Problema seu ou problema nosso?

Texto-base para o debate na 4ª Verdurada de Curitiba.

Como alguns de vocês devem ter lido no cartaz, o tema da minha fala é “hardcore e política”. Tenho medo disto parecer uma coisa normal. Meu esforço é justamente mostrar que não existe nada de natural em associar as duas coisas. Então, pra começo de conversa é preciso, no mínimo, achar estranho pensar em hardcore junto com política. É preciso colocar uma questão sobre isto: o que o hardcore tem a ver com a política? Se é que tem alguma coisa.

Mas fiquem tranquilos porque não vou fazer nenhum tipo de discurso. Não vim aqui convencer ninguém a se envolver com uma causa, não vim defender nenhuma causa. Na verdade, eu, Rodrigo, estar aqui falando sobre isto é outra coisa estranha. Porque, na prática, estou muito distante das duas coisas. Meu envolvimento com o hardcore tem sido escutar bandas velhas de vez em quando ou conversar sobre “aqueles tempos” com algum amigo não menos distante. Em relação à política, não tenho militado em nenhuma organização. Quase todo meu interesse foi desviado para uma compreensão da política. Então, de um lado eu tenho conversas de bar sobre o hardcore e, de outro, tenho teorias sobre a política. Juntando as duas coisas, o que a gente vai ter aqui é mais ou menos uma teoria de bar sobre hardcore e política. Sem álcool e sem cigarro, é claro.

Outro aviso um tanto óbvio, mas que vale a pena ser dado: eu não acho que esta seja a coisa mais importante do mundo. Não acordo todos os dias pensando “caralho, será que o hardcore é político?”. Não é a pergunta que move a minha vida. Mas, como ainda não entrei para o Clube dos Cínicos Maduros, ainda acho que as duas coisas tem alguma importância. E ao propor este debate julguei que algumas pessoas que vão à Verdurada pensam o mesmo.

Sem mais delongas, vamos voltar à questão e colocá-la de um modo ainda mais simples: hardcore é política?

A gente não costuma ter problemas pra dizer que uma coisa é outra. Também não costuma pensar que é diferente, por exemplo, dizer “Curitiba é uma cidade” ou “a CELU é um espaço para shows”. As duas afirmações são verdadeiras. Mas Curitiba não pode ser outra coisa senão uma cidade, enquanto a CELU pode não ser um espaço para shows. Então, se você diz que “hardcore é política”, você está dizendo de um jeito ou de outro? Ele pode ser outra coisa ou ele é essencialmente político?

Com certeza, existem visões diferentes sobre o que é hardcore. A gente precisa fazer um acordo pra continuar com a conversa, quer dizer, a gente precisa pelo menos estar falando da mesma coisa. Digamos então que o hardcore é uma reunião entre pessoas, em torno de um estilo de música mais ou menos parecido. Esta música a gente pode chamar de “hardcore” ou de “punk”. Não importa aqui se você acha que uma banda não é hardcore. A pergunta é se esta reunião tem alguma coisa de política.

Indo direto ao ponto, eu não acho que os livros anarquistas, as camisetas com mensagens ou as letras de protesto fazem isto aqui ser político. As lojas do shopping podem vender os mesmos livros e camisetas, o Capital Inicial pode ter uma letra de protesto. E prestem atenção: eu nem estou julgando se é “certo” ou “errado” que eles façam isto. Estou dizendo que isto tudo, aqui, no shopping ou em qualquer lugar, por si só não é política. O que eu quero defender aqui é a política como atividade. Daqui em diante a minha fala está carregada de autores da filosofia, especialmente dois: Hannah Arendt e Jaques Rancière. Mas não vou ficar citando ninguém pra deixar a coisa um pouco menos chata.

Quando falo em atividade, por favor, não pensem naquele velho discurso que “não adianta só falar, tem que ter atitude”. Porque a “atitude” sem debate não é política. Ela é um dever-ser, uma moral, uma regra social, coisas que podem ser importantes pra manter as coisas funcionando. Mas a política nunca pode ser separada da fala, do argumento, da discussão. Ser politicamente ativo é poder debater com outras pessoas assuntos que interessam e estar pronto pra agir a este respeito, ou seja, a começar algo novo. É preciso estar livre para expor as suas opiniões, confrontá-las com outras opiniões e, em comum acordo, decidir o que pode ser feito. Então, as duas primeiras características da atividade política que eu queria destacar aqui são essas: 1) ela se dá no debate e 2) ela é uma ação em conjunto.

A terceira característica é que o assunto da política é sempre uma injustiça ou, pelo menos, algo que um determinado grupo acha que é injusto. Quando as pessoas se reúnem para discutir e agir, o que elas pretendem é reparar um dano. Nem todo mundo precisa concordar que aquilo é mesmo injusto. Isto é o que vai ser debatido. O mais importante, e prestem bastante atenção nisto, é que as pessoas e o problema que estão levantando sejam reconhecidos. Por isto a disputa política é diferente de outras disputas já estabelecidas e reguladas. Por exemplo, se eu compro um tênis e ele estraga no primeiro dia, eu posso entrar na justiça contra a empresa. Meus direitos como consumidor já são reconhecidos. Esta disputa não é política. Mas a briga por ciclovias, ciclofaixas e pelo reconhecimento da bicicleta como meio de transporte é uma disputa política. Porque na organização do transporte, até pouco tempo atrás, a bicicleta não era um problema. Seguindo este exemplo, a Bicicletada e outras organizações são políticas porque elas reuniram pessoas que se sentiam lesadas, colocaram a bicicleta como problema e passaram a agir em conjunto para expor este dano. Nisto tudo, o ciclista foi reconhecido como ator político.

Mas nosso tema aqui é o hardcore. Em que sentido ele foi, é ou pode ser político? Antes de responder eu queria chamar a atenção pra mais uma coisinha: as três características da atividade política (o debate, a ação em conjunto e a reparação de um problema) apontam uma preocupação com aquilo que é público, de domínio comum. A gente poderia dizer que a política tem a ver com uma preocupação com o mundo. Mas nem todas as nossas atividades são assim. Não vai dar tempo de explicar isto com detalhes, mas estou falando aqui em “tipos” de atividades. Existe um tipo de atividade em que nossa única preocupação é cuidar do próprio nariz, por exemplo, comer, beber, ganhar dinheiro e até mesmo andar de bicicleta. Em si mesmo, a atividade de andar de bicicleta não é política, ela não carrega uma preocupação com o público. Ok, você pode começar a andar de bike pra salvar o planeta. Mas eu não estou falando dos seus motivos. Estou falando da atividade. No mero pedalar não existe debate nem ação em conjunto. Andar de bicicleta é um problema seu.

Beber ou não beber também é um problema seu. Uma “escolha pessoal”, como foi dito muitas vezes. Mas quando um grupo de moleques sentiu que beber era uma regra que eles não queriam seguir e que sua escolha não era reconhecida, eles criaram uma coisa chamada straightedge. Esta coisa foi criada e recriada várias vezes, em muitos outros lugares, como uma disputa verdadeira ou como simples cópia do que outras pessoas fizeram. A gente pode dizer o mesmo de muitos outros temas que circulam pelo hardcore. O sexo, a alimentação, a moradia ou mesmo um passeio na praia são assuntos privados, mas que podem ser politizados, não apenas neste meio como em muitos outros espaços públicos. Estes temas podem ou não constituir uma ação política. Se não estiver ligado a um problema real e a um grupo de pessoas dispostos a debater e agir, estes assuntos vão ser apenas uma coisa legal de se cantar para parecer político.

Neste sentido, a “cena” pode ser um palco no meio da vida real ou apenas um teatrinho. Ela pode estar ligada a um problema real ou não. Do ponto de vista que eu estou defendendo aqui, o hardcore não é político apenas quando está ligado a uma temática comunista, anarquista, etc. Ele pode, inclusive, estar ligado a isto sem promover nenhuma atividade política, ou seja, sem criar uma comunidade, promover debates e gerar ações em conjunto.

Mas o hardcore precisa ser político? Quando não é, ele deixa de ser hardcore? Sinceramente, eu acho que não. Se a gente pensa isto como uma reunião entre pessoas em torno de certo estilo de música, existem muitas outras atividades possíveis neste meio. Por exemplo, a atividade de criar uma música, um cartaz ou uma camiseta, a atividade de vir aqui simplesmente se divertir, ou até mesmo a atividade de ganhar algum dinheiro. Nem sempre nós temos o mundo como preocupação. Este não é o problema.

O problema é nunca ter o mundo como preocupação. É pensar que tudo é sempre uma questão pessoal e cair no “cada um por si” que é típico dos nossos dias. Isto é o que acontece quando a gente não está mais disposto a polemizar e a discutir. E eu não estou falando apenas de criticar cinicamente, ou seja, debater não é meter o pau ou desprezar. É assumir que um tema é relevante, reconhecer sua importância, ouvir argumentos e dar os seus. Sem dúvida o hardcore não é o único espaço em que isto pode acontecer e nem é o mais importante. Mas é preciso pensar o que perdemos quando excluímos – não apenas do hardcore, mas da nossa vida em geral – o debate, a ação em conjunto e o reconhecimento de novos problemas.

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Revelar-se e perder-se

Há quase dez anos cometi um pecado. Não foi o único nesse tempo todo, mas enfim. Tomei emprestado um livro que deveria ser pago… e por algum tipo de bloqueio psíquico acabei esquecendo qual era a livraria e não pude devolvê-lo… Acho que vocês entenderam…

Gosto de contar esta história. O tal livro ficou esquecido na minha prateleira por muito, muito tempo. Não consegui ler. Tentei, mas não passei do prólogo. Ano após ano ele permaneceu intacto, até que fiz um curso a respeito de Hannah Arendt na faculdade. Foi no ano passado. Desde então, assumi uma certa reverência por seu trabalho e aquela edição de A Condição Humana finalmente adquiriu algum sentido para mim.

Hoje lembrei muito do quinto capítulo do livro, onde a autora trata da fala e da ação. É através de palavras e atos, diz ela, que revelamos quem realmente somos. Revelação que se dá sempre quando estamos com outras pessoas, que se dirige ao testemunho daqueles que nos escutam e nos vêem agindo. É assim que nos apresentamos ao mundo como um ser único, diferente de todos os demais e dotado de capacidades, desejos e pensamentos próprios. O falar e o agir rompem o silêncio e a solidão, expondo-nos a presença dos outros. Expor-se aqui deve ser tomado mesmo como um indicador de tremenda hostilidade. É sobre este perigo que eu pretendo falar.

Agir é começar algo novo. Quer dizer, o mundo está pronto, as situações estão consolidadas e tudo funcionando de uma determinada maneira. Mas nós, homens e mulheres, temos a capacidade de rasgar este cenário ou de mudar o roteiro. “Agir, no sentido mais geral do termo, significa tomar iniciativa, iniciar (…), imprimir movimento a alguma coisa” (p. 190). Acontece que este início é sempre imprevisível e isto, se entendo bem, tem dois bons motivos.

Um deles diz respeito a incapacidade de vermos quem nós mesmos somos, pois “é quase certo que, embora apareça de modo claro e inconfundível para os outros, o ‘quem’ permaneça invisível para a própria pessoa” (p. 192). Em outro livro (Homens em Tempos Sombrios), Arendt fala da antiga persona grega, a máscara que revela a aparência para o público, mas a esconde do próprio ator. Em A Condição Humana ela traz a imagem do daimon grego, “que segue o homem durante toda a sua vida e que é a sua identidade inconfundível, mas que só transparece e é visível para os outros” (p. 205).

O outro motivo de imprevisibilidade é que tudo o que falamos ou fazemos se insere sempre em uma “teia preexistente de relações humanas, com suas inúmeras vontades e intenções conflitantes” (p. 196). Por isto você pensa em fazer uma coisa e sai outra. Agir não é como desenhar uma história em quadrinhos, nem como fabricar qualquer coisa. Quando cria algo deste tipo você está sozinho e tem controle sobre praticamente todo o processo. Mas quando age você não tem absolutamente controle nenhum. Porque ninguém age sozinho e quando seu propósito alcança as outras pessoas ele se transforma, então você é obrigado a encarar as consequências daquilo que você mesmo começou.

Muitas vezes a gente prefere não pensar assim. Você sabe como é. Mais fácil pensar que por trás de tudo tem um destino, um sentido, uma finalidade secreta que talvez nunca se revele, mas na qual você pode confiar. A vida se torna mais leve e faz mais sentido se você pensa que no fim isto vai dar em um bom lugar. Mas “as histórias reais, ao contrário das que inventamos, não têm autor” (p. 198), seja ele quem você pensa que é. Sua força de vontade e intenção não vão impedir que aquilo que você fala e faz seja completamente transformado, alterado, incompreendido.

Não é preciso dizer que o fato de toda ação ser imprevisível coloca o problema da confiança. Além disso, afirma Arendt, existe a “treva do coração humano”, ou seja, o fato de que homens e mulheres “jamais podem garantir hoje quem serão amanhã” (p.256). Contra esta “caótica incerteza do futuro” (p. 248) existe a faculdade de prometer e cumprir promessas. Sem nos obrigamos a cumprir promessas, erraríamos “desamparados e desnorteados (…) enredados em contradições e equívocos” (p. 249). Contudo, as promessas não podem abarcar todo o futuro. Devem sim, para manter seu comprometimento, ser como “pequenas ilhas de certeza” (p. 256).

Finalmente, além de imprevisível a ação tem uma outra característica importante. Não vou encher aqui de trechos a respeito porque o post já está grande demais. Basta dizer que toda ação é irreversível, que é impossível “desfazer o que se fez” (p. 248). Qualquer um, pensando um pouco em sua vida, pode reconhecer isto. Mas qual o remédio? Para Arendt, o poder de perdoar. Se não fossemos perdoados estaríamos sempre presos, como o “aprendiz de feiticeiro que não dispunha da fórmula mágica para desfazer o feitiço” (p. 249).

Dois toques

Quem acompanha meu posts já deve ter percebido que a lentidão está entre meus maiores defeitos como “blogueiro”. Estipular prazos nunca funcionou direito pra mim. Mas aos poucos estou aprendendo que a coisa funciona melhor assim: aconteceu ontem tem que publicar ontem. Para tanto, é preciso sentar e começar. Pensar um pouco ajuda, mas só desenhar mentalmente o assunto não funciona. Não dá pra ficar prendendo a bola. O tempo te rouba a oportunidade e ninguém vai gritar “ladrão!”.

Em sua última coluna na Carta Capital, Thomaz Wood Jr. falou sobre a procrastinação. O famoso hábito de “empurrar com a barriga” foi objeto de pesquisa científica que apontou o seguinte: costumamos adiar a execução de uma tarefa que parece mais distante e abstrata. A dica dos pesquisadores é “apresentar certas tarefas de forma mais detalhada e objetiva”. O problema, acredito, é que detalhe não rima com objetivo. Como uma das infelizes pessoas que adoram chamar reuniões e discutir tudo em seus pormenores, estou em posição confortável para admitir que planejar demais deixa tudo mais distante e abstrato, ou seja, fácil de ser adiado.

Tanto pior se as intermináveis reuniões são uma conversa entre eu e eu mesmo. Pois ainda mais do que a conversa, o pensamento carrega esta terrível sina de ser intangível, incerto e inútil do ponto de vista prático. Hannah Arendt, ao defender a tarefa do pensamento nas considerações morais, também definiu sua inextricável consequência: “quando começamos a pensar em qualquer coisa, interrompemos tudo o mais” (A Dignidade da Política, Ed. Relume-Dumará, p. 149). Ora, definir os detalhes de uma ação é pensá-la exaustivamente e, portanto, se afastar dela. Não me entendam mal. Pensar é preciso e cada vez mais necessário em um mundo onde tudo se faz no modo automático. Mas se existe o momento (e por que não a tarefa) da ponderação, também existe o momento de agir sem planejar. Ninguém vai negar que existem coisas que precisam ser feitas quase sem pensar. Entre elas, o futebol.

Não prender a bola foi um dos méritos do time do Atlético na partida contra o Iguaçu. Basta ver os dois gols do Marcinho para entender o que estou falando. No primeiro, a bola atravessou todo o campo e chegou até a rede adversária na base do “dois toques” – um deles a letra do garoto Renan. No outro, depois de boa jogada individual de Wallyson (driblar é diferente de prender a bola e também exige uma boa dose de “irracionalidade”), Renan pegou o rebote e deu um tapa para o novo camisa 10, que arrematou de primeira.

A semana do Atlético teve duas notícias importantes: a saída de Ferreira e a entrada de alguns garotos da Copa São Paulo no time principal. Se a promoção dos guris deixa a torcida animada, a atuação de Marcinho serviu para tranqüilizar a torcida depois do empréstimo do colombiano para o Dallas depois de quatro anos sem títulos na Baixada. Apesar do carinho da torcida, acho que desta vez não vai ficar saudade. Se não houve jogada de craque, sobrou objetividade. Além dos gols, Marcinho jogou com velocidade, coisa que ainda falta para o Atlético. Pela esquerda, Márcio Azevedo também voltou muito bem e ajudou a fazer a bola correr. Mas o destaque na minha opinião é mesmo o outro cabeludo, Renan, que tem boas chances de ganhar a vaga ao lado do Valência. Tenho birra de dois volantes, mas dou aqui o braço a torcer. Nem precisa pensar muito.