Conclusão
Contra a cética opinião de que não há um princípio natural da moral, mas apenas uma disposição para o egoísmo, Hume não contrapõe uma medida absoluta do certo e do errado, um dever que se impõe ao homem por sua razão ou por qualquer outro meio. Ele salva o exercício da moral na medida em que pretende explicar seu aparecimento, reconhecendo na simpatia o princípio a partir do qual se constituem valores sociais que, apesar de inicialmente restritos, podem se ampliar regularmente mediante a convenção ou o acordo dos homens. Este acordo nada mais é que “uma percepção de interesse comum, percepção que cada qual experimenta em seu próprio peito, que observa em seus companheiros e que o conduz, em colaboração com outros, a um plano ou sistema geral de ações que tende à utilidade pública” (IPM, apêndice 3, 7).
Não é, portanto, uma regra moral previamente estabelecida o que torna possível a sociedade, mas justamente o contrário. Isto, segundo Capaldi, porque Hume não concebe o homem como um sujeito pensante, isolado diante de um mundo de objetos como queria Descartes. Ele pensa os homens “como agentes, como criadores, imersos ao mesmo tempo num mundo físico e num mundo social junto com outros agentes” (Capaldi apud Conte, 2006, p. 144). O mundo contra o qual a dúvida cartesiana irá se colocar é antes constituído como um mundo comum e partilhado, assim como a moral contra a qual Mandeville levantará suspeita é (ou sempre pode ser) constituída na relação entre os homens, como uma ampliação dos nossos sentimentos particulares, um ponto de vista comum formado pela convergência dos nossos olhares.
Corrijo minha percepção de um objeto ao reconhecer que sua aparência depende da minha posição e que, para vencer possíveis desacordos no diálogo a seu respeito, devo considerar outras perspectivas. Da mesma forma, assumir que os valores formados naturalmente em nós dependem de uma posição nos impele a buscar meios de corrigir esta perspectiva pela consideração de valores alheios. A constituição de valores morais pode então se dar de maneira regular na medida em que abandonamos nosso ponto de vista particular em direção a outro mais geral. E se os impasses a respeito da moral são conseqüência de “um conhecimento imperfeito sobre o caso em questão; ou devido à possibilidade de distorcer os fatos se não assumimos um ponto de vista imparcial”, sua solução passa pela “tentativa [de] assumir um ponto de vista geral e estável, com tendências voltadas para o acordo” (Conte, 2006, pp. 138-139).
Enfim, a moral humeana não é universal no sentido forte ou dogmático da palavra. Vício e virtude se dão de um ponto de vista comum, que se estende para um maior número de pessoas, mas não para uma totalidade. Não há um único ponto de vista geral. Antes de ser uma falha que impede um acordo total, trata-se para Hume de uma sábia disposição natural. A preocupação com uma comunidade próxima o bastante para acolher sua participação dá ao homem a possibilidade de agir efetivamente pelo bem da humanidade. Enquanto as “observações vagas e indeterminadas sobre o bem de uma espécie” não podem oferecer “um objeto convenientemente delimitado sobre o qual a atividade dos homens pudesse se exercer” (IPM, 5, nota 6).
Bibliografia
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