O silêncio atencioso ou a discórdia operante

Das significações brotam palavras.

M. Heidegger

Este é um novo começo sem linha de chegada. Outro projeto que pode durar ou ser esquecido. Fluído e aberto como toda boa conversa. E como toda boa conversa, deve nascer da discordância, do problema que uma situação qualquer implica. Qual é o problema aqui senão, em primeiro lugar, o próprio ato de escrever ou falar sobre alguma coisa?

Palavras, por si mesmas, não têm lá muito sentido. O que faz dos jornais grandes folhas de papel cheias de buracos. Meus olhos atravessam, passam correndo. Engulo tudo bem mais rápido que o café da manhã. Uma média e pão com manteiga. Há muita coisa pra ler no jornal, mas o sabor é sempre o mesmo. Também há muita coisa pra ler na Internet, esta tela cheia de buracos que se move uma porção de vezes mais rápido que a realidade.

No momento em que quase todas as preocupações se voltam para os problemas da poluição, é preciso prestar atenção para o nosso exagerado modo de produzir lixo. Para que fazer jorrar mais letras no mundo? Mesmo neste caso, sem tinta ou papel, não estou longe da destrutiva dinâmica produção-consumo. Pelo contrário, uma publicação como esta é consumida tão rapidamente que desaparece dentro de algumas semanas. Em nossos dias, uma montanha de “obras” virtuais é escrita com tinta descartável e, ao contrário do que parece, deixa uma série de resíduos não-recicláveis. De tudo o que foi escrito, restam apenas os refugos tecnológicos e um pouco do que a memória guarda. A informação é produzida para durar pouco, sem grandes consequências. Um esforço repetitivo de quem produz o intangível comunicável, o comum e mediano, a opinião.

Com palavras, criamos e partilhamos o mundo. Mas falar também pode ser apenas o exercício egoísta de um sujeito “isolado”, uma mente sem corpo, um indivíduo sem raízes, um falar sobre nada, o mastigar da boca vazia. Para dizer algo relevante é preciso primeiro escutar, o que pressupõe certo silêncio. Apenas em silêncio podemos compreender o outro e também há um silêncio “interior” na compreensão de nós mesmos e do mundo em que estamos mergulhados. Silenciar nem sempre é igual a morrer. Na realidade, silenciar como ato é necessariamente o oposto.

Tendemos a tomar posições. O mundo contemporâneo pede nossa opinião e dá os mecanismos para uma participação sempre muito bem administrada. Os meios se multiplicam. Todos podem falar e todos falam ao mesmo tempo. Porém, na mesma medida, este falatório coloca as palavras dentro da nossa boca e encobre aquilo sobre o que se fala. Falamos por falar e escutamos sem prestar atenção no que ouvimos. Com a escrita não se passa nada muito diferente. Em todos os modos desta falação desenfreada perdemos o contato com o mundo, deliramos! Repetindo e repetindo as palavras que um dia brotaram da realidade, perdemos o contato com este sentido original e deixamos de compreender este solo real, como a criança do século 21 não conhece a terra de onde vem seu alimento. Daí a superficialidade e banalidade do que se diz.

Se há uma pretensão neste projeto de tomar o mundo como pretexto para a conversa, é que este espaço seja mais do que a repetição do enorme e sufocante “consenso” em que nada se discute.

Anúncios