no primeiro dia, eu posso entrar na justiça contra a empresa. Meus direitos como consumidor já são reconhecidos. Esta disputa não é política. Mas a briga por ciclovias, ciclofaixas e pelo reconhecimento da bicicleta como meio de transporte é uma disputa política. Porque na organização do transporte, até pouco tempo atrás, a bicicleta não era um problema. Seguindo este exemplo, a Bicicletada e outras organizações são políticas porque elas reuniram pessoas que se sentiam lesadas, colocaram a bicicleta como problema e passaram a agir em conjunto para expor este dano. Nisto tudo, o ciclista foi reconhecido como ator político.

Mas nosso tema aqui é o hardcore. Em que sentido ele foi, é ou pode ser político? Antes de responder eu queria chamar a atenção pra mais uma coisinha: as três características da atividade política (o debate, a ação em conjunto e a reparação de um problema) apontam uma preocupação com aquilo que é público, de domínio comum. A gente poderia dizer que a política tem a ver com uma preocupação com o mundo. Mas nem todas as nossas atividades são assim. Não vai dar tempo de explicar isto com detalhes, mas estou falando aqui em “tipos” de atividades. Existe um tipo de atividade em que nossa única preocupação é cuidar do próprio nariz, por exemplo, comer, beber, ganhar dinheiro e até mesmo andar de bicicleta. Em si mesmo, a atividade de andar de bicicleta não é política, ela não carrega uma preocupação com o público. Ok, você pode começar a andar de bike pra salvar o planeta. Mas eu não estou falando dos seus motivos. Estou falando da atividade. No mero pedalar não existe debate nem ação em conjunto. Andar de bicicleta é um problema seu.

Beber ou não beber também é um problema seu. Uma “escolha pessoal”, como foi dito muitas vezes. Mas quando um grupo de moleques sentiu que beber era uma regra que eles não queriam seguir e que sua escolha não era reconhecida, eles criaram uma coisa chamada straightedge. Esta coisa foi criada e recriada várias vezes, em muitos outros lugares, como uma disputa verdadeira ou como simples cópia do que outras pessoas fizeram. A gente pode dizer o mesmo de muitos outros temas que circulam pelo hardcore. O sexo, a alimentação, a moradia ou mesmo um passeio na praia são assuntos privados, mas que podem ser politizados, não apenas neste meio como em muitos outros espaços públicos. Estes temas podem ou não constituir uma ação política. Se não estiver ligado a um problema real e a um grupo de pessoas dispostos a debater e agir, estes assuntos vão ser apenas uma coisa legal de se cantar para parecer político.

Neste sentido, a “cena” pode ser um palco no meio da vida real ou apenas um teatrinho. Ela pode estar ligada a um problema real ou não. Do ponto de vista que eu estou defendendo aqui, o hardcore não é político apenas quando está ligado a uma temática comunista, anarquista, etc. Ele pode, inclusive, estar ligado a isto sem promover nenhuma atividade política, ou seja, sem criar uma comunidade, promover debates e gerar ações em conjunto.

Mas o hardcore precisa ser político? Quando não é, ele deixa de ser hardcore? Sinceramente, eu acho que não. Se a gente pensa isto como uma reunião entre pessoas em torno de certo estilo de música, existem muitas outras atividades possíveis neste meio. Por exemplo, a atividade de criar uma música, um cartaz ou uma camiseta, a atividade de vir aqui simplesmente se divertir, ou até mesmo a atividade de ganhar algum dinheiro. Nem sempre nós temos o mundo como preocupação. Este não é o problema.

O problema é nunca ter o mundo como preocupação. É pensar que tudo é sempre uma questão pessoal e cair no “cada um por si” que é típico dos nossos dias. Isto é o que acontece quando a gente não está mais disposto a polemizar e a discutir. E eu não estou falando apenas de criticar cinicamente, ou seja, debater não é meter o pau ou desprezar. É assumir que um tema é relevante, reconhecer sua importância, ouvir argumentos e dar os seus. Sem dúvida o hardcore não é o único espaço em que isto pode acontecer e nem é o mais importante. Mas é preciso pensar o que perdemos quando excluímos – não apenas do hardcore, mas da nossa vida em geral – o debate, a ação em conjunto e o reconhecimento de novos problemas.

Política e Polícia

Nesta sexta-feira 13, em Curitiba, o terror mais uma vez ficou por conta da Polícia Militar do Paraná. Não estive presente, mas não é preciso pensar muito para entender o que aconteceu. Ainda que o Governo do Estado e sua Secretaria de Segurança afirmem sempre que “conosco não tem enrosco”, a afirmação não é mais contundente do que as pancadas que continuam sendo distribuídas a torto e direito. Nada justifica a truculência e o despreparo que continuam sendo a marca da nossa PM.

A manifestação do Movimento Passe Livre – MPL reivindicava a volta da passagem ao patamar anterior (de R$2,20 para R$1,90), abertura da “caixa preta” da URBS (empresa responsável pelo transporte em Curitiba) e passe livre para todos os estudantes. Você já pode ler comentários na Internet dizendo que isto não é coisa de estudante nem de cidadão, pois lugar de estudante é na escola e a cidadania se exerce com trabalho e voto. Quem faz manifestação, pelo contrário, é “baderneiro”. Esta opinião não é de todo equivocada. Realmente, aqueles que decidem se manifestar politicamente deixam de pertencer inteiramente à mesma identidade social.

Como afirma o filósofo Jaques Rancière, através da ação política se produz um espaço de participação que não existia antes. Neste novo espaço, você não é apenas o estudante, o trabalhador, a mulher, o negro, etc. Estas são “identidades definidas na ordem natural da repartição das funções e dos lugares”, ou seja, o cada um no seu quadrado. Mas agir politicamente significa transformar todas estas identidades, criando um espaço de litígio onde se pretende repensar a sociedade, suas funções e lugares. Abre-se um espaço “onde qualquer um pode contar-se porque é o espaço de uma contagem dos incontados” (O Desentendimento. Editora 34, 1996, p. 48).

E quem são os incontados? Ora, você, eu, todos os que não estavam na mesa de negociação que decidiu pelo aumento da passagem. Todos os que não tem acesso às contas da URBS. Na “ordem natural” da sociedade, nós não temos o direito de mudar essas coisas. Não é da nossa conta. Porque estudante tem que estudar, trabalhador tem que trabalhar e todo mundo têm que pagar a passagem e ficar calado. Pelo contrário, o ato político constrói uma relação entre o que não tem relação. Ele exige que sejamos contados naquilo que não era da nossa conta. Transforma o problema de cada um em um problema de todos, deslocando o assunto privado (você não tem dinheiro pra passagem) para visibilidade pública (nós temos direitos de ir e vir).

Isto me faz lembrar de outra coisa, cujo contexto é muito parecido: transporte, direito à cidade, ação política e… criminalização. Daquela feita, a repressão foi da Guarda Municipal e o movimento em questão era a Bicicletada. Pintaram uma ciclofaixa e ganharam prisão, multa processo e – por sorte ou simpatia – escaparam da porrada. A defesa do grupo perante a justiça revela o quanto as autoridades trocam alhos por bugalhos, política por vandalismo, estudante por bandido, cidadão por meliante. O guarda em questão enquadrou o pessoal no artigo 4º da Lei Municipal 8.984/96, que condena a pichação de bens públicos ou particulares. No entanto, como afirma a defesa, o que havia ali não era um grupo de pichadores, mas “um movimento popular legítimo, o qual realizou ato público, à luz do dia, após chamada aos meios de comunicação e às autoridades, com apoio dos moradores e comerciantes da região, com propósito específico de atrair atenção para um meio barato e eficaz de se cumprir a lei (…) de exigir da Municipalidade a inclusão da
bicicleta como parte das soluções de trânsito em Curitiba”.

No meio de tantas diferenças, no critério “criminalização de movimentos sociais”, tanto o Governo quanto a Prefeitura estão empatados. Quer dizer… talvez a PM esteja alguns pontos na frente. Quem sabe porque o time está mais entrosado e vem treinando há mais tempo este tipo de ataque. O relato de um garoto na delegacia dá a medida dos métodos de intimidação. O policial pergunta a idade do rapaz e diante da resposta, ironiza: “Tá na hora de morrer, né?”. Para evitar qualquer denúncia e impedir novas manifestações, eles afirmam que estão na cola, tem fotos de todo mundo e sabem onde todo mundo mora. Quer mais? Ao que parece, nenhum dos detidos conseguiu fazer o exame de corpo de delito, pois foram mantidos na delegacia até perto das 18 horas e o IML funciona até as 17h30.

O MPL pede que sejam enviadas moções de apoio ao movimento e contra a criminalização dos movimentos sociais, para o e-mail mplcuritiba@gmail.com .

Minha nova ocupação

No último sábado, dia 31, inauguramos uma pequena loja no Govardhana Yogashala.

O espaço pretende reunir bons livros (novos e usados) sobre filosofia, yoga, arte, política e literatura, além de roupa, música, comida orgânica, quadros, gravuras, fotos e outras produções de artistas locais.

Abaixo estão algumas fotos, amorosamente cedidas por Francinne M. Weffort.

GOVARDHANA
Rua Augusto Stresser, 207
Tel. (41) 3254-5657

loja_fran_03

loja_fran_06

loja_fran_07

loja_fran_05

loja_fran_08

loja_fran_09

loja_fran_04