10 livros de poesia

“No céu também há uma hora melancólica.
Hora difícil, em que a dúvida penetra as almas.
Por que fiz o mundo? Deus se pergunta
e se responde: Não sei.

Os anjos olham-no com reprovação,
e plumas caem.

Todas as hipóteses: a graça, a eternidade, o amor
caem, são plumas.

Outra pluma, o céu se desfaz.
Tão manso, nenhum fragor denuncia
o momento entre tudo e nada,
ou seja, a tristeza de Deus”.

Drummond – Tristeza no céu

Era uma daquelas noites nas quais não se pode dormir. Não se pode, não se quer, que diferença isto faz? O fato é que dormir foi uma luta. E na ausência de sono, cerveja ou companhia, revirei a estante atrás de conhecidos livros que pudessem me embriagar, velhas canções de ninar.

É o mesmo, ainda, quando procuro filmes. Busco rostos conhecidos, as histórias cujo sentido já está dado e presente. Como se quisesse apenas recuperar algum causo bem sabido. Um velho mapa que me mostre o caminho da vida. A cola deste exercício nada matemático, que me dê a tranqüilidade de uma solução ou a grave sabedoria de que não existe uma só.

Certamente não é assim com todos os livros, nem todos os filmes, nem todas as histórias. Em uma biblioteca, por exemplo, procuro o novo; aquilo que ainda não sei. Ali existe ainda mais que um mundo a descobrir. Palavras que nunca ouvi, lugares que não conheci, idéias que ainda não tive. As paredes de uma biblioteca protegem os livros de nós, mas nos protegem dos livros também. É preciso ser introduzido a estes novos universos, hostis a sua maneira; na escuta silenciosa, entre estantes empoeiradas, abre-se um perigo no colo ou em cima da mesa calma.

Mas em casa, bem perto da cama, guardo apenas a segurança de um mundo conhecido.

Alguns livros entram aqui como estranhos e para eles, normalmente, reservo um lugar especial até que estejam confortáveis junto aos outros e até que eu mesmo me sinta confortável com a sua presença. Há sem dúvida aqueles que se misturaram sem uma prévia aproximação, que não conheci na intimidade da cama e, ainda assim, dividem espaço com os que contam minha própria vida… Estes estranhos sempre me olham estranho, quando roço a vista entre as prateleiras. Quase gritam, me perguntam: “O que estou fazendo aqui? Quando vai me descobrir?”.

Sei bem como se sentem. É como estar em um lugar onde tudo e todos se dizem respeito, menos você. Meus livros – e não são muitos – contam de mim mais do que eu sei dizer deles. Meus livros falam entre si. Quando possível, fazemos uma roda e a conversa não acaba mais.

Alguns são velhos amigos, mas resta pouco assunto. Já os novos falam demais! Tanto que quase não sou capaz de escutar. Mas o tempo diz sempre a verdade. Revela o valor do que muitas vezes só tem preço, aparência e boa fama. O tempo mata o desejo, ou melhor, faz ver que muitas vezes o que se deseja não está lá. O tempo dissolve o pó do meu café e outras coisas mais resistentes. Eu espero.

Há os livros antigos, que sempre tem o que dizer. Como o vinho, as boas idéias, o amor e as instituições, demonstram sua força na medida em que envelhecem. Há, sem dúvida, a força do rompante, da revolução que instaura o novo tempo, da paixão que incendeia o primeiro contato. Há a força da agonia, da agitação e da novidade. Mas até mesmo esta se revela uma segunda vez em relação àquela força mantenedora, calma, sustentável. Presente sem estardalhaço, sem que dela se dê conta. A força do que existe (quase) sem esforço de resistir.

Noites como essa me levam quase sempre de volta a Drummond. Não sou dele estudioso nem tenho poesias décor. Sei um pouco sobre Itabira, sobre a estátua em Copacabana, reconheço sua imagem e mais nada. Ao contrário suas poesias, sabem sempre muito de mim. E em noites como essa, me reconheço nelas. Reli poemas que sei o gosto e provei novos também. Uma canção para ninar mulher, um convite triste, uma flor e a náusea. Muitos poemas sobre o medo, outros sobre a coragem. Enfim, copiei para um amigo algumas frases que lhe cabem. Há sempre aqui algo que se encaixa. São 10 livros de poesia, mas são bem mais do que isso. A introdução de Antônio Houaiss dá a medida de sua importância e me escusa o exagero:


“(…) aos que não podem prescindir aqui e agora – e algures e depois – do convívio com a Obra de Carlos Drummond de Andrade, o que releva é que esta lhes é suporte para o viver e o sobreviver e o morrer (…)”.

Diz muito mais a introdução. Mas eu aqui já disse tudo o que queria dizer. Só falta contar que tomei emprestado meu primeiro livro na biblioteca do colégio. E não mais devolvi. Carrego este pecado e faço pública a confissão. Hão de me perdoar. O que seria de mim sem todas estas palavras?


Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.

Drummond – Procura da poesia

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