A Árvore da Vida: o infinito entre as coisas e sua explicação

A esmagadora maioria dos comentários que, sem procurar muito, tenho lido sobre A Árvore da Vida o definem como uma reunião de imagens desconexas ou como um filme religioso. Não me parece que ele possa ser reduzido a qualquer um desses termos, a não ser por uma boa dose de preguiça. Admito que o filme é cansativo e pode causar certa má-vontade. Mas isto não é o principal.

Meu comentário não será muito rigoroso (não analiso declarações do diretor ou sua história, nem me apoio em outros comentários), nem muito preguiçoso. Só paro alguns minutos para pensar e escrever algumas impressões, sem nenhum esforço de pesquisa ou revisão.

ATENÇÃO: Se você ainda não viu o filme, contarei detalhes que podem cortar o seu barato.

Tudo começa com uma história familiar confusa, envolvendo a morte de um jovem filho e o desespero dos pais, que procuram um sentido para tal acontecimento. A pergunta da qual parte o filme é clássica: Se Deus é bom e todo-poderoso, como pode haver o mal? “Como isto pôde acontecer?”, pergunta-se após todos os desastres.

Então Deus “responde”, ou melhor, conta-se a história da criação de um ponto de vista sobrehumano, mas que não coincide com as tradicionais narrativas religiosas. Não encontramos nenhum responsável. A criação é o caos. A vida surge como um movimento intenso e sem sentido. Nada no filme explica sua razão de ser. Nenhum gênio divino, nenhuma força vital. Apenas caos, forças que colidem, imensas, inexplicáveis e inapreensíveis. Não há sentido em uma explosão cósmica ou nas zilhões de combinações que, por acaso, levam até nós, hoje. Por isso não há narrativa nesta parte do filme. Nada se diz nem tem sentido.

Mas deste nada ressurge a voz da mãe pedindo uma explicação. A terceira parte do filme (que não se encontra assim dividido a não ser na minha tentativa de explicação) reintroduz o humano em meio aos caos. É a parte mais bonita. A mesma dança que se via entre estrelas, planetas, meteoros, vulcões, mares, células, etc., aparece agora no movimento que dá origem a vida de uma família. O mesmo caos. A mesma falta de desígnio. Surge o bebê e ele é como qualquer outra forma de vida que surge sem saber sua causa. Lançado, desafiado, exposto.

Mas esta vida é lançada em uma forma peculiar de mundo e apreende suas regras, de forma talvez tão natural quanto um peixe aprende a nadar. Ela está imersa em sua família, seu país, sua história. Assim adquire (ou aprende, o que também não é o melhor termo) a linguagem, a moral e o senso do absoluto, especialmente nas poderosas imagens do pai e da mãe, que lhe revelam e escondem o mundo, o vendam e desvendam, dizendo o que deve e não deve ser dito e feito.

De fato, a linguagem e o absoluto possuem uma relação complicada. As coisas nelas mesmas, tal como vistas na parte anterior, não possuem nome (nada se diz) e não remetem a nada exterior a elas. Mas, de algum modo, surge a língua, diabólica, que divide as coisas e seu sentido. É preciso dizê-las, explicá-las. Mas nada que se diga pode apreender totalmente aquilo que é. A linguagem não pode se grudar novamente nas coisas. E este espaço, este vazio, é infinito, absoluto, não pode ser preenchido. Mas nele colocamos Deus, o Senhor de tudo, nossa maior esperança, nosso Bem e salvação. Seria preciso tudo dizer para explicá-lo. Ou então, calar-se.

Mas não calamos. E da impossibilidade do bem absoluto, da ausência do pai, de suas faltas, surge a possibilidade do mal. Aquilo que contraria as regras vira o mundo do avesso. A natureza tirânica de que falava a mãe no começo do filme se manifesta no filho que sente a concreta falta de limites, a incapacidade das regras e palavras cobrirem toda a realidade. A família não fala sobre a morte, a doença, o mal. Tampa os olhos das crianças. Decide sobre o certo e o errado. E assim se protege e se mantém. Um mundo que tudo permitisse seria destruído ou transformado em instantes. Mas nenhuma aldeia jamais fechou suas portas para sempre.

A abertura desestabiliza e confunde o menino que só queria ser a imagem do pai, o todo-poderoso, o forte, o senhor das coisas. Já adulto, busca novamente este absoluto. Tal como seu pai, fracassa. Quer retornar a Deus, reencontrar o sentido. O que também é retornar a infância e reencontrar as primeiras imagens do mundo. Mas entre aquele mundo e a vida adulta, a realidade foi partida em incontáveis palavras, fragmentada em uma infinidade de sentidos que nunca mais se totalizarão. A não ser sob o nome de Deus, aquele que É.

Há muito mais para ser dito. Mas aqui me deixo tomar pela preguiça. E algumas linhas já me parecem o bastante para rejeitar tanto a tese da mera confusão de imagens sem sentido quanto a do filme religioso. Ainda que o final seja mesmo meio Chico Xavier.

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2 comentários em “A Árvore da Vida: o infinito entre as coisas e sua explicação

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