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Posts de Agosto, 2009

Antônio Lopes e as máscaras do futebol

In PRETEXTO on 18 18UTC Agosto 18UTC 2009 at 04:54

Muito se tem falado sobre a volta do delegado ao rubro-negro paranaense. São duas as principais abordagens: as que valorizam reformas no esquema tático e as que exaltam o comando linha-dura do treinador. De fato, só isto pode explicar a nova fase já que não temos nenhum grande reforço em relação ao time que tomava goleada dentro e fora de casa.

Na realidade, ou seja, dentro do campo as duas leituras são inseparáveis. Nem o esquema tático teria sucesso sem a autoridade de quem o propõe, nem a autoridade se manteria sem fundar algo concreto, sem dar resultado. Mas isto é tão óbvio quanto à maioria das coisas que se diz sobre futebol. Ainda assim, vamos tentar separar as duas coisas, ignorar o aspecto tático e falar apenas da postura da equipe. Tendo em mente que isto é possível apenas analiticamente, ou seja, no comentário, na corneta, no texto e de jeito nenhum dentro do campo.

A mudança na postura da equipe começou com uma atitude da diretoria e não do treinador: o afastamento de cinco jogadores do elenco. O assunto é tão importante que apareceu novamente na entrevista de Lopes, depois da vitória de domingo. “Esse time não tem vedete que quer aparecer mais do que os outros”, disse ele em possível alusão aos afastados. E o que se ouve nas arquibancadas sobre estes jogadores? Justa ou injustamente, a voz da maioria não hesita em chamá-los de mascarados. Esta é uma gíria comum no futebol. Mascarado é aquele jogador que joga pra si e não para o time. Mais ainda, é o cara que simula, finge, faz de tudo pra parecer algo que ele realmente não é.

Parece brincadeira, mas esta idéia de que existe uma diferença entre ser e aparecer tem mais de dois mil anos. E aqui vou me aventurar mais uma vez na tarefa de relacionar coisas que não tem lá muita relação: futebol e filosofia.

Platão foi um dos primeiros a pensar que se podia separar a coisa mesma de suas aparências, o modelo original de suas cópias. Adaptando bruscamente o platonismo à linguagem do futebol, digamos que para ele existia o jogador de futebol e os pernas-de-pau que eram uma imitação desse cara. Mas este “cara” não era de carne e osso. Ele era antes a idéia de um jogador de futebol… Aqui a coisa começa a complicar. Digamos então que o Pelé é simplesmente a maior e melhor imitação da idéia de um jogador de futebol que já existiu. Deu pra entender?

Tudo o que rola no mundo, para o velho Platão, é a imitação de uma idéia. Acontece que algumas coisas são cópias próximas do original e outras são cópias da cópia, da cópia… ou seja, um simulacro, uma falsificação. A boa cópia se parece com a idéia original, não foge da linha, obedece ao modelo. Enquanto a máscara do simulacro se distancia e de tão longe ninguém mais consegue compará-la com o original pra saber se parece ou não parece com a idéia que devia copiar. A máscara tenta passar uma imagem e acaba se mostrando uma ilusão. É mais ou menos neste sentido que nós xingamos o cara de mascarado, não é? Assim, reduzido a uma aulinha sem vergonha, fica até fácil entender Platão!

Acontece que apareceram uns caras querendo mexer nisso tudo e virar o platonismo de cabeça pra baixo. Como estou empolgado com explicações esdrúxulas, é como se mudasse o esquema tático que a humanidade jogou durante séculos. O principal destes técnicos foi um bigodudo chamado Friedrich Nietzsche. Para ele, o simulacro não é mais uma cópia mal feita, mas uma criação, uma novidade. Em outras palavras, não existe uma idéia original do que é ser jogador de futebol a qual todo mundo deve copiar. O que existe são várias criações e recriações que aparecem dentro de campo e convencem ou não pela sua força, ousadia, talento.

O mascarado – neste outro sentido – é aquele que mostra competência não para copiar o modelo, mas para criar um novo. A máscara é “um devir-louco, um devir ilimitado (…) hábil a esquivar o igual, o limite, o Mesmo ou o Semelhante: sempre mais e menos ao mesmo tempo, mas nunca igual” (Deleuze, G. “Platão e o Simulacro”. Lógica do sentido. São Paulo: Perspectiva, 2000). Não é algo deste tipo o que existe de mais apaixonante no futebol? Afinal, quem espera ver sempre o mesmo quando vai ao estádio? Os mesmos dribles, as mesmas jogadas… Pelo contrário, o que arranca aplausos e sorrisos, além do gol, é aquilo que desconserta, quebra padrões e desenha no reto espaço do campo um novo jeito de jogar futebol. Por mais antigo que sejam todas as fórmulas deste esporte.

Tão difícil quanto reverter o platonismo no campo da filosofia seria pretender mudar a noção de “mascarado” no meio futebolístico. Nem de longe existe tal pretensão! A brincadeira aqui é pensar que a mudança de postura que trouxe de volta o Furacão é uma simulação, quer dizer, uma boa simulação que fez os mesmos homens que vimos como pernas-de-pau atuarem agora como jogadores de futebol. A nova máscara que Antônio Lopes trouxe e distribuiu por aqui fez a torcida acreditar que tem um time. Que o baile continue!

O ponto de vista comum na filosofia moral de Hume – parte 3

In PRETEXTO on 17 17UTC Agosto 17UTC 2009 at 18:25

Conclusão

Contra a cética opinião de que não há um princípio natural da moral, mas apenas uma disposição para o egoísmo, Hume não contrapõe uma medida absoluta do certo e do errado, um dever que se impõe ao homem por sua razão ou por qualquer outro meio. Ele salva o exercício da moral na medida em que pretende explicar seu aparecimento, reconhecendo na simpatia o princípio a partir do qual se constituem valores sociais que, apesar de inicialmente restritos, podem se ampliar regularmente mediante a convenção ou o acordo dos homens. Este acordo nada mais é que “uma percepção de interesse comum, percepção que cada qual experimenta em seu próprio peito, que observa em seus companheiros e que o conduz, em colaboração com outros, a um plano ou sistema geral de ações que tende à utilidade pública” (IPM, apêndice 3, 7).

Não é, portanto, uma regra moral previamente estabelecida o que torna possível a sociedade, mas justamente o contrário. Isto, segundo Capaldi, porque Hume não concebe o homem como um sujeito pensante, isolado diante de um mundo de objetos como queria Descartes. Ele pensa os homens “como agentes, como criadores, imersos ao mesmo tempo num mundo físico e num mundo social junto com outros agentes” (Capaldi apud Conte, 2006, p. 144). O mundo contra o qual a dúvida cartesiana irá se colocar é antes constituído como um mundo comum e partilhado, assim como a moral contra a qual Mandeville levantará suspeita é (ou sempre pode ser) constituída na relação entre os homens, como uma ampliação dos nossos sentimentos particulares, um ponto de vista comum formado pela convergência dos nossos olhares.

Corrijo minha percepção de um objeto ao reconhecer que sua aparência depende da minha posição e que, para vencer possíveis desacordos no diálogo a seu respeito, devo considerar outras perspectivas. Da mesma forma, assumir que os valores formados naturalmente em nós dependem de uma posição nos impele a buscar meios de corrigir esta perspectiva pela consideração de valores alheios. A constituição de valores morais pode então se dar de maneira regular na medida em que abandonamos nosso ponto de vista particular em direção a outro mais geral. E se os impasses a respeito da moral são conseqüência de “um conhecimento imperfeito sobre o caso em questão; ou devido à possibilidade de distorcer os fatos se não assumimos um ponto de vista imparcial”, sua solução passa pela “tentativa [de] assumir um ponto de vista geral e estável, com tendências voltadas para o acordo” (Conte, 2006, pp. 138-139).

Enfim, a moral humeana não é universal no sentido forte ou dogmático da palavra. Vício e virtude se dão de um ponto de vista comum, que se estende para um maior número de pessoas, mas não para uma totalidade. Não há um único ponto de vista geral. Antes de ser uma falha que impede um acordo total, trata-se para Hume de uma sábia disposição natural. A preocupação com uma comunidade próxima o bastante para acolher sua participação dá ao homem a possibilidade de agir efetivamente pelo bem da humanidade. Enquanto as “observações vagas e indeterminadas sobre o bem de uma espécie” não podem oferecer “um objeto convenientemente delimitado sobre o qual a atividade dos homens pudesse se exercer” (IPM, 5, nota 6).

Bibliografia

CONTE, Jaimir. Sobre a natureza da teoria moral de Hume. Kriterion, Belo Horizonte, v. 47, nº 113, Jun/2006, p. 131-146. ISSN 0100-512X

DELEUZE, G. Hume. In: História da Filosofia – idéias, doutrinas: O Iluminismo, vol. 4. Chatelet, François (org.). Trad.: Guido de Almeida. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.

HUME, D. Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral. Trad.: José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Ed. Unesp, 2003.

________. Tratado da natureza humana. Trad.: Déborah Danowski. São Paulo: Unesp, 2001.

LEBRUN, G. A boutade de Charing-Cross. In: A filosofia e sua história. Carlos Alberto R. de Moura, Maria Lúcia M. O. Cacciola e Marta Kawano (org.). São Paulo: Cosac Naify, 2006.

LIMONGI, Maria Isabel. Sociabilidade e moralidade: Hume leitor de Mandeville. Kriterion, Belo Horizonte, v. 44, nº 108, Jul/2003, p.224-243. ISSN 0100-512X.

MANDEVILLE, Bernard. Uma investigação sobre a origem da virtude moral. In: Filosofia Moral Britânica – textos do século XVIII v. 1. Trad.: Álvaro Cabral. Campinas: Unicamp, 1996.