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Personalidade, memória e inteligência artificial

In PRETEXTO on 26 de novembro de 2016 at 13:04

Sabotage acaba de lançar uma nova música. Ou quase isso. Em um projeto do Spotify, um sistema de inteligência artificial compilou os versos do rapper, que não está mais entre nós, criando a letra de “Neural”, tornada música pelo RZO e o Instituto. Também participaram dos projeto alguns dos familiares, amigos e produtores de Sabotage.

Lembra um episódio de Black Mirror chamado “Be Right Back”. A viúva usa um programa que se alimenta de antigos vídeos, fotos e telefonemas do marido para criar padrões de respostas que permitem interagir como se ele estivesse presente. A ideia – tanto a ficção da série quanto aquela que se realiza em projetos como esses “versos póstumos” do Sabotage – mostra um equívoco a respeito do que é a personalidade, mas também revela algo muito importante sobre o funcionamento da memória e dos afetos.

Be Right Back

Be Right Back

O equívoco diz respeito à ideia de que somos, antes de tudo, respostas programadas, de que nossas ações no mundo podem ser compreendidas a partir de certos padrões de comportamento. É verdade que nossas escolhas e aquilo que fazemos todos os dias durante anos acaba por moldar, de alguma forma, nossa personalidade. As escolhas formam o caráter e este torna-se reconhecível e, até certo ponto, previsível. Afinal, sabemos por experiência, quanto mais fazemos uma coisa, mais difícil é deixar de fazê-la. No entanto, cada uma dessas escolhas, cada uma dessas palavras e ações que, depois, transformam-se em padrão, são originariamente livres e, por assim dizer, arbitrárias. Esta liberdade é a fonte de onde brota uma personalidade autêntica, sobretudo aquela do artista. Não haveria Sabotage se ele não pudesse, a cada vez, criar um verso novo ou transformar os já criados. Por isso, não existe poesia de fato nessa repetição programada das máquinas. Não existe literatura feita por robôs. Não existe arte. Só existe um produto a ser comercializado. Posso estar errado. Mas é este erro, justamente, o que torna este texto autêntico. Um robô não erra. O que fica claro no episódio, quando a mulher percebe o que falta ao marido-robô.

Ainda assim, ela continua se relacionando com a máquina e a leva para viver no sotão da antiga casa, onde a família costumava guardar fotos e lembranças. Aqui se mostra o que há de autêntico no projeto de reconstruir a personalidade por meio de inteligência artifical: a ilusão da presença. Mas para isto não é preciso uma máquina. É assim, afinal de contas, que funciona nossa memória.

Abaixo, o mini-documentário produzido pelo Spotify.

“Tem nada pronto aqui. Tá tudo por fazer.”

In PRETEXTO on 11 de maio de 2013 at 16:23

Ainda está para ser escrita a história do punk rock curitibano nos anos noventa. Uma história de interesse bastante restrito, é verdade, mas valiosa justamente por sua posição marginal, seu pequeno alcance – comparada não tanto às outras cenas brasileiras, mas especialmente àquelas do idioma anglo-saxão que inspirararam o mundo inteiro – e pelo relativo fracasso de suas maiores promessas; limites e decepções que não inibiram, mas, pelo contrário, reforçaram o inusitado de suas relações e a intensidade de seus feitos. Portanto, se um dia alguém decidir contar essa história, deve estar atento ao que as pessoas tentaram fazer – e ao modo como tentaram, isto é, como responderam a situação em que estavam lançadas – e não ao que porventura não conseguiram.

Mas talvez esta recordação seja possível apenas quando deixarmos de sentir os efeitos do que poderá, um dia, ser tomado como o momento inaugural de uma certa música e de uma certa prática (que não tem tanto valor pelo pouco que inventou quanto pelas formas como repetiu). Quando não houver mais punk rock em Curitiba, ou quando o presente parecer apagado e insosso, poderemos talvez ter um interesse renovado pelo que foi feito antes. Mas este ainda não é o momento.

O Water Rats é um exemplo do que mais vigoroso e re-produtivo ainda existe na cidade. Uma música que torna-se extremamente refinada de tanto tentar ser crua, lembrando bandas como Circle Jerks e Black Flag, com uma pitada de Mudhoney e Nirvana. Eu poderia dizer que ela é formada por membros e ex-membros do Boi Mamão, Mandioca Radioativa, Sugar Kane, Swallow the Waffle… Mas esta é outra história. O importante é que os caras estão por aí, com alguma coisa na cabeça! E indicados ao prêmio de revelação da Revista Dynamite. Vota aí!

Outro que continua por aí é o bom e velho, incansável e impagável poeta, Oneide! Com quem eu já tive o imenso prazer de comemorar um aniversário comendo bolo de essência de baunilha do Mercadorama com Heineken quente numa manhã. Para poucos! Aliado a jovens empolgados, nosso maior cantor romântico consola a multidão de fãs carentes do lendário Pelebroi Não Sei?. Eu mesmo estou ansioso por acampanhar o CroonerDee ao vivo, balançando meu indicador direito com um copo de cerveja apoiado no peito, bem perto do coração!

Para encerrar, uma da nova geração. O Under Bad Eyes é, para mim, a mais grata surpresa da cidade desde o último e derradeiro disco do Odyssey. Eles seguem, aliás, o mesmo caminho: hardcore rápido com letras amargas, como nos ensinou o American Nightmare/Give Up The Ghost. Músicas como “A pessimistic song” lembram ainda Lifetime ou Kid Dynamite e, talvez por isso, algumas pessoas insistem em chamar isso de hardcore melódico. Um erro grosseiro, na minha opinião. De todo modo, eu espero sinceramente que eles sejam mais do que uma boa banda que lançou 6 músicas e acabou. Algo que a gente também sabe fazer muito bem!

O julgamento de Tom Zé

In PRETEXTO on 26 de abril de 2013 at 21:10

Divulgação / Anderson Yagami

Divulgação / Anderson Yagami

Todo mundo sabe que Tom Zé é capaz de tirar leite de pedra e música de sucata. Não é de se surpreender, portanto, que ele tenha feito uma deliciosa limonada com o azedo das mais recentes críticas. “Tribunal do Feicebuqui” é a reunião, transformada em música, do que se disse contra o próprio artista nas redes sociais, em mais uma edição de sua Imprensa Cantada. A acusação? Ora, o homem colocou sua voz para narrar uma propaganda da Coca-Cola, aquela que fala da “Copa de todo mundo”, bonita e enganosa como toda peça publicitária do refrigerante mais famoso de todos os planetas e com um apelo extra ao evento que vem despertando todo amor e ódio, orgulho e desprezo do povo brasileiro.

A Copa é hoje, por si só, um assunto espinhoso. A alegria diante da oportunidade de sediar um acontecimento de proporções globais, talvez o mais importante deles, o qual esperamos ansiosamente a cada quatro anos, contrasta com um senso comum que não tem nada de ingênuo e que sabe: nós vamos pagar a conta. Não se fala na Copa sem lembrar as obras de infraestrutura superfaturadas e que duvida-se estarem prontas em tempo, as licitações nebulosas que vão entregar os estádios para a iniciativa privada, as desapropriações bem pouco democráticas (é mais fácil fazer uma Copa sem democracia, disse recentemente um bam-bam-bam da Fifa) que “limpam” os arredores dos estádios para fortalecer a especulação imobiliária, além, é claro, das acusações que revolvem a história do presidente da CBF (que absurdamente acumula também o posto de porta-voz do megaevento no Brasil), José Maria Marin, e seu envolvimento com a ditadura.

Meter-se acriticamente nesse enrosco é já uma tarefa corajosa (ou prova de uma ignorância completa, o que certamente não é o caso de Tom Zé), especialmente se a pessoa tem pouco a ganhar com tais operações fraudulentas. Mas não para por aí. A coisa fica ainda mais arriscada quando se associa uma biografia reconhecida e apreciada como símbolo de uma contracultura, exemplo de independência e subversão artística, a uma marca que é tudo menos isso. Bebedores ou não-bebedores do líquido preto, todos sentimos sua onipotência. Ninguém dúvida que sua logo seja mais poderosa que muitos simbolos religiosos e mais conhecida que a bandeira de algumas dezenas de países.

Mas embora isso nos ajude a entender o motivo de tanta indignação, não se trata aqui de fazer coro às acusações. Não me julgo em posição tão neutra, nem tão pura. Eu, que me incluo entre os brasileiros divididos entre a expectativa e o receio, o orgulho e o desprezo pela Copa; eu, que dou dinheiro para a empresa de bebida (que vende até água) sem nunca lhe tirar um tostão… Sem dúvida, é desconcertante ver um gigante como Tom Zé emprestar sua voz e sua imagem para vender um refrigerante que se vende sozinho e para pintar uma imagem da Copa em que não existe exclusão nem roubalheira. Lembro uma carta de Tom Waits ao The Nation, respondendo a um artigo de John Densmore, do The Doors, em que ele dizia: “Quando era criança, se via um artista que admirava fazendo um comercial, pensava, ‘Que horrível! Ele deve realmente estar precisando do dinheiro’”. Pois tudo o que as corporações querem com isso, continua Waits, é sugar sua audiência, credibilidade e energia.

Mas “Zé a Zero”, uma das cinco músicas do álbum disponíveis para download, inverte a perspectiva sobre quem está divulgando quem: “É coco colá / Aqui copa coca acolá / Fazendo propaganda do Tom Zé”. E o encarte que pode ser baixado junto com as músicas traz um divertido texto introdutório em que se diz que o cachê da propaganda será doado à Litero Musical 25 de Dezembro, escola de música de Irará, cidade natal e sempre renascida em suas músicas. Não se pense, no entanto, que o álbum constitui uma espécie de defesa, muito menos um pedido de desculpas. Nem quero eu desviar o assunto para a discussão sobre “o destruir o sistema por dentro”, que de tão desgastada não diz mais nada e não percebe o óbvio: tudo o que fazemos está dentro; o “fora daqui” não existe agora.

Meu breve comentário sobre o disco visa apenas chamar a atenção para sua dimensão criativa e produtiva, o que, como disse no início, não é surpresa. Cantar a própria vida, torná-la poética, fazer dela um tema, uma questão, a fim de compreendê-la, transformar em instrumento aquilo que é mais cotidiano, são todos exercícios presentes na obra desse artista. Com “Tribunal do Feicebuqui”, Tom Zé não pretende sair da enrascada em que as redes sociais lhe meteram, mas cantar esta situação, ou seja, produzir nela e sobre ela. Um cantar honesto, que assume as críticas e os elogios na mesma medida; que assume-se, portanto, sujeito tanto a um quanto a outro; impuro, misturado, contraditório, falso e verdadeiro como toda a vida e, porque não, como toda arte.