Prefeito, quero deixar o carro em casa e andar de bicicleta! Me ajuda??

Por Jorge Brand

Leio a última notícia: o novo super-ônibus de Curitiba é movido a soja!! Bio diesel, ou melhor, agro-diesel. Aquele que vem das grandes monoculturas detentoras de sementes modificadas em laboratórios, aquelas que conseguiram erradicar quase que totalmente a cobertura vegetal nativa do estado. Combustível que ajuda a consolidar a industrialização da vida rural. Soa bastante sustentável e isto é o que importa. O povo logo esquece, com a novidade do super-busão azul, que R$2,50 é uma tarifa absurda e o povo também certamente já esqueceu que a licitação realizada há alguns meses foi uma das maiores farsas já vistas.

Com tudo isso não dá nem pra pensar em classificar nosso transporte de público – coletivo, pode ser, mas é privado, tem gente ganhando muito dinheiro em cima disso. A lavagem verde segue adiante, alimentando os mitos da cidade inovadora. O vídeo da CNN segue neste caminho, mostrando o quanto é ´fantástica´ esta nossa provinciana e altamente motorizada Curitiba.

Perguntamos, no entanto, até onde vai o compromisso efetivo com mudanças – socias, ambientais, culturais e econômicas – e onde exatamente começa este ‘green washing’, esta lavagem publicitária que não é nada mais do que um discurso do mercado e do capital para justificar a continuação de toda degradação e destruição da natureza?

Até onde vai a retórica e o mito da capital ecológica, e onde entra a verdade sobre o aterro da cachimba, as ruas entupidas de automóveis, a falta absoluta de uma política de estímulo ao uso da bicicleta como meio de transporte?

Até onde vai o discurso ‘green’ da capital sustentável e onde começam as ações efetivas, despretensiosas e autênticas de transformação de hábitos e atitudes?

Outra super-notícia, também já esquecida com certeza, foi o corte de cerca de 99% do orçamento destinado a estrutura cicloviaria na capital. Há anos os ciclistas reivindicam melhorias significativas para a bicicleta ser cada vez mais aceita como meio de transporte. As melhorias passam pela necessidade de rever uma rede de ciclovias antiga, mal sinalizada, que conduz aos parques e que não oferece a segurança ideal para quem pedala; melhorias seriam as instalações de paraciclos e bicicletários por toda a cidade; a criação de ciclofaixas e ciclo-taxis; a integração dos ônibus com as bicicletas; a adequação do espaço urbano a mobilidade realmente limpa – se for movida a soja, que seja tofu e missoshirô!

A política dos binários levada a cabo pelo atual prefeito, seguindo a mesma linha de seu antecessor, é a de destruir as ruas pacatas e tranqüilas da cidade, transformando-as em vias de acesso rápido ao sempre crescente fluxo dos automóveis. O que antes era uma rua que dava até pra jogar bola, se torna um lugar hostil, mais uma zona de conflito e velocidade inumana.

A cidade agoniza em medidas paliativas, que oferecem uma sobrevida muito curta ao atual sistema. Quanto mais estímulos para os carros, mais carros teremos nas ruas. Que silogismo perfeito!

Algumas sugestões que certamente serão ignoradas pelos nossos obtusos gestores:

Subsídios maciços ao transporte público oriundos de diversas fontes: Estar, pedágios urbanos, impostos sobre os automóveis, dinheiro das empresas e revendedoras. A lógica seria fazer com que o privado sustente o público. Se eu quero andar de carro, devo pagar para que alguém possa ir de ônibus.

A bicicleta deve ser valorizada, elogiada e estimulada. Inserir a bicicleta no cotidiano das escolas e de todas as repartições públicas. Favorecer a cultura do diálogo, da troca, da liberdade e do prazer que só a descoberta da cidade pela mobilidade auto-propelida pode nos trazer.

A herança que toda esta gente deixa para o futuro é esta, não nos esqueçamos disto. Uma cidade que dançou a música do grande capital, que destruiu sua cultura autêntica, seu passado, suas ruas conviviais, sua criatividade. Que gerou falsos mitos e discursos de uniformidade. Uma cidade que passou a abdicar da política, que transformou todo ímpeto democrático num protocolo administrativo.

Curitiba, uma cidade que agoniza sob a montanha do lixo publicitário que a enaltece.

Jorge Brand, 31, é filósofo e professor de yoga


www.artebicimob.org

www.atmatattva.wordpress.com

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Música para sair da bolha

Nesta sexta-feira, 27 de março, reiniciam as atividades do projeto MÚSICA PARA SAIR DA BOLHA – uma série de performances musicais acontecendo na rua, na hora mais tensa do trânsito, quando os motoristas estão aglomerados em congestionamentos, stressados, nervosos e impacientes com a lentidão provocada por eles próprios.

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A proposta, que aconteceu inicialmente no ano passado durante a segunda edição do ARTE BICICLETA MOBILIDADE, é uma iniciativa do coletivo artístico Interlux, e pretende jogar um questionamento sobre o paradigma urbano centrado na mobilidade motorizada e suas mazelas sociais que se tornam cada vez mais explícitas. O carro é uma ilusão. A sensação de segurança e rapidez escondem as armadilhas do sedentarismo, nervosismo crescente, endividamentos perenes, sem falar nos terríveis danos ecológicos de sua produção e manutenção.

As autoridades de Curitiba, por sua vez, tratam a questão de forma leviana, omissa. A falta de estruturas para transitar com segurança de bicicleta pela cidade vem sendo apontada há muito tempo e todos os orgãos municipais estão agindo com deliberada negligência. A inserção da bicicleta no cotidiano dos cidadãos, através da criação de ciclofaixas, paraciclos e do fomento de uma cultura de respeito a bicicleta, deveria ser estimulada e apoiada. O que vemos, no entanto, é a indiferença. Mais do que isto, a prefeitura ainda multa aqueles que estão propondo alternativas inteligentes, criativas e não-poluentes.

MÚSICA PARA SAIR DA BOLHA é a celebração da rua como espaço de convivência, de troca, de vida. É a crítica do trânsito feroz que destrói toda sociabilidade, cria espaços de isolamento e é causa direta de inúmeras mortes e atropelamentos.

Toda última sexta-feira do mês, no cruzamento das ruas Augusto Stresser e Barão de Guaraúna, a partir das 18hs, a música estará fluindo, de graça, sem espetáculos, sem fumaça, sem cara-feia.

É só aparecer!

MÚSICA PARA SAIR DA BOLHA
27 de março – 18hs
Cruzamento da Stresser com Barão de Guaraúna (Alto da Glória)

Política e Polícia

Nesta sexta-feira 13, em Curitiba, o terror mais uma vez ficou por conta da Polícia Militar do Paraná. Não estive presente, mas não é preciso pensar muito para entender o que aconteceu. Ainda que o Governo do Estado e sua Secretaria de Segurança afirmem sempre que “conosco não tem enrosco”, a afirmação não é mais contundente do que as pancadas que continuam sendo distribuídas a torto e direito. Nada justifica a truculência e o despreparo que continuam sendo a marca da nossa PM.

A manifestação do Movimento Passe Livre – MPL reivindicava a volta da passagem ao patamar anterior (de R$2,20 para R$1,90), abertura da “caixa preta” da URBS (empresa responsável pelo transporte em Curitiba) e passe livre para todos os estudantes. Você já pode ler comentários na Internet dizendo que isto não é coisa de estudante nem de cidadão, pois lugar de estudante é na escola e a cidadania se exerce com trabalho e voto. Quem faz manifestação, pelo contrário, é “baderneiro”. Esta opinião não é de todo equivocada. Realmente, aqueles que decidem se manifestar politicamente deixam de pertencer inteiramente à mesma identidade social.

Como afirma o filósofo Jaques Rancière, através da ação política se produz um espaço de participação que não existia antes. Neste novo espaço, você não é apenas o estudante, o trabalhador, a mulher, o negro, etc. Estas são “identidades definidas na ordem natural da repartição das funções e dos lugares”, ou seja, o cada um no seu quadrado. Mas agir politicamente significa transformar todas estas identidades, criando um espaço de litígio onde se pretende repensar a sociedade, suas funções e lugares. Abre-se um espaço “onde qualquer um pode contar-se porque é o espaço de uma contagem dos incontados” (O Desentendimento. Editora 34, 1996, p. 48).

E quem são os incontados? Ora, você, eu, todos os que não estavam na mesa de negociação que decidiu pelo aumento da passagem. Todos os que não tem acesso às contas da URBS. Na “ordem natural” da sociedade, nós não temos o direito de mudar essas coisas. Não é da nossa conta. Porque estudante tem que estudar, trabalhador tem que trabalhar e todo mundo têm que pagar a passagem e ficar calado. Pelo contrário, o ato político constrói uma relação entre o que não tem relação. Ele exige que sejamos contados naquilo que não era da nossa conta. Transforma o problema de cada um em um problema de todos, deslocando o assunto privado (você não tem dinheiro pra passagem) para visibilidade pública (nós temos direitos de ir e vir).

Isto me faz lembrar de outra coisa, cujo contexto é muito parecido: transporte, direito à cidade, ação política e… criminalização. Daquela feita, a repressão foi da Guarda Municipal e o movimento em questão era a Bicicletada. Pintaram uma ciclofaixa e ganharam prisão, multa processo e – por sorte ou simpatia – escaparam da porrada. A defesa do grupo perante a justiça revela o quanto as autoridades trocam alhos por bugalhos, política por vandalismo, estudante por bandido, cidadão por meliante. O guarda em questão enquadrou o pessoal no artigo 4º da Lei Municipal 8.984/96, que condena a pichação de bens públicos ou particulares. No entanto, como afirma a defesa, o que havia ali não era um grupo de pichadores, mas “um movimento popular legítimo, o qual realizou ato público, à luz do dia, após chamada aos meios de comunicação e às autoridades, com apoio dos moradores e comerciantes da região, com propósito específico de atrair atenção para um meio barato e eficaz de se cumprir a lei (…) de exigir da Municipalidade a inclusão da
bicicleta como parte das soluções de trânsito em Curitiba”.

No meio de tantas diferenças, no critério “criminalização de movimentos sociais”, tanto o Governo quanto a Prefeitura estão empatados. Quer dizer… talvez a PM esteja alguns pontos na frente. Quem sabe porque o time está mais entrosado e vem treinando há mais tempo este tipo de ataque. O relato de um garoto na delegacia dá a medida dos métodos de intimidação. O policial pergunta a idade do rapaz e diante da resposta, ironiza: “Tá na hora de morrer, né?”. Para evitar qualquer denúncia e impedir novas manifestações, eles afirmam que estão na cola, tem fotos de todo mundo e sabem onde todo mundo mora. Quer mais? Ao que parece, nenhum dos detidos conseguiu fazer o exame de corpo de delito, pois foram mantidos na delegacia até perto das 18 horas e o IML funciona até as 17h30.

O MPL pede que sejam enviadas moções de apoio ao movimento e contra a criminalização dos movimentos sociais, para o e-mail mplcuritiba@gmail.com .

Por onde eu posso começar?

Agradeço as visitas no final de semana, mas já vou deixar um aviso: só “trabalho” neste blog entre segunda e quinta. Duro é escolher sobre o que falar na segunda-feira…

Bem, não dá pra deixar de lado o ato contra os ataques de Israel. Acordei cedo na sexta, um pouco ansioso. Afinal, nem lembro qual foi o último protesto que participei. Sem contar a Bicicletada, que pra mim é mais uma ação do que um protesto. Quer dizer… É um protesto. Mas é diferente. Você está reivindicando alguma coisa, mas ao mesmo tempo tem uma possibilidade mínima de intervir diretamente. É claro que a Bicicletada não muda uma legislação, não cria ciclovias ou bicicletários públicos. Então, fica ainda uma meta que só é alcançada sob a forma do protesto. Mas, por outro lado, o simples ato de pedalar e fazer isto em conjunto é uma forma de ação direta, quase uma desobediência civil. Você está reivindicando mais espaço para as bicicletas e está tomando este espaço a que realmente tem direito.

Em um protesto contra a guerra, como o que se faz aqui no Brasil em solidariedade ao povo palestino, qual é a possibilidade de uma intervenção concreta na realidade que se pretende transformar? Creio que este tipo de pensamento inibe a participação de algumas pessoas. “O que isto vai mudar?”.

Alguns murros em ponta de faca te fazem pensar nisto. Aquilo que você queria transformar no mundo continua o mesmo e suas próprias condições de vida pioraram. Se o tempo diminui nossa estatura, parece que o fato de estar envolvido com política – pelo menos esta política que não dá dinheiro – acelera o processo e te deixa ainda menor diante das outras pessoas. Aquelas que estão cuidando da sua vida, crescendo.

Então você sai de casa numa sexta-feira de manhã para participar de um protesto contra uma guerra que acontece muito, muito longe dos seus problemas. As bombas são lançadas e explodem longe daqui. A decisão de parar ou continuar os ataques não depende da sua opinião. Nem mesmo a ajuda humanitária depende de você. Sua solidariedade possivelmente não vai ter nenhum impacto visível. Não é uma enchente em Santa Catarina. A guerra é mais cruel e ainda menos compreensível que um desastre natural. Muito mais difícil de se intervir.

Uma guerra no Oriente Médio. O aumento da tarifa. O despejo de uma favela.

Você pode associar a imagem de Dom Quixote aos protestos, manifestações ou ações que buscam se posicionar nestas e em outras situações. Mas por que não a imagem de Davi contra Golias? A propósito, me lembro de uma camiseta de uma banda de hardcore punk paulistana com a imagem de uma criança palestina atirando pedras e a frase “Davi agora é palestino”. Talvez se nossa própria vida estivesse em risco não pensaríamos duas vezes antes de atirar uma pedra contra um tanque. Diante do massacre, não nos ocorreria perguntar “o que isto vai mudar?”.

Kanoute comemorando o gol de Luis Fabiano.
Kanoute comemorando o gol de Luis Fabiano.

A camiseta de Frédéric Kanouté comemorando o gol do Sevilha também não parou a guerra. Bem longe do bombardeio, ele não arriscou a vida. Só ganhou uma multa por ousar fazer do futebol um espaço político por preciosos segundos. Mas foi um ato vitorioso em uma época onde a grande preocupação dos atletas é colecionar Ferraris (pelo menos na Europa) e todos dizem a mesma coisa (pelo menos no Brasil).

O ato que aconteceu também em Curitiba foi vitorioso. Ele não parou a guerra, mas colocou cerca de mil curitibanos nas ruas como cidadãos e não como consumidores. Ele venceu uma batalha contra a apatia. Além do mais, a emoção de pessoas que tem parentes e amigos na região em conflito ou mesmo um forte laço cultural com o mundo árabe não deixou dúvidas sobre a importância de se expressar a revolta. Para que não siga acontecendo. Para que não aconteça jamais.

Prefeitura de Curitiba multa cicloativistas

No dia 22 de setembro de 2007 pintamos todos juntos a primeira, e por enquanto única, ciclofaixa da ‘capital ecológica’. A ação aconteceu como parte das celebrações do Dia Mundial Sem Carros. Como todos sabem a guarda municipal apareceu no final da festa, e, como é de praxe, agiu com truculência, arrogância e estupidez. Das 50 pessoas envolvidas diretamente com a pintura, 3 foram aleatoriamente escolhidas e escoltadas ao som de sirenes e derrapadas até a delegacia do meio ambiente. A acusação: crime ambiental – pixação.Pois bem, a ciclofaixa foi apagada algumas semanas depois, e repintada com esplendor e glória na realização do primeiro desafio intermodal (outubro de 2007).

Isto é para todos estarem cientes de que a multa por pixação ainda esta valendo. Os 3 ciclistas que foram ‘enquadrados’ receberam esta semana uma notificação final com o veredito de culpa e com um prazo para pagar uma absurda multa de R$750.

E é assim que funciona. Confronto com uma política ridícula que não contempla os cidadãos não-motorizados, que desconsidera as bicicletas, que reverencia e se curva perante o grande capital e as grandes montadoras.

Queria pedir a ajuda de todos. Que escrevam para os jornais, para a prefeitura e façam uma manifestação de repúdio à esta multa e à falta de um trabalho verdadeiramente sério de mobilidade na cidade. Quem quiser pode ligar para o Fernando Rosembaum para se inteirar do que está rolando – 3082-7091.

A foto acima mostra um dos inúmeros paraciclos espalhados pela cidade de Amsterdam. Coisas que a prefeitura de Curitiba fica esperando um nobre e consciente empresário realizar, ao invés de assumir a responsabilidade direta pela mobilidade de seus cidadãos que não querem entupir ainda mais as vias arteriais do trânsito da cidade.

Hasta la victoria siempre!!

Abraços,

Goura

http://bicicletadacuritiba.wordpress.com/

http://www.artebicicletamobilidade.wordpress.com