Velhos lugares e velhas pessoas.

Eu poderia dizer que uma das minhas metas em 2009 é levar esse blog um pouco mais a sério. Outra seria ver mais os amigos e deixar de lado o execrável hábito – que me habituei chamar curitibano – de combinar encontros sem a preocupação de que eles aconteçam realmente. Mas no lugar de promessas e metas que se esquece antes do próximo feriado, resolvi tomar o telefone e ligar para um velho amigo.

Saímos num domingo de manhã, depois de 14 meses ausentes. No sábado chovera pela semana inteira, para que naquele dia não houvesse novas desculpas. Falamos sobre muita coisa, mas só cabe aqui falar de uma. As outras não são para a publicidade. Pertencem à penumbra das amizades, onde não há toda a escuridão da vida privada, nem toda a luz da vida pública.

Andávamos pela Rua XV praticamente vazia, não fosse uma porção de senhores trocando não sei que palavras naquela parte do calçadão que se chama Boca Maldita. “Reduto machista”, como afirma a placa turística pregada na porta do Café da Boca. Dias antes passei ali com minha namorada e vimos que o tradicional café se tornaria mais uma lanchonete Subway. Gosto do Subway e peço sempre o mesmo: um pão de parmesão com óregano, 15 cm, queijo prato duplo, com todo tipo de saladas, especialmente as azeitonas que são sempre pretas e como molho, sempre, um que é agridoce e não guardo o nome inglês. Mas meu hábito importa menos que a tradição. Confesso antes uma ponta de tristeza pelo fechamento daquele velho lugar – ainda que provavelmente nunca o freqüentasse – do que alegria pela conveniência do meu lanche preferido.

Dentro de alguns dias ou semanas o café não existirá mais, mas os senhores certamente ficarão por ali, buscando em outro lugar o líquido preto, quente e amargo que lhes serve de combustível ou pretexto. A Boca não fecha. Estará sempre aberta para receber novos cafés, prosas, protestos e promoções. Os senhores continuarão ali e certamente serão outros. Seremos nós? Meu amigo pensou que sim. Mas no futuro que espio entre as brechas do meu comportamento atual, disse eu, devo ser um senhor ranzinza e solitário, passando ainda mais tempo enfurnado em casa, cercado pelas coisas que me agradam. Meu amigo logo assumiu a inclinação e sua esposa também o viu nesta mesma fantasia de eremita.

Mas seguimos falando ainda sobre muitas coisas e o conjunto delas, depois de fermentadas no espírito, mudaram um pouco a imagem que faço da minha velhice. Pelo menos hoje e enquanto o ano ainda é novo.

Já naquele dia, despedi-me feliz por reencontrar um velho amigo e ainda reconhecê-lo. Costuma-se lembrar dos amigos quando se pensa na morte. Como se no fim da linha houvesse um espelho mostrando aqueles que deixamos pra trás. Mas se a imagem refletida nunca é a imagem verdadeira, o passado que lembramos não é senão uma imagem presente. A saudade é vontade. A lembrança é novidade. O arrependimento, outra chance. E a morte não é de fato morte, mas a vida que ainda nos chama. Não é o fim da linha, mas uma margem. Só na margem se constroem pontes e é preciso sair de si para encontrar o outro.

Anúncios