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Antônio Lopes e as máscaras do futebol

In PRETEXTO on 18 18UTC Agosto 18UTC 2009 at 04:54

Muito se tem falado sobre a volta do delegado ao rubro-negro paranaense. São duas as principais abordagens: as que valorizam reformas no esquema tático e as que exaltam o comando linha-dura do treinador. De fato, só isto pode explicar a nova fase já que não temos nenhum grande reforço em relação ao time que tomava goleada dentro e fora de casa.

Na realidade, ou seja, dentro do campo as duas leituras são inseparáveis. Nem o esquema tático teria sucesso sem a autoridade de quem o propõe, nem a autoridade se manteria sem fundar algo concreto, sem dar resultado. Mas isto é tão óbvio quanto à maioria das coisas que se diz sobre futebol. Ainda assim, vamos tentar separar as duas coisas, ignorar o aspecto tático e falar apenas da postura da equipe. Tendo em mente que isto é possível apenas analiticamente, ou seja, no comentário, na corneta, no texto e de jeito nenhum dentro do campo.

A mudança na postura da equipe começou com uma atitude da diretoria e não do treinador: o afastamento de cinco jogadores do elenco. O assunto é tão importante que apareceu novamente na entrevista de Lopes, depois da vitória de domingo. “Esse time não tem vedete que quer aparecer mais do que os outros”, disse ele em possível alusão aos afastados. E o que se ouve nas arquibancadas sobre estes jogadores? Justa ou injustamente, a voz da maioria não hesita em chamá-los de mascarados. Esta é uma gíria comum no futebol. Mascarado é aquele jogador que joga pra si e não para o time. Mais ainda, é o cara que simula, finge, faz de tudo pra parecer algo que ele realmente não é.

Parece brincadeira, mas esta idéia de que existe uma diferença entre ser e aparecer tem mais de dois mil anos. E aqui vou me aventurar mais uma vez na tarefa de relacionar coisas que não tem lá muita relação: futebol e filosofia.

Platão foi um dos primeiros a pensar que se podia separar a coisa mesma de suas aparências, o modelo original de suas cópias. Adaptando bruscamente o platonismo à linguagem do futebol, digamos que para ele existia o jogador de futebol e os pernas-de-pau que eram uma imitação desse cara. Mas este “cara” não era de carne e osso. Ele era antes a idéia de um jogador de futebol… Aqui a coisa começa a complicar. Digamos então que o Pelé é simplesmente a maior e melhor imitação da idéia de um jogador de futebol que já existiu. Deu pra entender?

Tudo o que rola no mundo, para o velho Platão, é a imitação de uma idéia. Acontece que algumas coisas são cópias próximas do original e outras são cópias da cópia, da cópia… ou seja, um simulacro, uma falsificação. A boa cópia se parece com a idéia original, não foge da linha, obedece ao modelo. Enquanto a máscara do simulacro se distancia e de tão longe ninguém mais consegue compará-la com o original pra saber se parece ou não parece com a idéia que devia copiar. A máscara tenta passar uma imagem e acaba se mostrando uma ilusão. É mais ou menos neste sentido que nós xingamos o cara de mascarado, não é? Assim, reduzido a uma aulinha sem vergonha, fica até fácil entender Platão!

Acontece que apareceram uns caras querendo mexer nisso tudo e virar o platonismo de cabeça pra baixo. Como estou empolgado com explicações esdrúxulas, é como se mudasse o esquema tático que a humanidade jogou durante séculos. O principal destes técnicos foi um bigodudo chamado Friedrich Nietzsche. Para ele, o simulacro não é mais uma cópia mal feita, mas uma criação, uma novidade. Em outras palavras, não existe uma idéia original do que é ser jogador de futebol a qual todo mundo deve copiar. O que existe são várias criações e recriações que aparecem dentro de campo e convencem ou não pela sua força, ousadia, talento.

O mascarado – neste outro sentido – é aquele que mostra competência não para copiar o modelo, mas para criar um novo. A máscara é “um devir-louco, um devir ilimitado (…) hábil a esquivar o igual, o limite, o Mesmo ou o Semelhante: sempre mais e menos ao mesmo tempo, mas nunca igual” (Deleuze, G. “Platão e o Simulacro”. Lógica do sentido. São Paulo: Perspectiva, 2000). Não é algo deste tipo o que existe de mais apaixonante no futebol? Afinal, quem espera ver sempre o mesmo quando vai ao estádio? Os mesmos dribles, as mesmas jogadas… Pelo contrário, o que arranca aplausos e sorrisos, além do gol, é aquilo que desconserta, quebra padrões e desenha no reto espaço do campo um novo jeito de jogar futebol. Por mais antigo que sejam todas as fórmulas deste esporte.

Tão difícil quanto reverter o platonismo no campo da filosofia seria pretender mudar a noção de “mascarado” no meio futebolístico. Nem de longe existe tal pretensão! A brincadeira aqui é pensar que a mudança de postura que trouxe de volta o Furacão é uma simulação, quer dizer, uma boa simulação que fez os mesmos homens que vimos como pernas-de-pau atuarem agora como jogadores de futebol. A nova máscara que Antônio Lopes trouxe e distribuiu por aqui fez a torcida acreditar que tem um time. Que o baile continue!

Aqui não!

In PRETEXTO on 26 26UTC Maio 26UTC 2009 at 23:06

Na sua coluna de hoje na Furacao.com, Juarez Villela Filho comenta uma música cantada por parte da torcida atleticana no jogo contra o Náutico. Não estou conseguindo escrever a respeito de tudo o que penso, por isto divulgo aqui o trecho da coluna que trata do assunto e também o meu comentário, que é muito mais um desabafo.

Episódio 1 : preconceito

Posso servir para muitas coisas, mas para hipócrita não tenho muito o perfil. Fui o denunciante do absurdo caso de racismo ocorrido no Atletiba do Couto Pereira no primeiro turno, denuncia essa que praticamente passou em branco para o policiamento e para a imprensa, sempre muito benevolente com as coisas acontecidas no campo do centenário clube alviverdedecamisabrancaedecalçãopretoemeiacinza.

Pois bem, no final da primeira etapa parte da torcida passou a entoar uma nojenta música contra os nordestinos, personificados no valente time do Nautico. Burros, ignorantes ao ponto de não sacarem que até aquele momento ganhávamos por 2 X 0 com dois anotados pelo Wallyson, que na mente brilhante desses seres deve ser catarinense decerto! Nada, absolutamente nada justifica um gesto de racismo, de preconceito seja ele qual for e por isso mesmo após o jogo procurei tanto o vice Suke como o Presidente da Fanáticos, Julião da Caveira para saber sobre o ocorrido. Ambos recriminaram a atitude, prometeram procurar saber de onde partiu o grito e afirmam não estarem na galera naquele momento e mostraram claramente seu descontentamento com o ocorrido.

Menos mal. Uma torcida ligada a um clube popular, uma torcida que canta o hino nacional, que defende a pátria, que sempre levou o pavilhão do Brasil nas disputas fora do país, não poderia dar um exemplo tão ruim como este. Confio que jamais se repetirá.

Juarez Villela Filho

Juarez, fico muito feliz por você ter escrito esta coluna citando a extrema estupidez de parte da torcida que cantou esta música nojenta, preconceituosa, racista!

Eu nunca assisto os jogos na Fanáticos, mas por coincidência, neste dia, cheguei atrasado e resolvi ficar por ali para sentir um clima diferente. O que senti foi um extremo mal estar. Indescritível. Aquela música doeu na minha alma. Alma africana, sim, e nordestina. Que a cada batida de tambor ressoa os antepassados que me trouxeram até aqui. Que a cada palavra desgraçada como aquelas trouxeram também a sua dor por tamanha ignorância ainda presente. A dor de uma violência que é tão contundente quanto uma bomba e que deve ser punida da mesma maneira.

Olhava para os lados e via uma piazada com traços como os meus – africanos, mulambos, crioulos, ou seja, traços brasileiros como os de todos nós – ignorantes da sua própria condição. Pensei exatamente o que você escreveu: de onde eles pensam que vem o Wallyson? E o Alan BAHIA? E o Ziquita?

Quase sai do estádio. Mas esfriei a cabeça no intervalo e voltei para o meu lugar, lá do outro lado do estádio. Ao lado do meu pai, filho de nordestino. Não comentei nada com ele e espero que ele não tenha escutado o que saiu daquelas bocas burras. Mas fiquei ali desconfiado, pensado comigo mesmo: será que todo mundo neste estádio pensa assim? Será que metade pensa? Será que o futebol é mesmo o lugar deste tipo de comportamento desumano?

De verdade, acho que não. O futebol – em especial o futebol brasileiro – é exatamente o contrário. E como tal não pode tolerar NENHUM tipo de manifestação deste tipo. Isto inclui, obviamente, o nacionalismo exacerbado que alguns querer trazer para o meio das arquibancadas. Afinal, de onde será que eles pensam que vem o Valencia? E o Julio dos Santos? E o Ferreira?

Dois toques

In PRETEXTO on 26 26UTC Fevereiro 26UTC 2009 at 15:55

Quem acompanha meu posts já deve ter percebido que a lentidão está entre meus maiores defeitos como “blogueiro”. Estipular prazos nunca funcionou direito pra mim. Mas aos poucos estou aprendendo que a coisa funciona melhor assim: aconteceu ontem tem que publicar ontem. Para tanto, é preciso sentar e começar. Pensar um pouco ajuda, mas só desenhar mentalmente o assunto não funciona. Não dá pra ficar prendendo a bola. O tempo te rouba a oportunidade e ninguém vai gritar “ladrão!”.

Em sua última coluna na Carta Capital, Thomaz Wood Jr. falou sobre a procrastinação. O famoso hábito de “empurrar com a barriga” foi objeto de pesquisa científica que apontou o seguinte: costumamos adiar a execução de uma tarefa que parece mais distante e abstrata. A dica dos pesquisadores é “apresentar certas tarefas de forma mais detalhada e objetiva”. O problema, acredito, é que detalhe não rima com objetivo. Como uma das infelizes pessoas que adoram chamar reuniões e discutir tudo em seus pormenores, estou em posição confortável para admitir que planejar demais deixa tudo mais distante e abstrato, ou seja, fácil de ser adiado.

Tanto pior se as intermináveis reuniões são uma conversa entre eu e eu mesmo. Pois ainda mais do que a conversa, o pensamento carrega esta terrível sina de ser intangível, incerto e inútil do ponto de vista prático. Hannah Arendt, ao defender a tarefa do pensamento nas considerações morais, também definiu sua inextricável consequência: “quando começamos a pensar em qualquer coisa, interrompemos tudo o mais” (A Dignidade da Política, Ed. Relume-Dumará, p. 149). Ora, definir os detalhes de uma ação é pensá-la exaustivamente e, portanto, se afastar dela. Não me entendam mal. Pensar é preciso e cada vez mais necessário em um mundo onde tudo se faz no modo automático. Mas se existe o momento (e por que não a tarefa) da ponderação, também existe o momento de agir sem planejar. Ninguém vai negar que existem coisas que precisam ser feitas quase sem pensar. Entre elas, o futebol.

Não prender a bola foi um dos méritos do time do Atlético na partida contra o Iguaçu. Basta ver os dois gols do Marcinho para entender o que estou falando. No primeiro, a bola atravessou todo o campo e chegou até a rede adversária na base do “dois toques” – um deles a letra do garoto Renan. No outro, depois de boa jogada individual de Wallyson (driblar é diferente de prender a bola e também exige uma boa dose de “irracionalidade”), Renan pegou o rebote e deu um tapa para o novo camisa 10, que arrematou de primeira.

A semana do Atlético teve duas notícias importantes: a saída de Ferreira e a entrada de alguns garotos da Copa São Paulo no time principal. Se a promoção dos guris deixa a torcida animada, a atuação de Marcinho serviu para tranqüilizar a torcida depois do empréstimo do colombiano para o Dallas depois de quatro anos sem títulos na Baixada. Apesar do carinho da torcida, acho que desta vez não vai ficar saudade. Se não houve jogada de craque, sobrou objetividade. Além dos gols, Marcinho jogou com velocidade, coisa que ainda falta para o Atlético. Pela esquerda, Márcio Azevedo também voltou muito bem e ajudou a fazer a bola correr. Mas o destaque na minha opinião é mesmo o outro cabeludo, Renan, que tem boas chances de ganhar a vaga ao lado do Valência. Tenho birra de dois volantes, mas dou aqui o braço a torcer. Nem precisa pensar muito.

Experiências

In PRETEXTO on 12 12UTC Fevereiro 12UTC 2009 at 16:12

Publicado em FUTEPOCA

Como todos os regionais, o Campeonato Paranaense vive um momento de experiências e mudanças.

No Alto da Glória, não existe uma só pessoa que não chore ao ver os gols do Keirrison no Palmeiras. O Coritiba é o pior ataque da competição com apenas 2 gols em 4 partidas. Agora o atacante Hugo vai ter sua chance contra o Paranavaí, depois de marcar o gol da vitória contra o Foz. Além desta experiência, o time sofre três alterações: Ariel, Paraíba e Dinélson estão no Departamento Médico. Melhor para Renatinho, meia da base que foi emprestado ao Londrina no ano passado e agora tem a oportunidade de compor o elenco principal do Coxa. Outro atleta da base deve retornar para ajudar o time. Tiago Real, que disputa o Paranaense pelo Iguaçu, deve retornar como opção para o lugar de Marlos, outra revelação que migra para “os grandes” depois de Maio.

Também por falta de gols, Abuda deixa o Paraná Clube. Sem marcar durante cinco jogos, o ex-corinthiano rescindiu o contrato e deverá disputar o Paulistão pelo Marília. Os paranistas esperam agora a estréia do atacante Osmar e do lateral-esquerdo Fabinho. Além do retorno do zagueiro Luis Henrique, que pode tomar o lugar de Jonathas se Paulo Comelli decidir manter o atual esquema de dois zagueiros. Diante de tantas possíveis alterações, o que já mudou no Paraná foi o salário e a multa rescisória do meia Elvis, de apenas 18 anos e destaque neste início de ano.

Fora de campo, o tricolor quer ainda mudar a arbitragem. Depois da derrota contra o Londrina dentro de casa (1×2), o clube protocolou junto à Federação Paranaense de Futebol (FPF) um pedido de afastamento do trio que apitou a partida e anulou dois gols do anfitrião. Parece que a Federação já havia decidido pelo afastamento do bandeirinha José Amilton Pontarolo, mas isto não é o bastante na opinião de Aurival Correia, presidente paranista. Além da punição, o Correia apela: “Não façam mais laboratórios conosco”.

Enquanto isto, tudo vai “muito bem, obrigado” para o Londrina, que fez 2×1 no Foz do Iguaçu. Com a segunda vitória fora de casa, o tubarão alcançou os 10 pontos e a terceira colocação. Pertinho de Londrina está a cidade de Maringá. A rivalidade entre as duas estrelas do norte é tradicional dentro e fora de campo. Mas neste ano, os maringaenses ficaram sem time e o campeonato sem o clássico tubarão x galo. Agora surgem boatos de que o J. Malucelli – futuro Corinthians do Parque Barigui – pode se mudar para Maringá. O presidente desmente a mudança imediata, mas confirma que o time deve mandar jogos no interior. Provavelmente serão como testes da recepção do novo produto pelo público consumidor, para ver até onde pode chegar a expansão do negócio. Diante da hipótese, fica a pergunta: para quem vão torcer os milhares de corinthianos que vivem em Londrina?

Também perto de Londrina, mas na tabela do campeonato, está o Toledo. O time – que tem uma parceria muito mais digna com o São Paulo FC – empatou com o Atlético nesta quarta-feira e mostrou que tem boas chances de se manter nas primeiras colocações. Apesar de Rafael Moura afirmar que o Atlético ficou “abaixo da crítica”, a verdade é que o jogo foi difícil e do outro lado tinha um time muito bem montado e com alguns destaques individuais, caso do veterano Marcos Aurélio (ex-Flamengo), dos jovens Rafael, Bruno, Hernani e principalmente do goleiro Fabiano, principal responsável pelo empate.

As experiências do Geninho já estão mostrando alguma coisa. Como o próprio técnico afirmou, “a zaga é titular, o Valencia, o Ferreira e o Rafael pelos gols que fez também”. As duas alas seguem em versão beta. Zé Antônio foi bem ontem pela direita, mas apresenta defeitos típicos da improvisação. Já Alex Sandro entrou meio desligado. Nas suas costas o Toledo fez suas principais jogadas no primeiro tempo e quando subiu pro ataque o moleque foi meio disciplicente. Deu pra ouvir aqui de casa o Geninho gritando: “Joga sério! Você não está sozinho”.Ele melhorou, mas não o bastante pra tomar o lugar do Netinho. Pelo meio, apesar de uma apresentação mediana contra o Toledo, acredito que Marcinho seja o titulo no lugar de Julio dos Santos.

Agora o furacão tem duas partidas em casa. Primeiro o Nacional de Rolândia e depois o Paraná. Com duas vitórias o time dá largos passos em direção ao primeiro lugar nesta fase classificatória, o que significa dois pontos de lambuja na próxima fase. A outra vantagem, esdrúxula, foi alterada ontem pela FPF e a Rede Globo. É isso ai mesmo: o regulamento do Campeonato Paranaense foi alterado assim, no meio da competição. O artigo 9 previa que o time campeão da primeira fase jogasse todos os jogos em casa. Ok, era uma norma ridícula. Mas isto é hora de experiências?

Futebol Paranaense: para o Zênite ou Nadir?

In PRETEXTO on 3 03UTC Fevereiro 03UTC 2009 at 12:52

Depois de três rodadas dá pra sacar que teremos uma boa disputa no Paranaense 2009. No meio da semana, durante a transmissão de Iguaçu (de União da Vitória) x Coritiba, Raul Plasmann destacou a qualidade que vem apresentando algumas equipes do interior. Sem dúvida a vontade de aparecer marca a participação de clubes com calendários que se resumem à disputa estadual. Mas além de garra e correria, aqui e ali aparece também um bom planejamento tático e alguns destaques individuais. Mas esta não é uma grande novidade. Nós é que esquecemos muito rápido das coisas ou temos esta mania muito paranaense de desvalorizar o que aparece por aqui.

Naquele jogo, o Iguaçu deu uma canseira no Coxa e se a zaga tivesse dado um chutão ou evitado o cruzamento do Marlos aos 48 do segundo tempo, o clube da capital não estaria hoje nem entre os dez na tabela. Aliás, na rodada seguinte o Iguaçu (que fez apenas dois jogos) conseguiu seu primeiro pontinho contra o J. Malucelli e impediu que o time alcançasse o Atlético na liderança. Com o empate no clássico deste domingo (Coxa 0 x 0 Atlético), o rubro-negro garantiu o primeiro lugar com dois pontos de vantagem sobre o rival. Mas entre eles estão Foz do Iguaçu, J.Malucelli e Toledo. Logo atrás vem o Nacional, Cianorte (também com dois jogos), Engenheiro Beltrão e só depois o Paraná Clube.

A próxima partida do Atlético é contra o J. Malucelli. E não adianta querer mudar de nome, porque vai ser sempre o Malita, o Jotinha, irmão mais novo, chato pra caralho. Mas agora, pra piorar, aquele irmão rebelde que não quer ser ele mesmo, foge de casa e muda de identidade. Ora, eu sempre achei legal você ter o direito de mudar de nome quando alcança a maioridade. Afinal, ninguém merece a má sorte de ser batizado com um nome escroto. O nome de J. Malucelli é sem dúvida um dos maiores erros de batismo da história do futebol mundial. Seria absolutamente compreensível se este fosse o único motivo da mudança. Afinal, como é que você pode conquistar torcedores para um clube que carrega o sobrenome de uma família? Até ditadores como Franco e Berlusconi foram espertos o bastante pra comandarem clubes de futebol sem emprestarem suas alcunhas.

O Malita já tinha uma tarefa difícil: ser o quarto maior clube de uma cidade. É só olhar para a Portuguesa em São Paulo ou o Vasco no Rio (gostou, Yuri? hehe). Que força de vontade, que disposição, que empenho para manter um clube e uma torcida nestas condições. Mas os dois exemplos ainda carregam toda a tradição da colônia portuguesa. E o Malita? Bom… Agora ele quer carregar a história de um dos maiores clubes do país. Assim, de lambuja. De uma hora para outra, deixar de ser um time quase sem apoio para se transformar em uma paixão. O Corinthians Paranaense. Mas não é bem assim… Aqui em Curitiba, pelo menos, o que estão conseguindo é perder a simpatia dos rivais.

Li em algum lugar o presidente Malita chorando porque o time não tinha torcida. Mas se eles tem a estrutura, porque não investir em uma parceria e montar um time realmente forte no interior? Lá, infelizmente, a maior parte de quem gosta de futebol prefere acompanhar apenas os times de São Paulo e Rio de Janeiro. Isto ficou evidente na pesquisa que aponta o Corinthians como clube de maior torcida no Estado. Assim… de boa… é uma vergonha. Entre as dez maiores torcidas, apenas três são do Paraná. Sei que a informação é antiga, mas olhe a lista:


1 – Corinthians, 12,5%
2 – Atlético-PR, 9,6%
3 – Palmeiras, 7,6%
4 – Coritiba, 7,5%
5 – São Paulo, 6,5%
6 – Flamengo, 6,2%
7 – Santos, 4,3%
8 – Paraná, 3,2%
9 – Grêmio, 2,6%
10 – Internacional, 1,4%

Considerando que os números que apontam os três clubes de Curitiba são, em sua grande maioria, de curitibanos, fica evidente que pelo menos no futebol o interior do Paraná não é paranaense. E onde é que estão os clubes do interior? Não é brincadeira não! Em Londrina, segunda maior cidade do Estado com mais de 500 mil habitantes, o clube da cidade fica atrás de cinco clubes paulistas e cariocas na preferência dos torcedores. O diretor de marketing do Corinthians, Luís Paulo Rosemberg, que classificou o negócio como uma “grande tacada mercadológica”, expôs com todas as letras o provincianismo do nosso Estado: “O norte paranaense é paulista”.

Não pensem que estou defendendo algum tipo de bairrismo ou segregação. De jeito nenhum. Direita pra mim é apenas uma posição dentro do campo, não na esfera política. Mas a subserviência é uma posição política. E quem invoca a posição de “democrático, liberal e livre de preconceitos” para defender um negócio cujo único objetivo é o lucro, está de fato defendendo apenas um “direito comercial”. Mas ok, pra terminar, vou dar o braço a torcer. O J. Malucelli nunca foi nada diferente disto, quer dizer, como Linhares Junior defendeu hoje em sua coluna, um “clube” que nasceu pra ser uma empresa, revelar jogadores e dar lucro para seus empresários. Eu ainda acho que embora o futebol possa ser comprado e vendido, não se pode dizer o mesmo da relação de uma torcida com seu clube ou sua cidade.

Uma coisa liga a outra

In PRETEXTO on 24 24UTC Janeiro 24UTC 2009 at 03:09

Olha só como são as coisas. O último texto que publiquei por aqui também foi publicado no Futepoca, um blog que admiro muito, assim como as três coisas que ele contêm: futebol, política e cachaça.

Um pouco antes do meu você encontra um texto sobre Roberto Ribeiro, ex-goleiro como Camus e que também trocou as luvas pelas letras. No seu caso, de samba. A publicação do Marcão me deu pretexto para vasculhar o Youtube e além de Roberto Ribeiro acabei cruzando com Antônio Candeia Filho e com este documentário de Leon_Hirszman sobre o samba de partido alto.

Se você gosta de samba, vale a pena assistir as três partes. Se não gosta, apesar de ser ruim da cabeça ou doente do pé, pode dar uma lida na história de Candeia e de seu Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo.

Mais um texto técnico

In PRETEXTO on 23 23UTC Janeiro 23UTC 2009 at 01:18

O treinador morreu, de boca fechada, quando o jogo deixou de ser jogo e o futebol profissional precisou de uma tecnocracia da ordem. Então nasceu o técnico, com a missão de evitar a improvisação, controlar a liberdade e elevar ao máximo o rendimento dos jogadores, obrigados a transformar-se em atletas disciplinados. – Eduardo Galeano

Nunca assisti ao treinamento de um time de futebol profissional. Ou melhor, assisti alguns treinos do Londrina na infância. Mas tinha lá meus 12 anos e aparecia no Estádio do Café muito mais pela graça de matar aula do que por qualquer interesse no treinamento em si. Além do mais, não entendia patavinas sobre esquema de jogo. Pra mim era nós contra eles. Acabou.

Ando pensando bastante nesta carência da minha formação, especialmente quando tento montar um time na cabeça. Você pode dizer que isto é problema do técnico de futebol, como meu computador é problema do técnico em computação e minha bicicleta é problema do bicicleteiro. Mas é sempre bom entender e conhecer um pouco melhor essas coisas todas com as quais a gente tem uma ligação tão íntima e diária, ainda que no caso do futebol o conhecimento signifique pouco poder efetivo. Sendo menos do que um cronista esportivo de relativa audiência, o máximo que a gente vai conseguir é assunto pro boteco. Mas já está valendo.

Acompanhando um programa esportivo algumas semanas atrás, ouvi que o Geninho pretendia montar um time no 4-4-2. Ainda estava no ar a novela sobre a transferência do Netinho para Grécia. Ora, caso o negócio fosse concretizado estaríamos com os cofres cheios e com um buraco na ala esquerda. Mesmo com a permanência do guri nossa fragilidade canhota é evidente num esquema de dois zagueiros e dois laterais. Neste esquema, o Netinho voltaria a jogar no meio (o que seria uma boa), mas a lateral ficaria entre Márcio Azevedo e Alex Sandro. O primeiro chegou a disputar boas partidas ano passado, mas caiu de rendimento vertiginosamente e sem explicações. O segundo é ainda uma promessa das divisões de base. Isto significa que sair do 3-5-2 agora seria fazer uma aposta na recuperação de um atleta ou na revelação de outro.

Felizmente ficou mais claro depois que o técnico estava falando em treinar algumas possibilidades, não em mudar o esquema de jogo. Tudo bem que o Paranaense é o campeonato de menos expressão a ser disputado neste ano, mas não se trata de desconsiderar a briga e tomar o certame como pré-temporada, de jeito nenhum! O Paranaense é pra ganhar. O Geninho sabe disso, a diretoria sabe, a torcida, os jogadores, todo mundo sabe que tem que entrar rasgando. Mesmo que a primeira fase classifique 8 de 15 times, o campeonato começa dia 25 e o único amistoso foi contra o Batel de Guarapuava. Agora é valendo ponto.

esquema_tatico

Mas já que falamos em promessa, não dá pra deixar de lado o fio de esperança que a Copa São Paulo trouxe para a torcida rubro-negra. Aliás, um fio não, trouxe logo um novelo ou já uma trama muito bem costurada. Porque o time base do Furacão está muito bem organizado, além de ter jogadores que se destacam individualmente. E o assunto da Copinha cabe aqui muito bem, porque esse time também está no 3-5-2. Se o Manoel jogar durante o ano o que ele fez contra o Cruzeiro, quem sabe a gente possa ver o Chico ao lado do Valência. Ali pelo meio ainda tem o Willian, que parece ser um guri bom: quieto, com personalidade, toque de bola e muito raçudo. Pela direita tem o Raul, que é um baita jogador e deve ser uma sombra atrás do Nei e do Alberto, um se recuperando de lesão e outro que infelizmente foi habitué do Departamento Médico no ano passado. Lá na frente, Patrick e Eduardo Salles são bons centroavantes, mas a briga já está quente…

Posso queimar a língua, mas acho que o Lima vai ser opção de segundo tempo e que a briga pela vaga ao lado do He-Man fica entre Júlio César e Preá. No meio, Geninho está apostando suas fichas no Julio dos Santos, o que cria outra “briga”entre Ferreira e Marcinho. Puta merda… essa é boa! Deixar um no banco com certeza vai ser uma pressão violenta para quem entrar jogar tudo o que sabe e o que não sabe. Mas outra opção pode ser o Ferreira no meio e o Marcinho no ataque, como ele mesmo disse que gosta de jogar.

Enfim, me perdoem o absurdo da comparação, mas acho que montar um time deve ser mais ou menos como escrever. Primeiro você tem alguma formação e experiência nisso. Entende alguma coisa técnica, manja umas jogadas, estuda umas regras. Depois tem algumas idéias e vai ensaiando na sua cabeça aquilo que quer fazer dentro das quatro linhas. Então começa. Coloca uma peça aqui, outra ali. Elas se movimentam. Algumas do jeito que você esperava, outras não. Então você apaga, substitui, joga de novo. Nada estava pronto antes de começar a partida e no final você tem um resultado impossível de ser alterado. Definitivo. Para o bem ou para o mal. Uma diferença óbvia e com vantagens para quem escreve é que seu resultado pode continuar sendo debatido com argumentos contra ou a favor de suas escolhas. O técnico não. Seu resultado aparece em um placar. O escritor lida com palavras. O técnico de futebol, apesar de toda a magia do jogo, com a frieza dos números.

Por onde eu posso começar?

In PRETEXTO on 12 12UTC Janeiro 12UTC 2009 at 15:15

Agradeço as visitas no final de semana, mas já vou deixar um aviso: só “trabalho” neste blog entre segunda e quinta. Duro é escolher sobre o que falar na segunda-feira…

Bem, não dá pra deixar de lado o ato contra os ataques de Israel. Acordei cedo na sexta, um pouco ansioso. Afinal, nem lembro qual foi o último protesto que participei. Sem contar a Bicicletada, que pra mim é mais uma ação do que um protesto. Quer dizer… É um protesto. Mas é diferente. Você está reivindicando alguma coisa, mas ao mesmo tempo tem uma possibilidade mínima de intervir diretamente. É claro que a Bicicletada não muda uma legislação, não cria ciclovias ou bicicletários públicos. Então, fica ainda uma meta que só é alcançada sob a forma do protesto. Mas, por outro lado, o simples ato de pedalar e fazer isto em conjunto é uma forma de ação direta, quase uma desobediência civil. Você está reivindicando mais espaço para as bicicletas e está tomando este espaço a que realmente tem direito.

Em um protesto contra a guerra, como o que se faz aqui no Brasil em solidariedade ao povo palestino, qual é a possibilidade de uma intervenção concreta na realidade que se pretende transformar? Creio que este tipo de pensamento inibe a participação de algumas pessoas. “O que isto vai mudar?”.

Alguns murros em ponta de faca te fazem pensar nisto. Aquilo que você queria transformar no mundo continua o mesmo e suas próprias condições de vida pioraram. Se o tempo diminui nossa estatura, parece que o fato de estar envolvido com política – pelo menos esta política que não dá dinheiro – acelera o processo e te deixa ainda menor diante das outras pessoas. Aquelas que estão cuidando da sua vida, crescendo.

Então você sai de casa numa sexta-feira de manhã para participar de um protesto contra uma guerra que acontece muito, muito longe dos seus problemas. As bombas são lançadas e explodem longe daqui. A decisão de parar ou continuar os ataques não depende da sua opinião. Nem mesmo a ajuda humanitária depende de você. Sua solidariedade possivelmente não vai ter nenhum impacto visível. Não é uma enchente em Santa Catarina. A guerra é mais cruel e ainda menos compreensível que um desastre natural. Muito mais difícil de se intervir.

Uma guerra no Oriente Médio. O aumento da tarifa. O despejo de uma favela.

Você pode associar a imagem de Dom Quixote aos protestos, manifestações ou ações que buscam se posicionar nestas e em outras situações. Mas por que não a imagem de Davi contra Golias? A propósito, me lembro de uma camiseta de uma banda de hardcore punk paulistana com a imagem de uma criança palestina atirando pedras e a frase “Davi agora é palestino”. Talvez se nossa própria vida estivesse em risco não pensaríamos duas vezes antes de atirar uma pedra contra um tanque. Diante do massacre, não nos ocorreria perguntar “o que isto vai mudar?”.

Kanoute comemorando o gol de Luis Fabiano.

Kanoute comemorando o gol de Luis Fabiano.

A camiseta de Frédéric Kanouté comemorando o gol do Sevilha também não parou a guerra. Bem longe do bombardeio, ele não arriscou a vida. Só ganhou uma multa por ousar fazer do futebol um espaço político por preciosos segundos. Mas foi um ato vitorioso em uma época onde a grande preocupação dos atletas é colecionar Ferraris (pelo menos na Europa) e todos dizem a mesma coisa (pelo menos no Brasil).

O ato que aconteceu também em Curitiba foi vitorioso. Ele não parou a guerra, mas colocou cerca de mil curitibanos nas ruas como cidadãos e não como consumidores. Ele venceu uma batalha contra a apatia. Além do mais, a emoção de pessoas que tem parentes e amigos na região em conflito ou mesmo um forte laço cultural com o mundo árabe não deixou dúvidas sobre a importância de se expressar a revolta. Para que não siga acontecendo. Para que não aconteça jamais.

Tudo na mão do Geninho

In PRETEXTO on 8 08UTC Janeiro 08UTC 2009 at 13:54

Dei uma de técnico cagão e esperei até os 40 minutos do segundo tempo para falar sobre a nova temporada do Atlético. Na verdade, não foi bem isso. Se tivesse algum poder de mexer no time, meus amigos, eu o faria bem antes. Acho que qualquer rubro-negro paranaense o faria, depois do vexame no Campeonato Brasileiro. Mas a diretoria não fez. Resolveu manter o mesmo time que quase nos matou do coração.

Ainda perdemos o Alan Bahia. Mas não vou chorar as pitangas, já que sua negociação com o futebol estrangeiro era mais do que esperada e merecida. O cara jogou muito e vestiu a camisa do clube como poucos no volátil futebol moderno. Sinto mesmo uma ponta de vergonha pelas poucas vezes que o xinguei lá da arquibancada. Lembro de uma senhora descontrolada rimando Bahia com porcaria e das piadas que terminavam o nome do craque com …bique. Ora bolas, que hipocrisia a nossa! Se eu estivesse sendo comandado por Bob Fernandes e Mário Sérgio Pontes de Paiva, vendo a vaca ir pro brejo daquele jeito, acho que também ia entornar das minhas. Sabe aquela coisa de beber para esquecer?

Mas falando sério, o Bahia se recuperou. O time se recuperou. As cinco últimas partidas, pelo menos, foram dignas de um Clube Atlético Paranaense. Nós sabemos que os méritos são, quase todos, do Geninho. Por isso, mantê-lo aqui não foi uma atitude da diretoria, mas da torcida. Vamos e venhamos, quem seria louco de mandar o homem embora depois de salvar o time da segundona e terminar o campeonato ovacionado, amado, praticamente acariciado pelas palavras dos milhares que formam a maior torcida desta capital? Ninguém é bobo. Mas corajoso, uma vez mais, é o Geninho. Porque se fosse eu, cláusula primeira da renovação do contrato seria carta branca para um bom número de contratações. Ficar no clube com o mesmo time é sinal de muita confiança, no próprio taco e/ou nos jogadores.

Quem acompanha futebol percebe o mexe-mexe em todas as equipes. Aqui nada. Só especulação. O pior é que botamos panca de clube da Europa. Mas sem capacidade pra fazer frente em contratações com outros clubes do Brasil, parecemos estar comendo frango e arrotando caviar. Tem pelo menos um grande time brasileiro que também não mexeu muito: o Flamengo. Meu amigo Rondi Ramone acredita que para o rubro-negro carioca é melhor assim, sem grandes estrelas, sem grande badalação, mantendo a base. A diferença para com o nosso rubro-negro, penso eu, é que os urubus terminaram o campeonato disputando vaga para Libertadores e a gente… bem…

Mais uma vez... a cartola.

Mais uma vez... a cartola.

Os poucos reforços procurados pelo Atlético são atacantes. Como se para fazer gols a bola chegasse no ataque sozinha… Ok, a posição está carente. Eu mesmo escrevi que precisávamos de um matador, um artilheiro ou um cabeça de bagre qualquer que fosse capaz de meter a bola na rede. Mas já que é começo de ano, não custava nada trazer também um bom meia-armador. Nos meus sonhos, vi Kleberson de volta à Baixada. Mas tudo bem, trouxeram o Lima. Se ele fizer um gol contra os coxinhas de volta já valeu. Só pra relembrar. Melhor ainda se for de pênalti e na final do campeonato. Bom, nessa onde de reviver o passado, ganhamos pelo menos dez anos em relação ao Alberto, que cruzou a bola para Óseas marcar o primeiro gol que eu vi acontecer no Joaquim Américo. Dois a zero no Palmeiras. Era o ano de 1996. Doze anos depois, tive que rever o Alberto puxando a perna pra voltar do ataque. Nem eu agüento. Pelo menos esse ano parece que não vai ter reforço para o nosso Departamento Médico.

O certame pode servir como uma grande pré-temporada, onde o time vai se entrosando e o Geninho vai testando tanto aqueles jogadores que conheceu em situação de pressão ano passado quanto os poucos reforços e os pratas-da-casa. Mas para torcida não tem essa. Tem que ser campeão do Estadual. Para isso, confesso, esperava surpresas até a reapresentação do elenco. Pelo menos uma promessa de campanha – investir no time de futebol – já foi descumprida.

Tá certo que a torcida pedia há anos que não se desmontasse o time de um campeonato a outro. Mas vai manter justo este time?! Vamos lá, não quero ser injusto nem estou torcendo contra. Tomara que dê certo. Tem aí bons jogadores, que merecem vestir o manto e podem honrar nossa tradição: Galatto, Nei, Rodholfo, Valência, Netinho, Ferreira e até Rafael Moura, que ninguém pode negar, fez dois ou três gols salvadores. Mas pensem bem: com uma derrota a mais que fosse, não ficava ninguém pra disputar série B. Ninguém prestava. Quer dizer, o Paranaense já vai começar com ares de desconfiança. Não estou dizendo que a torcida não vai apoiar o time. Mas não vão pensando que escapar do rebaixamento foi o bastante pra cair nos braços da massa não. Tem que começar vencendo e jogando bem pra fazer as pazes de vez.

Por um novo Messias! Por uma nova Revelação!

In PRETEXTO on 17 17UTC Outubro 17UTC 2008 at 17:54

Nos quatro primeiros jogos do Atlético no Campeonato Brasileiro deste ano a equipe somou apenas 5 pontos. Olhando hoje para a tabela e para a atual ameaça de rebaixamento, aquela situação inicial não parece assim tão dramática. Estes resultados, por si só, não explicam a mudança de comando técnico e a preocupação da torcida. Mas perder o título Paranaense depois do desmonte do time fez com que o Brasileirão começasse como se estivéssemos correndo atrás do prejuízo.

Diante da primeira goleada (5 x 0 no Goiás), tive uma visão nítida de que o time embalaria. Mas não aconteceu. Perdemos os dois jogos seguintes e tive que esperar até a 13ª rodada, diante do Vasco, para escutar, novamente, aquela voz que me dizia: “agora vai!”. Galatto foi o herói daquela partida, o profeta que anunciaria dias melhores ou o próprio messias. Mas como reza a tradição, o messias só vem quando a lei está consumada e, de fato, não se precisa mais dele. A salvação não chega a não ser no fim dos tempos, ou no fim do campeonato, que tem sempre um novo começo. Enquanto isto, todos são heróis ou profetas, vilões ou demônios, que farão cumprir ou descumprir as promessas. Geninho é sem dúvida a nossa última esperança, mas além de todo o respeito que ele possui por parte do clube e de sua torcida, todos sabem que ele não pode mudar o mundo sozinho e ninguém vai crucificá-lo. Creio que tanto ele quanto o próprio Galatto são ainda, para a torcida, uma espécie de herói. Mas em que pesem sua fundamental importância, falta ainda ao Atlético (entre outras coisas) a figura do matador. Durante o campeonato todos nós acreditamos que ele estava por vir. Uma dúzia de atacantes entrou em campo com a camisa rubro-negra e… nada. Pouco a pouco vamos deixando de acreditar em uma nova benção.

No último sábado tivemos um almoço animado aqui em casa, cujo tema principal foi a Revelação. Minha mãe contou a estória de uma mulher muito pobre que, durante uma oração, recebeu a mensagem de que uma benção estaria a caminho. Tudo o que ela deveria fazer era entrar com a sua família em um determinado supermercado e encher o carrinho com tudo o que fosse necessário. Nada de exagero, somente o necessário. Com o carrinho cheio, a mulher se encaminharia para o caixa de número 7 e puf!, as compras seriam suas. Sem dinheiro, sem desculpas. Foi o que ela fez, meio a contragosto do marido que esperava do lado de fora e cercada pela triste desconfiança das crianças. A mulher e suas compras ficaram paradas no caixa, esperando a decisão do gerente diante da Verdade Revelada. Uma cena comovente mesmo. Mas com um final feliz porque, segundo a minha mãe, o dono do supermercado resolveu fazer uma promoção especial naquele dia e liberar as comprar do cliente que estivesse, naquele momento, passando pelo caixa… 7!

Bem, desconsiderando o fato de que minha irmã mais nova disse ter ouvido uma outra versão da mesma estória, emendei outra, sobre a Revelação que teve a mãe de um amigo meu. Sua mensagem apareceu em sonho e dizia que, naquele dia, ela ganharia um carro! Acordou o marido logo cedo e contou a ele exatamente o nome do carro, a cor, o modelo e inclusive a concessionária que lhes daria a graça. Tenho certeza que a estória fica muito mais interessante com a voz e a expressão deste meu amigo, que é muito mais engraçado do que eu. Mas o resumo da ópera é que, depois de perguntar absolutamente tudo a respeito do carro, a mulher parou em frente ao vendedor, estática, com cara de quem está tendo uma visão, esperando o momento em que as portas do céu se abrem como naquele programa do Silvio Santos. O vendedor provavelmente não teve o mesmo sonho e a mãe do meu amigo voltou pra casa de carona no carro do marido, que estava puto da cara.

Não é mole discernir se a voz que você escuta é de um anjo ou de um demônio, real ou imaginária, digna de confiança ou pura charlatanice. Tanto faz se a voz é de outra pessoa ou se a mensagem é transmitida direto para sua consciência. Jean Paul Sartre, em um texto chamado “O existencialismo é um humanismo”, coloca exatamente o mesmo problema ao evocar a evangélica imagem do anjo que ordena a Abraão que sacrifique seu filho. Como ele poderia saber que era um anjo? Como poderia ter certeza de que o anjo falava mesmo com ele e de que ele havia compreendido bem a mensagem? Sou sempre eu mesmo, diz Sartre, que decido se devo ou não devo agir.

Comigo costumam ocorrem algumas revelações mais ou menos sérias, mas igualmente problemáticas. Arrumar outro emprego? Pegar o guarda-chuva? Comprar aquele livro? As mesmas inquietações devem passar pela cabeça do dirigente de clube que, em meio a todas as contas e considerações possíveis, tem sempre no final uma voz que diz fazer ou não fazer. Contratar? Mandar embora? Quanto aos próprios jogadores, o espaço entre a Revelação e a Ação é menor ainda e muitas vezes mais decisiva. Chutar naquele exato momento ou tentar mais um passe? Tocar para o companheiro ou dar mais um drible? A indecisão ou a decisão precipitada parecem ferrar nosso time. Afinal, por que diabos o Rafael Moura botou a mão na bola?! Você tem aquela inclinação, mas é sua a decisão e a responsabilidade. Afinal, hoje em dia, você não vai poder culpar o anjo ou o demônio que te deu a dica. Não vai colar.