Personalidade, memória e inteligência artificial

Sabotage acaba de lançar uma nova música. Ou quase isso. Em um projeto do Spotify, um sistema de inteligência artificial compilou os versos do rapper, que não está mais entre nós, criando a letra de “Neural”, tornada música pelo RZO e o Instituto. Também participaram dos projeto alguns dos familiares, amigos e produtores de Sabotage.

Lembra um episódio de Black Mirror chamado “Be Right Back”. A viúva usa um programa que se alimenta de antigos vídeos, fotos e telefonemas do marido para criar padrões de respostas que permitem interagir como se ele estivesse presente. A ideia – tanto a ficção da série quanto aquela que se realiza em projetos como esses “versos póstumos” do Sabotage – mostra um equívoco a respeito do que é a personalidade, mas também revela algo muito importante sobre o funcionamento da memória e dos afetos.

Be Right Back
Be Right Back

O equívoco diz respeito à ideia de que somos, antes de tudo, respostas programadas, de que nossas ações no mundo podem ser compreendidas a partir de certos padrões de comportamento. É verdade que nossas escolhas e aquilo que fazemos todos os dias durante anos acaba por moldar, de alguma forma, nossa personalidade. As escolhas formam o caráter e este torna-se reconhecível e, até certo ponto, previsível. Afinal, quanto mais fazemos uma coisa, mais difícil é deixar de fazê-la. No entanto, cada uma dessas escolhas, cada uma dessas palavras e ações que, depois, transformam-se em padrão, são originariamente livres e, por assim dizer, arbitrárias.

Esta liberdade é a fonte de onde brota uma personalidade autêntica, sobretudo aquela do artista. Não haveria Sabotage se ele não pudesse, a cada vez, criar um verso novo ou transformar os já criados. Por isso, não existe poesia de fato nessa repetição programada das máquinas. Não existe literatura feita por robôs. Não existe arte. Só existe um produto a ser comercializado. Posso estar errado. Mas é este erro, justamente, o que torna este texto autêntico. Um robô não erra. O que fica claro no episódio, quando a mulher percebe o que falta ao marido-robô.

Ainda assim, ela continua se relacionando com a máquina e a leva para viver no sotão da antiga casa, onde a família costumava guardar fotos e lembranças. Aqui se mostra o que há de autêntico no projeto de reconstruir a personalidade por meio de inteligência artifical: a ilusão da presença. Mas para isto não é preciso uma máquina. É assim, afinal de contas, que funciona nossa memória.

Abaixo, o mini-documentário produzido pelo Spotify.

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