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Posts de Fevereiro, 2009

Dois toques

In PRETEXTO on 26 26UTC Fevereiro 26UTC 2009 at 15:55

Quem acompanha meu posts já deve ter percebido que a lentidão está entre meus maiores defeitos como “blogueiro”. Estipular prazos nunca funcionou direito pra mim. Mas aos poucos estou aprendendo que a coisa funciona melhor assim: aconteceu ontem tem que publicar ontem. Para tanto, é preciso sentar e começar. Pensar um pouco ajuda, mas só desenhar mentalmente o assunto não funciona. Não dá pra ficar prendendo a bola. O tempo te rouba a oportunidade e ninguém vai gritar “ladrão!”.

Em sua última coluna na Carta Capital, Thomaz Wood Jr. falou sobre a procrastinação. O famoso hábito de “empurrar com a barriga” foi objeto de pesquisa científica que apontou o seguinte: costumamos adiar a execução de uma tarefa que parece mais distante e abstrata. A dica dos pesquisadores é “apresentar certas tarefas de forma mais detalhada e objetiva”. O problema, acredito, é que detalhe não rima com objetivo. Como uma das infelizes pessoas que adoram chamar reuniões e discutir tudo em seus pormenores, estou em posição confortável para admitir que planejar demais deixa tudo mais distante e abstrato, ou seja, fácil de ser adiado.

Tanto pior se as intermináveis reuniões são uma conversa entre eu e eu mesmo. Pois ainda mais do que a conversa, o pensamento carrega esta terrível sina de ser intangível, incerto e inútil do ponto de vista prático. Hannah Arendt, ao defender a tarefa do pensamento nas considerações morais, também definiu sua inextricável consequência: “quando começamos a pensar em qualquer coisa, interrompemos tudo o mais” (A Dignidade da Política, Ed. Relume-Dumará, p. 149). Ora, definir os detalhes de uma ação é pensá-la exaustivamente e, portanto, se afastar dela. Não me entendam mal. Pensar é preciso e cada vez mais necessário em um mundo onde tudo se faz no modo automático. Mas se existe o momento (e por que não a tarefa) da ponderação, também existe o momento de agir sem planejar. Ninguém vai negar que existem coisas que precisam ser feitas quase sem pensar. Entre elas, o futebol.

Não prender a bola foi um dos méritos do time do Atlético na partida contra o Iguaçu. Basta ver os dois gols do Marcinho para entender o que estou falando. No primeiro, a bola atravessou todo o campo e chegou até a rede adversária na base do “dois toques” – um deles a letra do garoto Renan. No outro, depois de boa jogada individual de Wallyson (driblar é diferente de prender a bola e também exige uma boa dose de “irracionalidade”), Renan pegou o rebote e deu um tapa para o novo camisa 10, que arrematou de primeira.

A semana do Atlético teve duas notícias importantes: a saída de Ferreira e a entrada de alguns garotos da Copa São Paulo no time principal. Se a promoção dos guris deixa a torcida animada, a atuação de Marcinho serviu para tranqüilizar a torcida depois do empréstimo do colombiano para o Dallas depois de quatro anos sem títulos na Baixada. Apesar do carinho da torcida, acho que desta vez não vai ficar saudade. Se não houve jogada de craque, sobrou objetividade. Além dos gols, Marcinho jogou com velocidade, coisa que ainda falta para o Atlético. Pela esquerda, Márcio Azevedo também voltou muito bem e ajudou a fazer a bola correr. Mas o destaque na minha opinião é mesmo o outro cabeludo, Renan, que tem boas chances de ganhar a vaga ao lado do Valência. Tenho birra de dois volantes, mas dou aqui o braço a torcer. Nem precisa pensar muito.

Cine Manjericão: O Processo

In PRETEXTO on 25 25UTC Fevereiro 25UTC 2009 at 15:44

oprocesso

Adaptação do livro de Franz Kafka, feita com maestria pelo grande diretor norteamericano Orson Welles. Com um elenco de primeira, uma trilha sonora jazz /clássica empolgante, maravilhosa fotografia e edição. Num ambiente sombrio e desalentador, um homem, Joseph K., acorda em plena manhã e encontra a polícia em seu quarto. É informado de que será preso. Não lhe apresentam os motivos nem a acusação. O processo corre em segredo. A partir daí, K. enfrenta caótica peregrinação. Apontam-lhe pessoas que poderiam influenciar e manipular o julgamento e garantir-lhe a absolvição, inclusive um advogado (o próprio Orson Welles), muito versado nos assuntos do tribunal. Ao procurar entender os mecanismos que movem seu processo, K. se torna paranóico e passa a acreditar numa enorme conspiração. Tudo parece um grande pesadelo.

CINE MANJERICÃO
DIA 27 DE FEVEREIRO – SEXTA
20H30 – Bebidas e confraternização
21h00 – Início da projeção
ENTRADA FRANCA (contribuições são bem-vindas)

GOVARDHANA
Rua Augusto Stresser, 207
Tel. (41) 3254-5657

Guantánamo, a doutrina do choque e a biopolítica – Parte II

In PRETEXTO on 19 19UTC Fevereiro 19UTC 2009 at 16:40

Como este texto tem a pretensão de apresentar duas leituras um tanto diversas sobre o significado de Guantánamo – o “capitalismo de desastre” de Naomi Klein e a “vida nua” de Giorgio Agamben – vou aproveitar algumas coincidências. Confesso: embora não tenha condições de defender esta idéia, lá no fundo escondo a hipótese de uma ligação mais estreita entre os processos de construção-reconstrução ou de produção-consumo que caracterizam a atual dinâmica capitalista conforme Klein e as considerações do filósofo italiano sobre a “vida nua” ter alcançado o mais elevado status político na modernidade.

No último dia 10 de fevereiro, a Folha de São Paulo trouxe reportagem de Silvana Arantes sobre A Doutrina do Choque, adaptação do livro de Naomi Klein dirigido por Mat Whitecross e Michael Winterbottom. Curiosamente, na primeira parte deste post deixei um trailer de O Caminho para Guantánamo, filme que em 2006 rendeu o Urso de Ouro aos mesmos diretores. Não tinha a mínima idéia de que os dois estavam filmando o livro da Naomi Klein.

A mesma edição da Folha traz a notícia da morte de Eluana Englaro. Vítima de um acidente automobilístico, a italiana permaneceu em coma durante 17 anos. Nos últimos meses, sua vida foi objeto de severa disputa política. De um lado, Berlusconi e o Vaticano defendiam a manutenção da vida por aparelhos. De outro, o Poder Judiciário amparava a decisão da família sobre o desligamento dos aparelhos. Diante da decisão da máxima corte de justiça da Itália, autorizando a suspensão da alimentação artificial, Berlusconi ameaçou mudar a Constituição e tentou passar um decreto-lei que proibia a interrupção da alimentação.

Ainda que malfadada, a tentativa de Berlusconi ilustra o paradoxo do poder soberano do qual nos fala Agamben: tendo o poder de suspender a lei, o soberano se coloca fora dela. O poder soberano decide sobre o dentro e o fora, estando de fato ele mesmo em um “limiar” que não é fora da lei nem se limita por ela. Daí seu poder de exceção, que radicalmente se define como o direito de vida e de morte. Sem dúvida é este mesmo poder que permitiu o surgimento do Military Comissions Act, legislação especial de combate ao terrorismo, assinada por Bush em 2001, que escapa às Convenções Internacionais e à própria legislação norte-americana (ver a primeira parte deste post). Neste sentido, a prisão de Guantánamo é mesmo um dos grandes símbolos do estado de exceção.

Mas o chocante em Agamben está na definição da relação de exceção como constitutiva da lei e da política. “A decisão soberana sobre a exceção é”, para ele, “a estrutura político-jurídica originária, a partir da qual somente aquilo que é incluído no ordenamento e aquilo que é excluído dele adquirem seu sentido” (Homo Sacer, UFMG, p. 27). Se em sua origem a política nasce da separação entre a pura vida biológica (zoé) e uma vida qualificada pelo exercício da ação e da palavra no meio dos outros homens (bíos), o ingresso da vida biológica no seio da vida política é pago “com uma incondicional sujeição a um poder de morte” (idem, p. 98), o poder soberano.

Tal sujeição é personificada na figura do homo sacer, que no direito romano simbolizava aquele que poderia ser morto impunemente e sem os ritos de sacrifício prescritos pela lei, ou seja, uma vida sagrada e ao mesmo tempo sujeita à morte. Agamben explica a aparente contradição: se a consagração passava um objeto do profano ao sacro, o homo sacer é posto para fora da alçada humana sem alcançar o divino. Ocorre, portanto, uma dupla exceção do humano e do divino. É justamente nesta zona de indistinção que o pensador italiano faz convergir o poder soberano (que não está dentro nem fora da lei) e a vida nua do homo sacer (que não está sob a lei dos homens nem sob a lei de deus).

A tentativa de Berlusconi passar por cima da lei converge com o conteúdo da matéria sobre a qual o político conservador pretende legislar: a vida nua. Como escreveu João Pereira Coutinho em uma bela e esclarecedora coluna publicada ainda na mesma edição da Folha, a definição de vida que o primeiro-ministro italiano procura defender é “apenas um simulacro de vida: um conjunto de funções fisiológicas que ocorre num corpo inerme”. Não se trata de defender o “dever da morte”, como ele próprio afirma ao traçar a distinção entre matar e deixar morrer. O colunista chama atenção para uma diferença essencial entre uma existência humana e a mera vida biológica, que hoje pode ser mantida por anos com auxílio de máquinas.

Talvez ainda não esteja clara a relação entre a vida mantida por aparelhos e a vida confinada em campos como Guantánamo. Bem, outro famoso caso de disputa sobre a vida e a morte foi o da norte-americana Terri Schiavo, mantida em estado vegetativo durante 15 anos. Em 2005, ano em que os aparelhos foram desligados por decisão judicial, Slavoj Zizek publicou um artigo em que comparava a prisão de Guantánamo com o caso de Schiavo: “Estes são os dois extremos em que nos encontramos hoje em relação aos direitos humanos: de um lado, aqueles ‘que as bombas erraram’ (seres humanos completos mentalmente e fisicamente, mas privados de direitos), de outro, um ser humano reduzido a mera vida vegetativa, mas esta mera vida protegida por todo o aparato estatal”.

Vou terminar o post sem pode esgotar o assunto nem traçar todas as linhas que imagino entre as duas leituras (afinal, isto é um blog!), mas tentando ao menos esboçar uma resposta para a pergunta que coloquei no início: O que significa o fechamento de Guantánamo e a declaração de que “os Estados Unidos não vão torturar”?

Creio que a intenção de fechar esta prisão não deve nos fazer crer em um súbito esquecimento da “doutrina do choque”. Apenas como exemplo, ainda em 2008, durante as prévias da campanha presidencial nos EUA, Naomi Klein chamou a atenção para o fato de que o Partido Democrata de Obama arrecadou mais dinheiro dos fabricantes de armas do que os conversadores republicanos e que sua equipe seria composta por velhos membros da Escola de Chicago.

Tampouco se devem colocar as preocupações de Agambem para descansar. O fato do campo de concentração ser o paradigma da política na modernidade esconde uma relação muito mais íntima e antiga entre o poder soberano e vida nua. Um campo como Guantánamo é a materialização do estado de exceção, a zona de indistinção onde a vida nua e o poder soberano se encontram. Portanto, seu fechamento não extingue o poder de exceção característico da política na modernidade. Como alerta Agamben, “nos encontramos virtualmente na presença de um campo toda vez que é criada uma tal estrutura, independentemente da natureza dos crimes que aí são cometidos e qualquer que seja a sua denominação ou topografia específica” (idem, p. 181).

Política e Polícia

In PRETEXTO on 14 14UTC Fevereiro 14UTC 2009 at 18:29

Nesta sexta-feira 13, em Curitiba, o terror mais uma vez ficou por conta da Polícia Militar do Paraná. Não estive presente, mas não é preciso pensar muito para entender o que aconteceu. Ainda que o Governo do Estado e sua Secretaria de Segurança afirmem sempre que “conosco não tem enrosco”, a afirmação não é mais contundente do que as pancadas que continuam sendo distribuídas a torto e direito. Nada justifica a truculência e o despreparo que continuam sendo a marca da nossa PM.

A manifestação do Movimento Passe Livre – MPL reivindicava a volta da passagem ao patamar anterior (de R$2,20 para R$1,90), abertura da “caixa preta” da URBS (empresa responsável pelo transporte em Curitiba) e passe livre para todos os estudantes. Você já pode ler comentários na Internet dizendo que isto não é coisa de estudante nem de cidadão, pois lugar de estudante é na escola e a cidadania se exerce com trabalho e voto. Quem faz manifestação, pelo contrário, é “baderneiro”. Esta opinião não é de todo equivocada. Realmente, aqueles que decidem se manifestar politicamente deixam de pertencer inteiramente à mesma identidade social.

Como afirma o filósofo Jaques Rancière, através da ação política se produz um espaço de participação que não existia antes. Neste novo espaço, você não é apenas o estudante, o trabalhador, a mulher, o negro, etc. Estas são “identidades definidas na ordem natural da repartição das funções e dos lugares”, ou seja, o cada um no seu quadrado. Mas agir politicamente significa transformar todas estas identidades, criando um espaço de litígio onde se pretende repensar a sociedade, suas funções e lugares. Abre-se um espaço “onde qualquer um pode contar-se porque é o espaço de uma contagem dos incontados” (O Desentendimento. Editora 34, 1996, p. 48).

E quem são os incontados? Ora, você, eu, todos os que não estavam na mesa de negociação que decidiu pelo aumento da passagem. Todos os que não tem acesso às contas da URBS. Na “ordem natural” da sociedade, nós não temos o direito de mudar essas coisas. Não é da nossa conta. Porque estudante tem que estudar, trabalhador tem que trabalhar e todo mundo têm que pagar a passagem e ficar calado. Pelo contrário, o ato político constrói uma relação entre o que não tem relação. Ele exige que sejamos contados naquilo que não era da nossa conta. Transforma o problema de cada um em um problema de todos, deslocando o assunto privado (você não tem dinheiro pra passagem) para visibilidade pública (nós temos direitos de ir e vir).

Isto me faz lembrar de outra coisa, cujo contexto é muito parecido: transporte, direito à cidade, ação política e… criminalização. Daquela feita, a repressão foi da Guarda Municipal e o movimento em questão era a Bicicletada. Pintaram uma ciclofaixa e ganharam prisão, multa processo e – por sorte ou simpatia – escaparam da porrada. A defesa do grupo perante a justiça revela o quanto as autoridades trocam alhos por bugalhos, política por vandalismo, estudante por bandido, cidadão por meliante. O guarda em questão enquadrou o pessoal no artigo 4º da Lei Municipal 8.984/96, que condena a pichação de bens públicos ou particulares. No entanto, como afirma a defesa, o que havia ali não era um grupo de pichadores, mas “um movimento popular legítimo, o qual realizou ato público, à luz do dia, após chamada aos meios de comunicação e às autoridades, com apoio dos moradores e comerciantes da região, com propósito específico de atrair atenção para um meio barato e eficaz de se cumprir a lei (…) de exigir da Municipalidade a inclusão da
bicicleta como parte das soluções de trânsito em Curitiba”.

No meio de tantas diferenças, no critério “criminalização de movimentos sociais”, tanto o Governo quanto a Prefeitura estão empatados. Quer dizer… talvez a PM esteja alguns pontos na frente. Quem sabe porque o time está mais entrosado e vem treinando há mais tempo este tipo de ataque. O relato de um garoto na delegacia dá a medida dos métodos de intimidação. O policial pergunta a idade do rapaz e diante da resposta, ironiza: “Tá na hora de morrer, né?”. Para evitar qualquer denúncia e impedir novas manifestações, eles afirmam que estão na cola, tem fotos de todo mundo e sabem onde todo mundo mora. Quer mais? Ao que parece, nenhum dos detidos conseguiu fazer o exame de corpo de delito, pois foram mantidos na delegacia até perto das 18 horas e o IML funciona até as 17h30.

O MPL pede que sejam enviadas moções de apoio ao movimento e contra a criminalização dos movimentos sociais, para o e-mail mplcuritiba@gmail.com .

Experiências

In PRETEXTO on 12 12UTC Fevereiro 12UTC 2009 at 16:12

Publicado em FUTEPOCA

Como todos os regionais, o Campeonato Paranaense vive um momento de experiências e mudanças.

No Alto da Glória, não existe uma só pessoa que não chore ao ver os gols do Keirrison no Palmeiras. O Coritiba é o pior ataque da competição com apenas 2 gols em 4 partidas. Agora o atacante Hugo vai ter sua chance contra o Paranavaí, depois de marcar o gol da vitória contra o Foz. Além desta experiência, o time sofre três alterações: Ariel, Paraíba e Dinélson estão no Departamento Médico. Melhor para Renatinho, meia da base que foi emprestado ao Londrina no ano passado e agora tem a oportunidade de compor o elenco principal do Coxa. Outro atleta da base deve retornar para ajudar o time. Tiago Real, que disputa o Paranaense pelo Iguaçu, deve retornar como opção para o lugar de Marlos, outra revelação que migra para “os grandes” depois de Maio.

Também por falta de gols, Abuda deixa o Paraná Clube. Sem marcar durante cinco jogos, o ex-corinthiano rescindiu o contrato e deverá disputar o Paulistão pelo Marília. Os paranistas esperam agora a estréia do atacante Osmar e do lateral-esquerdo Fabinho. Além do retorno do zagueiro Luis Henrique, que pode tomar o lugar de Jonathas se Paulo Comelli decidir manter o atual esquema de dois zagueiros. Diante de tantas possíveis alterações, o que já mudou no Paraná foi o salário e a multa rescisória do meia Elvis, de apenas 18 anos e destaque neste início de ano.

Fora de campo, o tricolor quer ainda mudar a arbitragem. Depois da derrota contra o Londrina dentro de casa (1×2), o clube protocolou junto à Federação Paranaense de Futebol (FPF) um pedido de afastamento do trio que apitou a partida e anulou dois gols do anfitrião. Parece que a Federação já havia decidido pelo afastamento do bandeirinha José Amilton Pontarolo, mas isto não é o bastante na opinião de Aurival Correia, presidente paranista. Além da punição, o Correia apela: “Não façam mais laboratórios conosco”.

Enquanto isto, tudo vai “muito bem, obrigado” para o Londrina, que fez 2×1 no Foz do Iguaçu. Com a segunda vitória fora de casa, o tubarão alcançou os 10 pontos e a terceira colocação. Pertinho de Londrina está a cidade de Maringá. A rivalidade entre as duas estrelas do norte é tradicional dentro e fora de campo. Mas neste ano, os maringaenses ficaram sem time e o campeonato sem o clássico tubarão x galo. Agora surgem boatos de que o J. Malucelli – futuro Corinthians do Parque Barigui – pode se mudar para Maringá. O presidente desmente a mudança imediata, mas confirma que o time deve mandar jogos no interior. Provavelmente serão como testes da recepção do novo produto pelo público consumidor, para ver até onde pode chegar a expansão do negócio. Diante da hipótese, fica a pergunta: para quem vão torcer os milhares de corinthianos que vivem em Londrina?

Também perto de Londrina, mas na tabela do campeonato, está o Toledo. O time – que tem uma parceria muito mais digna com o São Paulo FC – empatou com o Atlético nesta quarta-feira e mostrou que tem boas chances de se manter nas primeiras colocações. Apesar de Rafael Moura afirmar que o Atlético ficou “abaixo da crítica”, a verdade é que o jogo foi difícil e do outro lado tinha um time muito bem montado e com alguns destaques individuais, caso do veterano Marcos Aurélio (ex-Flamengo), dos jovens Rafael, Bruno, Hernani e principalmente do goleiro Fabiano, principal responsável pelo empate.

As experiências do Geninho já estão mostrando alguma coisa. Como o próprio técnico afirmou, “a zaga é titular, o Valencia, o Ferreira e o Rafael pelos gols que fez também”. As duas alas seguem em versão beta. Zé Antônio foi bem ontem pela direita, mas apresenta defeitos típicos da improvisação. Já Alex Sandro entrou meio desligado. Nas suas costas o Toledo fez suas principais jogadas no primeiro tempo e quando subiu pro ataque o moleque foi meio disciplicente. Deu pra ouvir aqui de casa o Geninho gritando: “Joga sério! Você não está sozinho”.Ele melhorou, mas não o bastante pra tomar o lugar do Netinho. Pelo meio, apesar de uma apresentação mediana contra o Toledo, acredito que Marcinho seja o titulo no lugar de Julio dos Santos.

Agora o furacão tem duas partidas em casa. Primeiro o Nacional de Rolândia e depois o Paraná. Com duas vitórias o time dá largos passos em direção ao primeiro lugar nesta fase classificatória, o que significa dois pontos de lambuja na próxima fase. A outra vantagem, esdrúxula, foi alterada ontem pela FPF e a Rede Globo. É isso ai mesmo: o regulamento do Campeonato Paranaense foi alterado assim, no meio da competição. O artigo 9 previa que o time campeão da primeira fase jogasse todos os jogos em casa. Ok, era uma norma ridícula. Mas isto é hora de experiências?

O Enigma de Kaspar Hauser

In PRETEXTO on 10 10UTC Fevereiro 10UTC 2009 at 14:05

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“Cada um por si e Deus contra todos” é o título original que o diretor Werner Herzog tirou de “Macunaíma”, de Mario de Andrade. Baseando-se em registros históricos, Herzog nos conta o estranho caso de um jovem encontrado perdido numa praça de Nuremberg, Alemanha, em 1828. Ele não falava e nem conseguia ficar de pé. Passara os primeiros anos de sua vida aprisionado numa cela, não tendo contato verbal com nenhuma outra pessoa. Logo lhe foram ensinadas as primeiras palavras, mas a exclusão social de que foi vítima não o privou apenas da fala. Sem uma série de conceitos e raciocínios, Hauser não conseguia diferenciar sonhos de realidade. Quem seria este misterioso rapaz? Seria possível civilizá-lo?
Filme vencedor do Grande Prêmio do Juri em Cannes no ano de 1975.

CINE MANJERICÃO
DIA 13 DE FEVEREIRO – SEXTA
20H30 – Bebidas e confraternização
21h00 – Início da projeção
ENTRADA FRANCA (contribuições são bem-vindas)

GOVARDHANA
Rua Augusto Stresser, 207
Tel. (41) 3254-5657

10 livros de poesia

In PRETEXTO on 10 10UTC Fevereiro 10UTC 2009 at 13:26

“No céu também há uma hora melancólica.
Hora difícil, em que a dúvida penetra as almas.
Por que fiz o mundo? Deus se pergunta
e se responde: Não sei.

Os anjos olham-no com reprovação,
e plumas caem.

Todas as hipóteses: a graça, a eternidade, o amor
caem, são plumas.

Outra pluma, o céu se desfaz.
Tão manso, nenhum fragor denuncia
o momento entre tudo e nada,
ou seja, a tristeza de Deus”.

Drummond – Tristeza no céu

Era uma daquelas noites nas quais não se pode dormir. Não se pode, não se quer, que diferença isto faz? O fato é que dormir foi uma luta. E na ausência de sono, cerveja ou companhia, revirei a estante atrás de conhecidos livros que pudessem me embriagar, velhas canções de ninar.

É o mesmo, ainda, quando procuro filmes. Busco rostos conhecidos, as histórias cujo sentido já está dado e presente. Como se quisesse apenas recuperar algum causo bem sabido. Um velho mapa que me mostre o caminho da vida. A cola deste exercício nada matemático, que me dê a tranqüilidade de uma solução ou a grave sabedoria de que não existe uma só.

Certamente não é assim com todos os livros, nem todos os filmes, nem todas as histórias. Em uma biblioteca, por exemplo, procuro o novo; aquilo que ainda não sei. Ali existe ainda mais que um mundo a descobrir. Palavras que nunca ouvi, lugares que não conheci, idéias que ainda não tive. As paredes de uma biblioteca protegem os livros de nós, mas nos protegem dos livros também. É preciso ser introduzido a estes novos universos, hostis a sua maneira; na escuta silenciosa, entre estantes empoeiradas, abre-se um perigo no colo ou em cima da mesa calma.

Mas em casa, bem perto da cama, guardo apenas a segurança de um mundo conhecido.

Alguns livros entram aqui como estranhos e para eles, normalmente, reservo um lugar especial até que estejam confortáveis junto aos outros e até que eu mesmo me sinta confortável com a sua presença. Há sem dúvida aqueles que se misturaram sem uma prévia aproximação, que não conheci na intimidade da cama e, ainda assim, dividem espaço com os que contam minha própria vida… Estes estranhos sempre me olham estranho, quando roço a vista entre as prateleiras. Quase gritam, me perguntam: “O que estou fazendo aqui? Quando vai me descobrir?”.

Sei bem como se sentem. É como estar em um lugar onde tudo e todos se dizem respeito, menos você. Meus livros – e não são muitos – contam de mim mais do que eu sei dizer deles. Meus livros falam entre si. Quando possível, fazemos uma roda e a conversa não acaba mais.

Alguns são velhos amigos, mas resta pouco assunto. Já os novos falam demais! Tanto que quase não sou capaz de escutar. Mas o tempo diz sempre a verdade. Revela o valor do que muitas vezes só tem preço, aparência e boa fama. O tempo mata o desejo, ou melhor, faz ver que muitas vezes o que se deseja não está lá. O tempo dissolve o pó do meu café e outras coisas mais resistentes. Eu espero.

Há os livros antigos, que sempre tem o que dizer. Como o vinho, as boas idéias, o amor e as instituições, demonstram sua força na medida em que envelhecem. Há, sem dúvida, a força do rompante, da revolução que instaura o novo tempo, da paixão que incendeia o primeiro contato. Há a força da agonia, da agitação e da novidade. Mas até mesmo esta se revela uma segunda vez em relação àquela força mantenedora, calma, sustentável. Presente sem estardalhaço, sem que dela se dê conta. A força do que existe (quase) sem esforço de resistir.

Noites como essa me levam quase sempre de volta a Drummond. Não sou dele estudioso nem tenho poesias décor. Sei um pouco sobre Itabira, sobre a estátua em Copacabana, reconheço sua imagem e mais nada. Ao contrário suas poesias, sabem sempre muito de mim. E em noites como essa, me reconheço nelas. Reli poemas que sei o gosto e provei novos também. Uma canção para ninar mulher, um convite triste, uma flor e a náusea. Muitos poemas sobre o medo, outros sobre a coragem. Enfim, copiei para um amigo algumas frases que lhe cabem. Há sempre aqui algo que se encaixa. São 10 livros de poesia, mas são bem mais do que isso. A introdução de Antônio Houaiss dá a medida de sua importância e me escusa o exagero:


“(…) aos que não podem prescindir aqui e agora – e algures e depois – do convívio com a Obra de Carlos Drummond de Andrade, o que releva é que esta lhes é suporte para o viver e o sobreviver e o morrer (…)”.

Diz muito mais a introdução. Mas eu aqui já disse tudo o que queria dizer. Só falta contar que tomei emprestado meu primeiro livro na biblioteca do colégio. E não mais devolvi. Carrego este pecado e faço pública a confissão. Hão de me perdoar. O que seria de mim sem todas estas palavras?


Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.

Drummond – Procura da poesia

Futebol Paranaense: para o Zênite ou Nadir?

In PRETEXTO on 3 03UTC Fevereiro 03UTC 2009 at 12:52

Depois de três rodadas dá pra sacar que teremos uma boa disputa no Paranaense 2009. No meio da semana, durante a transmissão de Iguaçu (de União da Vitória) x Coritiba, Raul Plasmann destacou a qualidade que vem apresentando algumas equipes do interior. Sem dúvida a vontade de aparecer marca a participação de clubes com calendários que se resumem à disputa estadual. Mas além de garra e correria, aqui e ali aparece também um bom planejamento tático e alguns destaques individuais. Mas esta não é uma grande novidade. Nós é que esquecemos muito rápido das coisas ou temos esta mania muito paranaense de desvalorizar o que aparece por aqui.

Naquele jogo, o Iguaçu deu uma canseira no Coxa e se a zaga tivesse dado um chutão ou evitado o cruzamento do Marlos aos 48 do segundo tempo, o clube da capital não estaria hoje nem entre os dez na tabela. Aliás, na rodada seguinte o Iguaçu (que fez apenas dois jogos) conseguiu seu primeiro pontinho contra o J. Malucelli e impediu que o time alcançasse o Atlético na liderança. Com o empate no clássico deste domingo (Coxa 0 x 0 Atlético), o rubro-negro garantiu o primeiro lugar com dois pontos de vantagem sobre o rival. Mas entre eles estão Foz do Iguaçu, J.Malucelli e Toledo. Logo atrás vem o Nacional, Cianorte (também com dois jogos), Engenheiro Beltrão e só depois o Paraná Clube.

A próxima partida do Atlético é contra o J. Malucelli. E não adianta querer mudar de nome, porque vai ser sempre o Malita, o Jotinha, irmão mais novo, chato pra caralho. Mas agora, pra piorar, aquele irmão rebelde que não quer ser ele mesmo, foge de casa e muda de identidade. Ora, eu sempre achei legal você ter o direito de mudar de nome quando alcança a maioridade. Afinal, ninguém merece a má sorte de ser batizado com um nome escroto. O nome de J. Malucelli é sem dúvida um dos maiores erros de batismo da história do futebol mundial. Seria absolutamente compreensível se este fosse o único motivo da mudança. Afinal, como é que você pode conquistar torcedores para um clube que carrega o sobrenome de uma família? Até ditadores como Franco e Berlusconi foram espertos o bastante pra comandarem clubes de futebol sem emprestarem suas alcunhas.

O Malita já tinha uma tarefa difícil: ser o quarto maior clube de uma cidade. É só olhar para a Portuguesa em São Paulo ou o Vasco no Rio (gostou, Yuri? hehe). Que força de vontade, que disposição, que empenho para manter um clube e uma torcida nestas condições. Mas os dois exemplos ainda carregam toda a tradição da colônia portuguesa. E o Malita? Bom… Agora ele quer carregar a história de um dos maiores clubes do país. Assim, de lambuja. De uma hora para outra, deixar de ser um time quase sem apoio para se transformar em uma paixão. O Corinthians Paranaense. Mas não é bem assim… Aqui em Curitiba, pelo menos, o que estão conseguindo é perder a simpatia dos rivais.

Li em algum lugar o presidente Malita chorando porque o time não tinha torcida. Mas se eles tem a estrutura, porque não investir em uma parceria e montar um time realmente forte no interior? Lá, infelizmente, a maior parte de quem gosta de futebol prefere acompanhar apenas os times de São Paulo e Rio de Janeiro. Isto ficou evidente na pesquisa que aponta o Corinthians como clube de maior torcida no Estado. Assim… de boa… é uma vergonha. Entre as dez maiores torcidas, apenas três são do Paraná. Sei que a informação é antiga, mas olhe a lista:


1 – Corinthians, 12,5%
2 – Atlético-PR, 9,6%
3 – Palmeiras, 7,6%
4 – Coritiba, 7,5%
5 – São Paulo, 6,5%
6 – Flamengo, 6,2%
7 – Santos, 4,3%
8 – Paraná, 3,2%
9 – Grêmio, 2,6%
10 – Internacional, 1,4%

Considerando que os números que apontam os três clubes de Curitiba são, em sua grande maioria, de curitibanos, fica evidente que pelo menos no futebol o interior do Paraná não é paranaense. E onde é que estão os clubes do interior? Não é brincadeira não! Em Londrina, segunda maior cidade do Estado com mais de 500 mil habitantes, o clube da cidade fica atrás de cinco clubes paulistas e cariocas na preferência dos torcedores. O diretor de marketing do Corinthians, Luís Paulo Rosemberg, que classificou o negócio como uma “grande tacada mercadológica”, expôs com todas as letras o provincianismo do nosso Estado: “O norte paranaense é paulista”.

Não pensem que estou defendendo algum tipo de bairrismo ou segregação. De jeito nenhum. Direita pra mim é apenas uma posição dentro do campo, não na esfera política. Mas a subserviência é uma posição política. E quem invoca a posição de “democrático, liberal e livre de preconceitos” para defender um negócio cujo único objetivo é o lucro, está de fato defendendo apenas um “direito comercial”. Mas ok, pra terminar, vou dar o braço a torcer. O J. Malucelli nunca foi nada diferente disto, quer dizer, como Linhares Junior defendeu hoje em sua coluna, um “clube” que nasceu pra ser uma empresa, revelar jogadores e dar lucro para seus empresários. Eu ainda acho que embora o futebol possa ser comprado e vendido, não se pode dizer o mesmo da relação de uma torcida com seu clube ou sua cidade.

Minha nova ocupação

In PRETEXTO on 3 03UTC Fevereiro 03UTC 2009 at 01:45

No último sábado, dia 31, inauguramos uma pequena loja no Govardhana Yogashala.

O espaço pretende reunir bons livros (novos e usados) sobre filosofia, yoga, arte, política e literatura, além de roupa, música, comida orgânica, quadros, gravuras, fotos e outras produções de artistas locais.

Abaixo estão algumas fotos, amorosamente cedidas por Francinne M. Weffort.

GOVARDHANA
Rua Augusto Stresser, 207
Tel. (41) 3254-5657

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