Quando o juiz apita

Texto escrito sob encomenda de um novo jornal de Curitiba e recusado por ser “meio complexo”. Considerando a média do que é escrito sobre futebol na cidade e supondo que eles foram honestos (e não acharam uma grande porcaria), vou tomar isto como meio elogio e estímulo para continuar escrevendo coisas “meio filosóficas” no meu blogzinho.

As regras do futebol são praticamente as mesmas desde 1863, quando onze ingleses se reuniram em um bar para criar as normas daquele se tornaria o mais belo esporte produzido pelo espírito humano. Mas com algumas cervejas na cabeça, deixaram de pensar um detalhe: quando termina o jogo? Mais do que mero esquecimento, isto se tornou uma marca indelével do futebol.

Depois de causar muita briga, o tempo da partida foi regulamentado em 1877 e ainda levou mais de 50 anos para que nós, brasileiros, aceitássemos jogar 90 minutos. Mas a confusão não acabou quando o tempo foi definido. Diversas vezes as partidas terminaram antes do estabelecido ou foram rigorosamente encerradas em momentos decisivos, prejudicando as equipes. Nos últimos anos surgiu ainda a aberração dos acréscimos, que dá ao juiz o poder de prorrogar a disputa para compensar o tempo de bola parada, sem que se apresente um critério confiável.

Mesmo quem não gosta de futebol deve imaginar o problema causado por esta determinação, digamos, meio variável da duração de uma partida. Afinal, todos os jogos precisam ser definidos por limites espaciais e temporais, como bem afirma Johan Huizinga em um dos mais importantes estudos já feitos sobre a natureza dos jogos em geral (Homo Ludens). “O jogo distingue-se da vida ‘comum’ tanto pelo lugar quanto pela duração que ocupa”. As linhas do campo estão bem marcadas, mas até hoje ninguém sabe realmente quando termina um jogo de futebol.

Recentemente, nós atleticanos experimentamos o doce e o amargo desta situação, amaldiçoando os acréscimos no jogo contra o Ceará e louvando-os na partida seguinte, contra o Santos. Tivesse o árbitro uma indisposição estomacal que o obrigasse a terminar aquele primeiro jogo alguns segundos antes e pronto, a testada do Nicácio não existiria jamais. E toda a raça rubro-negra contra os campeões da América seria em vão se o homem decidisse não apontar nenhum dedo para o quarto árbitro.

Como não existe contagem regressiva, o apito final costuma soar como alívio ou golpe fatal, anúncio de bem-aventurança ou trombeta do Apocalipse, paradoxalmente aguardado e inesperado. Para o bem e para o mal, segue valendo a anta-lógica frase do ex-presidente das galinhas paulistas, que deveria ser incorporada às regras da International Board: “o jogo só termina quando acaba”, ou seja, quando o juiz apita. E pela graça do futebol, também deveria estar nas regras do jogo que a honestidade e competência do juiz deve sempre ser questionada.

A verdade é que um bom jogo nunca acaba. O problema da duração, assim como outras fissuras em seu regulamento, amplia os efeitos do futebol sobre a vida comum. É claro que todo jogo surte efeitos e reverbera sobre a vida de seus participantes. “Mesmo depois de o jogo ter chegado ao fim, ele permanece como um tesouro a ser conservado pela memória. É transmitido, torna-se tradição.” Ele continua, inclusive, em uma outra forma de jogo, que é a linguagem: “toda metáfora é jogo de palavras”. Por isso continuamos falando sobre o jogo que acabou e disputando seu sentido. Mas isto é ainda mais gostoso no futebol. Outros esportes produzem lançes memoráveis, mas nenhum gera polêmicas incontornáveis como o futebol.

Enfim, não existe jogo ganho e muito menos jogo perdido. Isto não significa deixar de reconhecer a vitória do adversário, nem de lamentar os erros de seu time. Acontece que a explicação do que aconteceu é uma disputa à parte. Disputa que só começa quando o jogo acaba e ultrapassa os muros do estádio. Isto é verdade para uma partida e também para um campeonato. Por isso, rivais, podem esperar para nos encher com esse papo de série B (torneio que conhecem tão bem). O Brasileirão só termina em dezembro.

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