A magia do cinema e a indústria do lixo

Vik Muniz e o “Lixo Extraordinário” merecem incontáveis elogios. Talvez o mérito mais evidente do filme é lançar as luzes do cinema sobre uma situação que permanece obscura para a maioria. Todos sabemos que existem pessoas em algum canto lidando com aquilo que descartamos. Mas não lembro de uma pesquisa de opinião pública em que o lixo e a vida daqueles que trabalham com ele sejam apontados entre os grandes problemas da sociedade.

A verdade é que nós diariamente escondemos o problema em sacos plásticos (muitas vezes sem separar ou sem limpar aquilo que separamos) e jogamos fora como se não fosse nosso. De modo muito mais envergonhado, evitamos olhar o cara passando com uma montanha de 2 ou 3 metros de material reciclável em cima de uma carroça. O que “Lixo Extraordinário” faz é te deixar pouco mais de uma hora na frente disso tudo.

O que não chega a incomodar… Diferente de “Estamira”, que trata o mesmo tema com temperos bem menos suaves, “Lixo Extraordinário” é um filme fácil de engolir. Você chora, se comove, concorda e vai pra casa. Suave. Talvez olhe com mais simpatia o cara da carroça, lembrando do Tião. O que já é uma grande coisa. Mas aquelas pessoas invisíveis que então são vistas na tela se tornam tão próximas que quase desaparecem. O que sem dúvida faz parte da magia do cinema mais do que de qualquer outra forma de arte.

O movimento do visitante de museus na frente de um quadro – descrito por Muniz para explicar aos catadores o seu projeto de fazer arte com materiais inusitados – é parecido com o movimento do espectador na frente da tela do cinema. Todo filme nos faz ver uma nova ideia formada pelo material da vida real, ou seja, ele nos faz olhar para a realidade de um modo diferente. Não importa se é Avatar ou um documentário sobre catadores. Mas este efeito iluminador do cinema também pode causar ofuscamento. Afinal, a fragilidade do limite entre a realidade e a fantasia é justamente o que torna a arte possível. Então você passa a enxergar os catadores e no momento seguinte eles se tornam apenas personagens daquele filme.

Este efeito iluminador/ofuscador não é exclusividade de “Lixo Extraordinário”, mas algo com o qual todo filme engajado precisa lidar e, no fim das contas, acho que ele lida bem. Mas se tem uma coisa que eu realmente senti falta no filme é a perspectiva da indústria de reciclagem, ou melhor, das grandes indústrias que se beneficiam com a reciclagem. O filme chega a mencionar que os valores dos materiais funcionam como em uma espécie de bolsa de valores, mas não fala muito sobre quem dá as cartas neste cassino. Acontece que diante do Jardim Gramacho não é possível sustentar o discurso socialmente responsável da reciclagem, utilizado pelas empresas para promover sua reputação. O que as indústrias fazem pelos catadores é incomparavelmente menor do que os catadores fazem por elas, garantindo matéria-prima barata e uma consciência “limpa”.

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