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Posts de Maio, 2009

Aqui não!

In PRETEXTO on 26 26UTC Maio 26UTC 2009 at 23:06

Na sua coluna de hoje na Furacao.com, Juarez Villela Filho comenta uma música cantada por parte da torcida atleticana no jogo contra o Náutico. Não estou conseguindo escrever a respeito de tudo o que penso, por isto divulgo aqui o trecho da coluna que trata do assunto e também o meu comentário, que é muito mais um desabafo.

Episódio 1 : preconceito

Posso servir para muitas coisas, mas para hipócrita não tenho muito o perfil. Fui o denunciante do absurdo caso de racismo ocorrido no Atletiba do Couto Pereira no primeiro turno, denuncia essa que praticamente passou em branco para o policiamento e para a imprensa, sempre muito benevolente com as coisas acontecidas no campo do centenário clube alviverdedecamisabrancaedecalçãopretoemeiacinza.

Pois bem, no final da primeira etapa parte da torcida passou a entoar uma nojenta música contra os nordestinos, personificados no valente time do Nautico. Burros, ignorantes ao ponto de não sacarem que até aquele momento ganhávamos por 2 X 0 com dois anotados pelo Wallyson, que na mente brilhante desses seres deve ser catarinense decerto! Nada, absolutamente nada justifica um gesto de racismo, de preconceito seja ele qual for e por isso mesmo após o jogo procurei tanto o vice Suke como o Presidente da Fanáticos, Julião da Caveira para saber sobre o ocorrido. Ambos recriminaram a atitude, prometeram procurar saber de onde partiu o grito e afirmam não estarem na galera naquele momento e mostraram claramente seu descontentamento com o ocorrido.

Menos mal. Uma torcida ligada a um clube popular, uma torcida que canta o hino nacional, que defende a pátria, que sempre levou o pavilhão do Brasil nas disputas fora do país, não poderia dar um exemplo tão ruim como este. Confio que jamais se repetirá.

Juarez Villela Filho

Juarez, fico muito feliz por você ter escrito esta coluna citando a extrema estupidez de parte da torcida que cantou esta música nojenta, preconceituosa, racista!

Eu nunca assisto os jogos na Fanáticos, mas por coincidência, neste dia, cheguei atrasado e resolvi ficar por ali para sentir um clima diferente. O que senti foi um extremo mal estar. Indescritível. Aquela música doeu na minha alma. Alma africana, sim, e nordestina. Que a cada batida de tambor ressoa os antepassados que me trouxeram até aqui. Que a cada palavra desgraçada como aquelas trouxeram também a sua dor por tamanha ignorância ainda presente. A dor de uma violência que é tão contundente quanto uma bomba e que deve ser punida da mesma maneira.

Olhava para os lados e via uma piazada com traços como os meus – africanos, mulambos, crioulos, ou seja, traços brasileiros como os de todos nós – ignorantes da sua própria condição. Pensei exatamente o que você escreveu: de onde eles pensam que vem o Wallyson? E o Alan BAHIA? E o Ziquita?

Quase sai do estádio. Mas esfriei a cabeça no intervalo e voltei para o meu lugar, lá do outro lado do estádio. Ao lado do meu pai, filho de nordestino. Não comentei nada com ele e espero que ele não tenha escutado o que saiu daquelas bocas burras. Mas fiquei ali desconfiado, pensado comigo mesmo: será que todo mundo neste estádio pensa assim? Será que metade pensa? Será que o futebol é mesmo o lugar deste tipo de comportamento desumano?

De verdade, acho que não. O futebol – em especial o futebol brasileiro – é exatamente o contrário. E como tal não pode tolerar NENHUM tipo de manifestação deste tipo. Isto inclui, obviamente, o nacionalismo exacerbado que alguns querer trazer para o meio das arquibancadas. Afinal, de onde será que eles pensam que vem o Valencia? E o Julio dos Santos? E o Ferreira?

Um esboço da “sociedade de controle”

In PRETEXTO on 7 07UTC Maio 07UTC 2009 at 21:21

Texto-base para apresentação de seminário sobre

DELEUZE, G. “Post-Scriptum Sobre as Sociedades de Controle”. In: Conversações. Coleção Trans. São Paulo: Editora 34, 1992.

II. Lógica

Aqui o texto está organizado em oposições que demonstram aquilo que é característico da nova sociedade de controle, em contraste com a sociedade disciplinar. Importante destacar que embora parta da descrição de Foucault da sociedade disciplinar, Deleuze também mescla novos conceitos e novas imagens.

No caso das instituições disciplinares, embora sejam distintas umas das outras existe comunicação entre elas. O indivíduo, diz Deleuze ainda na primeira parte do texto, “não cessa de passar de um espaço fechado a outro” (p. 219). Existe, portanto, entre os diferentes meios de confinamento uma comunicação que permite esta passagem. Comunicação que pressupõe uma linguagem, no caso, uma linguagem analógica. Já os modos de controle não se constituem como espaços separados, mas formam “um sistema de geometria variável cuja linguagem é numérica” (p. 221).

Esta diferença de linguagem fica mais clara na sequência do texto.

Por aqui basta entender que se a sociedade disciplinar precisava de cercas para criar um espaço diferente de todos outros e “fechado em si mesmo” (Foucault, M. Vigiar e Punir. Petrópolis: Editora Vozes, 1984, p. 130), o controle dispensa este confinamento. Não se trata mais de formar o indivíduo de acordo com a estrutura de cada instituição, porque as próprias instituições se auto-deformam e mudam continuamente. A imagem de Deleuze é exatamente esta: os meios de confinamento são moldes (pensemos em um molde de gesso ou em uma garrafa, que determina a forma dos elementos que contém), enquanto os controles são uma modulação (como uma bexiga ou uma rede, que não possui limites definidos).

Para ilustrar esta diferença o autor nos apresenta a distinção entre a fábrica e a empresa, e nos chama a pensar como se dá a remuneração dos trabalhadores nesses diferentes tipos de organização do trabalho. Na fábrica os salários são rígidos e representam os diversos setores que compõe o grande corpo industrial e as diferentes posições que cada indivíduo pode ocupar nele, lembrando o quadriculamento de que fala Foucault. Este é o princípio da carreira, quer dizer, uma organização da vida e do corpo de cada trabalhador que representa a própria organização produtiva. Nela, cada indivíduo se coloca em uma determinada posição, da qual pode ascender ou decair, e este movimento se faz sentir nas diferentes faixas salariais.

No caso da empresa, desaparecem estas seriações e os salários cada vez mais são substituídos por prêmios. Hoje, por exemplo, para os trabalhadores do comércio, o salário-base não é mais do que o resquício de uma legislação “antiga”, que garante uma renda mínima e alguns direitos. O grosso da remuneração está dada por metas de vendas e outros bônus que variam a cada mês. Deleuze fala de como os jogos de televisão mais idiotas fazem sucesso por mostrarem exatamente o que acontece nas empresas. De fato, hoje em dia as empresas utilizam uma série de jogos e até mesmo “testes de sobrevivência” para garantir a “motivação” de seus “colaboradores”.

As diferentes formas de remuneração são apenas um aspecto, que revela a diferença mais fundamental entre a fábrica disciplinar e as empresas da sociedade de controle. A fábrica era um espaço fechado, concentrado, estável e maciço, que organizava seus elementos em um grande corpo e propiciava assim uma dupla vantagem: de um lado, para a dominação do patrão que podia vigiar cada pessoa de acordo com a sua posição na grande máquina e, de outro, para a resistência dos trabalhadores, que estavam de tal modo unidos e conectados que se tornou possível sua organização na forma histórica dos sindicatos. A empresa não é mais este corpo; ela é dispersiva, modular, instável e fluída; ela não precisa de pessoas em um trabalho cooperado. Pelo contrário, ela coloca uns contra os outros. Mas a rivalidade da empresa não separa apenas um indivíduo do outro; ela estraçalha a própria pessoa. Porque o estímulo não é mais a conquista de uma nova posição e, portanto, de alguma garantia. De fato, o “colaborador” da empresa não conquista nada, nunca garante nem termina nada. Portanto, ele nunca é nada. Por muito tempo a pergunta “quem é você?” foi idêntica a “qual sua profissão?”. Mas esta é uma pergunta cada vez mais difícil de responder… Na sociedade de controle você é muitas coisas e ao mesmo tempo não é nenhuma. O discurso está na nossa boca: é preciso estar sempre “aprendendo”, se “qualificando”, etc.

Assim os cursos ou testes que faziam o trabalhador conquistar outro grau na sua carreira são substituídos por uma competição e um controle contínuo. A formação profissional se transforma na reciclagem de conhecimentos, um processo sem fim. Assim como, nas escolas, o exame vai sendo substituído pela formação permanente. Segundo o autor, “é este o meio mais garantido de entregar a escola à empresa” (p. 221).

Parece que neste momento do texto fica mais claro o que seria a diferença de linguagem entre os dois tipos de sociedade, a passagem de uma linguagem analógica na disciplina para uma linguagem numérica no controle. Nas sociedades disciplinares a pessoa é definida por uma assinatura e uma matrícula. A assinatura marca a sua diferença para com todas as outras pessoas, sua individualidade, enquanto a matrícula indica a sua posição no meio de uma massa de iguais. O importante é que as duas coisas se relacionam, ou seja, a assinatura remete a uma posição e matrícula a um indivíduo. Já nas sociedades de controle esta analogia, que em última análise determina a unidade do indivíduo, é substituída pelo uso de cifras ou senhas. São elas, diz Deleuze, “que marcam o acesso à informação, ou a rejeição” (p. 222). Não se trata mais de encontrar a posição do indivíduo na massa, porque o próprio indivíduo se tornou divisível e as massas se tornaram amostras ou dados.

O indivíduo se tornou divisível. Pensemos em nós mesmos: todos possuimos uma série de senhas e cartões de acesso para os mais diferentes espaços e serviços. Em cada um deles, você é uma pessoa diferente. Alguns lugares são fechados por catracas que interrompem o acesso físico; outros são abertos à circulação, mas o acesso a seus bens e produtos depende da liberação da sua senha. Se o cartão de crédito não funciona, como afirma Rogério da Costa, “você não é mais você para aquela operação (…) Você é você para algumas coisas, e não é para outras…” (“Sociedade de Controle”. In: São Paulo Perspectiva, 18(1): 2004, p. 166). Ainda segundo Costa, a diferença entre a assinatura individual e a senha é que “a assinatura é produzida pelo indivíduo, e o código é produzido pelo sistema, para o indivíduo” (idem). Quer dizer, a disciplina é sempre autodisciplina, uma conformação no próprio corpo do sujeito; enquanto o controle não o molda, mas permite ou barra o poder ser.

E o que significa dizer que a massa se tornou amostra? Talvez que não exista mais em um conjunto de elementos humanos a totalidade que estruturava a fábrica, a escola, o quartel, o hospital, etc. Agora este conjunto pode ser tomado em recortes cada vez mais diversos, que atravessam perfis individuais e formam um quadro relativo. Assim funcionam, por exemplo, as pesquisas de opinião e de comportamento que determinam as estratégias de marketing.

Para entender o papel do marketing nos dias de hoje, ajuda pensar o que Deleuze chama aqui de “uma mutação do capitalismo” (p. 223). Para isto, ele utiliza as máquinas como outro elemento ilustrativo e inclui também uma imagem da antiga sociedade de soberania. Nela, as máquinas eram simples, mecânicas, como alavancas, roldanas e relógios. Já nas sociedades disciplinares as máquinas se tornaram energéticas e nas sociedades de controle, são máquinas de informática e computadores. A estas mudanças corresponde a “mutação do capitalismo”, pois as máquinas energéticas da disciplina pressupõem a concentração e a produção, enquanto as novas máquinas informáticas revelam uma organiza dispersiva e baseada na sobre-produção. A idéia de sobre-produção também nos é cada vez mais familiar. Sabemos que as grandes empresas não possuem mais fábricas, mas compram os produtos acabados de empresas terceirizadas e agregam a ele o valor imaterial de sua marca. Nas palavras de Deleuze, este “já não é um capitalismo dirigido para a produção, mas para o produto, isto é, para a venda ou para o mercado” (pp. 223-224)

Hoje, muitas de nossas ações são registradas e se transformam em dados. Isto acontece, por exemplo, quando usamos um cartão de crédito, fazemos ligações telefônicas, enviamos e-mails ou visitamos sites na internet, entre outros exemplos. A este respeito, Rogério pergunta: “O que se pretenderia obter através da análise de um tal conjunto de informações? É seu conteúdo que interessa, ou é seu padrão de composição e acesso?” (p. 162). O conteúdo, diz ele, apontaria para o indivíduo (para onde foi, com quem falou, o que comprou, etc.), mas o padrão apontaria para o que? Na Internet, por exemplo, não possuímos uma identidade e sim um perfil. É cada vez mais através destes perfis que as empresas organizam seu marketing, ou seja, a planificação de seus produtos e serviços. Para Deleuze, “o marketing é agora o instrumento de controle social” (p. 224).

Enfim, se a fábrica e todos os meios de confinamento tinham a imagem de um grande corpo, “o serviço de vendas tornou-se a ‘alma’ da empresa” (p. 224), que é também o modelo para a escola, o hospital e a prisão da nova sociedade de controle. De fato, o próprio homem não é mais ser pensado como um corpo que deve ser disciplinado, corrigido e conformado. Ele próprio é um elemento fluído, móvel e mutável; mas sua mobilidade e mutabilidade não é livre. Ela obedece à participação em diferentes redes, cujo acesso depende de compromissos sempre renovados. “O homem não é mais o homem confinado, mas o homem endividado” (p. 224).

No fim desta segunda parte fica uma questão: como lidar com aqueles que são “pobres demais para a dívida, numerosos demais para o confinamento”? Este talvez seja o único lugar do texto carente da oposição disciplina / controle, pois ainda não está claro o que virá substituir as cercas e fronteiras que separavam os trabalhadores, os estudantes, os doentes, os prisioneiros, etc., dando a cada pessoa seu lugar próprio, ainda que sob a pena da atrocidade. Não é possível mais cercar as cidades e deixar para fora os não-cidadãos, nem utilizá-los como escravos sem direitos dentro do território, nem trancá-los em prisões e hospícios. E isto não apenas por uma questão ética, mas principalmente porque estes mecanismos disciplinares são menos lucrativos do que os mecanismos de endividamento e controle. Daí – e não da vontade piedosa ou politicamente comprometida com o povo – a necessidade de uma ampliação do crédito e do consumo para todas as camadas da população. Uma ampliação que também encontra seus limites e que, portanto, vai encontrar as suas próprias resistências.