Antônio Lopes e as máscaras do futebol

Muito se tem falado sobre a volta do delegado ao rubro-negro paranaense. São duas as principais abordagens: as que valorizam reformas no esquema tático e as que exaltam o comando linha-dura do treinador. De fato, só isto pode explicar a nova fase já que não temos nenhum grande reforço em relação ao time que tomava goleada dentro e fora de casa.

Na realidade, ou seja, dentro do campo as duas leituras são inseparáveis. Nem o esquema tático teria sucesso sem a autoridade de quem o propõe, nem a autoridade se manteria sem fundar algo concreto, sem dar resultado. Mas isto é tão óbvio quanto à maioria das coisas que se diz sobre futebol. Ainda assim, vamos tentar separar as duas coisas, ignorar o aspecto tático e falar apenas da postura da equipe. Tendo em mente que isto é possível apenas analiticamente, ou seja, no comentário, na corneta, no texto e de jeito nenhum dentro do campo.

A mudança na postura da equipe começou com uma atitude da diretoria e não do treinador: o afastamento de cinco jogadores do elenco. O assunto é tão importante que apareceu novamente na entrevista de Lopes, depois da vitória de domingo. “Esse time não tem vedete que quer aparecer mais do que os outros”, disse ele em possível alusão aos afastados. E o que se ouve nas arquibancadas sobre estes jogadores? Justa ou injustamente, a voz da maioria não hesita em chamá-los de mascarados. Esta é uma gíria comum no futebol. Mascarado é aquele jogador que joga pra si e não para o time. Mais ainda, é o cara que simula, finge, faz de tudo pra parecer algo que ele realmente não é.

Parece brincadeira, mas esta idéia de que existe uma diferença entre ser e aparecer tem mais de dois mil anos. E aqui vou me aventurar mais uma vez na tarefa de relacionar coisas que não tem lá muita relação: futebol e filosofia.

Platão foi um dos primeiros a pensar que se podia separar a coisa mesma de suas aparências, o modelo original de suas cópias. Adaptando bruscamente o platonismo à linguagem do futebol, digamos que para ele existia o jogador de futebol e os pernas-de-pau que eram uma imitação desse cara. Mas este “cara” não era de carne e osso. Ele era antes a idéia de um jogador de futebol… Aqui a coisa começa a complicar. Digamos então que o Pelé é simplesmente a maior e melhor imitação da idéia de um jogador de futebol que já existiu. Deu pra entender?

Tudo o que rola no mundo, para o velho Platão, é a imitação de uma idéia. Acontece que algumas coisas são cópias próximas do original e outras são cópias da cópia, da cópia… ou seja, um simulacro, uma falsificação. A boa cópia se parece com a idéia original, não foge da linha, obedece ao modelo. Enquanto a máscara do simulacro se distancia e de tão longe ninguém mais consegue compará-la com o original pra saber se parece ou não parece com a idéia que devia copiar. A máscara tenta passar uma imagem e acaba se mostrando uma ilusão. É mais ou menos neste sentido que nós xingamos o cara de mascarado, não é? Assim, reduzido a uma aulinha sem vergonha, fica até fácil entender Platão!

Acontece que apareceram uns caras querendo mexer nisso tudo e virar o platonismo de cabeça pra baixo. Como estou empolgado com explicações esdrúxulas, é como se mudasse o esquema tático que a humanidade jogou durante séculos. O principal destes técnicos foi um bigodudo chamado Friedrich Nietzsche. Para ele, o simulacro não é mais uma cópia mal feita, mas uma criação, uma novidade. Em outras palavras, não existe uma idéia original do que é ser jogador de futebol a qual todo mundo deve copiar. O que existe são várias criações e recriações que aparecem dentro de campo e convencem ou não pela sua força, ousadia, talento.

O mascarado – neste outro sentido – é aquele que mostra competência não para copiar o modelo, mas para criar um novo. A máscara é “um devir-louco, um devir ilimitado (…) hábil a esquivar o igual, o limite, o Mesmo ou o Semelhante: sempre mais e menos ao mesmo tempo, mas nunca igual” (Deleuze, G. “Platão e o Simulacro”. Lógica do sentido. São Paulo: Perspectiva, 2000). Não é algo deste tipo o que existe de mais apaixonante no futebol? Afinal, quem espera ver sempre o mesmo quando vai ao estádio? Os mesmos dribles, as mesmas jogadas… Pelo contrário, o que arranca aplausos e sorrisos, além do gol, é aquilo que desconserta, quebra padrões e desenha no reto espaço do campo um novo jeito de jogar futebol. Por mais antigo que sejam todas as fórmulas deste esporte.

Tão difícil quanto reverter o platonismo no campo da filosofia seria pretender mudar a noção de “mascarado” no meio futebolístico. Nem de longe existe tal pretensão! A brincadeira aqui é pensar que a mudança de postura que trouxe de volta o Furacão é uma simulação, quer dizer, uma boa simulação que fez os mesmos homens que vimos como pernas-de-pau atuarem agora como jogadores de futebol. A nova máscara que Antônio Lopes trouxe e distribuiu por aqui fez a torcida acreditar que tem um time. Que o baile continue!

Um esboço da “sociedade de controle”

Texto-base para apresentação de seminário sobre

DELEUZE, G. “Post-Scriptum Sobre as Sociedades de Controle”. In: Conversações. Coleção Trans. São Paulo: Editora 34, 1992.

II. Lógica

Aqui o texto está organizado em oposições que demonstram aquilo que é característico da nova sociedade de controle, em contraste com a sociedade disciplinar. Importante destacar que embora parta da descrição de Foucault da sociedade disciplinar, Deleuze também mescla novos conceitos e novas imagens.

No caso das instituições disciplinares, embora sejam distintas umas das outras existe comunicação entre elas. O indivíduo, diz Deleuze ainda na primeira parte do texto, “não cessa de passar de um espaço fechado a outro” (p. 219). Existe, portanto, entre os diferentes meios de confinamento uma comunicação que permite esta passagem. Comunicação que pressupõe uma linguagem, no caso, uma linguagem analógica. Já os modos de controle não se constituem como espaços separados, mas formam “um sistema de geometria variável cuja linguagem é numérica” (p. 221).

Esta diferença de linguagem fica mais clara na sequência do texto.

Por aqui basta entender que se a sociedade disciplinar precisava de cercas para criar um espaço diferente de todos outros e “fechado em si mesmo” (Foucault, M. Vigiar e Punir. Petrópolis: Editora Vozes, 1984, p. 130), o controle dispensa este confinamento. Não se trata mais de formar o indivíduo de acordo com a estrutura de cada instituição, porque as próprias instituições se auto-deformam e mudam continuamente. A imagem de Deleuze é exatamente esta: os meios de confinamento são moldes (pensemos em um molde de gesso ou em uma garrafa, que determina a forma dos elementos que contém), enquanto os controles são uma modulação (como uma bexiga ou uma rede, que não possui limites definidos).

Para ilustrar esta diferença o autor nos apresenta a distinção entre a fábrica e a empresa, e nos chama a pensar como se dá a remuneração dos trabalhadores nesses diferentes tipos de organização do trabalho. Na fábrica os salários são rígidos e representam os diversos setores que compõe o grande corpo industrial e as diferentes posições que cada indivíduo pode ocupar nele, lembrando o quadriculamento de que fala Foucault. Este é o princípio da carreira, quer dizer, uma organização da vida e do corpo de cada trabalhador que representa a própria organização produtiva. Nela, cada indivíduo se coloca em uma determinada posição, da qual pode ascender ou decair, e este movimento se faz sentir nas diferentes faixas salariais.

No caso da empresa, desaparecem estas seriações e os salários cada vez mais são substituídos por prêmios. Hoje, por exemplo, para os trabalhadores do comércio, o salário-base não é mais do que o resquício de uma legislação “antiga”, que garante uma renda mínima e alguns direitos. O grosso da remuneração está dada por metas de vendas e outros bônus que variam a cada mês. Deleuze fala de como os jogos de televisão mais idiotas fazem sucesso por mostrarem exatamente o que acontece nas empresas. De fato, hoje em dia as empresas utilizam uma série de jogos e até mesmo “testes de sobrevivência” para garantir a “motivação” de seus “colaboradores”.

As diferentes formas de remuneração são apenas um aspecto, que revela a diferença mais fundamental entre a fábrica disciplinar e as empresas da sociedade de controle. A fábrica era um espaço fechado, concentrado, estável e maciço, que organizava seus elementos em um grande corpo e propiciava assim uma dupla vantagem: de um lado, para a dominação do patrão que podia vigiar cada pessoa de acordo com a sua posição na grande máquina e, de outro, para a resistência dos trabalhadores, que estavam de tal modo unidos e conectados que se tornou possível sua organização na forma histórica dos sindicatos. A empresa não é mais este corpo; ela é dispersiva, modular, instável e fluída; ela não precisa de pessoas em um trabalho cooperado. Pelo contrário, ela coloca uns contra os outros. Mas a rivalidade da empresa não separa apenas um indivíduo do outro; ela estraçalha a própria pessoa. Porque o estímulo não é mais a conquista de uma nova posição e, portanto, de alguma garantia. De fato, o “colaborador” da empresa não conquista nada, nunca garante nem termina nada. Portanto, ele nunca é nada. Por muito tempo a pergunta “quem é você?” foi idêntica a “qual sua profissão?”. Mas esta é uma pergunta cada vez mais difícil de responder… Na sociedade de controle você é muitas coisas e ao mesmo tempo não é nenhuma. O discurso está na nossa boca: é preciso estar sempre “aprendendo”, se “qualificando”, etc.

Assim os cursos ou testes que faziam o trabalhador conquistar outro grau na sua carreira são substituídos por uma competição e um controle contínuo. A formação profissional se transforma na reciclagem de conhecimentos, um processo sem fim. Assim como, nas escolas, o exame vai sendo substituído pela formação permanente. Segundo o autor, “é este o meio mais garantido de entregar a escola à empresa” (p. 221).

Parece que neste momento do texto fica mais claro o que seria a diferença de linguagem entre os dois tipos de sociedade, a passagem de uma linguagem analógica na disciplina para uma linguagem numérica no controle. Nas sociedades disciplinares a pessoa é definida por uma assinatura e uma matrícula. A assinatura marca a sua diferença para com todas as outras pessoas, sua individualidade, enquanto a matrícula indica a sua posição no meio de uma massa de iguais. O importante é que as duas coisas se relacionam, ou seja, a assinatura remete a uma posição e matrícula a um indivíduo. Já nas sociedades de controle esta analogia, que em última análise determina a unidade do indivíduo, é substituída pelo uso de cifras ou senhas. São elas, diz Deleuze, “que marcam o acesso à informação, ou a rejeição” (p. 222). Não se trata mais de encontrar a posição do indivíduo na massa, porque o próprio indivíduo se tornou divisível e as massas se tornaram amostras ou dados.

O indivíduo se tornou divisível. Pensemos em nós mesmos: todos possuimos uma série de senhas e cartões de acesso para os mais diferentes espaços e serviços. Em cada um deles, você é uma pessoa diferente. Alguns lugares são fechados por catracas que interrompem o acesso físico; outros são abertos à circulação, mas o acesso a seus bens e produtos depende da liberação da sua senha. Se o cartão de crédito não funciona, como afirma Rogério da Costa, “você não é mais você para aquela operação (…) Você é você para algumas coisas, e não é para outras…” (“Sociedade de Controle”. In: São Paulo Perspectiva, 18(1): 2004, p. 166). Ainda segundo Costa, a diferença entre a assinatura individual e a senha é que “a assinatura é produzida pelo indivíduo, e o código é produzido pelo sistema, para o indivíduo” (idem). Quer dizer, a disciplina é sempre autodisciplina, uma conformação no próprio corpo do sujeito; enquanto o controle não o molda, mas permite ou barra o poder ser.

E o que significa dizer que a massa se tornou amostra? Talvez que não exista mais em um conjunto de elementos humanos a totalidade que estruturava a fábrica, a escola, o quartel, o hospital, etc. Agora este conjunto pode ser tomado em recortes cada vez mais diversos, que atravessam perfis individuais e formam um quadro relativo. Assim funcionam, por exemplo, as pesquisas de opinião e de comportamento que determinam as estratégias de marketing.

Para entender o papel do marketing nos dias de hoje, ajuda pensar o que Deleuze chama aqui de “uma mutação do capitalismo” (p. 223). Para isto, ele utiliza as máquinas como outro elemento ilustrativo e inclui também uma imagem da antiga sociedade de soberania. Nela, as máquinas eram simples, mecânicas, como alavancas, roldanas e relógios. Já nas sociedades disciplinares as máquinas se tornaram energéticas e nas sociedades de controle, são máquinas de informática e computadores. A estas mudanças corresponde a “mutação do capitalismo”, pois as máquinas energéticas da disciplina pressupõem a concentração e a produção, enquanto as novas máquinas informáticas revelam uma organiza dispersiva e baseada na sobre-produção. A idéia de sobre-produção também nos é cada vez mais familiar. Sabemos que as grandes empresas não possuem mais fábricas, mas compram os produtos acabados de empresas terceirizadas e agregam a ele o valor imaterial de sua marca. Nas palavras de Deleuze, este “já não é um capitalismo dirigido para a produção, mas para o produto, isto é, para a venda ou para o mercado” (pp. 223-224)

Hoje, muitas de nossas ações são registradas e se transformam em dados. Isto acontece, por exemplo, quando usamos um cartão de crédito, fazemos ligações telefônicas, enviamos e-mails ou visitamos sites na internet, entre outros exemplos. A este respeito, Rogério pergunta: “O que se pretenderia obter através da análise de um tal conjunto de informações? É seu conteúdo que interessa, ou é seu padrão de composição e acesso?” (p. 162). O conteúdo, diz ele, apontaria para o indivíduo (para onde foi, com quem falou, o que comprou, etc.), mas o padrão apontaria para o que? Na Internet, por exemplo, não possuímos uma identidade e sim um perfil. É cada vez mais através destes perfis que as empresas organizam seu marketing, ou seja, a planificação de seus produtos e serviços. Para Deleuze, “o marketing é agora o instrumento de controle social” (p. 224).

Enfim, se a fábrica e todos os meios de confinamento tinham a imagem de um grande corpo, “o serviço de vendas tornou-se a ‘alma’ da empresa” (p. 224), que é também o modelo para a escola, o hospital e a prisão da nova sociedade de controle. De fato, o próprio homem não é mais ser pensado como um corpo que deve ser disciplinado, corrigido e conformado. Ele próprio é um elemento fluído, móvel e mutável; mas sua mobilidade e mutabilidade não é livre. Ela obedece à participação em diferentes redes, cujo acesso depende de compromissos sempre renovados. “O homem não é mais o homem confinado, mas o homem endividado” (p. 224).

No fim desta segunda parte fica uma questão: como lidar com aqueles que são “pobres demais para a dívida, numerosos demais para o confinamento”? Este talvez seja o único lugar do texto carente da oposição disciplina / controle, pois ainda não está claro o que virá substituir as cercas e fronteiras que separavam os trabalhadores, os estudantes, os doentes, os prisioneiros, etc., dando a cada pessoa seu lugar próprio, ainda que sob a pena da atrocidade. Não é possível mais cercar as cidades e deixar para fora os não-cidadãos, nem utilizá-los como escravos sem direitos dentro do território, nem trancá-los em prisões e hospícios. E isto não apenas por uma questão ética, mas principalmente porque estes mecanismos disciplinares são menos lucrativos do que os mecanismos de endividamento e controle. Daí – e não da vontade piedosa ou politicamente comprometida com o povo – a necessidade de uma ampliação do crédito e do consumo para todas as camadas da população. Uma ampliação que também encontra seus limites e que, portanto, vai encontrar as suas próprias resistências.