O julgamento de Tom Zé

Divulgação / Anderson Yagami
Divulgação / Anderson Yagami

Todo mundo sabe que Tom Zé é capaz de tirar leite de pedra e música de sucata. Não é de se surpreender, portanto, que ele tenha feito uma deliciosa limonada com o azedo das mais recentes críticas. “Tribunal do Feicebuqui” é a reunião, transformada em música, do que se disse contra o próprio artista nas redes sociais, em mais uma edição de sua Imprensa Cantada. A acusação? Ora, o homem colocou sua voz para narrar uma propaganda da Coca-Cola, aquela que fala da “Copa de todo mundo”, bonita e enganosa como toda peça publicitária do refrigerante mais famoso de todos os planetas e com um apelo extra ao evento que vem despertando todo amor e ódio, orgulho e desprezo do povo brasileiro.

A Copa é hoje, por si só, um assunto espinhoso. A alegria diante da oportunidade de sediar um acontecimento de proporções globais, talvez o mais importante deles, o qual esperamos ansiosamente a cada quatro anos, contrasta com um senso comum que não tem nada de ingênuo e que sabe: nós vamos pagar a conta. Não se fala na Copa sem lembrar as obras de infraestrutura superfaturadas e que duvida-se estarem prontas em tempo, as licitações nebulosas que vão entregar os estádios para a iniciativa privada, as desapropriações bem pouco democráticas (é mais fácil fazer uma Copa sem democracia, disse recentemente um bam-bam-bam da Fifa) que “limpam” os arredores dos estádios para fortalecer a especulação imobiliária, além, é claro, das acusações que revolvem a história do presidente da CBF (que absurdamente acumula também o posto de porta-voz do megaevento no Brasil), José Maria Marin, e seu envolvimento com a ditadura.

Meter-se acriticamente nesse enrosco é já uma tarefa corajosa (ou prova de uma ignorância completa, o que certamente não é o caso de Tom Zé), especialmente se a pessoa tem pouco a ganhar com tais operações fraudulentas. Mas não para por aí. A coisa fica ainda mais arriscada quando se associa uma biografia reconhecida e apreciada como símbolo de uma contracultura, exemplo de independência e subversão artística, a uma marca que é tudo menos isso. Bebedores ou não-bebedores do líquido preto, todos sentimos sua onipotência. Ninguém dúvida que sua logo seja mais poderosa que muitos simbolos religiosos e mais conhecida que a bandeira de algumas dezenas de países.

Mas embora isso nos ajude a entender o motivo de tanta indignação, não se trata aqui de fazer coro às acusações. Não me julgo em posição tão neutra, nem tão pura. Eu, que me incluo entre os brasileiros divididos entre a expectativa e o receio, o orgulho e o desprezo pela Copa; eu, que dou dinheiro para a empresa de bebida (que vende até água) sem nunca lhe tirar um tostão… Sem dúvida, é desconcertante ver um gigante como Tom Zé emprestar sua voz e sua imagem para vender um refrigerante que se vende sozinho e para pintar uma imagem da Copa em que não existe exclusão nem roubalheira. Lembro uma carta de Tom Waits ao The Nation, respondendo a um artigo de John Densmore, do The Doors, em que ele dizia: “Quando era criança, se via um artista que admirava fazendo um comercial, pensava, ‘Que horrível! Ele deve realmente estar precisando do dinheiro’”. Pois tudo o que as corporações querem com isso, continua Waits, é sugar sua audiência, credibilidade e energia.

Mas “Zé a Zero”, uma das cinco músicas do álbum disponíveis para download, inverte a perspectiva sobre quem está divulgando quem: “É coco colá / Aqui copa coca acolá / Fazendo propaganda do Tom Zé”. E o encarte que pode ser baixado junto com as músicas traz um divertido texto introdutório em que se diz que o cachê da propaganda será doado à Litero Musical 25 de Dezembro, escola de música de Irará, cidade natal e sempre renascida em suas músicas. Não se pense, no entanto, que o álbum constitui uma espécie de defesa, muito menos um pedido de desculpas. Nem quero eu desviar o assunto para a discussão sobre “o destruir o sistema por dentro”, que de tão desgastada não diz mais nada e não percebe o óbvio: tudo o que fazemos está dentro; o “fora daqui” não existe agora.

Meu breve comentário sobre o disco visa apenas chamar a atenção para sua dimensão criativa e produtiva, o que, como disse no início, não é surpresa. Cantar a própria vida, torná-la poética, fazer dela um tema, uma questão, a fim de compreendê-la, transformar em instrumento aquilo que é mais cotidiano, são todos exercícios presentes na obra desse artista. Com “Tribunal do Feicebuqui”, Tom Zé não pretende sair da enrascada em que as redes sociais lhe meteram, mas cantar esta situação, ou seja, produzir nela e sobre ela. Um cantar honesto, que assume as críticas e os elogios na mesma medida; que assume-se, portanto, sujeito tanto a um quanto a outro; impuro, misturado, contraditório, falso e verdadeiro como toda a vida e, porque não, como toda arte.

A magia do cinema e a indústria do lixo

Vik Muniz e o “Lixo Extraordinário” merecem incontáveis elogios. Talvez o mérito mais evidente do filme é lançar as luzes do cinema sobre uma situação que permanece obscura para a maioria. Todos sabemos que existem pessoas em algum canto lidando com aquilo que descartamos. Mas não lembro de uma pesquisa de opinião pública em que o lixo e a vida daqueles que trabalham com ele sejam apontados entre os grandes problemas da sociedade.

A verdade é que nós diariamente escondemos o problema em sacos plásticos (muitas vezes sem separar ou sem limpar aquilo que separamos) e jogamos fora como se não fosse nosso. De modo muito mais envergonhado, evitamos olhar o cara passando com uma montanha de 2 ou 3 metros de material reciclável em cima de uma carroça. O que “Lixo Extraordinário” faz é te deixar pouco mais de uma hora na frente disso tudo.

O que não chega a incomodar… Diferente de “Estamira”, que trata o mesmo tema com temperos bem menos suaves, “Lixo Extraordinário” é um filme fácil de engolir. Você chora, se comove, concorda e vai pra casa. Suave. Talvez olhe com mais simpatia o cara da carroça, lembrando do Tião. O que já é uma grande coisa. Mas aquelas pessoas invisíveis que então são vistas na tela se tornam tão próximas que quase desaparecem. O que sem dúvida faz parte da magia do cinema mais do que de qualquer outra forma de arte.

O movimento do visitante de museus na frente de um quadro – descrito por Muniz para explicar aos catadores o seu projeto de fazer arte com materiais inusitados – é parecido com o movimento do espectador na frente da tela do cinema. Todo filme nos faz ver uma nova ideia formada pelo material da vida real, ou seja, ele nos faz olhar para a realidade de um modo diferente. Não importa se é Avatar ou um documentário sobre catadores. Mas este efeito iluminador do cinema também pode causar ofuscamento. Afinal, a fragilidade do limite entre a realidade e a fantasia é justamente o que torna a arte possível. Então você passa a enxergar os catadores e no momento seguinte eles se tornam apenas personagens daquele filme.

Este efeito iluminador/ofuscador não é exclusividade de “Lixo Extraordinário”, mas algo com o qual todo filme engajado precisa lidar e, no fim das contas, acho que ele lida bem. Mas se tem uma coisa que eu realmente senti falta no filme é a perspectiva da indústria de reciclagem, ou melhor, das grandes indústrias que se beneficiam com a reciclagem. O filme chega a mencionar que os valores dos materiais funcionam como em uma espécie de bolsa de valores, mas não fala muito sobre quem dá as cartas neste cassino. Acontece que diante do Jardim Gramacho não é possível sustentar o discurso socialmente responsável da reciclagem, utilizado pelas empresas para promover sua reputação. O que as indústrias fazem pelos catadores é incomparavelmente menor do que os catadores fazem por elas, garantindo matéria-prima barata e uma consciência “limpa”.

Minha nova ocupação

No último sábado, dia 31, inauguramos uma pequena loja no Govardhana Yogashala.

O espaço pretende reunir bons livros (novos e usados) sobre filosofia, yoga, arte, política e literatura, além de roupa, música, comida orgânica, quadros, gravuras, fotos e outras produções de artistas locais.

Abaixo estão algumas fotos, amorosamente cedidas por Francinne M. Weffort.

GOVARDHANA
Rua Augusto Stresser, 207
Tel. (41) 3254-5657

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