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Posts de Janeiro, 2009

Guantánamo, a doutrina do choque e a biopolítica – Parte I

In PRETEXTO on 29 29UTC Janeiro 29UTC 2009 at 14:14

No último dia 22, Barack Obama ordenou o fechamento da prisão de Guantánamo no prazo de um ano e o fim dos tribunais de exceção. Mas o que é Guantánamo? O que significa um decreto como esse e a declaração de que “os Estados Unidos não vão torturar”?

Desde 1903 os EUA pagam a Cuba um “aluguel” de 4 mil dólares pela baía de Guantánamo, onde mantêm uma base militar. A concessão nunca pôde ser revogada pelo regime castrista, que obviamente não utiliza o dinheiro do acordo. Dentro da base está a prisão para onde o governo Bush resolveu levar os suspeitos de envolvimento com organizações terroristas depois dos ataques de 11 de setembro. Trata-se de uma verdadeira terra sem lei, onde não são reconhecidos aos prisioneiros os direitos da legislação americana nem as Convenções de Genebra (o Military Comissions Act, legislação especial de combate ao terrorismo assinada por Bush ainda em 2001, considera os suspeitos como “inimigos combatentes”, não como “prisioneiras de guerra”). Mesmo diante de incontáveis denúncias de violação dos direitos humanos, os Estados Unidos nunca permitiram a inspeção do local por organismos internacionais.

Em novembro do ano passado, quando o fechamento da prisão era ainda uma promessa do presidente eleito, Dan Ephron publicou na revista Newsweek um artigo que citava quatro barreiras para o seu cumprimento. O primeiro deles é “o fator iemenita” e diz respeito à dificuldade de negociação com diversos países – especialmente o Iêmen – para a repatriação de ex-prisioneiros que viessem a ser liberados. O segundo é “o problema do não-em-meu-quintal” (NIMBY), ou seja, o fato de que o EUA provavelmente manterá prisioneiros considerados perigosos, mas que nenhum Estado americano parece disposto a aceitá-los. Dentro do território existe ainda o problema dos “Direitos Miranda”, aquele que todos nós já ouvimos nos filmes: “você tem o direito de ficar calado, tudo o que você disser…. você tem direito a um advogado, etc”. Acontece que os “inimigos combatentes” não têm direitos diante da comissão militar que atua na “guerra contra o terrorismo”. Alguns juristas defendem a criação de novas “cortes de segurança nacional”, uma espécie híbrida entre as comissões militares de Guantánamo e os direitos civis norte-americanos. Por último, ficaria a questão sobre as outras prisões que os EUA mantêm em bases militares espalhadas pelo mundo, especialmente a de Bagram, no Afeganistão.

A pretensão deste artigo é pensar outras questões naquilo que se desenha como uma nova política de segurança nacional e direitos humanos do governo norte-americano. Para tanto, me apóio na noção de “capitalismo de desastre” invocada por Naomi Klein (a primeira parte deste artigo pode ser lida como uma incompleta resenha do livro) e no conceito de biopolítica ou do campo de concentração como paradigma da política na modernidade, tal como apresentado por Giorgio Agamben em seu Homo Sacer (uma segunda parte que espero conseguir escrever algum dia).

Em seu último livro, A Doutrina do Choque, Naomi Klein revela através de depoimentos e numerosos dados e declarações oficiais as ligações entre o desenvolvimento de experiências psiquiátricas com eletrochoque, as técnicas de tortura praticadas pelos Estados Unidos e as teorias de choque econômico do que ela chama “capitalismo de desastre”. Sua tese central é a de que o moderno desenvolvimento capitalista depende de uma forma diferente de expansão, que consiste em um contínuo processo de destruição e reconstrução. Neste contexto, os desastres (naturais ou fabricados) não são apenas oportunidade de negócio para as grandes corporações, como o choque desses acontecimentos provoca uma situação de pânico onde podem se concretizar mudanças que, em condições normais, receberiam a resistência da população. Choques como um golpe de estado no Chile, um tsunami no Sri Lanka ou um ataque dentro dos EUA tornaram possível o “esquecimento” de toda uma infra-estrutura pública e sua substituição por lucrativos empreendimentos privados.

O que Naomi Klein traz de extraordinário são as pontes que ligam este tipo de manobra política – teorizada por gurus liberais como Milton Friedman – com as terapias de eletrochoque e as técnicas de tortura. Aqui eu vou seguir apenas uma parte dessas trilhas, priorizando aquilo que conduz até Guantánamo e a “guerra contra o terrorismo”.

Nos anos 1950 a CIA patrocinou as experiências psiquiátricas do Dr. Ewen Cameron, que acreditava ser possível “desfazer e apagar as mentes defeituosas” (Klein, p. 41) de seus pacientes e regravar nelas um conteúdo inteiramente novo. Seu método de “cura” consistia em mantê-los acordados e isolados durante semanas, sob administração de eletrochoques e de uma série de drogas e medicamentos, até que suas mentes se tornassem um espaço vazio e pudessem então ser recarregadas através de mensagens reproduzidas ininterruptamente durante semanas inteiras. Diante dos relatos, é impossível discernir a experiência científica de um requintado e desumano método de tortura.

No entanto, as práticas do Dr. Cameron foram estudadas pela CIA como “técnicas especiais de interrogatório”. Anos mais tarde, revelou-se que a Agência realizava cursos para promover este tipo de “interrogatório de fontes resistentes” em países onde havia conflitos ou golpes que interessavam ao EUA. Mas os agentes norte-americanos procuravam não sujar as próprias mãos. Pelo menos até o 11 de setembro de 2001. A partir de então, “aquilo que era feito por procuração (…) seria realizado diretamente e defendido às claras” (Klein, p. 55) pelos Estados Unidos. Para tanto, uma série de operações conceituais foram conduzidas em sua legislação para driblar resistências internas e os julgamentos internacionais. Entre elas, esta definição do prisioneiro como “inimigo combatente” e a declaração de que os Estados Unidos se reserva o direito de “interpretar o significado e a aplicação da Convenção de Genebra” (Klein, p. 56). Através destas manobras foi possível não apenas criar e manter a prisão de Guantánamo, como Abu Ghraib no Iraque ou Bagram no Afeganistão.

A adesão dos EUA às práticas que constavam apenas como “estudos” nos manuais da CIA, coincide com a chegada de Donald Rumsfeld ao cargo de secretário da defesa do governo Bush. Ele havia passado os últimos vinte anos dirigindo multinacionais, o que lhe garantiu know-how para “reinventar a guerra para o século XXI – tornando-a (…) muito mais lucrativa do que jamais havia sido até então” (Klein, p. 338). O papel de Rumsfeld na transformação do Departamento de Segurança dos EUA em um dos mais pródigos clientes das corporações é tratado por Klein com riqueza de detalhes. Resumidamente, trocou-se um grande número de tropas regulares por soldados temporários e trabalhadores terceirizados, investindo a economia de recursos públicos em novas tecnologias de guerra produzidas pelo setor privado. O que ficou mais fácil depois do 11 de setembro, quando se utilizou o pânico para aumentar o orçamento da guerra. O evento tornou possível a substituição da recém-estourada bolha pontocom, fazendo surgir “uma nova economia apoiada em segurança doméstica, guerra privatizada e reconstrução de desastres, encarregada de construir e administrar um Estado de segurança privatizado, dentro e fora de casa” (Klein, p. 353).

Como as experiências do Dr. Cameron serviram como laboratório para as modernas técnicas de tortura praticadas em Guantánamo, a prisão dentro do território cubano serve como laboratório para a aplicação das mesmas técnicas em ocupações militares. No Iraque, em 2003, diante da resistência civil, um oficial da inteligência norte-americana chamado Willian Ponce (acredite) solicitou “técnicas de interrogatório” que pudessem auxiliar o controle da situação. Duas semanas depois, desembarcou no Iraque o diretor de Guantánamo, Geoffery Miller, com a missão de “get more” (tirar mais) da prisão de Abu Ghraib. “Gitmo” é o apelido dado pelo próprio Miller a prisão que Obama pretende fechar em um ano.

A chamada “guerra contra o terrorismo” foi orquestrada de maneira a garantir a sustentabilidade deste mercado, que supera os limites da tradicional indústria bélica. Não se trata apenas de comprar armas e tanques para a guerra em uma região determinada e contra um inimigo definido. “Os terroristas”, afirma o documento fundador do Departamento de Segurança Nacional, “podem aparecer em qualquer lugar, a qualquer hora, e praticamente com qualquer arma” (Klein, 355). Isto é o mesmo que dizer: tudo o que a indústria da segurança nacional produzir precisa ser comprado. As companhias de tecnologia são a indústria bélica da guerra contra o terrorismo, produzindo ferramentas de identificação, rastreamento, controle, fiscalização, vigilância. A maior parte vinha sendo desenvolvida para servir como ferramentas para uma ordenação mais detalhada dos perfis dos consumidores ou para substituir os trabalhadores do comércio varejista. “Dali em diante, as mesmas informações (…) podiam ser vendidas, não só para agências de viagens e lojas como a Gap, como dados de marketing, mas também para o FBI, como registros de segurança” (Klein, p. 358).

Adaptada para identificar e controlar “terroristas”, suas evidências são quase sempre questionáveis. Assim, outra “solução de mercado” menos tecnológica é o bom e velho “Procura-se”. Os EUA pagaram de 3 a 25 mil dólares para quem denunciasse um membro da Al-Qaeda ou do Talibã. Um ex-prisioneiro de Guantánamo dá a medida desta solução: “No Paquistão, você pode comprar pessoas por dez dólares. Imagine com cinco mil dólares?”. É evidente que o menos importante dentro da “guerra contra o terrorismo” é provar a culpa dos prisioneiros. Em 2008, a Suprema Corte dos EUA autorizou que prisioneiros de Guantánamo apelassem perante a Corte Federal de Washington. Até o fim do ano, seis dos nove casos analisados foram declarados detenções ilegais.

Ocorre que hoje a indústria da segurança nacional norte-americana “se tornou tão grande quanto Hollywood ou a indústria fonográfica” (Klein, p. 360). É desta forma que devem ser entendidas as declarações de Dick Cheney pela manutenção da prisão e do uso de métodos como a asfixia simulada nos interrogatórios até que chegue ao fim a “guerra contra o terror”. Cheney e muitos outros não são (apenas) loucos cruéis e desumanos, mas acionistas e conselheiros de empresas que lucraram com esta guerra permanente. O “capitalismo de desastre” precisa dela e em mais um momento de crise, sem dúvida maior do que o estouro da bolha pontocom, dizer que “os EUA não vão torturar” é quase o mesmo que dizer “os EUA não vão produzir carros”. Portanto, quando Obama se propõe a fechar Guantánamo ele está se comprometendo a mudar uma tradicional forma de administração, presente há mais de cinqüenta anos e ainda muito bem representada em Washington.

Este é o trailer de The Road to Guantanamo, produção britânica de 2006 que conta a história de três jovens britânicos presos no Paquistão.

Uma coisa liga a outra

In PRETEXTO on 24 24UTC Janeiro 24UTC 2009 at 03:09

Olha só como são as coisas. O último texto que publiquei por aqui também foi publicado no Futepoca, um blog que admiro muito, assim como as três coisas que ele contêm: futebol, política e cachaça.

Um pouco antes do meu você encontra um texto sobre Roberto Ribeiro, ex-goleiro como Camus e que também trocou as luvas pelas letras. No seu caso, de samba. A publicação do Marcão me deu pretexto para vasculhar o Youtube e além de Roberto Ribeiro acabei cruzando com Antônio Candeia Filho e com este documentário de Leon_Hirszman sobre o samba de partido alto.

Se você gosta de samba, vale a pena assistir as três partes. Se não gosta, apesar de ser ruim da cabeça ou doente do pé, pode dar uma lida na história de Candeia e de seu Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo.

Mais um texto técnico

In PRETEXTO on 23 23UTC Janeiro 23UTC 2009 at 01:18

O treinador morreu, de boca fechada, quando o jogo deixou de ser jogo e o futebol profissional precisou de uma tecnocracia da ordem. Então nasceu o técnico, com a missão de evitar a improvisação, controlar a liberdade e elevar ao máximo o rendimento dos jogadores, obrigados a transformar-se em atletas disciplinados. – Eduardo Galeano

Nunca assisti ao treinamento de um time de futebol profissional. Ou melhor, assisti alguns treinos do Londrina na infância. Mas tinha lá meus 12 anos e aparecia no Estádio do Café muito mais pela graça de matar aula do que por qualquer interesse no treinamento em si. Além do mais, não entendia patavinas sobre esquema de jogo. Pra mim era nós contra eles. Acabou.

Ando pensando bastante nesta carência da minha formação, especialmente quando tento montar um time na cabeça. Você pode dizer que isto é problema do técnico de futebol, como meu computador é problema do técnico em computação e minha bicicleta é problema do bicicleteiro. Mas é sempre bom entender e conhecer um pouco melhor essas coisas todas com as quais a gente tem uma ligação tão íntima e diária, ainda que no caso do futebol o conhecimento signifique pouco poder efetivo. Sendo menos do que um cronista esportivo de relativa audiência, o máximo que a gente vai conseguir é assunto pro boteco. Mas já está valendo.

Acompanhando um programa esportivo algumas semanas atrás, ouvi que o Geninho pretendia montar um time no 4-4-2. Ainda estava no ar a novela sobre a transferência do Netinho para Grécia. Ora, caso o negócio fosse concretizado estaríamos com os cofres cheios e com um buraco na ala esquerda. Mesmo com a permanência do guri nossa fragilidade canhota é evidente num esquema de dois zagueiros e dois laterais. Neste esquema, o Netinho voltaria a jogar no meio (o que seria uma boa), mas a lateral ficaria entre Márcio Azevedo e Alex Sandro. O primeiro chegou a disputar boas partidas ano passado, mas caiu de rendimento vertiginosamente e sem explicações. O segundo é ainda uma promessa das divisões de base. Isto significa que sair do 3-5-2 agora seria fazer uma aposta na recuperação de um atleta ou na revelação de outro.

Felizmente ficou mais claro depois que o técnico estava falando em treinar algumas possibilidades, não em mudar o esquema de jogo. Tudo bem que o Paranaense é o campeonato de menos expressão a ser disputado neste ano, mas não se trata de desconsiderar a briga e tomar o certame como pré-temporada, de jeito nenhum! O Paranaense é pra ganhar. O Geninho sabe disso, a diretoria sabe, a torcida, os jogadores, todo mundo sabe que tem que entrar rasgando. Mesmo que a primeira fase classifique 8 de 15 times, o campeonato começa dia 25 e o único amistoso foi contra o Batel de Guarapuava. Agora é valendo ponto.

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Mas já que falamos em promessa, não dá pra deixar de lado o fio de esperança que a Copa São Paulo trouxe para a torcida rubro-negra. Aliás, um fio não, trouxe logo um novelo ou já uma trama muito bem costurada. Porque o time base do Furacão está muito bem organizado, além de ter jogadores que se destacam individualmente. E o assunto da Copinha cabe aqui muito bem, porque esse time também está no 3-5-2. Se o Manoel jogar durante o ano o que ele fez contra o Cruzeiro, quem sabe a gente possa ver o Chico ao lado do Valência. Ali pelo meio ainda tem o Willian, que parece ser um guri bom: quieto, com personalidade, toque de bola e muito raçudo. Pela direita tem o Raul, que é um baita jogador e deve ser uma sombra atrás do Nei e do Alberto, um se recuperando de lesão e outro que infelizmente foi habitué do Departamento Médico no ano passado. Lá na frente, Patrick e Eduardo Salles são bons centroavantes, mas a briga já está quente…

Posso queimar a língua, mas acho que o Lima vai ser opção de segundo tempo e que a briga pela vaga ao lado do He-Man fica entre Júlio César e Preá. No meio, Geninho está apostando suas fichas no Julio dos Santos, o que cria outra “briga”entre Ferreira e Marcinho. Puta merda… essa é boa! Deixar um no banco com certeza vai ser uma pressão violenta para quem entrar jogar tudo o que sabe e o que não sabe. Mas outra opção pode ser o Ferreira no meio e o Marcinho no ataque, como ele mesmo disse que gosta de jogar.

Enfim, me perdoem o absurdo da comparação, mas acho que montar um time deve ser mais ou menos como escrever. Primeiro você tem alguma formação e experiência nisso. Entende alguma coisa técnica, manja umas jogadas, estuda umas regras. Depois tem algumas idéias e vai ensaiando na sua cabeça aquilo que quer fazer dentro das quatro linhas. Então começa. Coloca uma peça aqui, outra ali. Elas se movimentam. Algumas do jeito que você esperava, outras não. Então você apaga, substitui, joga de novo. Nada estava pronto antes de começar a partida e no final você tem um resultado impossível de ser alterado. Definitivo. Para o bem ou para o mal. Uma diferença óbvia e com vantagens para quem escreve é que seu resultado pode continuar sendo debatido com argumentos contra ou a favor de suas escolhas. O técnico não. Seu resultado aparece em um placar. O escritor lida com palavras. O técnico de futebol, apesar de toda a magia do jogo, com a frieza dos números.

Conhecendo a máquina de escrever

In PRETEXTO on 21 21UTC Janeiro 21UTC 2009 at 14:52

Lembro quando meu pai chegou em casa com nosso primeiro videocassete. Minha irmã e eu nos abraçamos e começamos a pular no meio da sala. Naquela época, parecia que todo mundo menos a gente tinha videocassete. Você sabe como são as crianças. Eu nem sabia direito para que servia aquele negócio, mas sonhava com um desses embaixo da minha televisão.

A coisa mais incrível que o novo eletrodoméstico fazia era gravar programas ainda que ninguém estivesse em casa. Era legal porque sempre passava alguma coisa interessante na hora de ir pra igreja. Juntamos algumas dezenas de fitas VHS debaixo do armário. Então passamos a gravar por cima, da mesma forma que já acontecia com as fitas cassete de áudio. Mas a coisa funcionou por apenas alguns meses. Depois perdeu a graça. Tudo era gravado e assistido uma vez ou duas, no máximo. Virou estoque de poeira.

As instruções diziam que também era possível assistir a um canal e gravar o que passava em outro. Mas nem chegamos a aprender isto. O interesse por essas funções mais elaboradas durou pouco e durante anos o aparelho funcionou apenas recebendo os filmes da locadora. Seis botões resumiam nossa relação com o antigo objeto de desejo: play, pause, forward, reward, stop, reject. Hoje o trambolho cinza jaz em algum armário da casa, tornado obsoleto por seus irmãos mais novos cujo empenho da família talvez alcance uma dúzia de botões.

As máquinas sempre entraram na minha casa com um pouco de atraso em relação à maioria dos meus amigos. Ainda assim, nunca deixaram de despertar paixão e curiosidade, seguidos de perto por uma espécie de acomodação e desinteresse. O caso mais ilustrativo é o da centrífuga de alimentos. A festa durou exatamente 3 dias e contou inclusive com um campeonato de sucos. Agora todo mundo morre de preguiça de limpar aquele treco que fica cheio de bagaço de fruta colado em toda parte.

Mas sem dúvida, entre todos os aparelhos domésticos, o que por mais tempo conserva sua magia é o microcomputador. Este é o mais ferrenhamente disputado, o que fica mais horas ligado, o que todo mundo quer usar.

Minha relação com ele data do início dos anos 90. Fiz meu primeiro curso diante de uma tela verde e preta, utilizando aqueles disquetes gigantes e digitando comandos que minha memória apagou. Depois de uma tardia redescoberta via Windows, consegui aprender o suficiente para garantir a sobrevivência virtual. Mas cada vez mais sinto que meus conhecimentos não são o bastante para me conferir uma cidadania neste novo mundo. Comparativamente, é como se eu fosse semi-analfabeto ou alguém que foi educado para um tipo de atividade que não existe mais. Eu ainda consigo me virar. Mas se tudo der certo para a tecnologia, antes dos 40 anos devo me sentir como meu avô de 90 na frente do computador. Não entendo metade dos termos e utilizo muito menos que a metade do que esta moderna máquina de escrever tem pra me oferecer.

Além de me incentivar a escrever, este blog faz parte do meu esforço (quase) autodidata. Digo “quase” porque na internet a relação entre mestre e aprendiz muda radicalmente, mas não deixa de existir. Dia desses, em meio a brusquetas e suco de cranberry, meu amigo Raphael Neto me ensinou a usar o Google Reader e me apresentou alguns professores interessantes. Entre as lições, destaco estas dicas de como montar um blog. Outro texto interessante é este meio-manifesto por uma blogosfera mais madura.

O resultado destas leituras e de alguma exploração desajeitada foram pequenas mudanças, como os tags que aparecem agora antes de cada postagem. No canto inferior direito você pode ver agora uma “nuvem de tags” que destaca os assuntos mais postados. Acima dela tem ainda uma relação de links ainda em fase de construção… Tentei encontrar também outro template, onde estas mudanças ficassem mais visíveis, mas os dois estilos mais interessantes já são usados pelo Nils e pelo Felipe .

Encontre aqui seu novo emprego

In PRETEXTO on 16 16UTC Janeiro 16UTC 2009 at 15:05

OK, já estou descumprindo meu próprio aviso. Hoje é sexta-feira. Mas durante a semana foi impossível para e escrever qualquer coisa. Então vou quebrar a regra desta vez.

Preciso escrever sobre o que mais me incomodou durante a semana. And the winner is… Não, não é a eleição do Cristiano Ronaldo. A situação toda que arrancou minha paciência nesta semana tem relação com o tema do trabalho e do emprego. Mas para começar, preciso voltar até poucos dias antes do Natal. Vocês sabem tão bem quanto eu como são esses dias. Eu não gosto. Não gosto mesmo. Para mim, não existe expectativa pelo Natal e Reveillon. Existe stress, encheção de saco (com o perdão do pleonasmo). Então, estava saindo de casa, atrasado, para procurar presentes, ops!… lembrancinhas e resolver mais uma ou outra coisa que as pessoas chamam de preparativos e eu sinto como preocupação. O telefone tocou. Fiz a merda de atender. Telemarketing.

Não, não vou meter o pau no telemarketing. Todo mundo faz isso porque todo mundo odeia, inclusive quem faz a ligação. Vou meter o pau na proposta que me fizeram e na minha própria burrice em aceitar. Mas é preciso compreender as circunstâncias. Fim de ano, compras, contas, férias, viagem, desemprego, mais contas, a bolsa de janeiro que não vem porque a universidade está em recesso e… Enfim, eu havia recusado por mais ou menos dois meses a “oportunidade” que me era oferecida insistentemente, por e-mail, para incluir meu cadastro no banco de empregos desta empresa chama Manager Online. Mas naquele dia e diante daquelas circunstâncias, acabei fornecendo meus dados à atendente. “Você tem sete dias de serviço gratuito, senhor. Podendo cancelar seu cadastro em nosso site antes deste prazo”.

Não sei porque fiz aquilo. Ou melhor, sei. Você sabe. Todo mundo sabe. Nos cinco dias depois desta decisão estúpida, entrei no site da Manager buscando oferta de empregos. Nada. Claro que não. Eles até mandam uma porção de ofertas, mas parece até que você não fez cadastro algum, porque nenhuma delas corresponde aquilo que você já fez ou pretende fazer.

No sexto dia, entrei no site para cancelar a inscrição. Mas eles me ofereceram outros sete dias gratuitos. E eu… acreditei. Passei mais cinco dias consultando a porcaria e nada! No sexto dia, novamente, entrei e acabei com a palhaçada. Tenho aqui o e-mail da empresa confirmando o cancelamento. Se tiver fôlego, vou usá-lo como prova. Porque alguns dias depois fui surpreendido – no meio de uma série de cheques que caiam na minha conta como meteoros – com um débito de R$ 28,50. Adivinhem de onde?

Vocês podem imaginar minha raiva. Contra a empresa e contra mim mesmo. Quem é estúpido o bastante pra cair em um golpe desses? Bom, falei com um cara no banco – daqueles que ficam orientando pra você não entrar na fila errada – e ele disse ter passado pela mesma coisa. “Cara, agora você tem que ficar esperto todo mês, pra ver se eles não agendam outro débito. Então você cancela”. Todo mês! “Mas você pode ainda tentar fazer o estorno deste débito”. Entrei, peguei a senha, esperei e não consegui fazer o estorno. “Você não é o primeiro”, disse a mulher ao ver no meu cadastro que o débito era da Manager Online. Ela me passou o endereço e o telefone da empresa, que fica em São Paulo. Não sei o que vou fazer com isso. Pensei em ligar todos os dias pra encher o saco. Mas o valor do interurbano me desanima.

Antes de sair, o gerente percebeu minha raiva e veio até a mesa. Segundo ele, o banco tem um contrato com esta empresa e ela pode simplesmente agendar débitos. “Mas eu não autorizei nada! Você não vai encontrar nenhuma assinatura, nem mesmo um ‘li e aceito’ onde eu tenha clicado, nada”. Acontece que o contrato do Banco compete à empresa a obrigação de possuir a autorização do cliente. Quer dizer… foda-se você, correntista! Uma empresa espertalhona só precisa do número da sua conta para arrancar o seu dinheiro. É oito vezes mais fácil do quer ser hacker e provavelmente mais seguro. É oitenta vezes mais fácil do que arrumar um emprego de verdade e, sem dúvida, mais lucrativo.

Por onde eu posso começar?

In PRETEXTO on 12 12UTC Janeiro 12UTC 2009 at 15:15

Agradeço as visitas no final de semana, mas já vou deixar um aviso: só “trabalho” neste blog entre segunda e quinta. Duro é escolher sobre o que falar na segunda-feira…

Bem, não dá pra deixar de lado o ato contra os ataques de Israel. Acordei cedo na sexta, um pouco ansioso. Afinal, nem lembro qual foi o último protesto que participei. Sem contar a Bicicletada, que pra mim é mais uma ação do que um protesto. Quer dizer… É um protesto. Mas é diferente. Você está reivindicando alguma coisa, mas ao mesmo tempo tem uma possibilidade mínima de intervir diretamente. É claro que a Bicicletada não muda uma legislação, não cria ciclovias ou bicicletários públicos. Então, fica ainda uma meta que só é alcançada sob a forma do protesto. Mas, por outro lado, o simples ato de pedalar e fazer isto em conjunto é uma forma de ação direta, quase uma desobediência civil. Você está reivindicando mais espaço para as bicicletas e está tomando este espaço a que realmente tem direito.

Em um protesto contra a guerra, como o que se faz aqui no Brasil em solidariedade ao povo palestino, qual é a possibilidade de uma intervenção concreta na realidade que se pretende transformar? Creio que este tipo de pensamento inibe a participação de algumas pessoas. “O que isto vai mudar?”.

Alguns murros em ponta de faca te fazem pensar nisto. Aquilo que você queria transformar no mundo continua o mesmo e suas próprias condições de vida pioraram. Se o tempo diminui nossa estatura, parece que o fato de estar envolvido com política – pelo menos esta política que não dá dinheiro – acelera o processo e te deixa ainda menor diante das outras pessoas. Aquelas que estão cuidando da sua vida, crescendo.

Então você sai de casa numa sexta-feira de manhã para participar de um protesto contra uma guerra que acontece muito, muito longe dos seus problemas. As bombas são lançadas e explodem longe daqui. A decisão de parar ou continuar os ataques não depende da sua opinião. Nem mesmo a ajuda humanitária depende de você. Sua solidariedade possivelmente não vai ter nenhum impacto visível. Não é uma enchente em Santa Catarina. A guerra é mais cruel e ainda menos compreensível que um desastre natural. Muito mais difícil de se intervir.

Uma guerra no Oriente Médio. O aumento da tarifa. O despejo de uma favela.

Você pode associar a imagem de Dom Quixote aos protestos, manifestações ou ações que buscam se posicionar nestas e em outras situações. Mas por que não a imagem de Davi contra Golias? A propósito, me lembro de uma camiseta de uma banda de hardcore punk paulistana com a imagem de uma criança palestina atirando pedras e a frase “Davi agora é palestino”. Talvez se nossa própria vida estivesse em risco não pensaríamos duas vezes antes de atirar uma pedra contra um tanque. Diante do massacre, não nos ocorreria perguntar “o que isto vai mudar?”.

Kanoute comemorando o gol de Luis Fabiano.

Kanoute comemorando o gol de Luis Fabiano.

A camiseta de Frédéric Kanouté comemorando o gol do Sevilha também não parou a guerra. Bem longe do bombardeio, ele não arriscou a vida. Só ganhou uma multa por ousar fazer do futebol um espaço político por preciosos segundos. Mas foi um ato vitorioso em uma época onde a grande preocupação dos atletas é colecionar Ferraris (pelo menos na Europa) e todos dizem a mesma coisa (pelo menos no Brasil).

O ato que aconteceu também em Curitiba foi vitorioso. Ele não parou a guerra, mas colocou cerca de mil curitibanos nas ruas como cidadãos e não como consumidores. Ele venceu uma batalha contra a apatia. Além do mais, a emoção de pessoas que tem parentes e amigos na região em conflito ou mesmo um forte laço cultural com o mundo árabe não deixou dúvidas sobre a importância de se expressar a revolta. Para que não siga acontecendo. Para que não aconteça jamais.

Tudo na mão do Geninho

In PRETEXTO on 8 08UTC Janeiro 08UTC 2009 at 13:54

Dei uma de técnico cagão e esperei até os 40 minutos do segundo tempo para falar sobre a nova temporada do Atlético. Na verdade, não foi bem isso. Se tivesse algum poder de mexer no time, meus amigos, eu o faria bem antes. Acho que qualquer rubro-negro paranaense o faria, depois do vexame no Campeonato Brasileiro. Mas a diretoria não fez. Resolveu manter o mesmo time que quase nos matou do coração.

Ainda perdemos o Alan Bahia. Mas não vou chorar as pitangas, já que sua negociação com o futebol estrangeiro era mais do que esperada e merecida. O cara jogou muito e vestiu a camisa do clube como poucos no volátil futebol moderno. Sinto mesmo uma ponta de vergonha pelas poucas vezes que o xinguei lá da arquibancada. Lembro de uma senhora descontrolada rimando Bahia com porcaria e das piadas que terminavam o nome do craque com …bique. Ora bolas, que hipocrisia a nossa! Se eu estivesse sendo comandado por Bob Fernandes e Mário Sérgio Pontes de Paiva, vendo a vaca ir pro brejo daquele jeito, acho que também ia entornar das minhas. Sabe aquela coisa de beber para esquecer?

Mas falando sério, o Bahia se recuperou. O time se recuperou. As cinco últimas partidas, pelo menos, foram dignas de um Clube Atlético Paranaense. Nós sabemos que os méritos são, quase todos, do Geninho. Por isso, mantê-lo aqui não foi uma atitude da diretoria, mas da torcida. Vamos e venhamos, quem seria louco de mandar o homem embora depois de salvar o time da segundona e terminar o campeonato ovacionado, amado, praticamente acariciado pelas palavras dos milhares que formam a maior torcida desta capital? Ninguém é bobo. Mas corajoso, uma vez mais, é o Geninho. Porque se fosse eu, cláusula primeira da renovação do contrato seria carta branca para um bom número de contratações. Ficar no clube com o mesmo time é sinal de muita confiança, no próprio taco e/ou nos jogadores.

Quem acompanha futebol percebe o mexe-mexe em todas as equipes. Aqui nada. Só especulação. O pior é que botamos panca de clube da Europa. Mas sem capacidade pra fazer frente em contratações com outros clubes do Brasil, parecemos estar comendo frango e arrotando caviar. Tem pelo menos um grande time brasileiro que também não mexeu muito: o Flamengo. Meu amigo Rondi Ramone acredita que para o rubro-negro carioca é melhor assim, sem grandes estrelas, sem grande badalação, mantendo a base. A diferença para com o nosso rubro-negro, penso eu, é que os urubus terminaram o campeonato disputando vaga para Libertadores e a gente… bem…

Mais uma vez... a cartola.

Mais uma vez... a cartola.

Os poucos reforços procurados pelo Atlético são atacantes. Como se para fazer gols a bola chegasse no ataque sozinha… Ok, a posição está carente. Eu mesmo escrevi que precisávamos de um matador, um artilheiro ou um cabeça de bagre qualquer que fosse capaz de meter a bola na rede. Mas já que é começo de ano, não custava nada trazer também um bom meia-armador. Nos meus sonhos, vi Kleberson de volta à Baixada. Mas tudo bem, trouxeram o Lima. Se ele fizer um gol contra os coxinhas de volta já valeu. Só pra relembrar. Melhor ainda se for de pênalti e na final do campeonato. Bom, nessa onde de reviver o passado, ganhamos pelo menos dez anos em relação ao Alberto, que cruzou a bola para Óseas marcar o primeiro gol que eu vi acontecer no Joaquim Américo. Dois a zero no Palmeiras. Era o ano de 1996. Doze anos depois, tive que rever o Alberto puxando a perna pra voltar do ataque. Nem eu agüento. Pelo menos esse ano parece que não vai ter reforço para o nosso Departamento Médico.

O certame pode servir como uma grande pré-temporada, onde o time vai se entrosando e o Geninho vai testando tanto aqueles jogadores que conheceu em situação de pressão ano passado quanto os poucos reforços e os pratas-da-casa. Mas para torcida não tem essa. Tem que ser campeão do Estadual. Para isso, confesso, esperava surpresas até a reapresentação do elenco. Pelo menos uma promessa de campanha – investir no time de futebol – já foi descumprida.

Tá certo que a torcida pedia há anos que não se desmontasse o time de um campeonato a outro. Mas vai manter justo este time?! Vamos lá, não quero ser injusto nem estou torcendo contra. Tomara que dê certo. Tem aí bons jogadores, que merecem vestir o manto e podem honrar nossa tradição: Galatto, Nei, Rodholfo, Valência, Netinho, Ferreira e até Rafael Moura, que ninguém pode negar, fez dois ou três gols salvadores. Mas pensem bem: com uma derrota a mais que fosse, não ficava ninguém pra disputar série B. Ninguém prestava. Quer dizer, o Paranaense já vai começar com ares de desconfiança. Não estou dizendo que a torcida não vai apoiar o time. Mas não vão pensando que escapar do rebaixamento foi o bastante pra cair nos braços da massa não. Tem que começar vencendo e jogando bem pra fazer as pazes de vez.

Passeata contra os ataques de Israel

In PRETEXTO on 7 07UTC Janeiro 07UTC 2009 at 13:27

Meu amigo Bernardo Pilotto , valoroso militante das lutas populares e filiado ao Partido Socialismo e Liberdade – PSOL, encaminhou convocação para um ato contra ataques de Israel aos palestinos. O ato acontece em Curitiba, no dia 09 de janeiro (sexta-feira), a partir das 11h na Praça Santos Andrade.

Leve bandeiras da Palestina ou aqueles lenços xadrez que ainda estão na moda.


lenco-palestino1

E para saber um pouco mais do que se trata o “potresto”, leia também as “regras jornalísticas” sobre o Oriente Médio, texto anônimo que parece ter sido publicado na Agência Carta Maior (eu não achei).


Doze regras de redação da grande mídia internacional quando a notícia é sobre o Oriente Médio:

1. No Oriente Médio, são sempre os árabes que atacam primeiro e sempre Israel que se defende. Esta defesa chama-se “represália”.

2. Os árabes, palestinos ou libaneses não têm o direito de matar civis. Isto se chama “terrorismo”.

3. Israel tem o direito de matar civis. Isto se chama “legítima defesa”.

4. Quando Israel mata civis em massa, as potências ocidentais pedem que seja mais comedida. Isto se chama “reação da comunidade internacional”.

5. Os palestinos e os libaneses não têm o direito de capturar soldados de Israel dentro de instalações militares com sentinelas e postos de combate. Isto se chama “seqüestro de pessoas indefesas.”

6. Israel tem o direito de seqüestrar a qualquer hora e em qualquer lugar quantos palestinos e libaneses desejar. Atualmente, são mais de 10 mil presos, 300 dos quais são crianças e 1000 são mulheres. Não é necessária qualquer prova de culpabilidade. Israel tem o direito de manter seqüestrados presos indefinidamente, mesmo que sejam autoridades democraticamente eleitas pelos palestinos. Isto se chama “prisão de terroristas”.

7. Quando se menciona a palavra “Hezbollah”, é obrigatório que a mesma frase contenha a expressão “apoiado e financiado pela Síria e pelo Irã”.

8. Quando se menciona “Israel”, é proibida qualquer menção à expressão “apoiado e financiado pelos EUA”. Isto pode dar a impressão de que o conflito é desigual e que Israel não está em perigo de existência.

9. Quando se referir a Israel, são proibidas as expressões “territórios ocupados”, “resoluções da ONU”, “violações dos direitos humanos” ou “Convenção de Genebra”.

10. Tanto os palestinos quanto os libaneses são sempre “covardes”, que se escondem entre a população civil a qual “não os quer”. Se eles dormem em suas casas, com suas famílias, a isto se dá o nome de “covardia”. Israel tem o direito de aniquilar com bombas e misseis os bairros onde eles estão dormindo. Isto se chama “ação cirúrgica de alta precisão”.

11. Os israelenses falam melhor o inglês, o francês, o espanhol e o português que os árabes. Por isso, eles e seus apoiadores devem ser mais entrevistados e ter mais oportunidades do que os árabes para explicar as presentes ‘regras de redação’ (de 1 a 10) ao grande público. Isso se chama “neutralidade jornalística”.

12. Todas as pessoas que não estão de acordo com as ‘regras de redação’ acima expostas são “terroristas anti-semitas de alta periculosidade”.


Velhos lugares e velhas pessoas.

In PRETEXTO on 6 06UTC Janeiro 06UTC 2009 at 02:32

Eu poderia dizer que uma das minhas metas em 2009 é levar esse blog um pouco mais a sério. Outra seria ver mais os amigos e deixar de lado o execrável hábito – que me habituei chamar curitibano – de combinar encontros sem a preocupação de que eles aconteçam realmente. Mas no lugar de promessas e metas que se esquece antes do próximo feriado, resolvi tomar o telefone e ligar para um velho amigo.

Saímos num domingo de manhã, depois de 14 meses ausentes. No sábado chovera pela semana inteira, para que naquele dia não houvesse novas desculpas. Falamos sobre muita coisa, mas só cabe aqui falar de uma. As outras não são para a publicidade. Pertencem à penumbra das amizades, onde não há toda a escuridão da vida privada, nem toda a luz da vida pública.

Andávamos pela Rua XV praticamente vazia, não fosse uma porção de senhores trocando não sei que palavras naquela parte do calçadão que se chama Boca Maldita. “Reduto machista”, como afirma a placa turística pregada na porta do Café da Boca. Dias antes passei ali com minha namorada e vimos que o tradicional café se tornaria mais uma lanchonete Subway. Gosto do Subway e peço sempre o mesmo: um pão de parmesão com óregano, 15 cm, queijo prato duplo, com todo tipo de saladas, especialmente as azeitonas que são sempre pretas e como molho, sempre, um que é agridoce e não guardo o nome inglês. Mas meu hábito importa menos que a tradição. Confesso antes uma ponta de tristeza pelo fechamento daquele velho lugar – ainda que provavelmente nunca o freqüentasse – do que alegria pela conveniência do meu lanche preferido.

Dentro de alguns dias ou semanas o café não existirá mais, mas os senhores certamente ficarão por ali, buscando em outro lugar o líquido preto, quente e amargo que lhes serve de combustível ou pretexto. A Boca não fecha. Estará sempre aberta para receber novos cafés, prosas, protestos e promoções. Os senhores continuarão ali e certamente serão outros. Seremos nós? Meu amigo pensou que sim. Mas no futuro que espio entre as brechas do meu comportamento atual, disse eu, devo ser um senhor ranzinza e solitário, passando ainda mais tempo enfurnado em casa, cercado pelas coisas que me agradam. Meu amigo logo assumiu a inclinação e sua esposa também o viu nesta mesma fantasia de eremita.

Mas seguimos falando ainda sobre muitas coisas e o conjunto delas, depois de fermentadas no espírito, mudaram um pouco a imagem que faço da minha velhice. Pelo menos hoje e enquanto o ano ainda é novo.

Já naquele dia, despedi-me feliz por reencontrar um velho amigo e ainda reconhecê-lo. Costuma-se lembrar dos amigos quando se pensa na morte. Como se no fim da linha houvesse um espelho mostrando aqueles que deixamos pra trás. Mas se a imagem refletida nunca é a imagem verdadeira, o passado que lembramos não é senão uma imagem presente. A saudade é vontade. A lembrança é novidade. O arrependimento, outra chance. E a morte não é de fato morte, mas a vida que ainda nos chama. Não é o fim da linha, mas uma margem. Só na margem se constroem pontes e é preciso sair de si para encontrar o outro.