Política e Polícia

Nesta sexta-feira 13, em Curitiba, o terror mais uma vez ficou por conta da Polícia Militar do Paraná. Não estive presente, mas não é preciso pensar muito para entender o que aconteceu. Ainda que o Governo do Estado e sua Secretaria de Segurança afirmem sempre que “conosco não tem enrosco”, a afirmação não é mais contundente do que as pancadas que continuam sendo distribuídas a torto e direito. Nada justifica a truculência e o despreparo que continuam sendo a marca da nossa PM.

A manifestação do Movimento Passe Livre – MPL reivindicava a volta da passagem ao patamar anterior (de R$2,20 para R$1,90), abertura da “caixa preta” da URBS (empresa responsável pelo transporte em Curitiba) e passe livre para todos os estudantes. Você já pode ler comentários na Internet dizendo que isto não é coisa de estudante nem de cidadão, pois lugar de estudante é na escola e a cidadania se exerce com trabalho e voto. Quem faz manifestação, pelo contrário, é “baderneiro”. Esta opinião não é de todo equivocada. Realmente, aqueles que decidem se manifestar politicamente deixam de pertencer inteiramente à mesma identidade social.

Como afirma o filósofo Jaques Rancière, através da ação política se produz um espaço de participação que não existia antes. Neste novo espaço, você não é apenas o estudante, o trabalhador, a mulher, o negro, etc. Estas são “identidades definidas na ordem natural da repartição das funções e dos lugares”, ou seja, o cada um no seu quadrado. Mas agir politicamente significa transformar todas estas identidades, criando um espaço de litígio onde se pretende repensar a sociedade, suas funções e lugares. Abre-se um espaço “onde qualquer um pode contar-se porque é o espaço de uma contagem dos incontados” (O Desentendimento. Editora 34, 1996, p. 48).

E quem são os incontados? Ora, você, eu, todos os que não estavam na mesa de negociação que decidiu pelo aumento da passagem. Todos os que não tem acesso às contas da URBS. Na “ordem natural” da sociedade, nós não temos o direito de mudar essas coisas. Não é da nossa conta. Porque estudante tem que estudar, trabalhador tem que trabalhar e todo mundo têm que pagar a passagem e ficar calado. Pelo contrário, o ato político constrói uma relação entre o que não tem relação. Ele exige que sejamos contados naquilo que não era da nossa conta. Transforma o problema de cada um em um problema de todos, deslocando o assunto privado (você não tem dinheiro pra passagem) para visibilidade pública (nós temos direitos de ir e vir).

Isto me faz lembrar de outra coisa, cujo contexto é muito parecido: transporte, direito à cidade, ação política e… criminalização. Daquela feita, a repressão foi da Guarda Municipal e o movimento em questão era a Bicicletada. Pintaram uma ciclofaixa e ganharam prisão, multa processo e – por sorte ou simpatia – escaparam da porrada. A defesa do grupo perante a justiça revela o quanto as autoridades trocam alhos por bugalhos, política por vandalismo, estudante por bandido, cidadão por meliante. O guarda em questão enquadrou o pessoal no artigo 4º da Lei Municipal 8.984/96, que condena a pichação de bens públicos ou particulares. No entanto, como afirma a defesa, o que havia ali não era um grupo de pichadores, mas “um movimento popular legítimo, o qual realizou ato público, à luz do dia, após chamada aos meios de comunicação e às autoridades, com apoio dos moradores e comerciantes da região, com propósito específico de atrair atenção para um meio barato e eficaz de se cumprir a lei (…) de exigir da Municipalidade a inclusão da
bicicleta como parte das soluções de trânsito em Curitiba”.

No meio de tantas diferenças, no critério “criminalização de movimentos sociais”, tanto o Governo quanto a Prefeitura estão empatados. Quer dizer… talvez a PM esteja alguns pontos na frente. Quem sabe porque o time está mais entrosado e vem treinando há mais tempo este tipo de ataque. O relato de um garoto na delegacia dá a medida dos métodos de intimidação. O policial pergunta a idade do rapaz e diante da resposta, ironiza: “Tá na hora de morrer, né?”. Para evitar qualquer denúncia e impedir novas manifestações, eles afirmam que estão na cola, tem fotos de todo mundo e sabem onde todo mundo mora. Quer mais? Ao que parece, nenhum dos detidos conseguiu fazer o exame de corpo de delito, pois foram mantidos na delegacia até perto das 18 horas e o IML funciona até as 17h30.

O MPL pede que sejam enviadas moções de apoio ao movimento e contra a criminalização dos movimentos sociais, para o e-mail mplcuritiba@gmail.com .

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Por onde eu posso começar?

Agradeço as visitas no final de semana, mas já vou deixar um aviso: só “trabalho” neste blog entre segunda e quinta. Duro é escolher sobre o que falar na segunda-feira…

Bem, não dá pra deixar de lado o ato contra os ataques de Israel. Acordei cedo na sexta, um pouco ansioso. Afinal, nem lembro qual foi o último protesto que participei. Sem contar a Bicicletada, que pra mim é mais uma ação do que um protesto. Quer dizer… É um protesto. Mas é diferente. Você está reivindicando alguma coisa, mas ao mesmo tempo tem uma possibilidade mínima de intervir diretamente. É claro que a Bicicletada não muda uma legislação, não cria ciclovias ou bicicletários públicos. Então, fica ainda uma meta que só é alcançada sob a forma do protesto. Mas, por outro lado, o simples ato de pedalar e fazer isto em conjunto é uma forma de ação direta, quase uma desobediência civil. Você está reivindicando mais espaço para as bicicletas e está tomando este espaço a que realmente tem direito.

Em um protesto contra a guerra, como o que se faz aqui no Brasil em solidariedade ao povo palestino, qual é a possibilidade de uma intervenção concreta na realidade que se pretende transformar? Creio que este tipo de pensamento inibe a participação de algumas pessoas. “O que isto vai mudar?”.

Alguns murros em ponta de faca te fazem pensar nisto. Aquilo que você queria transformar no mundo continua o mesmo e suas próprias condições de vida pioraram. Se o tempo diminui nossa estatura, parece que o fato de estar envolvido com política – pelo menos esta política que não dá dinheiro – acelera o processo e te deixa ainda menor diante das outras pessoas. Aquelas que estão cuidando da sua vida, crescendo.

Então você sai de casa numa sexta-feira de manhã para participar de um protesto contra uma guerra que acontece muito, muito longe dos seus problemas. As bombas são lançadas e explodem longe daqui. A decisão de parar ou continuar os ataques não depende da sua opinião. Nem mesmo a ajuda humanitária depende de você. Sua solidariedade possivelmente não vai ter nenhum impacto visível. Não é uma enchente em Santa Catarina. A guerra é mais cruel e ainda menos compreensível que um desastre natural. Muito mais difícil de se intervir.

Uma guerra no Oriente Médio. O aumento da tarifa. O despejo de uma favela.

Você pode associar a imagem de Dom Quixote aos protestos, manifestações ou ações que buscam se posicionar nestas e em outras situações. Mas por que não a imagem de Davi contra Golias? A propósito, me lembro de uma camiseta de uma banda de hardcore punk paulistana com a imagem de uma criança palestina atirando pedras e a frase “Davi agora é palestino”. Talvez se nossa própria vida estivesse em risco não pensaríamos duas vezes antes de atirar uma pedra contra um tanque. Diante do massacre, não nos ocorreria perguntar “o que isto vai mudar?”.

Kanoute comemorando o gol de Luis Fabiano.
Kanoute comemorando o gol de Luis Fabiano.

A camiseta de Frédéric Kanouté comemorando o gol do Sevilha também não parou a guerra. Bem longe do bombardeio, ele não arriscou a vida. Só ganhou uma multa por ousar fazer do futebol um espaço político por preciosos segundos. Mas foi um ato vitorioso em uma época onde a grande preocupação dos atletas é colecionar Ferraris (pelo menos na Europa) e todos dizem a mesma coisa (pelo menos no Brasil).

O ato que aconteceu também em Curitiba foi vitorioso. Ele não parou a guerra, mas colocou cerca de mil curitibanos nas ruas como cidadãos e não como consumidores. Ele venceu uma batalha contra a apatia. Além do mais, a emoção de pessoas que tem parentes e amigos na região em conflito ou mesmo um forte laço cultural com o mundo árabe não deixou dúvidas sobre a importância de se expressar a revolta. Para que não siga acontecendo. Para que não aconteça jamais.

Passeata contra os ataques de Israel

Meu amigo Bernardo Pilotto , valoroso militante das lutas populares e filiado ao Partido Socialismo e Liberdade – PSOL, encaminhou convocação para um ato contra ataques de Israel aos palestinos. O ato acontece em Curitiba, no dia 09 de janeiro (sexta-feira), a partir das 11h na Praça Santos Andrade.

Leve bandeiras da Palestina ou aqueles lenços xadrez que ainda estão na moda.


lenco-palestino1

E para saber um pouco mais do que se trata o “potresto”, leia também as “regras jornalísticas” sobre o Oriente Médio, texto anônimo que parece ter sido publicado na Agência Carta Maior (eu não achei).


Doze regras de redação da grande mídia internacional quando a notícia é sobre o Oriente Médio:

1. No Oriente Médio, são sempre os árabes que atacam primeiro e sempre Israel que se defende. Esta defesa chama-se “represália”.

2. Os árabes, palestinos ou libaneses não têm o direito de matar civis. Isto se chama “terrorismo”.

3. Israel tem o direito de matar civis. Isto se chama “legítima defesa”.

4. Quando Israel mata civis em massa, as potências ocidentais pedem que seja mais comedida. Isto se chama “reação da comunidade internacional”.

5. Os palestinos e os libaneses não têm o direito de capturar soldados de Israel dentro de instalações militares com sentinelas e postos de combate. Isto se chama “seqüestro de pessoas indefesas.”

6. Israel tem o direito de seqüestrar a qualquer hora e em qualquer lugar quantos palestinos e libaneses desejar. Atualmente, são mais de 10 mil presos, 300 dos quais são crianças e 1000 são mulheres. Não é necessária qualquer prova de culpabilidade. Israel tem o direito de manter seqüestrados presos indefinidamente, mesmo que sejam autoridades democraticamente eleitas pelos palestinos. Isto se chama “prisão de terroristas”.

7. Quando se menciona a palavra “Hezbollah”, é obrigatório que a mesma frase contenha a expressão “apoiado e financiado pela Síria e pelo Irã”.

8. Quando se menciona “Israel”, é proibida qualquer menção à expressão “apoiado e financiado pelos EUA”. Isto pode dar a impressão de que o conflito é desigual e que Israel não está em perigo de existência.

9. Quando se referir a Israel, são proibidas as expressões “territórios ocupados”, “resoluções da ONU”, “violações dos direitos humanos” ou “Convenção de Genebra”.

10. Tanto os palestinos quanto os libaneses são sempre “covardes”, que se escondem entre a população civil a qual “não os quer”. Se eles dormem em suas casas, com suas famílias, a isto se dá o nome de “covardia”. Israel tem o direito de aniquilar com bombas e misseis os bairros onde eles estão dormindo. Isto se chama “ação cirúrgica de alta precisão”.

11. Os israelenses falam melhor o inglês, o francês, o espanhol e o português que os árabes. Por isso, eles e seus apoiadores devem ser mais entrevistados e ter mais oportunidades do que os árabes para explicar as presentes ‘regras de redação’ (de 1 a 10) ao grande público. Isso se chama “neutralidade jornalística”.

12. Todas as pessoas que não estão de acordo com as ‘regras de redação’ acima expostas são “terroristas anti-semitas de alta periculosidade”.


Prefeitura de Curitiba multa cicloativistas

No dia 22 de setembro de 2007 pintamos todos juntos a primeira, e por enquanto única, ciclofaixa da ‘capital ecológica’. A ação aconteceu como parte das celebrações do Dia Mundial Sem Carros. Como todos sabem a guarda municipal apareceu no final da festa, e, como é de praxe, agiu com truculência, arrogância e estupidez. Das 50 pessoas envolvidas diretamente com a pintura, 3 foram aleatoriamente escolhidas e escoltadas ao som de sirenes e derrapadas até a delegacia do meio ambiente. A acusação: crime ambiental – pixação.Pois bem, a ciclofaixa foi apagada algumas semanas depois, e repintada com esplendor e glória na realização do primeiro desafio intermodal (outubro de 2007).

Isto é para todos estarem cientes de que a multa por pixação ainda esta valendo. Os 3 ciclistas que foram ‘enquadrados’ receberam esta semana uma notificação final com o veredito de culpa e com um prazo para pagar uma absurda multa de R$750.

E é assim que funciona. Confronto com uma política ridícula que não contempla os cidadãos não-motorizados, que desconsidera as bicicletas, que reverencia e se curva perante o grande capital e as grandes montadoras.

Queria pedir a ajuda de todos. Que escrevam para os jornais, para a prefeitura e façam uma manifestação de repúdio à esta multa e à falta de um trabalho verdadeiramente sério de mobilidade na cidade. Quem quiser pode ligar para o Fernando Rosembaum para se inteirar do que está rolando – 3082-7091.

A foto acima mostra um dos inúmeros paraciclos espalhados pela cidade de Amsterdam. Coisas que a prefeitura de Curitiba fica esperando um nobre e consciente empresário realizar, ao invés de assumir a responsabilidade direta pela mobilidade de seus cidadãos que não querem entupir ainda mais as vias arteriais do trânsito da cidade.

Hasta la victoria siempre!!

Abraços,

Goura

http://bicicletadacuritiba.wordpress.com/

http://www.artebicicletamobilidade.wordpress.com

O terreno da Fazendinha

Resolvi começar o blog numa época do ano que mal tenho tempo para escrever um email. Daí o buraco entre as publicações. Deixei passar várias idéias que não puderam virar um texto e até mesmo de divulgar acontecimentos que me pareciam importantes. Mas vou sair um pouco da minha casca, mesmo que seja por meros cinco minutos e na frente do computador, para divulgar uma nota assinada pelos movimentos de moradia e pelo D. Ladislau Biernaski.A nota convida para um ato, hoje, as 16h, em frente ao terreno desocupado violentamente pela PM no último dia 23 de Outubro.

PELA REFORMA URBANA! PELO DIREITO Á CIDADE!

Está escrito na Constituição que os governos federal, estadual e municipal devem garantir moradia a todos os cidadãos brasileiros.

Isso quer dizer que temos o direito de morar dignamente, com água e saneamento, eletricidade, transporte acessível e de qualidade, escola e posto de saúde. Enfim, temos o direito à cidade.

Mas milhões de brasileiros vivem sem teto ou em condições precárias de habitação. Faltam, no Brasil, 7 milhões de moradias, ao mesmo tempo em que 5 milhões de imóveis permanecem desocupados, por conta dos interesses da especulação imobiliária.

Em Curitiba, faltam 60 mil moradias, enquanto mais de 56 mil imóveis estão vazios. Essa é a dura realidade da “capital ecológica”, que a propaganda da Prefeitura e dos grandes grupos imobiliários e construtoras tentam esconder.

Esses dados mostram que nossa luta é justa, ao contrário do que dizem os programas sensacionalistas de rádio e TV, comprometidos com o poder político-econômico.

Este terreno de 170 mil metros quadrados, cercado por barracos de lona, é hoje o símbolo maior da desigualdade social e do descaso com a vida por parte das autoridades.

Vigiada por homens armados desde o violento despejo do dia 23 de outubro, a área reivindicada pelo grupo Varuna / CR Almeida ficará manchada para sempre com o sangue de Celso Eidt, assassinado na noite de ontem por pistoleiros encapuzados.

Os movimentos e pastorais sociais, os sindicatos e demais organizações populares reafirmam a solidariedade à luta das famílias acampadas e exigem a desapropriação do terreno para habitação de interesse social.

Não aceitamos que os interesses do grupo Varuna / CR Almeida e as decisões judiciais que colocam a propriedade privada acima da vida prevaleçam diante de tanta injustiça e desigualdade.

Exigimos que as autoridades e Ministério Público investiguem a origem de tal propriedade que tem sido denunciada pelos movimentos de luta pela moradia como fruto de grilagem.

  • Coordenação dos Movimentos Sociais-CMS/PR
  • Assembléia Popular
  • Comitê Pela Cidadania e Contra a Criminalização dos Movimentos Sociais
  • Coletivo Despejo Zero
  • Dom Ladislau Biernaski – Bispo da Diocese de S. José dos Pinhais