Arte e sacrifício

“Fool,” said my Muse to me, “look in thy heart, and write.”
Philip Sidney

Após diversos festivais e premiações internacionais, o curta-metragem Tango, de Pedro Giongo e Francisco Gusso, finalmente chega ao público brasileiro. Com um cuidadoso trabalho de pintura em aquarela e uma trilha sonora densa (que mistura Pink Floyd com canções zen-budistas, música Mapuche, trechos de outros filmes e um gato dublador), a animação em stop-motion – técnica de resistência ao ritmo do nosso tempo, segundo Giongo – mostra o ritual de um pequeno povoado que, após anos de seca, vê uma batata mística brotar às margens do rio que lhes traz vida. Personagem central deste ritual é o garoto Zeferino, cuja incomum habilidade de jejuar o leva, ironicamente, a ser exposto ao sacríficio. De fato, sacríficio e espetáculo são os temas centrais do filme.

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Tango

O roteiro é inspirado em “Um artista da fome”, conto de Franz Kafka. É a partir da leitura deste conto e de um livro de Slavoj Žižek chamado “O amor impiedoso” que esboço este comentário. Este não é exatamente um comentário sobre o filme, nem se presta a interpretar o conto ou analisar de fato o livro. Talvez o sentido que se aponte aqui seja um tanto diverso da intenção de seus autores. Que seja lido, então, no tom de uma conversa. Pois na conversa não se pode evitar os mal-entendidos.

Žižek nos apresenta duas noções de sacrifício. A primeira delas, sem dúvida a mais comum, é a noção de troca. O sacrifício é oferenda que se faz a Deus – ou ao Outro – pedindo-lhe algo que seja de igual ou maior importância. Um negócio, afinal. Uma barganha. Mas o sacrifício também pode ser concebido “como um gesto que não almeja diretamente alguma troca lucrativa com o Outro a quem sacrificamos: seu objetivo mais básico é, antes, certificar que há algum Outro lá fora capaz de responder (ou não) a nossas súplicas sacrificais”. O que dá existência ao santo é o café que você lhe oferece, assim como seu grito dá voz ao eco.

Em chave lacaniana, “o sujeito oferece seu sacrifício” – no caso, o artista da fome sacrifica a si mesmo – “não para ele próprio lucrar, mas para preencher a falta no Outro”. Žižek recorda um melodrama hollywoodiano dos anos trinta, Beau Geste, em que um homem rouba o colar de diamantes da tia que o havia criado. Ao final do filme, sabemos que o colar era falso e que o roubo, como ocultamento do objeto sem valor, servia para manter intacta a aparência da tia que ele amava. Este seria o sentido do sacrifício: despojar-se de si mesmo “para manter a aparência de honra do Outro, para salvar o Outro amado da vergonha”.

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Ilustração de Peter Kuper em “Desista!”, livro que reúne contos de Kafka em HQ

No caso do artista do conto de Kafka, o que não tem valor é seu próprio sacrifício: o jejum não lhe custa nada. O que lhe causa sofrimento é justamente o fato de que seus espectadores não percebam seu talento e que seu empresário – mais por uma estratégia comercial do que por piedade – interrompa o jejum sempre ao quadragésimo dia e contra sua vontade. Ao final do conto, o moribundo confessa seu segredo: “tenho que jejuar, não posso evitá-lo”, pois “não consegui encontrar comida a meu gosto”. O talento do artista, seu espírito, podemos dizer, é marcado por uma incurável insatisfação.

É digno de nota que Žižek chegue até esta noção de sacrifício após uma densa discussão teológica sobre o sentido da morte de Cristo. Também aqui não se trata de uma troca, uma negociação ou barganha. Cristo não paga nossos pecados – o que significaria que Deus presta contas a Si mesmo ou, ainda pior, que Ele precise barganhar com o Diabo. Pelo contrário, a crucificação é “sem sentido: não um ato de troca, mas um gesto supérfluo, excessivo, injustificado, destinado a demonstrar Seu amor por nós, pela humanidade decaída. É como quando, em nossa vida cotidiana, queremos mostrar a alguém que realmente o amamos e só podemos fazê-lo através de um gesto supérfluo de dispêndio.”

A gratuidade do gesto – Deus nos salva por sua graça, assim como o artista da fome se sacrifica em troca de nada – não o torna menos doloroso. Mas o gesto é inescapável. O artista de Kafka não poderia senão jejuar, como se diz no diálogo que encerra o conto e também a vida do jejuador. E quem poderia ser Cristo senão o cordeiro de Deus? A paixão, o abandono de si mesmo, é o que faz cada um deles ser aquilo que é. Pelo bem do público, isto é, da humanidade.

Reconhecendo no protagonista de Kafka suas próprias aflições e dilemas artísticos, Gusso e Giongo criaram esta obra de arte. O que mais poderiam fazer? O filme, segundo contam, serve como uma espécie de exorcismo. E o que está impresso nele senão o espírito de seus autores? Deve haver algum alívio neste exercício, o que não torna seu público menos ávido por sangue, nem faz de seu produto algo menos descartável. A tarefa criativa em que se expulsa os demônios não deixa de ser moldada por certos ritos próprios ao mercado da arte. O artista só pode cumprir seu desígnio e jejuar ininterruptamente quando é esquecido na jaula. Nesta situação, paradoxalmente, ele não é mais o artista. Seus cuidadores deixam de marcar os dias e ninguém mais lhe presta atenção; “ninguém, nem mesmo o jejuador sabia a extensão de seu empenho”.