Revelar-se e perder-se

Há quase dez anos cometi um pecado. Não foi o único nesse tempo todo, mas enfim. Tomei emprestado um livro que deveria ser pago… e por algum tipo de bloqueio psíquico acabei esquecendo qual era a livraria e não pude devolvê-lo… Acho que vocês entenderam…

Gosto de contar esta história. O tal livro ficou esquecido na minha prateleira por muito, muito tempo. Não consegui ler. Tentei, mas não passei do prólogo. Ano após ano ele permaneceu intacto, até que fiz um curso a respeito de Hannah Arendt na faculdade. Foi no ano passado. Desde então, assumi uma certa reverência por seu trabalho e aquela edição de A Condição Humana finalmente adquiriu algum sentido para mim.

Hoje lembrei muito do quinto capítulo do livro, onde a autora trata da fala e da ação. É através de palavras e atos, diz ela, que revelamos quem realmente somos. Revelação que se dá sempre quando estamos com outras pessoas, que se dirige ao testemunho daqueles que nos escutam e nos vêem agindo. É assim que nos apresentamos ao mundo como um ser único, diferente de todos os demais e dotado de capacidades, desejos e pensamentos próprios. O falar e o agir rompem o silêncio e a solidão, expondo-nos a presença dos outros. Expor-se aqui deve ser tomado mesmo como um indicador de tremenda hostilidade. É sobre este perigo que eu pretendo falar.

Agir é começar algo novo. Quer dizer, o mundo está pronto, as situações estão consolidadas e tudo funcionando de uma determinada maneira. Mas nós, homens e mulheres, temos a capacidade de rasgar este cenário ou de mudar o roteiro. “Agir, no sentido mais geral do termo, significa tomar iniciativa, iniciar (…), imprimir movimento a alguma coisa” (p. 190). Acontece que este início é sempre imprevisível e isto, se entendo bem, tem dois bons motivos.

Um deles diz respeito a incapacidade de vermos quem nós mesmos somos, pois “é quase certo que, embora apareça de modo claro e inconfundível para os outros, o ‘quem’ permaneça invisível para a própria pessoa” (p. 192). Em outro livro (Homens em Tempos Sombrios), Arendt fala da antiga persona grega, a máscara que revela a aparência para o público, mas a esconde do próprio ator. Em A Condição Humana ela traz a imagem do daimon grego, “que segue o homem durante toda a sua vida e que é a sua identidade inconfundível, mas que só transparece e é visível para os outros” (p. 205).

O outro motivo de imprevisibilidade é que tudo o que falamos ou fazemos se insere sempre em uma “teia preexistente de relações humanas, com suas inúmeras vontades e intenções conflitantes” (p. 196). Por isto você pensa em fazer uma coisa e sai outra. Agir não é como desenhar uma história em quadrinhos, nem como fabricar qualquer coisa. Quando cria algo deste tipo você está sozinho e tem controle sobre praticamente todo o processo. Mas quando age você não tem absolutamente controle nenhum. Porque ninguém age sozinho e quando seu propósito alcança as outras pessoas ele se transforma, então você é obrigado a encarar as consequências daquilo que você mesmo começou.

Muitas vezes a gente prefere não pensar assim. Você sabe como é. Mais fácil pensar que por trás de tudo tem um destino, um sentido, uma finalidade secreta que talvez nunca se revele, mas na qual você pode confiar. A vida se torna mais leve e faz mais sentido se você pensa que no fim isto vai dar em um bom lugar. Mas “as histórias reais, ao contrário das que inventamos, não têm autor” (p. 198), seja ele quem você pensa que é. Sua força de vontade e intenção não vão impedir que aquilo que você fala e faz seja completamente transformado, alterado, incompreendido.

Não é preciso dizer que o fato de toda ação ser imprevisível coloca o problema da confiança. Além disso, afirma Arendt, existe a “treva do coração humano”, ou seja, o fato de que homens e mulheres “jamais podem garantir hoje quem serão amanhã” (p.256). Contra esta “caótica incerteza do futuro” (p. 248) existe a faculdade de prometer e cumprir promessas. Sem nos obrigamos a cumprir promessas, erraríamos “desamparados e desnorteados (…) enredados em contradições e equívocos” (p. 249). Contudo, as promessas não podem abarcar todo o futuro. Devem sim, para manter seu comprometimento, ser como “pequenas ilhas de certeza” (p. 256).

Finalmente, além de imprevisível a ação tem uma outra característica importante. Não vou encher aqui de trechos a respeito porque o post já está grande demais. Basta dizer que toda ação é irreversível, que é impossível “desfazer o que se fez” (p. 248). Qualquer um, pensando um pouco em sua vida, pode reconhecer isto. Mas qual o remédio? Para Arendt, o poder de perdoar. Se não fossemos perdoados estaríamos sempre presos, como o “aprendiz de feiticeiro que não dispunha da fórmula mágica para desfazer o feitiço” (p. 249).

Anúncios

3 comentários em “Revelar-se e perder-se

  1. É aí, Rodrigo. Conheci tuas idéias através da ex-banda e confesso que foi um alívio ter encontrado esse seu recente projeto. Gosto de me perder em meio as tuas palavras, de misturar todos os significados e bagunçar tua mensagem -me refiro apenas a minha interpretação-, afinal, como você acaba de mencionar “Sua força de vontade e intenção não vão impedir que aquilo que você fala e faz seja completamente transformado, alterado, incompreendido.”

    Seus posts aqui são ótimos. Vou estar lendo, sempre. E comentando quando sentir vontade.

    Um abraço, até mais.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s