Não queremos celebrar Tel Aviv

Artigo de Naomi Klein, publicado no jornal norte-americano “The New York Times” e reproduzido no portal “Terra Magazine“, de Bob Fernandes. Postado em 13/09/2009 no portal UOL.

“Quando eu soube que o Festival Internacional de Cinema de Toronto estaria fazendo uma “mostra” Tel Aviv, me envergonhei de Toronto, a cidade onde moro. Imediatamente me veio à cabeça Mona Al Shawa, ativista dos direitos das mulheres palestinas que eu conheci numa viagem à Gaza que fiz recentemente.

“Tínhamos mais esperança durante os ataques”, ela disse. “Pelo menos acreditávamos que as coisas iriam mudar.”

Al Shawa explica que enquanto choviam bombas israelenses em dezembro e janeiro, os moradores de Gaza estavam grudados às suas TVs. O que eles viram, além da carnificina, foi um mundo em completa indignação: protestos globais, quase 100.000 pessoas nas ruas de Londres, um grupo de judias em Toronto ocupando o Consulado Israelense.

“As pessoas chamavam de crimes de guerra”, lembrou Al Shawa. “Sentimos que não estávamos sozinhos no mundo.” Se os moradores de Gaza pudessem sobreviver, parecia que o seu sofrimento seria, pelo menos, um catalisador de mudanças.

Mas hoje, Al Shawa disse, essa esperança não passa de uma lembrança amarga. A indignação internacional havia evaporado. Gaza já não estava mais nos noticiários. E parece que todas aquelas mortes – quase 1.400 – não foram suficientes para trazer justiça. Sem dúvida, Israel está se negando a cooperar até mesmo com a missão exploratória da ONU, liderada pelo respeitado juiz sul-africano Richard Goldstone.

No primeiro semestre, enquanto a missão de Goldstone estava em Gaza colhendo testemunhos assustadores, o Festival Internacional de Cinema de Toronto alinhavava sua seleção para a mostra Tel Aviv, marcada para coincidir com o centenário da cidade israelense.

Muita gente quer nos fazer acreditar que não há qualquer relação entre o desejo de Israel para permanecer imune ao escrutínio de suas ações nos territórios ocupados e as instalações glamorosas do evento em Toronto. Tenho certeza de que até Cameron Bailey, co-diretor do festival, acredita nisso. Mas ele está enganado.

Por mais de um ano, os diplomatas israelenses falam abertamente da sua nova estratégia para combater o crescimento do ódio à postura desafiadora de Israel à lei internacional. Não basta, dizem eles, apenas evocar Sderot (uma cidade de fronteira israelense e alvo de ataques de foguetes) cada vez que alguém menciona Gaza.

É preciso também mudar de assunto para tópicos mais agradáveis: cinema, arte, direitos dos homossexuais – coisas que estabelecem amenidades entre Israel, Paris, Nova York e Toronto. Depois do ataque a Gaza, e com o crescimento dos protestos, essa estratégia foi colocada em funcionamento. “Mandaremos escritores conhecidos para o estrangeiro, bem como companhias de teatro, exposições”, disse ao New York Times Arye Mekel, vice-diretor geral de assuntos culturais do Ministério do Exterior de Israel. “Dessa forma, mostramos a face mais bela de Israel, para que não se lembrem de guerra sempre que pensarem em nós.”

E Tel Aviv, cosmopolita e sempre na moda, celebrando seu centenário com “beach parties” em Nova York, Vienna e Copenhagen durante todo o verão, mostra-se um belo porta-voz.

Toronto teve um gostinho dessa nova missão cultural. Há um ano, Amir Gissin, o cônsul-geral de Israel em Toronto, explicou que a campanha da “Marca Israel” incluiria, de acordo com uma notícia do jornal Canadian Jewish News, “uma presença israelense maciça no próximo Festival Internacional de Cinema de Toronto, com presenças estelares de inúmeros artistas israelenses, canadenses e de Hollywood.” Gissin declarou, “Estou certo de que nossos planos se concretizarão.” Como de fato se concretizaram.

E que fique bem claro: Ninguém aqui está sugerindo que o governo israelense esteja manipulando a mostra Tel Aviv, sussurrando na orelha de Bailey quais filmes exibir. A questão é que a decisão do festival de dar voz ao orgulho israelense, declarando que Tel Aviv é “jovem e dinâmica como Toronto e celebra sua diversidade”, serve como uma luva para os objetivos de propaganda do governo israelense.

Gal Uchovsky, um dos diretores em foco na mostra, aparece no catálogo do festival dizendo que Tel Aviv é “um paraíso para onde os israelenses podem fugir quando quiserem esquecer-se da guerra e das agruras da vida cotidiana.”

Talvez em resposta a isso, o genial diretor israelense Udi Aloni, cujo filme “Local Angel” estreou no festival, enviou uma mensagem gravada em vídeo, desafiando os programadores do festival a combater o escapismo político e, em vez disso, “mostrar temas desconfortáveis”.

É irônico que a seleção de filmes esteja sendo chamada de “mostra”, porque celebrar aquela cidade isolada – sem olhar para Gaza, sem olhar para o que fica atrás dos muros de concreto, arames farpados e guaritas – acaba escondendo mais do que efetivamente mostrando algo.

Há alguns filmes israelenses sensacionais no programa. Eles merecem ser vistos como parte da programação normal do festival, fora desse escaninho poluído de enfoque político.

Foi com este mote que um pequeno grupo de cineastas, escritores e ativistas, do qual eu fazia parte, elaborou a Declaração de Toronto: Sem Celebração Sob Ocupação.

Foi assinado por artistas do calibre de Danny Glover, Viggo Mortensen, Howard Zinn, Alice Walker, Jane Fonda, Eve Ensler, Ken Loach, e milhares de outros. Entre eles também o celebrado diretor palestino Elia Suleiman, além de muitos cineastas israelenses.

Os contra-ataques – disparados pelo Centro Simon Wiesenthal e a radical Liga da Defesa Judaica – mostraram-se ao mesmo tempo previsíveis e criativos. A tecla mais batida é que os signatários seriam censores, tentando boicotar o festival.

Na realidade, muitos dos signatários têm filmes esperadíssimos no festival deste ano e de forma alguma tentamos boicotá-lo. Estamos é nos opondo à mostra Tel Aviv.

Mais criativa ainda foi a afirmação de que em nos negarmos a celebrar Tel Aviv como qualquer outra metrópole da moda, estaríamos questionando seu “direito à existência”. (O ator republicano Jon Voight chegou a acusar Jane Fonda de “apoiar e compactar com aqueles que desejam destruir Israel.”)

A declaração não diz nada disso. Na realidade, é apenas uma mensagem de solidariedade que diz o seguinte: Não queremos celebrar com Israel este ano. A declaração é também uma forma singela de dizer a Mona Al Shawa e milhões de outros palestinos vivendo sob ocupação que não nos esquecemos deles.”

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Por onde eu posso começar?

Agradeço as visitas no final de semana, mas já vou deixar um aviso: só “trabalho” neste blog entre segunda e quinta. Duro é escolher sobre o que falar na segunda-feira…

Bem, não dá pra deixar de lado o ato contra os ataques de Israel. Acordei cedo na sexta, um pouco ansioso. Afinal, nem lembro qual foi o último protesto que participei. Sem contar a Bicicletada, que pra mim é mais uma ação do que um protesto. Quer dizer… É um protesto. Mas é diferente. Você está reivindicando alguma coisa, mas ao mesmo tempo tem uma possibilidade mínima de intervir diretamente. É claro que a Bicicletada não muda uma legislação, não cria ciclovias ou bicicletários públicos. Então, fica ainda uma meta que só é alcançada sob a forma do protesto. Mas, por outro lado, o simples ato de pedalar e fazer isto em conjunto é uma forma de ação direta, quase uma desobediência civil. Você está reivindicando mais espaço para as bicicletas e está tomando este espaço a que realmente tem direito.

Em um protesto contra a guerra, como o que se faz aqui no Brasil em solidariedade ao povo palestino, qual é a possibilidade de uma intervenção concreta na realidade que se pretende transformar? Creio que este tipo de pensamento inibe a participação de algumas pessoas. “O que isto vai mudar?”.

Alguns murros em ponta de faca te fazem pensar nisto. Aquilo que você queria transformar no mundo continua o mesmo e suas próprias condições de vida pioraram. Se o tempo diminui nossa estatura, parece que o fato de estar envolvido com política – pelo menos esta política que não dá dinheiro – acelera o processo e te deixa ainda menor diante das outras pessoas. Aquelas que estão cuidando da sua vida, crescendo.

Então você sai de casa numa sexta-feira de manhã para participar de um protesto contra uma guerra que acontece muito, muito longe dos seus problemas. As bombas são lançadas e explodem longe daqui. A decisão de parar ou continuar os ataques não depende da sua opinião. Nem mesmo a ajuda humanitária depende de você. Sua solidariedade possivelmente não vai ter nenhum impacto visível. Não é uma enchente em Santa Catarina. A guerra é mais cruel e ainda menos compreensível que um desastre natural. Muito mais difícil de se intervir.

Uma guerra no Oriente Médio. O aumento da tarifa. O despejo de uma favela.

Você pode associar a imagem de Dom Quixote aos protestos, manifestações ou ações que buscam se posicionar nestas e em outras situações. Mas por que não a imagem de Davi contra Golias? A propósito, me lembro de uma camiseta de uma banda de hardcore punk paulistana com a imagem de uma criança palestina atirando pedras e a frase “Davi agora é palestino”. Talvez se nossa própria vida estivesse em risco não pensaríamos duas vezes antes de atirar uma pedra contra um tanque. Diante do massacre, não nos ocorreria perguntar “o que isto vai mudar?”.

Kanoute comemorando o gol de Luis Fabiano.
Kanoute comemorando o gol de Luis Fabiano.

A camiseta de Frédéric Kanouté comemorando o gol do Sevilha também não parou a guerra. Bem longe do bombardeio, ele não arriscou a vida. Só ganhou uma multa por ousar fazer do futebol um espaço político por preciosos segundos. Mas foi um ato vitorioso em uma época onde a grande preocupação dos atletas é colecionar Ferraris (pelo menos na Europa) e todos dizem a mesma coisa (pelo menos no Brasil).

O ato que aconteceu também em Curitiba foi vitorioso. Ele não parou a guerra, mas colocou cerca de mil curitibanos nas ruas como cidadãos e não como consumidores. Ele venceu uma batalha contra a apatia. Além do mais, a emoção de pessoas que tem parentes e amigos na região em conflito ou mesmo um forte laço cultural com o mundo árabe não deixou dúvidas sobre a importância de se expressar a revolta. Para que não siga acontecendo. Para que não aconteça jamais.

Passeata contra os ataques de Israel

Meu amigo Bernardo Pilotto , valoroso militante das lutas populares e filiado ao Partido Socialismo e Liberdade – PSOL, encaminhou convocação para um ato contra ataques de Israel aos palestinos. O ato acontece em Curitiba, no dia 09 de janeiro (sexta-feira), a partir das 11h na Praça Santos Andrade.

Leve bandeiras da Palestina ou aqueles lenços xadrez que ainda estão na moda.


lenco-palestino1

E para saber um pouco mais do que se trata o “potresto”, leia também as “regras jornalísticas” sobre o Oriente Médio, texto anônimo que parece ter sido publicado na Agência Carta Maior (eu não achei).


Doze regras de redação da grande mídia internacional quando a notícia é sobre o Oriente Médio:

1. No Oriente Médio, são sempre os árabes que atacam primeiro e sempre Israel que se defende. Esta defesa chama-se “represália”.

2. Os árabes, palestinos ou libaneses não têm o direito de matar civis. Isto se chama “terrorismo”.

3. Israel tem o direito de matar civis. Isto se chama “legítima defesa”.

4. Quando Israel mata civis em massa, as potências ocidentais pedem que seja mais comedida. Isto se chama “reação da comunidade internacional”.

5. Os palestinos e os libaneses não têm o direito de capturar soldados de Israel dentro de instalações militares com sentinelas e postos de combate. Isto se chama “seqüestro de pessoas indefesas.”

6. Israel tem o direito de seqüestrar a qualquer hora e em qualquer lugar quantos palestinos e libaneses desejar. Atualmente, são mais de 10 mil presos, 300 dos quais são crianças e 1000 são mulheres. Não é necessária qualquer prova de culpabilidade. Israel tem o direito de manter seqüestrados presos indefinidamente, mesmo que sejam autoridades democraticamente eleitas pelos palestinos. Isto se chama “prisão de terroristas”.

7. Quando se menciona a palavra “Hezbollah”, é obrigatório que a mesma frase contenha a expressão “apoiado e financiado pela Síria e pelo Irã”.

8. Quando se menciona “Israel”, é proibida qualquer menção à expressão “apoiado e financiado pelos EUA”. Isto pode dar a impressão de que o conflito é desigual e que Israel não está em perigo de existência.

9. Quando se referir a Israel, são proibidas as expressões “territórios ocupados”, “resoluções da ONU”, “violações dos direitos humanos” ou “Convenção de Genebra”.

10. Tanto os palestinos quanto os libaneses são sempre “covardes”, que se escondem entre a população civil a qual “não os quer”. Se eles dormem em suas casas, com suas famílias, a isto se dá o nome de “covardia”. Israel tem o direito de aniquilar com bombas e misseis os bairros onde eles estão dormindo. Isto se chama “ação cirúrgica de alta precisão”.

11. Os israelenses falam melhor o inglês, o francês, o espanhol e o português que os árabes. Por isso, eles e seus apoiadores devem ser mais entrevistados e ter mais oportunidades do que os árabes para explicar as presentes ‘regras de redação’ (de 1 a 10) ao grande público. Isso se chama “neutralidade jornalística”.

12. Todas as pessoas que não estão de acordo com as ‘regras de redação’ acima expostas são “terroristas anti-semitas de alta periculosidade”.