Por onde eu posso começar?

Agradeço as visitas no final de semana, mas já vou deixar um aviso: só “trabalho” neste blog entre segunda e quinta. Duro é escolher sobre o que falar na segunda-feira…

Bem, não dá pra deixar de lado o ato contra os ataques de Israel. Acordei cedo na sexta, um pouco ansioso. Afinal, nem lembro qual foi o último protesto que participei. Sem contar a Bicicletada, que pra mim é mais uma ação do que um protesto. Quer dizer… É um protesto. Mas é diferente. Você está reivindicando alguma coisa, mas ao mesmo tempo tem uma possibilidade mínima de intervir diretamente. É claro que a Bicicletada não muda uma legislação, não cria ciclovias ou bicicletários públicos. Então, fica ainda uma meta que só é alcançada sob a forma do protesto. Mas, por outro lado, o simples ato de pedalar e fazer isto em conjunto é uma forma de ação direta, quase uma desobediência civil. Você está reivindicando mais espaço para as bicicletas e está tomando este espaço a que realmente tem direito.

Em um protesto contra a guerra, como o que se faz aqui no Brasil em solidariedade ao povo palestino, qual é a possibilidade de uma intervenção concreta na realidade que se pretende transformar? Creio que este tipo de pensamento inibe a participação de algumas pessoas. “O que isto vai mudar?”.

Alguns murros em ponta de faca te fazem pensar nisto. Aquilo que você queria transformar no mundo continua o mesmo e suas próprias condições de vida pioraram. Se o tempo diminui nossa estatura, parece que o fato de estar envolvido com política – pelo menos esta política que não dá dinheiro – acelera o processo e te deixa ainda menor diante das outras pessoas. Aquelas que estão cuidando da sua vida, crescendo.

Então você sai de casa numa sexta-feira de manhã para participar de um protesto contra uma guerra que acontece muito, muito longe dos seus problemas. As bombas são lançadas e explodem longe daqui. A decisão de parar ou continuar os ataques não depende da sua opinião. Nem mesmo a ajuda humanitária depende de você. Sua solidariedade possivelmente não vai ter nenhum impacto visível. Não é uma enchente em Santa Catarina. A guerra é mais cruel e ainda menos compreensível que um desastre natural. Muito mais difícil de se intervir.

Uma guerra no Oriente Médio. O aumento da tarifa. O despejo de uma favela.

Você pode associar a imagem de Dom Quixote aos protestos, manifestações ou ações que buscam se posicionar nestas e em outras situações. Mas por que não a imagem de Davi contra Golias? A propósito, me lembro de uma camiseta de uma banda de hardcore punk paulistana com a imagem de uma criança palestina atirando pedras e a frase “Davi agora é palestino”. Talvez se nossa própria vida estivesse em risco não pensaríamos duas vezes antes de atirar uma pedra contra um tanque. Diante do massacre, não nos ocorreria perguntar “o que isto vai mudar?”.

Kanoute comemorando o gol de Luis Fabiano.
Kanoute comemorando o gol de Luis Fabiano.

A camiseta de Frédéric Kanouté comemorando o gol do Sevilha também não parou a guerra. Bem longe do bombardeio, ele não arriscou a vida. Só ganhou uma multa por ousar fazer do futebol um espaço político por preciosos segundos. Mas foi um ato vitorioso em uma época onde a grande preocupação dos atletas é colecionar Ferraris (pelo menos na Europa) e todos dizem a mesma coisa (pelo menos no Brasil).

O ato que aconteceu também em Curitiba foi vitorioso. Ele não parou a guerra, mas colocou cerca de mil curitibanos nas ruas como cidadãos e não como consumidores. Ele venceu uma batalha contra a apatia. Além do mais, a emoção de pessoas que tem parentes e amigos na região em conflito ou mesmo um forte laço cultural com o mundo árabe não deixou dúvidas sobre a importância de se expressar a revolta. Para que não siga acontecendo. Para que não aconteça jamais.

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6 comentários em “Por onde eu posso começar?

  1. Sensacional Rodrigo. Já disse uma vez, talvez você lembre, mas eu repetirei e não me importo com sua memória. Você me parece ser uma pessoa muito boa. Existem mil coisas que levaram você a ser como é hoje. Em dado momento, as letras das músicas influiram em quem eu sou hoje. Me considero bom, não ótimo, mas levemente satisfeito até onde cheguei. Contestar, agir, pensar. Está tudo aqui.
    Ultimamente tenho pensado. Um blog é também ativismo. Questões de subversão e oxigenação podem ocorrer também no mundo virtual. Claro, isso não é tudo, mas é muito. O manual delinquente juvenil daí de curitiba que o diga. Não se vc já leu, mas deve ter ouvido falar. Minha namorada diz que é ‘mais um dos meus amiguinhos tirados a revolucionários’. Não são meus amigos, sequer conheço Ari Almeida, mas existe uma grande diferença entre falar e julgar o que o outro faz, e realmente, deixar o conformismo e a apatia, levantar da cadeira e tentar ao menos, se permitir fazer algo.
    É uma situação difícil. Já disse, não acredito que nada mude extremamente, a não ser quando tudo for motivado pelo caos. Mas, por mim ao menos, quando estiver um pouco mais velhos, ou ‘endurecido’, não quero me ver lamentar por ter sido mais um que nada fez, ou me transformado no que criticava. Isto é ridículo.
    Boa sorte com o blog. Esse foi o primeiro que li, mas já favoritei.
    Você é meu preferido, sem viadagem (e sem preconceito também).

    Abraços da Bahia.

  2. A principal questão das passeatas é criar o debate na sociedade civil e/ou pressionar o Estado para alguma medida. No caso a palestina poderia ocorrer do Estado brasileiro posicionar-se contrário…como fez a venezuela, rompeu ligações diplomáticas com Israel e também disputar a hegemonia com o pensamento midiático nitidamente pró-israel…

  3. anderson,
    obrigado pelos elogios. mas eu não sou uma pessoa boa não. se estivesse mais perto você saberia. hehehe. de qualquer forma, fico feliz em saber que as letras que a gente escreveu tiveram algum impacto na sua vida.

    mas cara, de alguma maneira tenho que concordar com a sua namorada… não gosto dessa onda de “deliquência juvenil” que apareceu por aí travestida de política. só pra citar um motivo: isto não cria qualquer afinidade entre os “ativistas” e o mundo real. pelo contrário, é quase incompreensível para as “pessoas comuns” e as torna resistentes não apenas aquilo que o “deliquente” chama de “política”, mas também a tudo o que possa o ser realmente.
    felizmente não escuto mais falar dessa coisa de “caos político”. pra mim isso não existe. política é algo que acontece entre as pessoas, não um tipo de vale-tudo para chocar a sociedade.

    mas valorizo a tentativa. esta é a dificuldade de agir politicamente em nossos tempos sombrios.

    abs!

  4. fala, miguel!
    concordo que um mérito das passeatas é levar os problemas para a discussão pública e que uma consequência desta opinião pública ganhando peso é uma certa pressão sobre quem toma as decisões nesta sociedade hierarquizada (o Estado ou as corporações). mas vejo a discussão pública e a pressão sobre os chefões como duas coisas diferentes… e ás vezes se faz manifestações esperando que a pressão venha antes da discussão. não acredito muito nesta política pré-fabricada… o que voce acha?
    abs!

  5. Bem rodrigo, não estou defendendo os delinquentes. Falo em específico dos delinquentes daí de Curitiba, do blog e dos dois livros.
    Fica muito complicado julgar se a atitude deles tem uma finalidade sacana travestida ou não. Talvez alguma inocência, talvez alguma convicção.
    No entanto, eu acho que o terrorismo poético, a sabotagem, e outras artimanhas que tentam sabotar, explorar, surpreender (entre outras atitudes massivas) a máquina, são, na atual conjuntura, bem vindas.
    Veja bem um exemplo, e porque eu não concordo com algum julgamento sobre isso. Não estou exatamente defendendo a pessoa, mas a atitude, pelo menos em algum nível das relações (seja quem lê o manual, ou quem sofreu o ataque) valeu a pena.
    Já militei no MPL. Foi uma época boa, que muitas coisas podiam deixar de ser prioriadade e minha história de vida não tinha um peso intenso sobre minhas decisões. Dentre uma das manifestações, uma pessoa no ônibus veio me questionar: ‘você, que estuda nessa escola aí cheio de barão, tá reivindicando o que mesmo? Você sequer pega ônibus. Seu papai te leva em casa. POr favor, libere o trânsito que eu sim tenho que trabalhar.’ Lógico que foi sem essa cordialidade e alguns chingamentos no meio.
    Aí, outra pessoa que eu sequer conheço, que escreve um manual, e que, ao menos no que parece ser a intenção dele, nos inscritos, se importa com o destino da modernidade, toda a escrotidão da máquina, a apatia generalizada, a falta de perspectiva, a herança, a submissão. Esse cara aí, no fictício ou não, produz ataques contra algumas das pequenas, mas situações diretamente ligadas com tudo que acredito que nós, em algum momento, achamos não-boas, em algum estágio. Coniventes com o sistema, com a perpetuação, com a auto regulação.
    A discussão sobre quão influente as ações são, ou se realmente tem alguma influência numa população, é até plausível. Agora desconsiderar o humanano de alguém que despertou, ou algo na essência de alguém, que fez ele levantar e acabar por fazer algo (certo ou errado, mas com uma intenção boa de alguma forma, ou boa para a maioria) eu considero muito ruim, e de certo modo, um julgamento cego ou estrábico.
    As ondas de ataques, as consequências, faz parte de outra discussão. Mas eu, que me considero inserido nas consequências, e independente da falta ou da política mascarada por trás do livro, acredito que ele me fez perceber outras coisas, e só isso já valeu a pena.
    É como um professor. Em algum momento achou que poderia mudar o mundo e trouxe isso pra sala de aula. Depois começou a achar que não valia a pena ou que não conseguia. Um dia, abre sua caixa de e-mail, era um ex-aluno dela. Dizia exatamente isso. Ela conseguiu. O mínimo. Ela mudou algo. Não sei se entende o que digo.
    É algo que eu senti quando ouvi sonho que sonharam por nós. Consegue explicar essa história sem eu precisar dizer nomes ou detalhar. Mas acho que você entendeu, apesar da minha narrativa tempestuosa.

    Abraço.

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