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Posts de 2009

Colaboração com a multa da ciclofaixa

In PRETEXTO on 16 16UTC Novembro 16UTC 2009 at 15:35

Amigos,

que a prefeitura de Curitiba não está nem aí para a bicicleta não é algo novo. É notícia reforçada a cada semana. Só pra dar um exemplo na semana passada o prefeito apresentou o projeto de reformas da Av. Cândido de Abreu. Pra variar, nada pra bicicleta.

A lei orçamentária que será votada no início de dezembro não prevê um tostão para ciclofaixas! Ligar para o 156 funciona? Se o que eles chamam de democracia é ficar apertando botõezinhos pode ser. A sugestão é pressionar os vereadores para que insiram $$$ para as ciclofaixas. A pressão é agora.

Democracia e demagogia se confundem na política destes sujeitos. E a bicicleta é pra brincar, não é mesmo? É uma brincadeira pra jovens, estudantes, operários e todos aqueles que não precisam ´da agilidade´ do automóvel, como disse o prefeito no Dia Sem Carro deste ano.

Enfim, como se não bastasse tudo isto a multa da ciclofaixa, de acordo com a procuradoria, não será anistiada. O prefeito bem que gostaria, disseram eles, mas não pode abrir o precendente! Sabemos disso . . . faz quase 14 anos que o jovem Beto está mergulhado no poder municipal e bem que gostaria de fazer alguma coisa pra bicicleta. Ah, existe o Pedala Curitiba . . . um passeio nas noites de quinta . . . que coisa bonita! Estímulos pra a bicicleta como meio de transporte são inexistentes. Campanhas de educação e respeito ao pedestre e a bicicleta idem. Ciclofaixas, só as piratas mesmo!

Vamos coletar este dinheiro da multa de forma coletiva e pública. Contamos com a participação de todos. Não queremos que apenas uma pessoa ou instituição monopolize esta coleta e estamos aceitando doações de R$5 a R$300. As colaborações podem ser feitas no Govardhana Yogashala (Rua Augusto Stresser, 207) no horário comercial, ou através de depósito bancário (Banco do Brasil – CC. 39812-8 / Ag. 0009-4).

As três multas somadas chegam a quase R$3000. A dívida ativa rende mais que a poupança! Só com este valor daria pra fazer 300 metros de ciclofaixa. Se contar os honorários dos procuradores que negaram os nossos dois recursos, afirmando que o que fizemos foi sim um ato de pichação e vandalismo, dariam alguns kilometros a mais de ciclofaixa na ´capital dos patrícios´.

O dinheiro arrecadado será depositado em juízo e uma ação judicial será iniciada contra a prefeitura de Curitiba por danos morais e omissão e desrespeito ao Código de Trânsito Brasileiro, que afirma que é obrigação das autoridades municipais instituir a estrutura cicloviária da cidade.

Quem fizer a colaboração através de depósito mande o nome completo, RG e valor depositado ao e-mail abaixo.

Colabore, divulgue e pressione!

O poder é nosso!

Coletivo Interluxartelivre (coletivointerlux@gmail.com)

Ciclofaixa é disputa política, não vandalismo.

In 1 on 21 21UTC Outubro 21UTC 2009 at 13:07

SAIBA MAIS NO BLOG DA BICICLETADA

1- copie e cole a carta abaixo e envie um email novo, sem encaminhar nada, sem multiplos endereços, para o email do gabinete gabvirtual@pmc.curitiba.pr.gov.br .

2- Não esqueça de colocar seus dados no lugar do nome e do titulo de eleitor.

3- Envie ESTA MENSAGEM ao maior número possível de amigos, com uma nota pessoal pedindo apoio, e não como mais um SPAM.

4- Coloque no título: Multa a Ciclistas e estabelecimento de ciclofaixas, uma solução urgente!

Excelentíssimo Senhor Prefeito de Curitiba

Sr. Beto Richa

Tomando como base o impasse legal criado pela PGM na situação da multa imposta aos ciclistas que, em um gesto de demonstração de possibilidades e por repetirem uma prática jamais reprimida em outros contextos de empolgação cívica – como as celebrações de Copas do Mundo – se vêem os ciclistas em questão diante da insistência da procuradoria em enquadra-los como pichadores.

Venho, por meio desta e acompanhado de inúmeros outros cidadãos e eleitores desta cidade, solicitar que o senhor tome para si a revisão do ato administrativo que resultou na multa aos referidos ciclistas, o que lhe cabe como instância superior da administração pública dotada de poderes para rever os atos das instâncias inferiores.

A Guarda Municipal entendeu como delito comum, de simples pichação, a manifestação essencialmente política dos ciclistas que pintaram uma ciclofaixa na primeira quadra da Rua Augusto Stresser, (imediatamente antes da Praça Vivian Caropreso Braga) durante as manifestações do Dia Mundial Sem Carro de 2007.

Sabe-se porém que a pintura da ciclofaixa foi um gesto destinado a chamar a atenção para a necessidade de cumprimento dos dispositivos do Código Nacional de Trânsito que asseguram à bicicleta a condição de veículo de transporte no quadro urbano.

Ao anistiar os ciclistas, Sua Excia. passaria a reconhecer o teor político daquele gesto que não destruiu, degradou ou gerou qualquer custo de manutenção à administração pública.

Sua decisão de anistiá-los reverteria e corrigiria uma ação dos níveis inferiores, dando a estes um direcionamento diferenciado para o trato de situações semelhantes.

Ao considerar ainda que, ao recebê-los em seu gabinete, alguns dias depois da manifestação, Sua Excia. sinalizou claramente para o movimento e a opinião pública sua disposição favorável, pelo menos em tese, às metas da Bicicletada, a anistia aos ciclistas multados (três deles, em meio a cinqüenta participantes) apenas viria como uma conseqüência natural dessa disposição.

A sugestão de todos nós, ciclistas e não ciclistas, mas igualmente preocupados com a qualidade de vida tão propagada como sendo marca da cidade de Curitiba inclui ainda que S. Excia. assuma:

Institucionalização da Primeira Ciclofaixa de Curitiba, na Rua Augusto Stresser como marco simbólico de uma mudança de postura na gerência do tráfego na cidade.

O reconhecimento do ato em questão como eminentemente político, praticado por cidadãos livres, no sentido de impulsionar e colaborar com relações mais humanas nas ruas de nossa cidade, revendo a ação das instâncias inferiores de sua administração.

Reconhecer, a exemplo de cidades muito mais complexas e populosas – entre elas Nova York, que adota as ciclofaixas – a bicicleta como veículo inteligente, convivial e preferencial , respaldado por dados empíricos mais que comprovados, no que diz respeito a todos os aspectos que influem no deslocamento na cidade, mediante a adoção menos custosa, simples e eficiente que representam as ciclofaixas.

Certo de que teremos nossa voz ouvida, e certo de que a imposição da multa, razão de ser dessa carta, será revista por S.Excia.

Despeço-me

Atenciosamente

Nome – Titulo Eleitoral

Ciclo de Palestras do mês da Bicicleta

In PRETEXTO on 16 16UTC Setembro 16UTC 2009 at 02:42

Nesta quarta-feira (16 de setembro) tem início o ciclo de palestras e debates sobre a mobilidade urbana por bicicleta em Curitiba. O evento faz parte do calendário do ‘Mês da Bicicleta’. O ARTE BICICLETA MOBILIDADE é uma proposta do coletivo interluxartelivre em parceria com o projeto Ciclovida da UFPR, Grupo Transporte Humano e Sociedade Peatonal, que chega neste ano a sua terceira edição.

A programação dos debates é a seguinte:

Quarta-feira – 16 – Claudio Oliver (Casa da Videira), Luis Patrício (Grupo Transporte Humano), Rodyer Cruz (História – Tuiti)

Quinta-feira – 17 – Lolô Cornelsen (arquiteto), Antonio Miranda (União dos Ciclistas do Brasil)

Sexta-feira – 18 – Fábio Duarte (arquitetura – PUC), Maria Miranda (arquiteta – IPPUC), Iara Thielen (Psicologia – UFPR)

Segunda-feira – 21 – José Carlos Belotto (Ciclovida – UFPR), Ricardo Mesquita (Acessibilidade Urbana), André Caon Lima (Sociedade Peatonal).

Por que não priorizar a bicicleta no meio urbano? O que impede sua inserção no cotidiano da cidade? Por que não temos ciclofaixas, que são a opção mais barata e eficiente para proteger os ciclistas, espalhadas pelos quatro cantos de Curitiba? Estas e outras perguntas serão debatidas nestes dias que servirão de aquecimento para o 22 de setembro, dia sem carro, onde uma grande manifestação, a MARCHA DAS 1000 BIKES, irá ocupar a cidade saindo da reitoria da UFPR às 18:30hs.

Para o dia 22 ainda haverá uma programação especial com direito a Vaga Viva no centro da cidade além de uma linha fechada para os carros com ciclotaxi e tudo mais.

Acompanhe as novidades e a programação completa.

Não queremos celebrar Tel Aviv

In PRETEXTO on 15 15UTC Setembro 15UTC 2009 at 13:52

Artigo de Naomi Klein, publicado no jornal norte-americano “The New York Times” e reproduzido no portal “Terra Magazine“, de Bob Fernandes. Postado em 13/09/2009 no portal UOL.

“Quando eu soube que o Festival Internacional de Cinema de Toronto estaria fazendo uma “mostra” Tel Aviv, me envergonhei de Toronto, a cidade onde moro. Imediatamente me veio à cabeça Mona Al Shawa, ativista dos direitos das mulheres palestinas que eu conheci numa viagem à Gaza que fiz recentemente.

“Tínhamos mais esperança durante os ataques”, ela disse. “Pelo menos acreditávamos que as coisas iriam mudar.”

Al Shawa explica que enquanto choviam bombas israelenses em dezembro e janeiro, os moradores de Gaza estavam grudados às suas TVs. O que eles viram, além da carnificina, foi um mundo em completa indignação: protestos globais, quase 100.000 pessoas nas ruas de Londres, um grupo de judias em Toronto ocupando o Consulado Israelense.

“As pessoas chamavam de crimes de guerra”, lembrou Al Shawa. “Sentimos que não estávamos sozinhos no mundo.” Se os moradores de Gaza pudessem sobreviver, parecia que o seu sofrimento seria, pelo menos, um catalisador de mudanças.

Mas hoje, Al Shawa disse, essa esperança não passa de uma lembrança amarga. A indignação internacional havia evaporado. Gaza já não estava mais nos noticiários. E parece que todas aquelas mortes – quase 1.400 – não foram suficientes para trazer justiça. Sem dúvida, Israel está se negando a cooperar até mesmo com a missão exploratória da ONU, liderada pelo respeitado juiz sul-africano Richard Goldstone.

No primeiro semestre, enquanto a missão de Goldstone estava em Gaza colhendo testemunhos assustadores, o Festival Internacional de Cinema de Toronto alinhavava sua seleção para a mostra Tel Aviv, marcada para coincidir com o centenário da cidade israelense.

Muita gente quer nos fazer acreditar que não há qualquer relação entre o desejo de Israel para permanecer imune ao escrutínio de suas ações nos territórios ocupados e as instalações glamorosas do evento em Toronto. Tenho certeza de que até Cameron Bailey, co-diretor do festival, acredita nisso. Mas ele está enganado.

Por mais de um ano, os diplomatas israelenses falam abertamente da sua nova estratégia para combater o crescimento do ódio à postura desafiadora de Israel à lei internacional. Não basta, dizem eles, apenas evocar Sderot (uma cidade de fronteira israelense e alvo de ataques de foguetes) cada vez que alguém menciona Gaza.

É preciso também mudar de assunto para tópicos mais agradáveis: cinema, arte, direitos dos homossexuais – coisas que estabelecem amenidades entre Israel, Paris, Nova York e Toronto. Depois do ataque a Gaza, e com o crescimento dos protestos, essa estratégia foi colocada em funcionamento. “Mandaremos escritores conhecidos para o estrangeiro, bem como companhias de teatro, exposições”, disse ao New York Times Arye Mekel, vice-diretor geral de assuntos culturais do Ministério do Exterior de Israel. “Dessa forma, mostramos a face mais bela de Israel, para que não se lembrem de guerra sempre que pensarem em nós.”

E Tel Aviv, cosmopolita e sempre na moda, celebrando seu centenário com “beach parties” em Nova York, Vienna e Copenhagen durante todo o verão, mostra-se um belo porta-voz.

Toronto teve um gostinho dessa nova missão cultural. Há um ano, Amir Gissin, o cônsul-geral de Israel em Toronto, explicou que a campanha da “Marca Israel” incluiria, de acordo com uma notícia do jornal Canadian Jewish News, “uma presença israelense maciça no próximo Festival Internacional de Cinema de Toronto, com presenças estelares de inúmeros artistas israelenses, canadenses e de Hollywood.” Gissin declarou, “Estou certo de que nossos planos se concretizarão.” Como de fato se concretizaram.

E que fique bem claro: Ninguém aqui está sugerindo que o governo israelense esteja manipulando a mostra Tel Aviv, sussurrando na orelha de Bailey quais filmes exibir. A questão é que a decisão do festival de dar voz ao orgulho israelense, declarando que Tel Aviv é “jovem e dinâmica como Toronto e celebra sua diversidade”, serve como uma luva para os objetivos de propaganda do governo israelense.

Gal Uchovsky, um dos diretores em foco na mostra, aparece no catálogo do festival dizendo que Tel Aviv é “um paraíso para onde os israelenses podem fugir quando quiserem esquecer-se da guerra e das agruras da vida cotidiana.”

Talvez em resposta a isso, o genial diretor israelense Udi Aloni, cujo filme “Local Angel” estreou no festival, enviou uma mensagem gravada em vídeo, desafiando os programadores do festival a combater o escapismo político e, em vez disso, “mostrar temas desconfortáveis”.

É irônico que a seleção de filmes esteja sendo chamada de “mostra”, porque celebrar aquela cidade isolada – sem olhar para Gaza, sem olhar para o que fica atrás dos muros de concreto, arames farpados e guaritas – acaba escondendo mais do que efetivamente mostrando algo.

Há alguns filmes israelenses sensacionais no programa. Eles merecem ser vistos como parte da programação normal do festival, fora desse escaninho poluído de enfoque político.

Foi com este mote que um pequeno grupo de cineastas, escritores e ativistas, do qual eu fazia parte, elaborou a Declaração de Toronto: Sem Celebração Sob Ocupação.

Foi assinado por artistas do calibre de Danny Glover, Viggo Mortensen, Howard Zinn, Alice Walker, Jane Fonda, Eve Ensler, Ken Loach, e milhares de outros. Entre eles também o celebrado diretor palestino Elia Suleiman, além de muitos cineastas israelenses.

Os contra-ataques – disparados pelo Centro Simon Wiesenthal e a radical Liga da Defesa Judaica – mostraram-se ao mesmo tempo previsíveis e criativos. A tecla mais batida é que os signatários seriam censores, tentando boicotar o festival.

Na realidade, muitos dos signatários têm filmes esperadíssimos no festival deste ano e de forma alguma tentamos boicotá-lo. Estamos é nos opondo à mostra Tel Aviv.

Mais criativa ainda foi a afirmação de que em nos negarmos a celebrar Tel Aviv como qualquer outra metrópole da moda, estaríamos questionando seu “direito à existência”. (O ator republicano Jon Voight chegou a acusar Jane Fonda de “apoiar e compactar com aqueles que desejam destruir Israel.”)

A declaração não diz nada disso. Na realidade, é apenas uma mensagem de solidariedade que diz o seguinte: Não queremos celebrar com Israel este ano. A declaração é também uma forma singela de dizer a Mona Al Shawa e milhões de outros palestinos vivendo sob ocupação que não nos esquecemos deles.”

Problema seu ou problema nosso?

In PRETEXTO on 13 13UTC Setembro 13UTC 2009 at 15:54

Texto-base para o debate na 4ª Verdurada de Curitiba.

Como alguns de vocês devem ter lido no cartaz, o tema da minha fala é “hardcore e política”. Tenho medo disto parecer uma coisa normal. Meu esforço é justamente mostrar que não existe nada de natural em associar as duas coisas. Então, pra começo de conversa é preciso, no mínimo, achar estranho pensar em hardcore junto com política. É preciso colocar uma questão sobre isto: o que o hardcore tem a ver com a política? Se é que tem alguma coisa.

Mas fiquem tranquilos porque não vou fazer nenhum tipo de discurso. Não vim aqui convencer ninguém a se envolver com uma causa, não vim defender nenhuma causa. Na verdade, eu, Rodrigo, estar aqui falando sobre isto é outra coisa estranha. Porque, na prática, estou muito distante das duas coisas. Meu envolvimento com o hardcore tem sido escutar bandas velhas de vez em quando ou conversar sobre “aqueles tempos” com algum amigo não menos distante. Em relação à política, não tenho militado em nenhuma organização. Quase todo meu interesse foi desviado para uma compreensão da política. Então, de um lado eu tenho conversas de bar sobre o hardcore e, de outro, tenho teorias sobre a política. Juntando as duas coisas, o que a gente vai ter aqui é mais ou menos uma teoria de bar sobre hardcore e política. Sem álcool e sem cigarro, é claro.

Outro aviso um tanto óbvio, mas que vale a pena ser dado: eu não acho que esta seja a coisa mais importante do mundo. Não acordo todos os dias pensando “caralho, será que o hardcore é político?”. Não é a pergunta que move a minha vida. Mas, como ainda não entrei para o Clube dos Cínicos Maduros, ainda acho que as duas coisas tem alguma importância. E ao propor este debate julguei que algumas pessoas que vão à Verdurada pensam o mesmo.

Sem mais delongas, vamos voltar à questão e colocá-la de um modo ainda mais simples: hardcore é política?

A gente não costuma ter problemas pra dizer que uma coisa é outra. Também não costuma pensar que é diferente, por exemplo, dizer “Curitiba é uma cidade” ou “a CELU é um espaço para shows”. As duas afirmações são verdadeiras. Mas Curitiba não pode ser outra coisa senão uma cidade, enquanto a CELU pode não ser um espaço para shows. Então, se você diz que “hardcore é política”, você está dizendo de um jeito ou de outro? Ele pode ser outra coisa ou ele é essencialmente político?

Com certeza, existem visões diferentes sobre o que é hardcore. A gente precisa fazer um acordo pra continuar com a conversa, quer dizer, a gente precisa pelo menos estar falando da mesma coisa. Digamos então que o hardcore é uma reunião entre pessoas, em torno de um estilo de música mais ou menos parecido. Esta música a gente pode chamar de “hardcore” ou de “punk”. Não importa aqui se você acha que uma banda não é hardcore. A pergunta é se esta reunião tem alguma coisa de política.

Indo direto ao ponto, eu não acho que os livros anarquistas, as camisetas com mensagens ou as letras de protesto fazem isto aqui ser político. As lojas do shopping podem vender os mesmos livros e camisetas, o Capital Inicial pode ter uma letra de protesto. E prestem atenção: eu nem estou julgando se é “certo” ou “errado” que eles façam isto. Estou dizendo que isto tudo, aqui, no shopping ou em qualquer lugar, por si só não é política. O que eu quero defender aqui é a política como atividade. Daqui em diante a minha fala está carregada de autores da filosofia, especialmente dois: Hannah Arendt e Jaques Rancière. Mas não vou ficar citando ninguém pra deixar a coisa um pouco menos chata.

Quando falo em atividade, por favor, não pensem naquele velho discurso que “não adianta só falar, tem que ter atitude”. Porque a “atitude” sem debate não é política. Ela é um dever-ser, uma moral, uma regra social, coisas que podem ser importantes pra manter as coisas funcionando. Mas a política nunca pode ser separada da fala, do argumento, da discussão. Ser politicamente ativo é poder debater com outras pessoas assuntos que interessam e estar pronto pra agir a este respeito, ou seja, a começar algo novo. É preciso estar livre para expor as suas opiniões, confrontá-las com outras opiniões e, em comum acordo, decidir o que pode ser feito. Então, as duas primeiras características da atividade política que eu queria destacar aqui são essas: 1) ela se dá no debate e 2) ela é uma ação em conjunto.

A terceira característica é que o assunto da política é sempre uma injustiça ou, pelo menos, algo que um determinado grupo acha que é injusto. Quando as pessoas se reúnem para discutir e agir, o que elas pretendem é reparar um dano. Nem todo mundo precisa concordar que aquilo é mesmo injusto. Isto é o que vai ser debatido. O mais importante, e prestem bastante atenção nisto, é que as pessoas e o problema que estão levantando sejam reconhecidos. Por isto a disputa política é diferente de outras disputas já estabelecidas e reguladas. Por exemplo, se eu compro um tênis e ele estraga no primeiro dia, eu posso entrar na justiça contra a empresa. Meus direitos como consumidor já são reconhecidos. Esta disputa não é política. Mas a briga por ciclovias, ciclofaixas e pelo reconhecimento da bicicleta como meio de transporte é uma disputa política. Porque na organização do transporte, até pouco tempo atrás, a bicicleta não era um problema. Seguindo este exemplo, a Bicicletada e outras organizações são políticas porque elas reuniram pessoas que se sentiam lesadas, colocaram a bicicleta como problema e passaram a agir em conjunto para expor este dano. Nisto tudo, o ciclista foi reconhecido como ator político.

Mas nosso tema aqui é o hardcore. Em que sentido ele foi, é ou pode ser político? Antes de responder eu queria chamar a atenção pra mais uma coisinha: as três características da atividade política (o debate, a ação em conjunto e a reparação de um problema) apontam uma preocupação com aquilo que é público, de domínio comum. A gente poderia dizer que a política tem a ver com uma preocupação com o mundo. Mas nem todas as nossas atividades são assim. Não vai dar tempo de explicar isto com detalhes, mas estou falando aqui em “tipos” de atividades. Existe um tipo de atividade em que nossa única preocupação é cuidar do próprio nariz, por exemplo, comer, beber, ganhar dinheiro e até mesmo andar de bicicleta. Em si mesmo, a atividade de andar de bicicleta não é política, ela não carrega uma preocupação com o público. Ok, você pode começar a andar de bike pra salvar o planeta. Mas eu não estou falando dos seus motivos. Estou falando da atividade. No mero pedalar não existe debate nem ação em conjunto. Andar de bicicleta é um problema seu.

Beber ou não beber também é um problema seu. Uma “escolha pessoal”, como foi dito muitas vezes. Mas quando um grupo de moleques sentiu que beber era uma regra que eles não queriam seguir e que sua escolha não era reconhecida, eles criaram uma coisa chamada straightedge. Esta coisa foi criada e recriada várias vezes, em muitos outros lugares, como uma disputa verdadeira ou como simples cópia do que outras pessoas fizeram. A gente pode dizer o mesmo de muitos outros temas que circulam pelo hardcore. O sexo, a alimentação, a moradia ou mesmo um passeio na praia são assuntos privados, mas que podem ser politizados, não apenas neste meio como em muitos outros espaços públicos. Estes temas podem ou não constituir uma ação política. Se não estiver ligado a um problema real e a um grupo de pessoas dispostos a debater e agir, estes assuntos vão ser apenas uma coisa legal de se cantar para parecer político.

Neste sentido, a “cena” pode ser um palco no meio da vida real ou apenas um teatrinho. Ela pode estar ligada a um problema real ou não. Do ponto de vista que eu estou defendendo aqui, o hardcore não é político apenas quando está ligado a uma temática comunista, anarquista, etc. Ele pode, inclusive, estar ligado a isto sem promover nenhuma atividade política, ou seja, sem criar uma comunidade, promover debates e gerar ações em conjunto.

Mas o hardcore precisa ser político? Quando não é, ele deixa de ser hardcore? Sinceramente, eu acho que não. Se a gente pensa isto como uma reunião entre pessoas em torno de certo estilo de música, existem muitas outras atividades possíveis neste meio. Por exemplo, a atividade de criar uma música, um cartaz ou uma camiseta, a atividade de vir aqui simplesmente se divertir, ou até mesmo a atividade de ganhar algum dinheiro. Nem sempre nós temos o mundo como preocupação. Este não é o problema.

O problema é nunca ter o mundo como preocupação. É pensar que tudo é sempre uma questão pessoal e cair no “cada um por si” que é típico dos nossos dias. Isto é o que acontece quando a gente não está mais disposto a polemizar e a discutir. E eu não estou falando apenas de criticar cinicamente, ou seja, debater não é meter o pau ou desprezar. É assumir que um tema é relevante, reconhecer sua importância, ouvir argumentos e dar os seus. Sem dúvida o hardcore não é o único espaço em que isto pode acontecer e nem é o mais importante. Mas é preciso pensar o que perdemos quando excluímos – não apenas do hardcore, mas da nossa vida em geral – o debate, a ação em conjunto e o reconhecimento de novos problemas.

Antônio Lopes e as máscaras do futebol

In PRETEXTO on 18 18UTC Agosto 18UTC 2009 at 04:54

Muito se tem falado sobre a volta do delegado ao rubro-negro paranaense. São duas as principais abordagens: as que valorizam reformas no esquema tático e as que exaltam o comando linha-dura do treinador. De fato, só isto pode explicar a nova fase já que não temos nenhum grande reforço em relação ao time que tomava goleada dentro e fora de casa.

Na realidade, ou seja, dentro do campo as duas leituras são inseparáveis. Nem o esquema tático teria sucesso sem a autoridade de quem o propõe, nem a autoridade se manteria sem fundar algo concreto, sem dar resultado. Mas isto é tão óbvio quanto à maioria das coisas que se diz sobre futebol. Ainda assim, vamos tentar separar as duas coisas, ignorar o aspecto tático e falar apenas da postura da equipe. Tendo em mente que isto é possível apenas analiticamente, ou seja, no comentário, na corneta, no texto e de jeito nenhum dentro do campo.

A mudança na postura da equipe começou com uma atitude da diretoria e não do treinador: o afastamento de cinco jogadores do elenco. O assunto é tão importante que apareceu novamente na entrevista de Lopes, depois da vitória de domingo. “Esse time não tem vedete que quer aparecer mais do que os outros”, disse ele em possível alusão aos afastados. E o que se ouve nas arquibancadas sobre estes jogadores? Justa ou injustamente, a voz da maioria não hesita em chamá-los de mascarados. Esta é uma gíria comum no futebol. Mascarado é aquele jogador que joga pra si e não para o time. Mais ainda, é o cara que simula, finge, faz de tudo pra parecer algo que ele realmente não é.

Parece brincadeira, mas esta idéia de que existe uma diferença entre ser e aparecer tem mais de dois mil anos. E aqui vou me aventurar mais uma vez na tarefa de relacionar coisas que não tem lá muita relação: futebol e filosofia.

Platão foi um dos primeiros a pensar que se podia separar a coisa mesma de suas aparências, o modelo original de suas cópias. Adaptando bruscamente o platonismo à linguagem do futebol, digamos que para ele existia o jogador de futebol e os pernas-de-pau que eram uma imitação desse cara. Mas este “cara” não era de carne e osso. Ele era antes a idéia de um jogador de futebol… Aqui a coisa começa a complicar. Digamos então que o Pelé é simplesmente a maior e melhor imitação da idéia de um jogador de futebol que já existiu. Deu pra entender?

Tudo o que rola no mundo, para o velho Platão, é a imitação de uma idéia. Acontece que algumas coisas são cópias próximas do original e outras são cópias da cópia, da cópia… ou seja, um simulacro, uma falsificação. A boa cópia se parece com a idéia original, não foge da linha, obedece ao modelo. Enquanto a máscara do simulacro se distancia e de tão longe ninguém mais consegue compará-la com o original pra saber se parece ou não parece com a idéia que devia copiar. A máscara tenta passar uma imagem e acaba se mostrando uma ilusão. É mais ou menos neste sentido que nós xingamos o cara de mascarado, não é? Assim, reduzido a uma aulinha sem vergonha, fica até fácil entender Platão!

Acontece que apareceram uns caras querendo mexer nisso tudo e virar o platonismo de cabeça pra baixo. Como estou empolgado com explicações esdrúxulas, é como se mudasse o esquema tático que a humanidade jogou durante séculos. O principal destes técnicos foi um bigodudo chamado Friedrich Nietzsche. Para ele, o simulacro não é mais uma cópia mal feita, mas uma criação, uma novidade. Em outras palavras, não existe uma idéia original do que é ser jogador de futebol a qual todo mundo deve copiar. O que existe são várias criações e recriações que aparecem dentro de campo e convencem ou não pela sua força, ousadia, talento.

O mascarado – neste outro sentido – é aquele que mostra competência não para copiar o modelo, mas para criar um novo. A máscara é “um devir-louco, um devir ilimitado (…) hábil a esquivar o igual, o limite, o Mesmo ou o Semelhante: sempre mais e menos ao mesmo tempo, mas nunca igual” (Deleuze, G. “Platão e o Simulacro”. Lógica do sentido. São Paulo: Perspectiva, 2000). Não é algo deste tipo o que existe de mais apaixonante no futebol? Afinal, quem espera ver sempre o mesmo quando vai ao estádio? Os mesmos dribles, as mesmas jogadas… Pelo contrário, o que arranca aplausos e sorrisos, além do gol, é aquilo que desconserta, quebra padrões e desenha no reto espaço do campo um novo jeito de jogar futebol. Por mais antigo que sejam todas as fórmulas deste esporte.

Tão difícil quanto reverter o platonismo no campo da filosofia seria pretender mudar a noção de “mascarado” no meio futebolístico. Nem de longe existe tal pretensão! A brincadeira aqui é pensar que a mudança de postura que trouxe de volta o Furacão é uma simulação, quer dizer, uma boa simulação que fez os mesmos homens que vimos como pernas-de-pau atuarem agora como jogadores de futebol. A nova máscara que Antônio Lopes trouxe e distribuiu por aqui fez a torcida acreditar que tem um time. Que o baile continue!

O ponto de vista comum na filosofia moral de Hume – parte 3

In PRETEXTO on 17 17UTC Agosto 17UTC 2009 at 18:25

Conclusão

Contra a cética opinião de que não há um princípio natural da moral, mas apenas uma disposição para o egoísmo, Hume não contrapõe uma medida absoluta do certo e do errado, um dever que se impõe ao homem por sua razão ou por qualquer outro meio. Ele salva o exercício da moral na medida em que pretende explicar seu aparecimento, reconhecendo na simpatia o princípio a partir do qual se constituem valores sociais que, apesar de inicialmente restritos, podem se ampliar regularmente mediante a convenção ou o acordo dos homens. Este acordo nada mais é que “uma percepção de interesse comum, percepção que cada qual experimenta em seu próprio peito, que observa em seus companheiros e que o conduz, em colaboração com outros, a um plano ou sistema geral de ações que tende à utilidade pública” (IPM, apêndice 3, 7).

Não é, portanto, uma regra moral previamente estabelecida o que torna possível a sociedade, mas justamente o contrário. Isto, segundo Capaldi, porque Hume não concebe o homem como um sujeito pensante, isolado diante de um mundo de objetos como queria Descartes. Ele pensa os homens “como agentes, como criadores, imersos ao mesmo tempo num mundo físico e num mundo social junto com outros agentes” (Capaldi apud Conte, 2006, p. 144). O mundo contra o qual a dúvida cartesiana irá se colocar é antes constituído como um mundo comum e partilhado, assim como a moral contra a qual Mandeville levantará suspeita é (ou sempre pode ser) constituída na relação entre os homens, como uma ampliação dos nossos sentimentos particulares, um ponto de vista comum formado pela convergência dos nossos olhares.

Corrijo minha percepção de um objeto ao reconhecer que sua aparência depende da minha posição e que, para vencer possíveis desacordos no diálogo a seu respeito, devo considerar outras perspectivas. Da mesma forma, assumir que os valores formados naturalmente em nós dependem de uma posição nos impele a buscar meios de corrigir esta perspectiva pela consideração de valores alheios. A constituição de valores morais pode então se dar de maneira regular na medida em que abandonamos nosso ponto de vista particular em direção a outro mais geral. E se os impasses a respeito da moral são conseqüência de “um conhecimento imperfeito sobre o caso em questão; ou devido à possibilidade de distorcer os fatos se não assumimos um ponto de vista imparcial”, sua solução passa pela “tentativa [de] assumir um ponto de vista geral e estável, com tendências voltadas para o acordo” (Conte, 2006, pp. 138-139).

Enfim, a moral humeana não é universal no sentido forte ou dogmático da palavra. Vício e virtude se dão de um ponto de vista comum, que se estende para um maior número de pessoas, mas não para uma totalidade. Não há um único ponto de vista geral. Antes de ser uma falha que impede um acordo total, trata-se para Hume de uma sábia disposição natural. A preocupação com uma comunidade próxima o bastante para acolher sua participação dá ao homem a possibilidade de agir efetivamente pelo bem da humanidade. Enquanto as “observações vagas e indeterminadas sobre o bem de uma espécie” não podem oferecer “um objeto convenientemente delimitado sobre o qual a atividade dos homens pudesse se exercer” (IPM, 5, nota 6).

Bibliografia

CONTE, Jaimir. Sobre a natureza da teoria moral de Hume. Kriterion, Belo Horizonte, v. 47, nº 113, Jun/2006, p. 131-146. ISSN 0100-512X

DELEUZE, G. Hume. In: História da Filosofia – idéias, doutrinas: O Iluminismo, vol. 4. Chatelet, François (org.). Trad.: Guido de Almeida. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.

HUME, D. Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral. Trad.: José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Ed. Unesp, 2003.

________. Tratado da natureza humana. Trad.: Déborah Danowski. São Paulo: Unesp, 2001.

LEBRUN, G. A boutade de Charing-Cross. In: A filosofia e sua história. Carlos Alberto R. de Moura, Maria Lúcia M. O. Cacciola e Marta Kawano (org.). São Paulo: Cosac Naify, 2006.

LIMONGI, Maria Isabel. Sociabilidade e moralidade: Hume leitor de Mandeville. Kriterion, Belo Horizonte, v. 44, nº 108, Jul/2003, p.224-243. ISSN 0100-512X.

MANDEVILLE, Bernard. Uma investigação sobre a origem da virtude moral. In: Filosofia Moral Britânica – textos do século XVIII v. 1. Trad.: Álvaro Cabral. Campinas: Unicamp, 1996.

O ponto de vista comum na filosofia moral de Hume – parte 2

In PRETEXTO on 25 25UTC Julho 25UTC 2009 at 02:56

Mergulhamos com certeza mais rapidamente nos sentimentos que se assemelham ao que experimentamos todos os dias, mas nenhuma paixão, quando bem representada, pode ser-nos inteiramente indiferente, porque não há nenhuma da qual cada pessoa já não tenha dentro de si pelo menos as sementes e os primeiros princípios (IPM, 5, 30).

O senso comum

Para Hume, a distinção entre o vício e a virtude ocorre em nós como um sentimento moral. Coloca-se então a questão de como pode haver um juízo moral válido para todos, uma vez que os sentimentos são sempre particulares. Trata-se de afirmar um princípio natural que nos dispõe “a julgar levando em conta o que dá prazer e desprazer aos outros e não apenas a nós mesmos” (Limongi, 2003, p. 232).

O fato de que julgamos de modo universal parece inquestionável, uma vez que “não há qualidades mais merecedoras da boa vontade e aprovação geral dos homens que a beneficência e a humanidade, a amizade e a gratidão, a afeição natural e o espírito público, e tudo o que procede de uma terna simpatia pelos demais e de uma generosa preocupação pelo nosso grupo e espécie” (IPM, 2, 5). Mandeville diria que estas palavras foram criadas para incentivar a sociabilidade, já que o homem tende naturalmente a satisfazer apenas seus próprios interesses. Assim, ganharam um aspecto positivo aquelas qualidades que atentam para o bem de todos, evitando conflitos e facilitando a formação de sociedades. A benevolência, a amizade, a preocupação com a sociedade são qualidades louvadas porque garantem benefícios e não prejuízos, porque sentimos que são úteis e não nocivas. Mas úteis para quem? Mandeville nos conduziria novamente ao amor de si mesmo: julgamos como um bem aquilo que favorece a sociedade porque no fim das contas também somos favorecidos.

Mas isto não seria suficiente para explicar porque emitimos juízos morais sobre acontecimentos que não nos favorecem ou prejudicam. A prova ou pelo menos a indicação de que a moral opera além dos limites do amor de si mesmo é que “freqüentemente dirigimos elogios a ações virtuosas realizadas em épocas muito distantes e em países remotos, (…) eventos tão amplamente separados de nós” (IPM, 5, 7) que dificilmente poderíamos encontrar qualquer relação com nossa própria sorte.

Para que ocorram tais juízos desinteressados é preciso que, de alguma forma, aquilo que acontece com outras pessoas em situações distantes se transmita e produza, em mim, um sentimento moral. De fato, encontramos na Investigação sobre os princípios da moral esta definição da virtude e do vício como “qualquer ação ou qualidade mental que comunica ao espectador um sentimento” (IPM, apêndice 1, 10), mas é no Tratado que este mecanismo aparece como o conceito de simpatia. Hume o introduz para explicar nossa preocupação pela boa reputação. Aparentemente, não estamos tão longe de Mandeville, pois se trata de uma consideração sobre a influência das opiniões alheias. No entanto, o princípio que opera aqui não é um interesse egoísta, mas uma comunicação de sentimentos. Nossas paixões aumentam ou diminuem na medida em que ressoam junto às paixões dos outros e recebemos suas “inclinações e sentimentos, por mais diferentes ou até contrários aos nossos” (TNH, 2, 1, 11, 2).

A simpatia não é um sentimento pelo outro. Ela é o modo como os sentimentos se formam a partir do outro. O que ocorre, esquematicamente falando, da seguinte forma. Observo sinais de alguém, como uma expressão corporal ou uma palavra, que me remetem à idéia de um sentimento presente naquela pessoa. Relaciono então esta idéia comigo mesmo, porque “a humanidade de um homem coincide com a humanidade de todos os outros” (IPM, 9, 6). Graças à nossa semelhança, toda paixão que observo nos outros posso também encontrar em mim. Logo, aquilo que era uma idéia do sentimento no outro se torna um sentimento em mim mesmo.

Tudo resolvido, não fossem algumas considerações. A simpatia mostra que somos “naturalmente abertos” à “uma preferência comum ou partilhada com os outros” (Limongi, 2003, p. 233), mas esta abertura pode ser parcial. Ela não é relativa apenas às semelhanças de nossa natureza, que é a mesma em todos os seres humanos. Outras relações podem reforçar este mecanismo, pois sempre que “existe alguma similaridade peculiar em nossas maneiras, caráter, país ou linguagem, isso facilita a simpatia” (THN, 2, 1, 11, 15). Além do mais, somos parciais em relação a nós mesmos. Ficamos mais contentes com o elogio dos outros do que com seu desprezo e a importância desta opinião também varia relativamente à proximidade da pessoa e ao valor que lhe atribuímos.

Parece que voltamos ao mesmo lugar, ou melhor, que saímos do apertado “dentro de si” para um círculo um pouco mais amplo, formado por nossa família, amigos e outras pequenas comunidades onde as relações tornam mais fluído o mecanismo da simpatia. Para além destes limites, no entanto, a comunicação dos sentimentos emperra e parece impossível que a moralidade se estenda de modo regular e abrangente. Assim como o interesse egoísta, a simpatia parece não servir de princípio para nossos juízos morais se quisermos advogar a possibilidade de regras universais fundamentadas na natureza humana.

Seria assim se não estivesse presente também a noção de uma correção das paixões. Pois ao contrário do egoísmo, que volta sempre a si mesmo, a simpatia é um princípio de comunicação. Minha abertura pode sempre se estender a outros, desde que estejamos dispostos ao acordo. Desta perspectiva, não se trata mais de frear os interesses privados, mas de ampliar os restritos domínios da simpatia.

Deleuze explica esta correção das paixões em comparação à correção da imaginação. Pela associação de idéias o pensamento pode exceder os limites da experiência, imaginando figuras que não se encontram em parte alguma, mas “os princípios da natureza humana (…) impõem a esse delírio regras constantes como leis de passagem, de transição, de inferência de acordo com a própria Natureza” (Deleuze, 1982, p. 63). Já no caso das paixões é o princípio natural da simpatia que gera a parcialidade que precisa ser corrigida e trata-se então de criar o que não está dado, de “inventar a extensão artificial que ultrapassa a parcialidade da natureza humana” (idem, p. 67).

O pai que socorre o filho ou o homem que presta serviço a seu amigo age por uma “simpatia natural” (IPM, apêndice 3, parágrafo 2), por um sentimento moral que precede qualquer reflexão e não precisa levar em conta o que outras pessoas fariam ou deveriam fazer. Mas isto não é suficiente quando tomamos a sociedade em um aspecto mais amplo e as semelhanças se tornam mais fracas ou são encobertas por laços afetivos e culturais de maior intensidade. Neste contexto, exige-se uma maior abertura para levar em conta não apenas aquele bem particular.

Se a simpatia é o princípio pelo qual meus sentimentos ressoam junto aos sentimentos alheios, é preciso fazer com que este acorde reverbere mais e mais se quisermos ampliar o escopo de nossas regras morais. Mas aquilo que se ultrapassa ainda é princípio. Ao agir como causa dos valores restritos a âmbitos parciais, a simpatia dá o critério para a construção de um padrão mais geral do juízo. Para Hume, a sociabilidade cria a necessidade e dá as condições para esta amplificação, pois na convivência com outras comunidades e com diferentes valores percebemos a irregularidade da simpatia. Como o espectador do teatro se sente tocado a participar das alegrias e tristezas que ali se encenam e são compartilhadas pelo público, a vida em sociedade nos leva a considerar os sentimentos alheios em nossos juízos morais.

O ponto de vista comum na filosofia moral de Hume – parte 1

In PRETEXTO on 15 15UTC Julho 15UTC 2009 at 00:20

Texto produzido para a disciplina de Ética, do curso de Filosofia da UFPR, ministrado pela Prof. Dra. Maria Isabel Limongi.

A filosofia do século XVIII viveu um intenso debate a respeito dos fundamentos e da origem da moral. Neste contexto, a obra de David Hume se apresenta como resposta e tomada de posição relativa a questões que a envolvem e excedem. Para nos aproximarmos de sua compreensão, podemos então tomar como referência seu diálogo com Bernard Mandeville.

O autor de A Fábula das Abelhas encontra sinais dos “primeiros rudimentos de moralidade” (Mandeville, 1996, p. 82.) nas mãos de políticos que teriam inventado regras capazes de engendrar a obediência dos outros homens para facilitar seu governo. Como o egoísta amor de si mesmo estaria na base de toda ação humana, foi preciso a instauração de uma linguagem moral como “recompensa imaginária” (idem, p. 79) que premiasse a abnegação e condenasse as vantagens pessoais. Para Mandeville, um condicionamento tornou possível que os homens apreciassem e respeitassem o bem público em detrimento de seus próprios interesses. Logo, as distinções morais não são mais que artifícios, convenções arbitrárias que não correspondem a nada senão a modelos de conduta forjados para moldar os comportamentos humanos.

Embora também aponte a sociedade como seu lugar de origem, Hume não toma a moralidade como ficção arbitrária e confere a ela um fundamento legítimo na natureza humana. A questão que se coloca no início de Uma investigação sobre os princípios da moral (IPM) e acompanha boa parte do Tratado da Natureza Humana (TNH) é se a moral surge “por uma seqüência de argumentos e induções ou por uma sensação imediata e um sentido interno mais refinado” (IPM, seção 1, parágrafo 3), ou seja, se ela advém da razão ou do sentimento. Ao longo dos textos, uma série de argumentos é mobilizada para examinar a questão e demonstra-se que não é através da razão que se constituem os limites da moralidade, mas que o vício e a virtude são por nós distinguidos por um sentimento.

A partir desta afirmação, o problema que pretendo compreender neste trabalho diz respeito à regularidade e abrangência que Hume atribui à moralidade, pois junto aos sistemas filosóficos que “concordam que a moralidade, como a verdade, é discernida meramente por meio das idéias” (THN, 3, 1, 1, 4) deve cair também “a existência de medidas eternas e racionais do certo e do errado” (THN, 3, 1, 1, 23). Se a moral é um sentimento e o sentimento está sempre em nós e depende das circunstâncias, como se pode falar sobre uma moralidade estendida legitimamente e de modo regular entre os homens? A solução, como veremos, encontra o princípio da simpatia. Mas não se trata apenas de inverter a posição cética de Mandeville, excluindo o interesse egoísta para fixar em seu lugar uma disposição natural para o bem. O princípio da moral, para Hume, não é uma regra pré-determinada que se contrapõe aos olhares individuais e está acima dele. Pelo contrário, é a capacidade de criar em conjunto uma regra que só existe na convergência dos olhares.

O sentimento moral

Hume apresenta o método de Uma investigação sobre os princípios da moral como um exame do modo como ordinariamente se aplica o mérito em nossos juízos morais. Não se trata de estabelecer a priori um princípio geral, mas de alcançá-lo pela observação e comparação do que ocorre na maioria dos casos. Assim, cabe a cada um “consultar por um momento seu próprio coração” (IPM, seção 1, parágrafo 10) para sentir que tipo de qualidades lhe parecem dignas de apreço ou de condenação, quais gostaria que lhe fossem atribuídas e quais pareceriam desonrosas. Ao raciocínio cumpre então distinguir em que, por um lado, se assemelham todos os casos de virtude e, por outro, o que se mostra constante nas qualidades consideradas desmoralizantes.

Parece evidente que certos adjetivos nos são agradáveis e outros não. As palavras que usamos para ofender nossos inimigos não são as mesmas que esperamos que um amigo nos dirija. Para Hume, o conteúdo desta linguagem moral não é uma “recompensa imaginária”, mas designa algo que de fato sentimos de modo muito concreto. Para entender isto vale recorrer a um terceiro livro, Uma Investigação Sobre o Entendimento Humano (IEH), onde o autor apresenta a distinção entre idéias e impressões. Uma impressão é o sentimento vivo e presente em nós, enquanto as idéias não fazem senão refletir aquilo que “ouvimos, vemos, sentimos, amamos, odiamos, desejamos ou queremos” (IEH, seção 2, parágrafo 12). Todas as idéias são tomadas de impressões e ambas se diferenciam apenas por seu grau de força e vivacidade. Portanto, se as distinções não estivessem presentes em nós, nada poderia fazer com que uma expressão como “orgulho” ou “desprezo” correspondesse a qualquer idéia (IPM, 5, 3). Ocorre que a familiaridade com um idioma qualquer nos coloca imediatamente de acordo com o significado moral de certas palavras, porque o senso desta distinção já o possuímos. Em todas as boas qualidades atribuídas a uma pessoa se encontra a satisfação de sua convivência, como em todas as más qualidades temos o contrário. Não se trata aqui de uma operação do entendimento tomando como virtude os termos que nos agradam, pois “nossa aprovação está implícita no prazer imediato que estes nos transmitem” (THN, 3, 1, 2, 3). A correspondência do prazer com a virtude e da dor com o vício não precisa de qualquer mediação. A força expressiva da linguagem moral está ligada a esta capacidade de sentir o vício ou a virtude.

Uma vez que a moral tem esta influência sobre as paixões humanas, suas regras não podem ser deduzidas pela razão, pois “todo o poder criador da mente se reduz à simples faculdade de combinar, transpor, aumentar ou diminuir os materiais fornecidos pelos sentidos e pela experiência” (IEH, 2, 13). A razão é, portanto, uma faculdade “em si mesma inativa” (THN, 3, 1, 1, 7). Ela pode descobrir proporções ou relações entre os objetos da experiência, mas não é capaz de produzir nenhuma ação ou vontade.

Se o método filosófico que busca os princípios da moral começa pelo exame de nossos sentimentos diante daquilo que comumente chamamos mérito ou demérito, é porque a efetiva aprovação ou desaprovação de determinado ato ou caráter não se dá, em princípio, por meio de um raciocínio que calcula suas medidas e proporções. A razão pode “nos fazer reconhecer a tendência útil ou nociva de qualidades e ações” (IPM, apêndice 1, 3), mas a própria distinção entre o útil e o nocivo é antes de tudo um sentido moral. É dentro de uma esfera pessoal, em foro íntimo, que ela se produz. Quando condenamos um assaltante, o “objeto” da moral não está na relação entre as diversas partes do episódio (o assaltante, o assaltado, a arma, o dinheiro, etc.), da mesma forma que o objeto da razão está na relação entre as coisas. Se assim fosse, a moralidade deveria também se estender aos animais e até aos objetos inanimados, para os quais se aplicam as mesmas relações.

Enfim, aquilo que dizemos ser um vício ou uma virtude não está nas próprias coisas. “Não o encontraremos”, afirma Hume, “até dirigirmos nossa reflexão para nosso próprio íntimo e darmos com um sentimento de desaprovação, que se forma em nós contra essa ação. Aqui há um fato, mas ele é objeto de sentimento, não de razão. Está em nós, não no objeto” (THN, 3, 1, 2, 26). O filósofo escocês compara vício e virtude a um som, uma cor. Aqui talvez se apresente de modo mais claro o problema proposto neste trabalho, pois se nossas afecções “consideram apenas os seres ao nosso redor, e são influenciadas pelos acontecimentos conforme estes pareçam bons ou maus ao sistema privado” (IEH, 8, 34), o que garante regularidade e abrangência a um sistema moral? Como defender a universalidade de regras morais, uma vez que “as impressões distintivas, que nos permitem conhecer o bem e o mal morais, não são senão dores e prazeres particulares” (THN, 3, 1, 2, 3)?

Olá, mundo!

In PRETEXTO on 15 15UTC Julho 15UTC 2009 at 00:14

OK, estou longe do blog mais uma vez e não consigo nem imaginar quando vou começar a escrever de novo. Mesmo assim, todos os dias 30 ou 40 pessoas entram aqui. Não sei se são as mesmas pessoas todos os dias, nem sei o que elas procuram (segundo as estatisticas do wordpress a maior parte das pessoas chegou até aqui procurando “lenços palestinos”!). Alguns dias eu também entro aqui e tenho vontade de continuar escrevendo qualquer coisa. Assim, pensei em uma maneira de não deixar morrer meu projeto de aprender a escrever e publicar, além de manter algum contato com essas pessoas, quer dizer, vocês que entram aqui mesmo por acaso. Vou publicar alguns dos textos que produzi para disciplinas do curso de Filosofia. Somente os que tiveram as melhores apreciações dos professores, é claro, com suas correções e divididos em duas ou três partes para facilitar a leitura. As referências vão na última parte.

Aqui não!

In PRETEXTO on 26 26UTC Maio 26UTC 2009 at 23:06

Na sua coluna de hoje na Furacao.com, Juarez Villela Filho comenta uma música cantada por parte da torcida atleticana no jogo contra o Náutico. Não estou conseguindo escrever a respeito de tudo o que penso, por isto divulgo aqui o trecho da coluna que trata do assunto e também o meu comentário, que é muito mais um desabafo.

Episódio 1 : preconceito

Posso servir para muitas coisas, mas para hipócrita não tenho muito o perfil. Fui o denunciante do absurdo caso de racismo ocorrido no Atletiba do Couto Pereira no primeiro turno, denuncia essa que praticamente passou em branco para o policiamento e para a imprensa, sempre muito benevolente com as coisas acontecidas no campo do centenário clube alviverdedecamisabrancaedecalçãopretoemeiacinza.

Pois bem, no final da primeira etapa parte da torcida passou a entoar uma nojenta música contra os nordestinos, personificados no valente time do Nautico. Burros, ignorantes ao ponto de não sacarem que até aquele momento ganhávamos por 2 X 0 com dois anotados pelo Wallyson, que na mente brilhante desses seres deve ser catarinense decerto! Nada, absolutamente nada justifica um gesto de racismo, de preconceito seja ele qual for e por isso mesmo após o jogo procurei tanto o vice Suke como o Presidente da Fanáticos, Julião da Caveira para saber sobre o ocorrido. Ambos recriminaram a atitude, prometeram procurar saber de onde partiu o grito e afirmam não estarem na galera naquele momento e mostraram claramente seu descontentamento com o ocorrido.

Menos mal. Uma torcida ligada a um clube popular, uma torcida que canta o hino nacional, que defende a pátria, que sempre levou o pavilhão do Brasil nas disputas fora do país, não poderia dar um exemplo tão ruim como este. Confio que jamais se repetirá.

Juarez Villela Filho

Juarez, fico muito feliz por você ter escrito esta coluna citando a extrema estupidez de parte da torcida que cantou esta música nojenta, preconceituosa, racista!

Eu nunca assisto os jogos na Fanáticos, mas por coincidência, neste dia, cheguei atrasado e resolvi ficar por ali para sentir um clima diferente. O que senti foi um extremo mal estar. Indescritível. Aquela música doeu na minha alma. Alma africana, sim, e nordestina. Que a cada batida de tambor ressoa os antepassados que me trouxeram até aqui. Que a cada palavra desgraçada como aquelas trouxeram também a sua dor por tamanha ignorância ainda presente. A dor de uma violência que é tão contundente quanto uma bomba e que deve ser punida da mesma maneira.

Olhava para os lados e via uma piazada com traços como os meus – africanos, mulambos, crioulos, ou seja, traços brasileiros como os de todos nós – ignorantes da sua própria condição. Pensei exatamente o que você escreveu: de onde eles pensam que vem o Wallyson? E o Alan BAHIA? E o Ziquita?

Quase sai do estádio. Mas esfriei a cabeça no intervalo e voltei para o meu lugar, lá do outro lado do estádio. Ao lado do meu pai, filho de nordestino. Não comentei nada com ele e espero que ele não tenha escutado o que saiu daquelas bocas burras. Mas fiquei ali desconfiado, pensado comigo mesmo: será que todo mundo neste estádio pensa assim? Será que metade pensa? Será que o futebol é mesmo o lugar deste tipo de comportamento desumano?

De verdade, acho que não. O futebol – em especial o futebol brasileiro – é exatamente o contrário. E como tal não pode tolerar NENHUM tipo de manifestação deste tipo. Isto inclui, obviamente, o nacionalismo exacerbado que alguns querer trazer para o meio das arquibancadas. Afinal, de onde será que eles pensam que vem o Valencia? E o Julio dos Santos? E o Ferreira?

Um esboço da “sociedade de controle”

In PRETEXTO on 7 07UTC Maio 07UTC 2009 at 21:21

Texto-base para apresentação de seminário sobre

DELEUZE, G. “Post-Scriptum Sobre as Sociedades de Controle”. In: Conversações. Coleção Trans. São Paulo: Editora 34, 1992.

II. Lógica

Aqui o texto está organizado em oposições que demonstram aquilo que é característico da nova sociedade de controle, em contraste com a sociedade disciplinar. Importante destacar que embora parta da descrição de Foucault da sociedade disciplinar, Deleuze também mescla novos conceitos e novas imagens.

No caso das instituições disciplinares, embora sejam distintas umas das outras existe comunicação entre elas. O indivíduo, diz Deleuze ainda na primeira parte do texto, “não cessa de passar de um espaço fechado a outro” (p. 219). Existe, portanto, entre os diferentes meios de confinamento uma comunicação que permite esta passagem. Comunicação que pressupõe uma linguagem, no caso, uma linguagem analógica. Já os modos de controle não se constituem como espaços separados, mas formam “um sistema de geometria variável cuja linguagem é numérica” (p. 221).

Esta diferença de linguagem fica mais clara na sequência do texto.

Por aqui basta entender que se a sociedade disciplinar precisava de cercas para criar um espaço diferente de todos outros e “fechado em si mesmo” (Foucault, M. Vigiar e Punir. Petrópolis: Editora Vozes, 1984, p. 130), o controle dispensa este confinamento. Não se trata mais de formar o indivíduo de acordo com a estrutura de cada instituição, porque as próprias instituições se auto-deformam e mudam continuamente. A imagem de Deleuze é exatamente esta: os meios de confinamento são moldes (pensemos em um molde de gesso ou em uma garrafa, que determina a forma dos elementos que contém), enquanto os controles são uma modulação (como uma bexiga ou uma rede, que não possui limites definidos).

Para ilustrar esta diferença o autor nos apresenta a distinção entre a fábrica e a empresa, e nos chama a pensar como se dá a remuneração dos trabalhadores nesses diferentes tipos de organização do trabalho. Na fábrica os salários são rígidos e representam os diversos setores que compõe o grande corpo industrial e as diferentes posições que cada indivíduo pode ocupar nele, lembrando o quadriculamento de que fala Foucault. Este é o princípio da carreira, quer dizer, uma organização da vida e do corpo de cada trabalhador que representa a própria organização produtiva. Nela, cada indivíduo se coloca em uma determinada posição, da qual pode ascender ou decair, e este movimento se faz sentir nas diferentes faixas salariais.

No caso da empresa, desaparecem estas seriações e os salários cada vez mais são substituídos por prêmios. Hoje, por exemplo, para os trabalhadores do comércio, o salário-base não é mais do que o resquício de uma legislação “antiga”, que garante uma renda mínima e alguns direitos. O grosso da remuneração está dada por metas de vendas e outros bônus que variam a cada mês. Deleuze fala de como os jogos de televisão mais idiotas fazem sucesso por mostrarem exatamente o que acontece nas empresas. De fato, hoje em dia as empresas utilizam uma série de jogos e até mesmo “testes de sobrevivência” para garantir a “motivação” de seus “colaboradores”.

As diferentes formas de remuneração são apenas um aspecto, que revela a diferença mais fundamental entre a fábrica disciplinar e as empresas da sociedade de controle. A fábrica era um espaço fechado, concentrado, estável e maciço, que organizava seus elementos em um grande corpo e propiciava assim uma dupla vantagem: de um lado, para a dominação do patrão que podia vigiar cada pessoa de acordo com a sua posição na grande máquina e, de outro, para a resistência dos trabalhadores, que estavam de tal modo unidos e conectados que se tornou possível sua organização na forma histórica dos sindicatos. A empresa não é mais este corpo; ela é dispersiva, modular, instável e fluída; ela não precisa de pessoas em um trabalho cooperado. Pelo contrário, ela coloca uns contra os outros. Mas a rivalidade da empresa não separa apenas um indivíduo do outro; ela estraçalha a própria pessoa. Porque o estímulo não é mais a conquista de uma nova posição e, portanto, de alguma garantia. De fato, o “colaborador” da empresa não conquista nada, nunca garante nem termina nada. Portanto, ele nunca é nada. Por muito tempo a pergunta “quem é você?” foi idêntica a “qual sua profissão?”. Mas esta é uma pergunta cada vez mais difícil de responder… Na sociedade de controle você é muitas coisas e ao mesmo tempo não é nenhuma. O discurso está na nossa boca: é preciso estar sempre “aprendendo”, se “qualificando”, etc.

Assim os cursos ou testes que faziam o trabalhador conquistar outro grau na sua carreira são substituídos por uma competição e um controle contínuo. A formação profissional se transforma na reciclagem de conhecimentos, um processo sem fim. Assim como, nas escolas, o exame vai sendo substituído pela formação permanente. Segundo o autor, “é este o meio mais garantido de entregar a escola à empresa” (p. 221).

Parece que neste momento do texto fica mais claro o que seria a diferença de linguagem entre os dois tipos de sociedade, a passagem de uma linguagem analógica na disciplina para uma linguagem numérica no controle. Nas sociedades disciplinares a pessoa é definida por uma assinatura e uma matrícula. A assinatura marca a sua diferença para com todas as outras pessoas, sua individualidade, enquanto a matrícula indica a sua posição no meio de uma massa de iguais. O importante é que as duas coisas se relacionam, ou seja, a assinatura remete a uma posição e matrícula a um indivíduo. Já nas sociedades de controle esta analogia, que em última análise determina a unidade do indivíduo, é substituída pelo uso de cifras ou senhas. São elas, diz Deleuze, “que marcam o acesso à informação, ou a rejeição” (p. 222). Não se trata mais de encontrar a posição do indivíduo na massa, porque o próprio indivíduo se tornou divisível e as massas se tornaram amostras ou dados.

O indivíduo se tornou divisível. Pensemos em nós mesmos: todos possuimos uma série de senhas e cartões de acesso para os mais diferentes espaços e serviços. Em cada um deles, você é uma pessoa diferente. Alguns lugares são fechados por catracas que interrompem o acesso físico; outros são abertos à circulação, mas o acesso a seus bens e produtos depende da liberação da sua senha. Se o cartão de crédito não funciona, como afirma Rogério da Costa, “você não é mais você para aquela operação (…) Você é você para algumas coisas, e não é para outras…” (“Sociedade de Controle”. In: São Paulo Perspectiva, 18(1): 2004, p. 166). Ainda segundo Costa, a diferença entre a assinatura individual e a senha é que “a assinatura é produzida pelo indivíduo, e o código é produzido pelo sistema, para o indivíduo” (idem). Quer dizer, a disciplina é sempre autodisciplina, uma conformação no próprio corpo do sujeito; enquanto o controle não o molda, mas permite ou barra o poder ser.

E o que significa dizer que a massa se tornou amostra? Talvez que não exista mais em um conjunto de elementos humanos a totalidade que estruturava a fábrica, a escola, o quartel, o hospital, etc. Agora este conjunto pode ser tomado em recortes cada vez mais diversos, que atravessam perfis individuais e formam um quadro relativo. Assim funcionam, por exemplo, as pesquisas de opinião e de comportamento que determinam as estratégias de marketing.

Para entender o papel do marketing nos dias de hoje, ajuda pensar o que Deleuze chama aqui de “uma mutação do capitalismo” (p. 223). Para isto, ele utiliza as máquinas como outro elemento ilustrativo e inclui também uma imagem da antiga sociedade de soberania. Nela, as máquinas eram simples, mecânicas, como alavancas, roldanas e relógios. Já nas sociedades disciplinares as máquinas se tornaram energéticas e nas sociedades de controle, são máquinas de informática e computadores. A estas mudanças corresponde a “mutação do capitalismo”, pois as máquinas energéticas da disciplina pressupõem a concentração e a produção, enquanto as novas máquinas informáticas revelam uma organiza dispersiva e baseada na sobre-produção. A idéia de sobre-produção também nos é cada vez mais familiar. Sabemos que as grandes empresas não possuem mais fábricas, mas compram os produtos acabados de empresas terceirizadas e agregam a ele o valor imaterial de sua marca. Nas palavras de Deleuze, este “já não é um capitalismo dirigido para a produção, mas para o produto, isto é, para a venda ou para o mercado” (pp. 223-224)

Hoje, muitas de nossas ações são registradas e se transformam em dados. Isto acontece, por exemplo, quando usamos um cartão de crédito, fazemos ligações telefônicas, enviamos e-mails ou visitamos sites na internet, entre outros exemplos. A este respeito, Rogério pergunta: “O que se pretenderia obter através da análise de um tal conjunto de informações? É seu conteúdo que interessa, ou é seu padrão de composição e acesso?” (p. 162). O conteúdo, diz ele, apontaria para o indivíduo (para onde foi, com quem falou, o que comprou, etc.), mas o padrão apontaria para o que? Na Internet, por exemplo, não possuímos uma identidade e sim um perfil. É cada vez mais através destes perfis que as empresas organizam seu marketing, ou seja, a planificação de seus produtos e serviços. Para Deleuze, “o marketing é agora o instrumento de controle social” (p. 224).

Enfim, se a fábrica e todos os meios de confinamento tinham a imagem de um grande corpo, “o serviço de vendas tornou-se a ‘alma’ da empresa” (p. 224), que é também o modelo para a escola, o hospital e a prisão da nova sociedade de controle. De fato, o próprio homem não é mais ser pensado como um corpo que deve ser disciplinado, corrigido e conformado. Ele próprio é um elemento fluído, móvel e mutável; mas sua mobilidade e mutabilidade não é livre. Ela obedece à participação em diferentes redes, cujo acesso depende de compromissos sempre renovados. “O homem não é mais o homem confinado, mas o homem endividado” (p. 224).

No fim desta segunda parte fica uma questão: como lidar com aqueles que são “pobres demais para a dívida, numerosos demais para o confinamento”? Este talvez seja o único lugar do texto carente da oposição disciplina / controle, pois ainda não está claro o que virá substituir as cercas e fronteiras que separavam os trabalhadores, os estudantes, os doentes, os prisioneiros, etc., dando a cada pessoa seu lugar próprio, ainda que sob a pena da atrocidade. Não é possível mais cercar as cidades e deixar para fora os não-cidadãos, nem utilizá-los como escravos sem direitos dentro do território, nem trancá-los em prisões e hospícios. E isto não apenas por uma questão ética, mas principalmente porque estes mecanismos disciplinares são menos lucrativos do que os mecanismos de endividamento e controle. Daí – e não da vontade piedosa ou politicamente comprometida com o povo – a necessidade de uma ampliação do crédito e do consumo para todas as camadas da população. Uma ampliação que também encontra seus limites e que, portanto, vai encontrar as suas próprias resistências.

Cineclube Manjericão: KOYAANISQATSI

In PRETEXTO on 13 13UTC Abril 13UTC 2009 at 14:33

Koyaanisqatsi: Life out of balance é o primeiro e mais conhecido filme da trilogia Qatsi. O filme tem a velocidade e o tom ditados pela belíssima trilha sonora de Philip Glass. Não existem diálogos e também não são feitas narrações durante todo o documentário, que apresenta cenas de paisagens naturais e urbanas.

A palavra koyaanisqatsi tem origem na língua Hopi e quer dizer “vida desequilibrada”. O filme leva sua audiência a refletir sobre os aspectos da vida moderna que nos fazem viver sem harmonia com a natureza, bem como a pressão exercida pelas inovações tecnológicas que tornam o cotidiano cada vez mais rápido.

17 DE ABRIL : 20h30

GOVARDHANA : Rua Augusto Stresser, 207

Visite o Cineclube Manjericão

Cineclube Manjericão: ZEITGEIST

In PRETEXTO on 30 30UTC Março 30UTC 2009 at 13:30

O Manjericão agora virou Cineclube. Isto significa que ele está aberto a participação de quem gosta de cinema e quer compartilhar filmes e informações sobre eles, palpitar na programação, ajudar a organizar as exibições e outros projetos.

Está tudo começando e toda colaboração é bem-vinda.

A próxima exibição é no dia 03 de abril, sexta, às 20h30.

Zeitgeist (EUA, 2007. 116 min. – Direção: Peter Joseph)

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Lançado e distribuído via internet, logo se tornou o video on-line mais assistido em todo o mundo e um clássico das teorias de conspiração. Dividido em três partes, o filme começa com uma crítica do cristianismo, sugerindo que a Bíblia seja uma miscelânea de histórias baseadas em princípios astrológicos pertencentes a civilizações antigas. A segunda parte trata dos ataques de 11 de setembro, afirmando que a queda do WTC foi uma demolição controlada pelo próprio Governo norte-americano. Finalmente, apresenta o sistema financeiro como uma grande conspiração disposta a obter domínio mundial e controlar toda ação humana.

Revelar-se e perder-se

In PRETEXTO on 28 28UTC Março 28UTC 2009 at 05:41

Há quase dez anos cometi um pecado. Não foi o único nesse tempo todo, mas enfim. Tomei emprestado um livro que deveria ser pago… e por algum tipo de bloqueio psíquico acabei esquecendo qual era a livraria e não pude devolvê-lo… Acho que vocês entenderam…

Gosto de contar esta história. O tal livro ficou esquecido na minha prateleira por muito, muito tempo. Não consegui ler. Tentei, mas não passei do prólogo. Ano após ano ele permaneceu intacto, até que fiz um curso a respeito de Hannah Arendt na faculdade. Foi no ano passado. Desde então, assumi uma certa reverência por seu trabalho e aquela edição de A Condição Humana finalmente adquiriu algum sentido para mim.

Hoje lembrei muito do quinto capítulo do livro, onde a autora trata da fala e da ação. É através de palavras e atos, diz ela, que revelamos quem realmente somos. Revelação que se dá sempre quando estamos com outras pessoas, que se dirige ao testemunho daqueles que nos escutam e nos vêem agindo. É assim que nos apresentamos ao mundo como um ser único, diferente de todos os demais e dotado de capacidades, desejos e pensamentos próprios. O falar e o agir rompem o silêncio e a solidão, expondo-nos a presença dos outros. Expor-se aqui deve ser tomado mesmo como um indicador de tremenda hostilidade. É sobre este perigo que eu pretendo falar.

Agir é começar algo novo. Quer dizer, o mundo está pronto, as situações estão consolidadas e tudo funcionando de uma determinada maneira. Mas nós, homens e mulheres, temos a capacidade de rasgar este cenário ou de mudar o roteiro. “Agir, no sentido mais geral do termo, significa tomar iniciativa, iniciar (…), imprimir movimento a alguma coisa” (p. 190). Acontece que este início é sempre imprevisível e isto, se entendo bem, tem dois bons motivos.

Um deles diz respeito a incapacidade de vermos quem nós mesmos somos, pois “é quase certo que, embora apareça de modo claro e inconfundível para os outros, o ‘quem’ permaneça invisível para a própria pessoa” (p. 192). Em outro livro (Homens em Tempos Sombrios), Arendt fala da antiga persona grega, a máscara que revela a aparência para o público, mas a esconde do próprio ator. Em A Condição Humana ela traz a imagem do daimon grego, “que segue o homem durante toda a sua vida e que é a sua identidade inconfundível, mas que só transparece e é visível para os outros” (p. 205).

O outro motivo de imprevisibilidade é que tudo o que falamos ou fazemos se insere sempre em uma “teia preexistente de relações humanas, com suas inúmeras vontades e intenções conflitantes” (p. 196). Por isto você pensa em fazer uma coisa e sai outra. Agir não é como desenhar uma história em quadrinhos, nem como fabricar qualquer coisa. Quando cria algo deste tipo você está sozinho e tem controle sobre praticamente todo o processo. Mas quando age você não tem absolutamente controle nenhum. Porque ninguém age sozinho e quando seu propósito alcança as outras pessoas ele se transforma, então você é obrigado a encarar as consequências daquilo que você mesmo começou.

Muitas vezes a gente prefere não pensar assim. Você sabe como é. Mais fácil pensar que por trás de tudo tem um destino, um sentido, uma finalidade secreta que talvez nunca se revele, mas na qual você pode confiar. A vida se torna mais leve e faz mais sentido se você pensa que no fim isto vai dar em um bom lugar. Mas “as histórias reais, ao contrário das que inventamos, não têm autor” (p. 198), seja ele quem você pensa que é. Sua força de vontade e intenção não vão impedir que aquilo que você fala e faz seja completamente transformado, alterado, incompreendido.

Não é preciso dizer que o fato de toda ação ser imprevisível coloca o problema da confiança. Além disso, afirma Arendt, existe a “treva do coração humano”, ou seja, o fato de que homens e mulheres “jamais podem garantir hoje quem serão amanhã” (p.256). Contra esta “caótica incerteza do futuro” (p. 248) existe a faculdade de prometer e cumprir promessas. Sem nos obrigamos a cumprir promessas, erraríamos “desamparados e desnorteados (…) enredados em contradições e equívocos” (p. 249). Contudo, as promessas não podem abarcar todo o futuro. Devem sim, para manter seu comprometimento, ser como “pequenas ilhas de certeza” (p. 256).

Finalmente, além de imprevisível a ação tem uma outra característica importante. Não vou encher aqui de trechos a respeito porque o post já está grande demais. Basta dizer que toda ação é irreversível, que é impossível “desfazer o que se fez” (p. 248). Qualquer um, pensando um pouco em sua vida, pode reconhecer isto. Mas qual o remédio? Para Arendt, o poder de perdoar. Se não fossemos perdoados estaríamos sempre presos, como o “aprendiz de feiticeiro que não dispunha da fórmula mágica para desfazer o feitiço” (p. 249).

Música para sair da bolha

In PRETEXTO on 26 26UTC Março 26UTC 2009 at 03:50

Nesta sexta-feira, 27 de março, reiniciam as atividades do projeto MÚSICA PARA SAIR DA BOLHA – uma série de performances musicais acontecendo na rua, na hora mais tensa do trânsito, quando os motoristas estão aglomerados em congestionamentos, stressados, nervosos e impacientes com a lentidão provocada por eles próprios.

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A proposta, que aconteceu inicialmente no ano passado durante a segunda edição do ARTE BICICLETA MOBILIDADE, é uma iniciativa do coletivo artístico Interlux, e pretende jogar um questionamento sobre o paradigma urbano centrado na mobilidade motorizada e suas mazelas sociais que se tornam cada vez mais explícitas. O carro é uma ilusão. A sensação de segurança e rapidez escondem as armadilhas do sedentarismo, nervosismo crescente, endividamentos perenes, sem falar nos terríveis danos ecológicos de sua produção e manutenção.

As autoridades de Curitiba, por sua vez, tratam a questão de forma leviana, omissa. A falta de estruturas para transitar com segurança de bicicleta pela cidade vem sendo apontada há muito tempo e todos os orgãos municipais estão agindo com deliberada negligência. A inserção da bicicleta no cotidiano dos cidadãos, através da criação de ciclofaixas, paraciclos e do fomento de uma cultura de respeito a bicicleta, deveria ser estimulada e apoiada. O que vemos, no entanto, é a indiferença. Mais do que isto, a prefeitura ainda multa aqueles que estão propondo alternativas inteligentes, criativas e não-poluentes.

MÚSICA PARA SAIR DA BOLHA é a celebração da rua como espaço de convivência, de troca, de vida. É a crítica do trânsito feroz que destrói toda sociabilidade, cria espaços de isolamento e é causa direta de inúmeras mortes e atropelamentos.

Toda última sexta-feira do mês, no cruzamento das ruas Augusto Stresser e Barão de Guaraúna, a partir das 18hs, a música estará fluindo, de graça, sem espetáculos, sem fumaça, sem cara-feia.

É só aparecer!

MÚSICA PARA SAIR DA BOLHA
27 de março – 18hs
Cruzamento da Stresser com Barão de Guaraúna (Alto da Glória)

Dois toques

In PRETEXTO on 26 26UTC Fevereiro 26UTC 2009 at 15:55

Quem acompanha meu posts já deve ter percebido que a lentidão está entre meus maiores defeitos como “blogueiro”. Estipular prazos nunca funcionou direito pra mim. Mas aos poucos estou aprendendo que a coisa funciona melhor assim: aconteceu ontem tem que publicar ontem. Para tanto, é preciso sentar e começar. Pensar um pouco ajuda, mas só desenhar mentalmente o assunto não funciona. Não dá pra ficar prendendo a bola. O tempo te rouba a oportunidade e ninguém vai gritar “ladrão!”.

Em sua última coluna na Carta Capital, Thomaz Wood Jr. falou sobre a procrastinação. O famoso hábito de “empurrar com a barriga” foi objeto de pesquisa científica que apontou o seguinte: costumamos adiar a execução de uma tarefa que parece mais distante e abstrata. A dica dos pesquisadores é “apresentar certas tarefas de forma mais detalhada e objetiva”. O problema, acredito, é que detalhe não rima com objetivo. Como uma das infelizes pessoas que adoram chamar reuniões e discutir tudo em seus pormenores, estou em posição confortável para admitir que planejar demais deixa tudo mais distante e abstrato, ou seja, fácil de ser adiado.

Tanto pior se as intermináveis reuniões são uma conversa entre eu e eu mesmo. Pois ainda mais do que a conversa, o pensamento carrega esta terrível sina de ser intangível, incerto e inútil do ponto de vista prático. Hannah Arendt, ao defender a tarefa do pensamento nas considerações morais, também definiu sua inextricável consequência: “quando começamos a pensar em qualquer coisa, interrompemos tudo o mais” (A Dignidade da Política, Ed. Relume-Dumará, p. 149). Ora, definir os detalhes de uma ação é pensá-la exaustivamente e, portanto, se afastar dela. Não me entendam mal. Pensar é preciso e cada vez mais necessário em um mundo onde tudo se faz no modo automático. Mas se existe o momento (e por que não a tarefa) da ponderação, também existe o momento de agir sem planejar. Ninguém vai negar que existem coisas que precisam ser feitas quase sem pensar. Entre elas, o futebol.

Não prender a bola foi um dos méritos do time do Atlético na partida contra o Iguaçu. Basta ver os dois gols do Marcinho para entender o que estou falando. No primeiro, a bola atravessou todo o campo e chegou até a rede adversária na base do “dois toques” – um deles a letra do garoto Renan. No outro, depois de boa jogada individual de Wallyson (driblar é diferente de prender a bola e também exige uma boa dose de “irracionalidade”), Renan pegou o rebote e deu um tapa para o novo camisa 10, que arrematou de primeira.

A semana do Atlético teve duas notícias importantes: a saída de Ferreira e a entrada de alguns garotos da Copa São Paulo no time principal. Se a promoção dos guris deixa a torcida animada, a atuação de Marcinho serviu para tranqüilizar a torcida depois do empréstimo do colombiano para o Dallas depois de quatro anos sem títulos na Baixada. Apesar do carinho da torcida, acho que desta vez não vai ficar saudade. Se não houve jogada de craque, sobrou objetividade. Além dos gols, Marcinho jogou com velocidade, coisa que ainda falta para o Atlético. Pela esquerda, Márcio Azevedo também voltou muito bem e ajudou a fazer a bola correr. Mas o destaque na minha opinião é mesmo o outro cabeludo, Renan, que tem boas chances de ganhar a vaga ao lado do Valência. Tenho birra de dois volantes, mas dou aqui o braço a torcer. Nem precisa pensar muito.

Cine Manjericão: O Processo

In PRETEXTO on 25 25UTC Fevereiro 25UTC 2009 at 15:44

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Adaptação do livro de Franz Kafka, feita com maestria pelo grande diretor norteamericano Orson Welles. Com um elenco de primeira, uma trilha sonora jazz /clássica empolgante, maravilhosa fotografia e edição. Num ambiente sombrio e desalentador, um homem, Joseph K., acorda em plena manhã e encontra a polícia em seu quarto. É informado de que será preso. Não lhe apresentam os motivos nem a acusação. O processo corre em segredo. A partir daí, K. enfrenta caótica peregrinação. Apontam-lhe pessoas que poderiam influenciar e manipular o julgamento e garantir-lhe a absolvição, inclusive um advogado (o próprio Orson Welles), muito versado nos assuntos do tribunal. Ao procurar entender os mecanismos que movem seu processo, K. se torna paranóico e passa a acreditar numa enorme conspiração. Tudo parece um grande pesadelo.

CINE MANJERICÃO
DIA 27 DE FEVEREIRO – SEXTA
20H30 – Bebidas e confraternização
21h00 – Início da projeção
ENTRADA FRANCA (contribuições são bem-vindas)

GOVARDHANA
Rua Augusto Stresser, 207
Tel. (41) 3254-5657

Guantánamo, a doutrina do choque e a biopolítica – Parte II

In PRETEXTO on 19 19UTC Fevereiro 19UTC 2009 at 16:40

Como este texto tem a pretensão de apresentar duas leituras um tanto diversas sobre o significado de Guantánamo – o “capitalismo de desastre” de Naomi Klein e a “vida nua” de Giorgio Agamben – vou aproveitar algumas coincidências. Confesso: embora não tenha condições de defender esta idéia, lá no fundo escondo a hipótese de uma ligação mais estreita entre os processos de construção-reconstrução ou de produção-consumo que caracterizam a atual dinâmica capitalista conforme Klein e as considerações do filósofo italiano sobre a “vida nua” ter alcançado o mais elevado status político na modernidade.

No último dia 10 de fevereiro, a Folha de São Paulo trouxe reportagem de Silvana Arantes sobre A Doutrina do Choque, adaptação do livro de Naomi Klein dirigido por Mat Whitecross e Michael Winterbottom. Curiosamente, na primeira parte deste post deixei um trailer de O Caminho para Guantánamo, filme que em 2006 rendeu o Urso de Ouro aos mesmos diretores. Não tinha a mínima idéia de que os dois estavam filmando o livro da Naomi Klein.

A mesma edição da Folha traz a notícia da morte de Eluana Englaro. Vítima de um acidente automobilístico, a italiana permaneceu em coma durante 17 anos. Nos últimos meses, sua vida foi objeto de severa disputa política. De um lado, Berlusconi e o Vaticano defendiam a manutenção da vida por aparelhos. De outro, o Poder Judiciário amparava a decisão da família sobre o desligamento dos aparelhos. Diante da decisão da máxima corte de justiça da Itália, autorizando a suspensão da alimentação artificial, Berlusconi ameaçou mudar a Constituição e tentou passar um decreto-lei que proibia a interrupção da alimentação.

Ainda que malfadada, a tentativa de Berlusconi ilustra o paradoxo do poder soberano do qual nos fala Agamben: tendo o poder de suspender a lei, o soberano se coloca fora dela. O poder soberano decide sobre o dentro e o fora, estando de fato ele mesmo em um “limiar” que não é fora da lei nem se limita por ela. Daí seu poder de exceção, que radicalmente se define como o direito de vida e de morte. Sem dúvida é este mesmo poder que permitiu o surgimento do Military Comissions Act, legislação especial de combate ao terrorismo, assinada por Bush em 2001, que escapa às Convenções Internacionais e à própria legislação norte-americana (ver a primeira parte deste post). Neste sentido, a prisão de Guantánamo é mesmo um dos grandes símbolos do estado de exceção.

Mas o chocante em Agamben está na definição da relação de exceção como constitutiva da lei e da política. “A decisão soberana sobre a exceção é”, para ele, “a estrutura político-jurídica originária, a partir da qual somente aquilo que é incluído no ordenamento e aquilo que é excluído dele adquirem seu sentido” (Homo Sacer, UFMG, p. 27). Se em sua origem a política nasce da separação entre a pura vida biológica (zoé) e uma vida qualificada pelo exercício da ação e da palavra no meio dos outros homens (bíos), o ingresso da vida biológica no seio da vida política é pago “com uma incondicional sujeição a um poder de morte” (idem, p. 98), o poder soberano.

Tal sujeição é personificada na figura do homo sacer, que no direito romano simbolizava aquele que poderia ser morto impunemente e sem os ritos de sacrifício prescritos pela lei, ou seja, uma vida sagrada e ao mesmo tempo sujeita à morte. Agamben explica a aparente contradição: se a consagração passava um objeto do profano ao sacro, o homo sacer é posto para fora da alçada humana sem alcançar o divino. Ocorre, portanto, uma dupla exceção do humano e do divino. É justamente nesta zona de indistinção que o pensador italiano faz convergir o poder soberano (que não está dentro nem fora da lei) e a vida nua do homo sacer (que não está sob a lei dos homens nem sob a lei de deus).

A tentativa de Berlusconi passar por cima da lei converge com o conteúdo da matéria sobre a qual o político conservador pretende legislar: a vida nua. Como escreveu João Pereira Coutinho em uma bela e esclarecedora coluna publicada ainda na mesma edição da Folha, a definição de vida que o primeiro-ministro italiano procura defender é “apenas um simulacro de vida: um conjunto de funções fisiológicas que ocorre num corpo inerme”. Não se trata de defender o “dever da morte”, como ele próprio afirma ao traçar a distinção entre matar e deixar morrer. O colunista chama atenção para uma diferença essencial entre uma existência humana e a mera vida biológica, que hoje pode ser mantida por anos com auxílio de máquinas.

Talvez ainda não esteja clara a relação entre a vida mantida por aparelhos e a vida confinada em campos como Guantánamo. Bem, outro famoso caso de disputa sobre a vida e a morte foi o da norte-americana Terri Schiavo, mantida em estado vegetativo durante 15 anos. Em 2005, ano em que os aparelhos foram desligados por decisão judicial, Slavoj Zizek publicou um artigo em que comparava a prisão de Guantánamo com o caso de Schiavo: “Estes são os dois extremos em que nos encontramos hoje em relação aos direitos humanos: de um lado, aqueles ‘que as bombas erraram’ (seres humanos completos mentalmente e fisicamente, mas privados de direitos), de outro, um ser humano reduzido a mera vida vegetativa, mas esta mera vida protegida por todo o aparato estatal”.

Vou terminar o post sem pode esgotar o assunto nem traçar todas as linhas que imagino entre as duas leituras (afinal, isto é um blog!), mas tentando ao menos esboçar uma resposta para a pergunta que coloquei no início: O que significa o fechamento de Guantánamo e a declaração de que “os Estados Unidos não vão torturar”?

Creio que a intenção de fechar esta prisão não deve nos fazer crer em um súbito esquecimento da “doutrina do choque”. Apenas como exemplo, ainda em 2008, durante as prévias da campanha presidencial nos EUA, Naomi Klein chamou a atenção para o fato de que o Partido Democrata de Obama arrecadou mais dinheiro dos fabricantes de armas do que os conversadores republicanos e que sua equipe seria composta por velhos membros da Escola de Chicago.

Tampouco se devem colocar as preocupações de Agambem para descansar. O fato do campo de concentração ser o paradigma da política na modernidade esconde uma relação muito mais íntima e antiga entre o poder soberano e vida nua. Um campo como Guantánamo é a materialização do estado de exceção, a zona de indistinção onde a vida nua e o poder soberano se encontram. Portanto, seu fechamento não extingue o poder de exceção característico da política na modernidade. Como alerta Agamben, “nos encontramos virtualmente na presença de um campo toda vez que é criada uma tal estrutura, independentemente da natureza dos crimes que aí são cometidos e qualquer que seja a sua denominação ou topografia específica” (idem, p. 181).

Política e Polícia

In PRETEXTO on 14 14UTC Fevereiro 14UTC 2009 at 18:29

Nesta sexta-feira 13, em Curitiba, o terror mais uma vez ficou por conta da Polícia Militar do Paraná. Não estive presente, mas não é preciso pensar muito para entender o que aconteceu. Ainda que o Governo do Estado e sua Secretaria de Segurança afirmem sempre que “conosco não tem enrosco”, a afirmação não é mais contundente do que as pancadas que continuam sendo distribuídas a torto e direito. Nada justifica a truculência e o despreparo que continuam sendo a marca da nossa PM.

A manifestação do Movimento Passe Livre – MPL reivindicava a volta da passagem ao patamar anterior (de R$2,20 para R$1,90), abertura da “caixa preta” da URBS (empresa responsável pelo transporte em Curitiba) e passe livre para todos os estudantes. Você já pode ler comentários na Internet dizendo que isto não é coisa de estudante nem de cidadão, pois lugar de estudante é na escola e a cidadania se exerce com trabalho e voto. Quem faz manifestação, pelo contrário, é “baderneiro”. Esta opinião não é de todo equivocada. Realmente, aqueles que decidem se manifestar politicamente deixam de pertencer inteiramente à mesma identidade social.

Como afirma o filósofo Jaques Rancière, através da ação política se produz um espaço de participação que não existia antes. Neste novo espaço, você não é apenas o estudante, o trabalhador, a mulher, o negro, etc. Estas são “identidades definidas na ordem natural da repartição das funções e dos lugares”, ou seja, o cada um no seu quadrado. Mas agir politicamente significa transformar todas estas identidades, criando um espaço de litígio onde se pretende repensar a sociedade, suas funções e lugares. Abre-se um espaço “onde qualquer um pode contar-se porque é o espaço de uma contagem dos incontados” (O Desentendimento. Editora 34, 1996, p. 48).

E quem são os incontados? Ora, você, eu, todos os que não estavam na mesa de negociação que decidiu pelo aumento da passagem. Todos os que não tem acesso às contas da URBS. Na “ordem natural” da sociedade, nós não temos o direito de mudar essas coisas. Não é da nossa conta. Porque estudante tem que estudar, trabalhador tem que trabalhar e todo mundo têm que pagar a passagem e ficar calado. Pelo contrário, o ato político constrói uma relação entre o que não tem relação. Ele exige que sejamos contados naquilo que não era da nossa conta. Transforma o problema de cada um em um problema de todos, deslocando o assunto privado (você não tem dinheiro pra passagem) para visibilidade pública (nós temos direitos de ir e vir).

Isto me faz lembrar de outra coisa, cujo contexto é muito parecido: transporte, direito à cidade, ação política e… criminalização. Daquela feita, a repressão foi da Guarda Municipal e o movimento em questão era a Bicicletada. Pintaram uma ciclofaixa e ganharam prisão, multa processo e – por sorte ou simpatia – escaparam da porrada. A defesa do grupo perante a justiça revela o quanto as autoridades trocam alhos por bugalhos, política por vandalismo, estudante por bandido, cidadão por meliante. O guarda em questão enquadrou o pessoal no artigo 4º da Lei Municipal 8.984/96, que condena a pichação de bens públicos ou particulares. No entanto, como afirma a defesa, o que havia ali não era um grupo de pichadores, mas “um movimento popular legítimo, o qual realizou ato público, à luz do dia, após chamada aos meios de comunicação e às autoridades, com apoio dos moradores e comerciantes da região, com propósito específico de atrair atenção para um meio barato e eficaz de se cumprir a lei (…) de exigir da Municipalidade a inclusão da
bicicleta como parte das soluções de trânsito em Curitiba”.

No meio de tantas diferenças, no critério “criminalização de movimentos sociais”, tanto o Governo quanto a Prefeitura estão empatados. Quer dizer… talvez a PM esteja alguns pontos na frente. Quem sabe porque o time está mais entrosado e vem treinando há mais tempo este tipo de ataque. O relato de um garoto na delegacia dá a medida dos métodos de intimidação. O policial pergunta a idade do rapaz e diante da resposta, ironiza: “Tá na hora de morrer, né?”. Para evitar qualquer denúncia e impedir novas manifestações, eles afirmam que estão na cola, tem fotos de todo mundo e sabem onde todo mundo mora. Quer mais? Ao que parece, nenhum dos detidos conseguiu fazer o exame de corpo de delito, pois foram mantidos na delegacia até perto das 18 horas e o IML funciona até as 17h30.

O MPL pede que sejam enviadas moções de apoio ao movimento e contra a criminalização dos movimentos sociais, para o e-mail mplcuritiba@gmail.com .

Experiências

In PRETEXTO on 12 12UTC Fevereiro 12UTC 2009 at 16:12

Publicado em FUTEPOCA

Como todos os regionais, o Campeonato Paranaense vive um momento de experiências e mudanças.

No Alto da Glória, não existe uma só pessoa que não chore ao ver os gols do Keirrison no Palmeiras. O Coritiba é o pior ataque da competição com apenas 2 gols em 4 partidas. Agora o atacante Hugo vai ter sua chance contra o Paranavaí, depois de marcar o gol da vitória contra o Foz. Além desta experiência, o time sofre três alterações: Ariel, Paraíba e Dinélson estão no Departamento Médico. Melhor para Renatinho, meia da base que foi emprestado ao Londrina no ano passado e agora tem a oportunidade de compor o elenco principal do Coxa. Outro atleta da base deve retornar para ajudar o time. Tiago Real, que disputa o Paranaense pelo Iguaçu, deve retornar como opção para o lugar de Marlos, outra revelação que migra para “os grandes” depois de Maio.

Também por falta de gols, Abuda deixa o Paraná Clube. Sem marcar durante cinco jogos, o ex-corinthiano rescindiu o contrato e deverá disputar o Paulistão pelo Marília. Os paranistas esperam agora a estréia do atacante Osmar e do lateral-esquerdo Fabinho. Além do retorno do zagueiro Luis Henrique, que pode tomar o lugar de Jonathas se Paulo Comelli decidir manter o atual esquema de dois zagueiros. Diante de tantas possíveis alterações, o que já mudou no Paraná foi o salário e a multa rescisória do meia Elvis, de apenas 18 anos e destaque neste início de ano.

Fora de campo, o tricolor quer ainda mudar a arbitragem. Depois da derrota contra o Londrina dentro de casa (1×2), o clube protocolou junto à Federação Paranaense de Futebol (FPF) um pedido de afastamento do trio que apitou a partida e anulou dois gols do anfitrião. Parece que a Federação já havia decidido pelo afastamento do bandeirinha José Amilton Pontarolo, mas isto não é o bastante na opinião de Aurival Correia, presidente paranista. Além da punição, o Correia apela: “Não façam mais laboratórios conosco”.

Enquanto isto, tudo vai “muito bem, obrigado” para o Londrina, que fez 2×1 no Foz do Iguaçu. Com a segunda vitória fora de casa, o tubarão alcançou os 10 pontos e a terceira colocação. Pertinho de Londrina está a cidade de Maringá. A rivalidade entre as duas estrelas do norte é tradicional dentro e fora de campo. Mas neste ano, os maringaenses ficaram sem time e o campeonato sem o clássico tubarão x galo. Agora surgem boatos de que o J. Malucelli – futuro Corinthians do Parque Barigui – pode se mudar para Maringá. O presidente desmente a mudança imediata, mas confirma que o time deve mandar jogos no interior. Provavelmente serão como testes da recepção do novo produto pelo público consumidor, para ver até onde pode chegar a expansão do negócio. Diante da hipótese, fica a pergunta: para quem vão torcer os milhares de corinthianos que vivem em Londrina?

Também perto de Londrina, mas na tabela do campeonato, está o Toledo. O time – que tem uma parceria muito mais digna com o São Paulo FC – empatou com o Atlético nesta quarta-feira e mostrou que tem boas chances de se manter nas primeiras colocações. Apesar de Rafael Moura afirmar que o Atlético ficou “abaixo da crítica”, a verdade é que o jogo foi difícil e do outro lado tinha um time muito bem montado e com alguns destaques individuais, caso do veterano Marcos Aurélio (ex-Flamengo), dos jovens Rafael, Bruno, Hernani e principalmente do goleiro Fabiano, principal responsável pelo empate.

As experiências do Geninho já estão mostrando alguma coisa. Como o próprio técnico afirmou, “a zaga é titular, o Valencia, o Ferreira e o Rafael pelos gols que fez também”. As duas alas seguem em versão beta. Zé Antônio foi bem ontem pela direita, mas apresenta defeitos típicos da improvisação. Já Alex Sandro entrou meio desligado. Nas suas costas o Toledo fez suas principais jogadas no primeiro tempo e quando subiu pro ataque o moleque foi meio disciplicente. Deu pra ouvir aqui de casa o Geninho gritando: “Joga sério! Você não está sozinho”.Ele melhorou, mas não o bastante pra tomar o lugar do Netinho. Pelo meio, apesar de uma apresentação mediana contra o Toledo, acredito que Marcinho seja o titulo no lugar de Julio dos Santos.

Agora o furacão tem duas partidas em casa. Primeiro o Nacional de Rolândia e depois o Paraná. Com duas vitórias o time dá largos passos em direção ao primeiro lugar nesta fase classificatória, o que significa dois pontos de lambuja na próxima fase. A outra vantagem, esdrúxula, foi alterada ontem pela FPF e a Rede Globo. É isso ai mesmo: o regulamento do Campeonato Paranaense foi alterado assim, no meio da competição. O artigo 9 previa que o time campeão da primeira fase jogasse todos os jogos em casa. Ok, era uma norma ridícula. Mas isto é hora de experiências?

O Enigma de Kaspar Hauser

In PRETEXTO on 10 10UTC Fevereiro 10UTC 2009 at 14:05

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“Cada um por si e Deus contra todos” é o título original que o diretor Werner Herzog tirou de “Macunaíma”, de Mario de Andrade. Baseando-se em registros históricos, Herzog nos conta o estranho caso de um jovem encontrado perdido numa praça de Nuremberg, Alemanha, em 1828. Ele não falava e nem conseguia ficar de pé. Passara os primeiros anos de sua vida aprisionado numa cela, não tendo contato verbal com nenhuma outra pessoa. Logo lhe foram ensinadas as primeiras palavras, mas a exclusão social de que foi vítima não o privou apenas da fala. Sem uma série de conceitos e raciocínios, Hauser não conseguia diferenciar sonhos de realidade. Quem seria este misterioso rapaz? Seria possível civilizá-lo?
Filme vencedor do Grande Prêmio do Juri em Cannes no ano de 1975.

CINE MANJERICÃO
DIA 13 DE FEVEREIRO – SEXTA
20H30 – Bebidas e confraternização
21h00 – Início da projeção
ENTRADA FRANCA (contribuições são bem-vindas)

GOVARDHANA
Rua Augusto Stresser, 207
Tel. (41) 3254-5657

10 livros de poesia

In PRETEXTO on 10 10UTC Fevereiro 10UTC 2009 at 13:26

“No céu também há uma hora melancólica.
Hora difícil, em que a dúvida penetra as almas.
Por que fiz o mundo? Deus se pergunta
e se responde: Não sei.

Os anjos olham-no com reprovação,
e plumas caem.

Todas as hipóteses: a graça, a eternidade, o amor
caem, são plumas.

Outra pluma, o céu se desfaz.
Tão manso, nenhum fragor denuncia
o momento entre tudo e nada,
ou seja, a tristeza de Deus”.

Drummond – Tristeza no céu

Era uma daquelas noites nas quais não se pode dormir. Não se pode, não se quer, que diferença isto faz? O fato é que dormir foi uma luta. E na ausência de sono, cerveja ou companhia, revirei a estante atrás de conhecidos livros que pudessem me embriagar, velhas canções de ninar.

É o mesmo, ainda, quando procuro filmes. Busco rostos conhecidos, as histórias cujo sentido já está dado e presente. Como se quisesse apenas recuperar algum causo bem sabido. Um velho mapa que me mostre o caminho da vida. A cola deste exercício nada matemático, que me dê a tranqüilidade de uma solução ou a grave sabedoria de que não existe uma só.

Certamente não é assim com todos os livros, nem todos os filmes, nem todas as histórias. Em uma biblioteca, por exemplo, procuro o novo; aquilo que ainda não sei. Ali existe ainda mais que um mundo a descobrir. Palavras que nunca ouvi, lugares que não conheci, idéias que ainda não tive. As paredes de uma biblioteca protegem os livros de nós, mas nos protegem dos livros também. É preciso ser introduzido a estes novos universos, hostis a sua maneira; na escuta silenciosa, entre estantes empoeiradas, abre-se um perigo no colo ou em cima da mesa calma.

Mas em casa, bem perto da cama, guardo apenas a segurança de um mundo conhecido.

Alguns livros entram aqui como estranhos e para eles, normalmente, reservo um lugar especial até que estejam confortáveis junto aos outros e até que eu mesmo me sinta confortável com a sua presença. Há sem dúvida aqueles que se misturaram sem uma prévia aproximação, que não conheci na intimidade da cama e, ainda assim, dividem espaço com os que contam minha própria vida… Estes estranhos sempre me olham estranho, quando roço a vista entre as prateleiras. Quase gritam, me perguntam: “O que estou fazendo aqui? Quando vai me descobrir?”.

Sei bem como se sentem. É como estar em um lugar onde tudo e todos se dizem respeito, menos você. Meus livros – e não são muitos – contam de mim mais do que eu sei dizer deles. Meus livros falam entre si. Quando possível, fazemos uma roda e a conversa não acaba mais.

Alguns são velhos amigos, mas resta pouco assunto. Já os novos falam demais! Tanto que quase não sou capaz de escutar. Mas o tempo diz sempre a verdade. Revela o valor do que muitas vezes só tem preço, aparência e boa fama. O tempo mata o desejo, ou melhor, faz ver que muitas vezes o que se deseja não está lá. O tempo dissolve o pó do meu café e outras coisas mais resistentes. Eu espero.

Há os livros antigos, que sempre tem o que dizer. Como o vinho, as boas idéias, o amor e as instituições, demonstram sua força na medida em que envelhecem. Há, sem dúvida, a força do rompante, da revolução que instaura o novo tempo, da paixão que incendeia o primeiro contato. Há a força da agonia, da agitação e da novidade. Mas até mesmo esta se revela uma segunda vez em relação àquela força mantenedora, calma, sustentável. Presente sem estardalhaço, sem que dela se dê conta. A força do que existe (quase) sem esforço de resistir.

Noites como essa me levam quase sempre de volta a Drummond. Não sou dele estudioso nem tenho poesias décor. Sei um pouco sobre Itabira, sobre a estátua em Copacabana, reconheço sua imagem e mais nada. Ao contrário suas poesias, sabem sempre muito de mim. E em noites como essa, me reconheço nelas. Reli poemas que sei o gosto e provei novos também. Uma canção para ninar mulher, um convite triste, uma flor e a náusea. Muitos poemas sobre o medo, outros sobre a coragem. Enfim, copiei para um amigo algumas frases que lhe cabem. Há sempre aqui algo que se encaixa. São 10 livros de poesia, mas são bem mais do que isso. A introdução de Antônio Houaiss dá a medida de sua importância e me escusa o exagero:


“(…) aos que não podem prescindir aqui e agora – e algures e depois – do convívio com a Obra de Carlos Drummond de Andrade, o que releva é que esta lhes é suporte para o viver e o sobreviver e o morrer (…)”.

Diz muito mais a introdução. Mas eu aqui já disse tudo o que queria dizer. Só falta contar que tomei emprestado meu primeiro livro na biblioteca do colégio. E não mais devolvi. Carrego este pecado e faço pública a confissão. Hão de me perdoar. O que seria de mim sem todas estas palavras?


Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.

Drummond – Procura da poesia

Futebol Paranaense: para o Zênite ou Nadir?

In PRETEXTO on 3 03UTC Fevereiro 03UTC 2009 at 12:52

Depois de três rodadas dá pra sacar que teremos uma boa disputa no Paranaense 2009. No meio da semana, durante a transmissão de Iguaçu (de União da Vitória) x Coritiba, Raul Plasmann destacou a qualidade que vem apresentando algumas equipes do interior. Sem dúvida a vontade de aparecer marca a participação de clubes com calendários que se resumem à disputa estadual. Mas além de garra e correria, aqui e ali aparece também um bom planejamento tático e alguns destaques individuais. Mas esta não é uma grande novidade. Nós é que esquecemos muito rápido das coisas ou temos esta mania muito paranaense de desvalorizar o que aparece por aqui.

Naquele jogo, o Iguaçu deu uma canseira no Coxa e se a zaga tivesse dado um chutão ou evitado o cruzamento do Marlos aos 48 do segundo tempo, o clube da capital não estaria hoje nem entre os dez na tabela. Aliás, na rodada seguinte o Iguaçu (que fez apenas dois jogos) conseguiu seu primeiro pontinho contra o J. Malucelli e impediu que o time alcançasse o Atlético na liderança. Com o empate no clássico deste domingo (Coxa 0 x 0 Atlético), o rubro-negro garantiu o primeiro lugar com dois pontos de vantagem sobre o rival. Mas entre eles estão Foz do Iguaçu, J.Malucelli e Toledo. Logo atrás vem o Nacional, Cianorte (também com dois jogos), Engenheiro Beltrão e só depois o Paraná Clube.

A próxima partida do Atlético é contra o J. Malucelli. E não adianta querer mudar de nome, porque vai ser sempre o Malita, o Jotinha, irmão mais novo, chato pra caralho. Mas agora, pra piorar, aquele irmão rebelde que não quer ser ele mesmo, foge de casa e muda de identidade. Ora, eu sempre achei legal você ter o direito de mudar de nome quando alcança a maioridade. Afinal, ninguém merece a má sorte de ser batizado com um nome escroto. O nome de J. Malucelli é sem dúvida um dos maiores erros de batismo da história do futebol mundial. Seria absolutamente compreensível se este fosse o único motivo da mudança. Afinal, como é que você pode conquistar torcedores para um clube que carrega o sobrenome de uma família? Até ditadores como Franco e Berlusconi foram espertos o bastante pra comandarem clubes de futebol sem emprestarem suas alcunhas.

O Malita já tinha uma tarefa difícil: ser o quarto maior clube de uma cidade. É só olhar para a Portuguesa em São Paulo ou o Vasco no Rio (gostou, Yuri? hehe). Que força de vontade, que disposição, que empenho para manter um clube e uma torcida nestas condições. Mas os dois exemplos ainda carregam toda a tradição da colônia portuguesa. E o Malita? Bom… Agora ele quer carregar a história de um dos maiores clubes do país. Assim, de lambuja. De uma hora para outra, deixar de ser um time quase sem apoio para se transformar em uma paixão. O Corinthians Paranaense. Mas não é bem assim… Aqui em Curitiba, pelo menos, o que estão conseguindo é perder a simpatia dos rivais.

Li em algum lugar o presidente Malita chorando porque o time não tinha torcida. Mas se eles tem a estrutura, porque não investir em uma parceria e montar um time realmente forte no interior? Lá, infelizmente, a maior parte de quem gosta de futebol prefere acompanhar apenas os times de São Paulo e Rio de Janeiro. Isto ficou evidente na pesquisa que aponta o Corinthians como clube de maior torcida no Estado. Assim… de boa… é uma vergonha. Entre as dez maiores torcidas, apenas três são do Paraná. Sei que a informação é antiga, mas olhe a lista:


1 – Corinthians, 12,5%
2 – Atlético-PR, 9,6%
3 – Palmeiras, 7,6%
4 – Coritiba, 7,5%
5 – São Paulo, 6,5%
6 – Flamengo, 6,2%
7 – Santos, 4,3%
8 – Paraná, 3,2%
9 – Grêmio, 2,6%
10 – Internacional, 1,4%

Considerando que os números que apontam os três clubes de Curitiba são, em sua grande maioria, de curitibanos, fica evidente que pelo menos no futebol o interior do Paraná não é paranaense. E onde é que estão os clubes do interior? Não é brincadeira não! Em Londrina, segunda maior cidade do Estado com mais de 500 mil habitantes, o clube da cidade fica atrás de cinco clubes paulistas e cariocas na preferência dos torcedores. O diretor de marketing do Corinthians, Luís Paulo Rosemberg, que classificou o negócio como uma “grande tacada mercadológica”, expôs com todas as letras o provincianismo do nosso Estado: “O norte paranaense é paulista”.

Não pensem que estou defendendo algum tipo de bairrismo ou segregação. De jeito nenhum. Direita pra mim é apenas uma posição dentro do campo, não na esfera política. Mas a subserviência é uma posição política. E quem invoca a posição de “democrático, liberal e livre de preconceitos” para defender um negócio cujo único objetivo é o lucro, está de fato defendendo apenas um “direito comercial”. Mas ok, pra terminar, vou dar o braço a torcer. O J. Malucelli nunca foi nada diferente disto, quer dizer, como Linhares Junior defendeu hoje em sua coluna, um “clube” que nasceu pra ser uma empresa, revelar jogadores e dar lucro para seus empresários. Eu ainda acho que embora o futebol possa ser comprado e vendido, não se pode dizer o mesmo da relação de uma torcida com seu clube ou sua cidade.

Minha nova ocupação

In PRETEXTO on 3 03UTC Fevereiro 03UTC 2009 at 01:45

No último sábado, dia 31, inauguramos uma pequena loja no Govardhana Yogashala.

O espaço pretende reunir bons livros (novos e usados) sobre filosofia, yoga, arte, política e literatura, além de roupa, música, comida orgânica, quadros, gravuras, fotos e outras produções de artistas locais.

Abaixo estão algumas fotos, amorosamente cedidas por Francinne M. Weffort.

GOVARDHANA
Rua Augusto Stresser, 207
Tel. (41) 3254-5657

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Guantánamo, a doutrina do choque e a biopolítica – Parte I

In PRETEXTO on 29 29UTC Janeiro 29UTC 2009 at 14:14

No último dia 22, Barack Obama ordenou o fechamento da prisão de Guantánamo no prazo de um ano e o fim dos tribunais de exceção. Mas o que é Guantánamo? O que significa um decreto como esse e a declaração de que “os Estados Unidos não vão torturar”?

Desde 1903 os EUA pagam a Cuba um “aluguel” de 4 mil dólares pela baía de Guantánamo, onde mantêm uma base militar. A concessão nunca pôde ser revogada pelo regime castrista, que obviamente não utiliza o dinheiro do acordo. Dentro da base está a prisão para onde o governo Bush resolveu levar os suspeitos de envolvimento com organizações terroristas depois dos ataques de 11 de setembro. Trata-se de uma verdadeira terra sem lei, onde não são reconhecidos aos prisioneiros os direitos da legislação americana nem as Convenções de Genebra (o Military Comissions Act, legislação especial de combate ao terrorismo assinada por Bush ainda em 2001, considera os suspeitos como “inimigos combatentes”, não como “prisioneiras de guerra”). Mesmo diante de incontáveis denúncias de violação dos direitos humanos, os Estados Unidos nunca permitiram a inspeção do local por organismos internacionais.

Em novembro do ano passado, quando o fechamento da prisão era ainda uma promessa do presidente eleito, Dan Ephron publicou na revista Newsweek um artigo que citava quatro barreiras para o seu cumprimento. O primeiro deles é “o fator iemenita” e diz respeito à dificuldade de negociação com diversos países – especialmente o Iêmen – para a repatriação de ex-prisioneiros que viessem a ser liberados. O segundo é “o problema do não-em-meu-quintal” (NIMBY), ou seja, o fato de que o EUA provavelmente manterá prisioneiros considerados perigosos, mas que nenhum Estado americano parece disposto a aceitá-los. Dentro do território existe ainda o problema dos “Direitos Miranda”, aquele que todos nós já ouvimos nos filmes: “você tem o direito de ficar calado, tudo o que você disser…. você tem direito a um advogado, etc”. Acontece que os “inimigos combatentes” não têm direitos diante da comissão militar que atua na “guerra contra o terrorismo”. Alguns juristas defendem a criação de novas “cortes de segurança nacional”, uma espécie híbrida entre as comissões militares de Guantánamo e os direitos civis norte-americanos. Por último, ficaria a questão sobre as outras prisões que os EUA mantêm em bases militares espalhadas pelo mundo, especialmente a de Bagram, no Afeganistão.

A pretensão deste artigo é pensar outras questões naquilo que se desenha como uma nova política de segurança nacional e direitos humanos do governo norte-americano. Para tanto, me apóio na noção de “capitalismo de desastre” invocada por Naomi Klein (a primeira parte deste artigo pode ser lida como uma incompleta resenha do livro) e no conceito de biopolítica ou do campo de concentração como paradigma da política na modernidade, tal como apresentado por Giorgio Agamben em seu Homo Sacer (uma segunda parte que espero conseguir escrever algum dia).

Em seu último livro, A Doutrina do Choque, Naomi Klein revela através de depoimentos e numerosos dados e declarações oficiais as ligações entre o desenvolvimento de experiências psiquiátricas com eletrochoque, as técnicas de tortura praticadas pelos Estados Unidos e as teorias de choque econômico do que ela chama “capitalismo de desastre”. Sua tese central é a de que o moderno desenvolvimento capitalista depende de uma forma diferente de expansão, que consiste em um contínuo processo de destruição e reconstrução. Neste contexto, os desastres (naturais ou fabricados) não são apenas oportunidade de negócio para as grandes corporações, como o choque desses acontecimentos provoca uma situação de pânico onde podem se concretizar mudanças que, em condições normais, receberiam a resistência da população. Choques como um golpe de estado no Chile, um tsunami no Sri Lanka ou um ataque dentro dos EUA tornaram possível o “esquecimento” de toda uma infra-estrutura pública e sua substituição por lucrativos empreendimentos privados.

O que Naomi Klein traz de extraordinário são as pontes que ligam este tipo de manobra política – teorizada por gurus liberais como Milton Friedman – com as terapias de eletrochoque e as técnicas de tortura. Aqui eu vou seguir apenas uma parte dessas trilhas, priorizando aquilo que conduz até Guantánamo e a “guerra contra o terrorismo”.

Nos anos 1950 a CIA patrocinou as experiências psiquiátricas do Dr. Ewen Cameron, que acreditava ser possível “desfazer e apagar as mentes defeituosas” (Klein, p. 41) de seus pacientes e regravar nelas um conteúdo inteiramente novo. Seu método de “cura” consistia em mantê-los acordados e isolados durante semanas, sob administração de eletrochoques e de uma série de drogas e medicamentos, até que suas mentes se tornassem um espaço vazio e pudessem então ser recarregadas através de mensagens reproduzidas ininterruptamente durante semanas inteiras. Diante dos relatos, é impossível discernir a experiência científica de um requintado e desumano método de tortura.

No entanto, as práticas do Dr. Cameron foram estudadas pela CIA como “técnicas especiais de interrogatório”. Anos mais tarde, revelou-se que a Agência realizava cursos para promover este tipo de “interrogatório de fontes resistentes” em países onde havia conflitos ou golpes que interessavam ao EUA. Mas os agentes norte-americanos procuravam não sujar as próprias mãos. Pelo menos até o 11 de setembro de 2001. A partir de então, “aquilo que era feito por procuração (…) seria realizado diretamente e defendido às claras” (Klein, p. 55) pelos Estados Unidos. Para tanto, uma série de operações conceituais foram conduzidas em sua legislação para driblar resistências internas e os julgamentos internacionais. Entre elas, esta definição do prisioneiro como “inimigo combatente” e a declaração de que os Estados Unidos se reserva o direito de “interpretar o significado e a aplicação da Convenção de Genebra” (Klein, p. 56). Através destas manobras foi possível não apenas criar e manter a prisão de Guantánamo, como Abu Ghraib no Iraque ou Bagram no Afeganistão.

A adesão dos EUA às práticas que constavam apenas como “estudos” nos manuais da CIA, coincide com a chegada de Donald Rumsfeld ao cargo de secretário da defesa do governo Bush. Ele havia passado os últimos vinte anos dirigindo multinacionais, o que lhe garantiu know-how para “reinventar a guerra para o século XXI – tornando-a (…) muito mais lucrativa do que jamais havia sido até então” (Klein, p. 338). O papel de Rumsfeld na transformação do Departamento de Segurança dos EUA em um dos mais pródigos clientes das corporações é tratado por Klein com riqueza de detalhes. Resumidamente, trocou-se um grande número de tropas regulares por soldados temporários e trabalhadores terceirizados, investindo a economia de recursos públicos em novas tecnologias de guerra produzidas pelo setor privado. O que ficou mais fácil depois do 11 de setembro, quando se utilizou o pânico para aumentar o orçamento da guerra. O evento tornou possível a substituição da recém-estourada bolha pontocom, fazendo surgir “uma nova economia apoiada em segurança doméstica, guerra privatizada e reconstrução de desastres, encarregada de construir e administrar um Estado de segurança privatizado, dentro e fora de casa” (Klein, p. 353).

Como as experiências do Dr. Cameron serviram como laboratório para as modernas técnicas de tortura praticadas em Guantánamo, a prisão dentro do território cubano serve como laboratório para a aplicação das mesmas técnicas em ocupações militares. No Iraque, em 2003, diante da resistência civil, um oficial da inteligência norte-americana chamado Willian Ponce (acredite) solicitou “técnicas de interrogatório” que pudessem auxiliar o controle da situação. Duas semanas depois, desembarcou no Iraque o diretor de Guantánamo, Geoffery Miller, com a missão de “get more” (tirar mais) da prisão de Abu Ghraib. “Gitmo” é o apelido dado pelo próprio Miller a prisão que Obama pretende fechar em um ano.

A chamada “guerra contra o terrorismo” foi orquestrada de maneira a garantir a sustentabilidade deste mercado, que supera os limites da tradicional indústria bélica. Não se trata apenas de comprar armas e tanques para a guerra em uma região determinada e contra um inimigo definido. “Os terroristas”, afirma o documento fundador do Departamento de Segurança Nacional, “podem aparecer em qualquer lugar, a qualquer hora, e praticamente com qualquer arma” (Klein, 355). Isto é o mesmo que dizer: tudo o que a indústria da segurança nacional produzir precisa ser comprado. As companhias de tecnologia são a indústria bélica da guerra contra o terrorismo, produzindo ferramentas de identificação, rastreamento, controle, fiscalização, vigilância. A maior parte vinha sendo desenvolvida para servir como ferramentas para uma ordenação mais detalhada dos perfis dos consumidores ou para substituir os trabalhadores do comércio varejista. “Dali em diante, as mesmas informações (…) podiam ser vendidas, não só para agências de viagens e lojas como a Gap, como dados de marketing, mas também para o FBI, como registros de segurança” (Klein, p. 358).

Adaptada para identificar e controlar “terroristas”, suas evidências são quase sempre questionáveis. Assim, outra “solução de mercado” menos tecnológica é o bom e velho “Procura-se”. Os EUA pagaram de 3 a 25 mil dólares para quem denunciasse um membro da Al-Qaeda ou do Talibã. Um ex-prisioneiro de Guantánamo dá a medida desta solução: “No Paquistão, você pode comprar pessoas por dez dólares. Imagine com cinco mil dólares?”. É evidente que o menos importante dentro da “guerra contra o terrorismo” é provar a culpa dos prisioneiros. Em 2008, a Suprema Corte dos EUA autorizou que prisioneiros de Guantánamo apelassem perante a Corte Federal de Washington. Até o fim do ano, seis dos nove casos analisados foram declarados detenções ilegais.

Ocorre que hoje a indústria da segurança nacional norte-americana “se tornou tão grande quanto Hollywood ou a indústria fonográfica” (Klein, p. 360). É desta forma que devem ser entendidas as declarações de Dick Cheney pela manutenção da prisão e do uso de métodos como a asfixia simulada nos interrogatórios até que chegue ao fim a “guerra contra o terror”. Cheney e muitos outros não são (apenas) loucos cruéis e desumanos, mas acionistas e conselheiros de empresas que lucraram com esta guerra permanente. O “capitalismo de desastre” precisa dela e em mais um momento de crise, sem dúvida maior do que o estouro da bolha pontocom, dizer que “os EUA não vão torturar” é quase o mesmo que dizer “os EUA não vão produzir carros”. Portanto, quando Obama se propõe a fechar Guantánamo ele está se comprometendo a mudar uma tradicional forma de administração, presente há mais de cinqüenta anos e ainda muito bem representada em Washington.

Este é o trailer de The Road to Guantanamo, produção britânica de 2006 que conta a história de três jovens britânicos presos no Paquistão.

Uma coisa liga a outra

In PRETEXTO on 24 24UTC Janeiro 24UTC 2009 at 03:09

Olha só como são as coisas. O último texto que publiquei por aqui também foi publicado no Futepoca, um blog que admiro muito, assim como as três coisas que ele contêm: futebol, política e cachaça.

Um pouco antes do meu você encontra um texto sobre Roberto Ribeiro, ex-goleiro como Camus e que também trocou as luvas pelas letras. No seu caso, de samba. A publicação do Marcão me deu pretexto para vasculhar o Youtube e além de Roberto Ribeiro acabei cruzando com Antônio Candeia Filho e com este documentário de Leon_Hirszman sobre o samba de partido alto.

Se você gosta de samba, vale a pena assistir as três partes. Se não gosta, apesar de ser ruim da cabeça ou doente do pé, pode dar uma lida na história de Candeia e de seu Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo.

Mais um texto técnico

In PRETEXTO on 23 23UTC Janeiro 23UTC 2009 at 01:18

O treinador morreu, de boca fechada, quando o jogo deixou de ser jogo e o futebol profissional precisou de uma tecnocracia da ordem. Então nasceu o técnico, com a missão de evitar a improvisação, controlar a liberdade e elevar ao máximo o rendimento dos jogadores, obrigados a transformar-se em atletas disciplinados. – Eduardo Galeano

Nunca assisti ao treinamento de um time de futebol profissional. Ou melhor, assisti alguns treinos do Londrina na infância. Mas tinha lá meus 12 anos e aparecia no Estádio do Café muito mais pela graça de matar aula do que por qualquer interesse no treinamento em si. Além do mais, não entendia patavinas sobre esquema de jogo. Pra mim era nós contra eles. Acabou.

Ando pensando bastante nesta carência da minha formação, especialmente quando tento montar um time na cabeça. Você pode dizer que isto é problema do técnico de futebol, como meu computador é problema do técnico em computação e minha bicicleta é problema do bicicleteiro. Mas é sempre bom entender e conhecer um pouco melhor essas coisas todas com as quais a gente tem uma ligação tão íntima e diária, ainda que no caso do futebol o conhecimento signifique pouco poder efetivo. Sendo menos do que um cronista esportivo de relativa audiência, o máximo que a gente vai conseguir é assunto pro boteco. Mas já está valendo.

Acompanhando um programa esportivo algumas semanas atrás, ouvi que o Geninho pretendia montar um time no 4-4-2. Ainda estava no ar a novela sobre a transferência do Netinho para Grécia. Ora, caso o negócio fosse concretizado estaríamos com os cofres cheios e com um buraco na ala esquerda. Mesmo com a permanência do guri nossa fragilidade canhota é evidente num esquema de dois zagueiros e dois laterais. Neste esquema, o Netinho voltaria a jogar no meio (o que seria uma boa), mas a lateral ficaria entre Márcio Azevedo e Alex Sandro. O primeiro chegou a disputar boas partidas ano passado, mas caiu de rendimento vertiginosamente e sem explicações. O segundo é ainda uma promessa das divisões de base. Isto significa que sair do 3-5-2 agora seria fazer uma aposta na recuperação de um atleta ou na revelação de outro.

Felizmente ficou mais claro depois que o técnico estava falando em treinar algumas possibilidades, não em mudar o esquema de jogo. Tudo bem que o Paranaense é o campeonato de menos expressão a ser disputado neste ano, mas não se trata de desconsiderar a briga e tomar o certame como pré-temporada, de jeito nenhum! O Paranaense é pra ganhar. O Geninho sabe disso, a diretoria sabe, a torcida, os jogadores, todo mundo sabe que tem que entrar rasgando. Mesmo que a primeira fase classifique 8 de 15 times, o campeonato começa dia 25 e o único amistoso foi contra o Batel de Guarapuava. Agora é valendo ponto.

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Mas já que falamos em promessa, não dá pra deixar de lado o fio de esperança que a Copa São Paulo trouxe para a torcida rubro-negra. Aliás, um fio não, trouxe logo um novelo ou já uma trama muito bem costurada. Porque o time base do Furacão está muito bem organizado, além de ter jogadores que se destacam individualmente. E o assunto da Copinha cabe aqui muito bem, porque esse time também está no 3-5-2. Se o Manoel jogar durante o ano o que ele fez contra o Cruzeiro, quem sabe a gente possa ver o Chico ao lado do Valência. Ali pelo meio ainda tem o Willian, que parece ser um guri bom: quieto, com personalidade, toque de bola e muito raçudo. Pela direita tem o Raul, que é um baita jogador e deve ser uma sombra atrás do Nei e do Alberto, um se recuperando de lesão e outro que infelizmente foi habitué do Departamento Médico no ano passado. Lá na frente, Patrick e Eduardo Salles são bons centroavantes, mas a briga já está quente…

Posso queimar a língua, mas acho que o Lima vai ser opção de segundo tempo e que a briga pela vaga ao lado do He-Man fica entre Júlio César e Preá. No meio, Geninho está apostando suas fichas no Julio dos Santos, o que cria outra “briga”entre Ferreira e Marcinho. Puta merda… essa é boa! Deixar um no banco com certeza vai ser uma pressão violenta para quem entrar jogar tudo o que sabe e o que não sabe. Mas outra opção pode ser o Ferreira no meio e o Marcinho no ataque, como ele mesmo disse que gosta de jogar.

Enfim, me perdoem o absurdo da comparação, mas acho que montar um time deve ser mais ou menos como escrever. Primeiro você tem alguma formação e experiência nisso. Entende alguma coisa técnica, manja umas jogadas, estuda umas regras. Depois tem algumas idéias e vai ensaiando na sua cabeça aquilo que quer fazer dentro das quatro linhas. Então começa. Coloca uma peça aqui, outra ali. Elas se movimentam. Algumas do jeito que você esperava, outras não. Então você apaga, substitui, joga de novo. Nada estava pronto antes de começar a partida e no final você tem um resultado impossível de ser alterado. Definitivo. Para o bem ou para o mal. Uma diferença óbvia e com vantagens para quem escreve é que seu resultado pode continuar sendo debatido com argumentos contra ou a favor de suas escolhas. O técnico não. Seu resultado aparece em um placar. O escritor lida com palavras. O técnico de futebol, apesar de toda a magia do jogo, com a frieza dos números.

Conhecendo a máquina de escrever

In PRETEXTO on 21 21UTC Janeiro 21UTC 2009 at 14:52

Lembro quando meu pai chegou em casa com nosso primeiro videocassete. Minha irmã e eu nos abraçamos e começamos a pular no meio da sala. Naquela época, parecia que todo mundo menos a gente tinha videocassete. Você sabe como são as crianças. Eu nem sabia direito para que servia aquele negócio, mas sonhava com um desses embaixo da minha televisão.

A coisa mais incrível que o novo eletrodoméstico fazia era gravar programas ainda que ninguém estivesse em casa. Era legal porque sempre passava alguma coisa interessante na hora de ir pra igreja. Juntamos algumas dezenas de fitas VHS debaixo do armário. Então passamos a gravar por cima, da mesma forma que já acontecia com as fitas cassete de áudio. Mas a coisa funcionou por apenas alguns meses. Depois perdeu a graça. Tudo era gravado e assistido uma vez ou duas, no máximo. Virou estoque de poeira.

As instruções diziam que também era possível assistir a um canal e gravar o que passava em outro. Mas nem chegamos a aprender isto. O interesse por essas funções mais elaboradas durou pouco e durante anos o aparelho funcionou apenas recebendo os filmes da locadora. Seis botões resumiam nossa relação com o antigo objeto de desejo: play, pause, forward, reward, stop, reject. Hoje o trambolho cinza jaz em algum armário da casa, tornado obsoleto por seus irmãos mais novos cujo empenho da família talvez alcance uma dúzia de botões.

As máquinas sempre entraram na minha casa com um pouco de atraso em relação à maioria dos meus amigos. Ainda assim, nunca deixaram de despertar paixão e curiosidade, seguidos de perto por uma espécie de acomodação e desinteresse. O caso mais ilustrativo é o da centrífuga de alimentos. A festa durou exatamente 3 dias e contou inclusive com um campeonato de sucos. Agora todo mundo morre de preguiça de limpar aquele treco que fica cheio de bagaço de fruta colado em toda parte.

Mas sem dúvida, entre todos os aparelhos domésticos, o que por mais tempo conserva sua magia é o microcomputador. Este é o mais ferrenhamente disputado, o que fica mais horas ligado, o que todo mundo quer usar.

Minha relação com ele data do início dos anos 90. Fiz meu primeiro curso diante de uma tela verde e preta, utilizando aqueles disquetes gigantes e digitando comandos que minha memória apagou. Depois de uma tardia redescoberta via Windows, consegui aprender o suficiente para garantir a sobrevivência virtual. Mas cada vez mais sinto que meus conhecimentos não são o bastante para me conferir uma cidadania neste novo mundo. Comparativamente, é como se eu fosse semi-analfabeto ou alguém que foi educado para um tipo de atividade que não existe mais. Eu ainda consigo me virar. Mas se tudo der certo para a tecnologia, antes dos 40 anos devo me sentir como meu avô de 90 na frente do computador. Não entendo metade dos termos e utilizo muito menos que a metade do que esta moderna máquina de escrever tem pra me oferecer.

Além de me incentivar a escrever, este blog faz parte do meu esforço (quase) autodidata. Digo “quase” porque na internet a relação entre mestre e aprendiz muda radicalmente, mas não deixa de existir. Dia desses, em meio a brusquetas e suco de cranberry, meu amigo Raphael Neto me ensinou a usar o Google Reader e me apresentou alguns professores interessantes. Entre as lições, destaco estas dicas de como montar um blog. Outro texto interessante é este meio-manifesto por uma blogosfera mais madura.

O resultado destas leituras e de alguma exploração desajeitada foram pequenas mudanças, como os tags que aparecem agora antes de cada postagem. No canto inferior direito você pode ver agora uma “nuvem de tags” que destaca os assuntos mais postados. Acima dela tem ainda uma relação de links ainda em fase de construção… Tentei encontrar também outro template, onde estas mudanças ficassem mais visíveis, mas os dois estilos mais interessantes já são usados pelo Nils e pelo Felipe .

Encontre aqui seu novo emprego

In PRETEXTO on 16 16UTC Janeiro 16UTC 2009 at 15:05

OK, já estou descumprindo meu próprio aviso. Hoje é sexta-feira. Mas durante a semana foi impossível para e escrever qualquer coisa. Então vou quebrar a regra desta vez.

Preciso escrever sobre o que mais me incomodou durante a semana. And the winner is… Não, não é a eleição do Cristiano Ronaldo. A situação toda que arrancou minha paciência nesta semana tem relação com o tema do trabalho e do emprego. Mas para começar, preciso voltar até poucos dias antes do Natal. Vocês sabem tão bem quanto eu como são esses dias. Eu não gosto. Não gosto mesmo. Para mim, não existe expectativa pelo Natal e Reveillon. Existe stress, encheção de saco (com o perdão do pleonasmo). Então, estava saindo de casa, atrasado, para procurar presentes, ops!… lembrancinhas e resolver mais uma ou outra coisa que as pessoas chamam de preparativos e eu sinto como preocupação. O telefone tocou. Fiz a merda de atender. Telemarketing.

Não, não vou meter o pau no telemarketing. Todo mundo faz isso porque todo mundo odeia, inclusive quem faz a ligação. Vou meter o pau na proposta que me fizeram e na minha própria burrice em aceitar. Mas é preciso compreender as circunstâncias. Fim de ano, compras, contas, férias, viagem, desemprego, mais contas, a bolsa de janeiro que não vem porque a universidade está em recesso e… Enfim, eu havia recusado por mais ou menos dois meses a “oportunidade” que me era oferecida insistentemente, por e-mail, para incluir meu cadastro no banco de empregos desta empresa chama Manager Online. Mas naquele dia e diante daquelas circunstâncias, acabei fornecendo meus dados à atendente. “Você tem sete dias de serviço gratuito, senhor. Podendo cancelar seu cadastro em nosso site antes deste prazo”.

Não sei porque fiz aquilo. Ou melhor, sei. Você sabe. Todo mundo sabe. Nos cinco dias depois desta decisão estúpida, entrei no site da Manager buscando oferta de empregos. Nada. Claro que não. Eles até mandam uma porção de ofertas, mas parece até que você não fez cadastro algum, porque nenhuma delas corresponde aquilo que você já fez ou pretende fazer.

No sexto dia, entrei no site para cancelar a inscrição. Mas eles me ofereceram outros sete dias gratuitos. E eu… acreditei. Passei mais cinco dias consultando a porcaria e nada! No sexto dia, novamente, entrei e acabei com a palhaçada. Tenho aqui o e-mail da empresa confirmando o cancelamento. Se tiver fôlego, vou usá-lo como prova. Porque alguns dias depois fui surpreendido – no meio de uma série de cheques que caiam na minha conta como meteoros – com um débito de R$ 28,50. Adivinhem de onde?

Vocês podem imaginar minha raiva. Contra a empresa e contra mim mesmo. Quem é estúpido o bastante pra cair em um golpe desses? Bom, falei com um cara no banco – daqueles que ficam orientando pra você não entrar na fila errada – e ele disse ter passado pela mesma coisa. “Cara, agora você tem que ficar esperto todo mês, pra ver se eles não agendam outro débito. Então você cancela”. Todo mês! “Mas você pode ainda tentar fazer o estorno deste débito”. Entrei, peguei a senha, esperei e não consegui fazer o estorno. “Você não é o primeiro”, disse a mulher ao ver no meu cadastro que o débito era da Manager Online. Ela me passou o endereço e o telefone da empresa, que fica em São Paulo. Não sei o que vou fazer com isso. Pensei em ligar todos os dias pra encher o saco. Mas o valor do interurbano me desanima.

Antes de sair, o gerente percebeu minha raiva e veio até a mesa. Segundo ele, o banco tem um contrato com esta empresa e ela pode simplesmente agendar débitos. “Mas eu não autorizei nada! Você não vai encontrar nenhuma assinatura, nem mesmo um ‘li e aceito’ onde eu tenha clicado, nada”. Acontece que o contrato do Banco compete à empresa a obrigação de possuir a autorização do cliente. Quer dizer… foda-se você, correntista! Uma empresa espertalhona só precisa do número da sua conta para arrancar o seu dinheiro. É oito vezes mais fácil do quer ser hacker e provavelmente mais seguro. É oitenta vezes mais fácil do que arrumar um emprego de verdade e, sem dúvida, mais lucrativo.

Por onde eu posso começar?

In PRETEXTO on 12 12UTC Janeiro 12UTC 2009 at 15:15

Agradeço as visitas no final de semana, mas já vou deixar um aviso: só “trabalho” neste blog entre segunda e quinta. Duro é escolher sobre o que falar na segunda-feira…

Bem, não dá pra deixar de lado o ato contra os ataques de Israel. Acordei cedo na sexta, um pouco ansioso. Afinal, nem lembro qual foi o último protesto que participei. Sem contar a Bicicletada, que pra mim é mais uma ação do que um protesto. Quer dizer… É um protesto. Mas é diferente. Você está reivindicando alguma coisa, mas ao mesmo tempo tem uma possibilidade mínima de intervir diretamente. É claro que a Bicicletada não muda uma legislação, não cria ciclovias ou bicicletários públicos. Então, fica ainda uma meta que só é alcançada sob a forma do protesto. Mas, por outro lado, o simples ato de pedalar e fazer isto em conjunto é uma forma de ação direta, quase uma desobediência civil. Você está reivindicando mais espaço para as bicicletas e está tomando este espaço a que realmente tem direito.

Em um protesto contra a guerra, como o que se faz aqui no Brasil em solidariedade ao povo palestino, qual é a possibilidade de uma intervenção concreta na realidade que se pretende transformar? Creio que este tipo de pensamento inibe a participação de algumas pessoas. “O que isto vai mudar?”.

Alguns murros em ponta de faca te fazem pensar nisto. Aquilo que você queria transformar no mundo continua o mesmo e suas próprias condições de vida pioraram. Se o tempo diminui nossa estatura, parece que o fato de estar envolvido com política – pelo menos esta política que não dá dinheiro – acelera o processo e te deixa ainda menor diante das outras pessoas. Aquelas que estão cuidando da sua vida, crescendo.

Então você sai de casa numa sexta-feira de manhã para participar de um protesto contra uma guerra que acontece muito, muito longe dos seus problemas. As bombas são lançadas e explodem longe daqui. A decisão de parar ou continuar os ataques não depende da sua opinião. Nem mesmo a ajuda humanitária depende de você. Sua solidariedade possivelmente não vai ter nenhum impacto visível. Não é uma enchente em Santa Catarina. A guerra é mais cruel e ainda menos compreensível que um desastre natural. Muito mais difícil de se intervir.

Uma guerra no Oriente Médio. O aumento da tarifa. O despejo de uma favela.

Você pode associar a imagem de Dom Quixote aos protestos, manifestações ou ações que buscam se posicionar nestas e em outras situações. Mas por que não a imagem de Davi contra Golias? A propósito, me lembro de uma camiseta de uma banda de hardcore punk paulistana com a imagem de uma criança palestina atirando pedras e a frase “Davi agora é palestino”. Talvez se nossa própria vida estivesse em risco não pensaríamos duas vezes antes de atirar uma pedra contra um tanque. Diante do massacre, não nos ocorreria perguntar “o que isto vai mudar?”.

Kanoute comemorando o gol de Luis Fabiano.

Kanoute comemorando o gol de Luis Fabiano.

A camiseta de Frédéric Kanouté comemorando o gol do Sevilha também não parou a guerra. Bem longe do bombardeio, ele não arriscou a vida. Só ganhou uma multa por ousar fazer do futebol um espaço político por preciosos segundos. Mas foi um ato vitorioso em uma época onde a grande preocupação dos atletas é colecionar Ferraris (pelo menos na Europa) e todos dizem a mesma coisa (pelo menos no Brasil).

O ato que aconteceu também em Curitiba foi vitorioso. Ele não parou a guerra, mas colocou cerca de mil curitibanos nas ruas como cidadãos e não como consumidores. Ele venceu uma batalha contra a apatia. Além do mais, a emoção de pessoas que tem parentes e amigos na região em conflito ou mesmo um forte laço cultural com o mundo árabe não deixou dúvidas sobre a importância de se expressar a revolta. Para que não siga acontecendo. Para que não aconteça jamais.

Tudo na mão do Geninho

In PRETEXTO on 8 08UTC Janeiro 08UTC 2009 at 13:54

Dei uma de técnico cagão e esperei até os 40 minutos do segundo tempo para falar sobre a nova temporada do Atlético. Na verdade, não foi bem isso. Se tivesse algum poder de mexer no time, meus amigos, eu o faria bem antes. Acho que qualquer rubro-negro paranaense o faria, depois do vexame no Campeonato Brasileiro. Mas a diretoria não fez. Resolveu manter o mesmo time que quase nos matou do coração.

Ainda perdemos o Alan Bahia. Mas não vou chorar as pitangas, já que sua negociação com o futebol estrangeiro era mais do que esperada e merecida. O cara jogou muito e vestiu a camisa do clube como poucos no volátil futebol moderno. Sinto mesmo uma ponta de vergonha pelas poucas vezes que o xinguei lá da arquibancada. Lembro de uma senhora descontrolada rimando Bahia com porcaria e das piadas que terminavam o nome do craque com …bique. Ora bolas, que hipocrisia a nossa! Se eu estivesse sendo comandado por Bob Fernandes e Mário Sérgio Pontes de Paiva, vendo a vaca ir pro brejo daquele jeito, acho que também ia entornar das minhas. Sabe aquela coisa de beber para esquecer?

Mas falando sério, o Bahia se recuperou. O time se recuperou. As cinco últimas partidas, pelo menos, foram dignas de um Clube Atlético Paranaense. Nós sabemos que os méritos são, quase todos, do Geninho. Por isso, mantê-lo aqui não foi uma atitude da diretoria, mas da torcida. Vamos e venhamos, quem seria louco de mandar o homem embora depois de salvar o time da segundona e terminar o campeonato ovacionado, amado, praticamente acariciado pelas palavras dos milhares que formam a maior torcida desta capital? Ninguém é bobo. Mas corajoso, uma vez mais, é o Geninho. Porque se fosse eu, cláusula primeira da renovação do contrato seria carta branca para um bom número de contratações. Ficar no clube com o mesmo time é sinal de muita confiança, no próprio taco e/ou nos jogadores.

Quem acompanha futebol percebe o mexe-mexe em todas as equipes. Aqui nada. Só especulação. O pior é que botamos panca de clube da Europa. Mas sem capacidade pra fazer frente em contratações com outros clubes do Brasil, parecemos estar comendo frango e arrotando caviar. Tem pelo menos um grande time brasileiro que também não mexeu muito: o Flamengo. Meu amigo Rondi Ramone acredita que para o rubro-negro carioca é melhor assim, sem grandes estrelas, sem grande badalação, mantendo a base. A diferença para com o nosso rubro-negro, penso eu, é que os urubus terminaram o campeonato disputando vaga para Libertadores e a gente… bem…

Mais uma vez... a cartola.

Mais uma vez... a cartola.

Os poucos reforços procurados pelo Atlético são atacantes. Como se para fazer gols a bola chegasse no ataque sozinha… Ok, a posição está carente. Eu mesmo escrevi que precisávamos de um matador, um artilheiro ou um cabeça de bagre qualquer que fosse capaz de meter a bola na rede. Mas já que é começo de ano, não custava nada trazer também um bom meia-armador. Nos meus sonhos, vi Kleberson de volta à Baixada. Mas tudo bem, trouxeram o Lima. Se ele fizer um gol contra os coxinhas de volta já valeu. Só pra relembrar. Melhor ainda se for de pênalti e na final do campeonato. Bom, nessa onde de reviver o passado, ganhamos pelo menos dez anos em relação ao Alberto, que cruzou a bola para Óseas marcar o primeiro gol que eu vi acontecer no Joaquim Américo. Dois a zero no Palmeiras. Era o ano de 1996. Doze anos depois, tive que rever o Alberto puxando a perna pra voltar do ataque. Nem eu agüento. Pelo menos esse ano parece que não vai ter reforço para o nosso Departamento Médico.

O certame pode servir como uma grande pré-temporada, onde o time vai se entrosando e o Geninho vai testando tanto aqueles jogadores que conheceu em situação de pressão ano passado quanto os poucos reforços e os pratas-da-casa. Mas para torcida não tem essa. Tem que ser campeão do Estadual. Para isso, confesso, esperava surpresas até a reapresentação do elenco. Pelo menos uma promessa de campanha – investir no time de futebol – já foi descumprida.

Tá certo que a torcida pedia há anos que não se desmontasse o time de um campeonato a outro. Mas vai manter justo este time?! Vamos lá, não quero ser injusto nem estou torcendo contra. Tomara que dê certo. Tem aí bons jogadores, que merecem vestir o manto e podem honrar nossa tradição: Galatto, Nei, Rodholfo, Valência, Netinho, Ferreira e até Rafael Moura, que ninguém pode negar, fez dois ou três gols salvadores. Mas pensem bem: com uma derrota a mais que fosse, não ficava ninguém pra disputar série B. Ninguém prestava. Quer dizer, o Paranaense já vai começar com ares de desconfiança. Não estou dizendo que a torcida não vai apoiar o time. Mas não vão pensando que escapar do rebaixamento foi o bastante pra cair nos braços da massa não. Tem que começar vencendo e jogando bem pra fazer as pazes de vez.

Passeata contra os ataques de Israel

In PRETEXTO on 7 07UTC Janeiro 07UTC 2009 at 13:27

Meu amigo Bernardo Pilotto , valoroso militante das lutas populares e filiado ao Partido Socialismo e Liberdade – PSOL, encaminhou convocação para um ato contra ataques de Israel aos palestinos. O ato acontece em Curitiba, no dia 09 de janeiro (sexta-feira), a partir das 11h na Praça Santos Andrade.

Leve bandeiras da Palestina ou aqueles lenços xadrez que ainda estão na moda.


lenco-palestino1

E para saber um pouco mais do que se trata o “potresto”, leia também as “regras jornalísticas” sobre o Oriente Médio, texto anônimo que parece ter sido publicado na Agência Carta Maior (eu não achei).


Doze regras de redação da grande mídia internacional quando a notícia é sobre o Oriente Médio:

1. No Oriente Médio, são sempre os árabes que atacam primeiro e sempre Israel que se defende. Esta defesa chama-se “represália”.

2. Os árabes, palestinos ou libaneses não têm o direito de matar civis. Isto se chama “terrorismo”.

3. Israel tem o direito de matar civis. Isto se chama “legítima defesa”.

4. Quando Israel mata civis em massa, as potências ocidentais pedem que seja mais comedida. Isto se chama “reação da comunidade internacional”.

5. Os palestinos e os libaneses não têm o direito de capturar soldados de Israel dentro de instalações militares com sentinelas e postos de combate. Isto se chama “seqüestro de pessoas indefesas.”

6. Israel tem o direito de seqüestrar a qualquer hora e em qualquer lugar quantos palestinos e libaneses desejar. Atualmente, são mais de 10 mil presos, 300 dos quais são crianças e 1000 são mulheres. Não é necessária qualquer prova de culpabilidade. Israel tem o direito de manter seqüestrados presos indefinidamente, mesmo que sejam autoridades democraticamente eleitas pelos palestinos. Isto se chama “prisão de terroristas”.

7. Quando se menciona a palavra “Hezbollah”, é obrigatório que a mesma frase contenha a expressão “apoiado e financiado pela Síria e pelo Irã”.

8. Quando se menciona “Israel”, é proibida qualquer menção à expressão “apoiado e financiado pelos EUA”. Isto pode dar a impressão de que o conflito é desigual e que Israel não está em perigo de existência.

9. Quando se referir a Israel, são proibidas as expressões “territórios ocupados”, “resoluções da ONU”, “violações dos direitos humanos” ou “Convenção de Genebra”.

10. Tanto os palestinos quanto os libaneses são sempre “covardes”, que se escondem entre a população civil a qual “não os quer”. Se eles dormem em suas casas, com suas famílias, a isto se dá o nome de “covardia”. Israel tem o direito de aniquilar com bombas e misseis os bairros onde eles estão dormindo. Isto se chama “ação cirúrgica de alta precisão”.

11. Os israelenses falam melhor o inglês, o francês, o espanhol e o português que os árabes. Por isso, eles e seus apoiadores devem ser mais entrevistados e ter mais oportunidades do que os árabes para explicar as presentes ‘regras de redação’ (de 1 a 10) ao grande público. Isso se chama “neutralidade jornalística”.

12. Todas as pessoas que não estão de acordo com as ‘regras de redação’ acima expostas são “terroristas anti-semitas de alta periculosidade”.


Velhos lugares e velhas pessoas.

In PRETEXTO on 6 06UTC Janeiro 06UTC 2009 at 02:32

Eu poderia dizer que uma das minhas metas em 2009 é levar esse blog um pouco mais a sério. Outra seria ver mais os amigos e deixar de lado o execrável hábito – que me habituei chamar curitibano – de combinar encontros sem a preocupação de que eles aconteçam realmente. Mas no lugar de promessas e metas que se esquece antes do próximo feriado, resolvi tomar o telefone e ligar para um velho amigo.

Saímos num domingo de manhã, depois de 14 meses ausentes. No sábado chovera pela semana inteira, para que naquele dia não houvesse novas desculpas. Falamos sobre muita coisa, mas só cabe aqui falar de uma. As outras não são para a publicidade. Pertencem à penumbra das amizades, onde não há toda a escuridão da vida privada, nem toda a luz da vida pública.

Andávamos pela Rua XV praticamente vazia, não fosse uma porção de senhores trocando não sei que palavras naquela parte do calçadão que se chama Boca Maldita. “Reduto machista”, como afirma a placa turística pregada na porta do Café da Boca. Dias antes passei ali com minha namorada e vimos que o tradicional café se tornaria mais uma lanchonete Subway. Gosto do Subway e peço sempre o mesmo: um pão de parmesão com óregano, 15 cm, queijo prato duplo, com todo tipo de saladas, especialmente as azeitonas que são sempre pretas e como molho, sempre, um que é agridoce e não guardo o nome inglês. Mas meu hábito importa menos que a tradição. Confesso antes uma ponta de tristeza pelo fechamento daquele velho lugar – ainda que provavelmente nunca o freqüentasse – do que alegria pela conveniência do meu lanche preferido.

Dentro de alguns dias ou semanas o café não existirá mais, mas os senhores certamente ficarão por ali, buscando em outro lugar o líquido preto, quente e amargo que lhes serve de combustível ou pretexto. A Boca não fecha. Estará sempre aberta para receber novos cafés, prosas, protestos e promoções. Os senhores continuarão ali e certamente serão outros. Seremos nós? Meu amigo pensou que sim. Mas no futuro que espio entre as brechas do meu comportamento atual, disse eu, devo ser um senhor ranzinza e solitário, passando ainda mais tempo enfurnado em casa, cercado pelas coisas que me agradam. Meu amigo logo assumiu a inclinação e sua esposa também o viu nesta mesma fantasia de eremita.

Mas seguimos falando ainda sobre muitas coisas e o conjunto delas, depois de fermentadas no espírito, mudaram um pouco a imagem que faço da minha velhice. Pelo menos hoje e enquanto o ano ainda é novo.

Já naquele dia, despedi-me feliz por reencontrar um velho amigo e ainda reconhecê-lo. Costuma-se lembrar dos amigos quando se pensa na morte. Como se no fim da linha houvesse um espelho mostrando aqueles que deixamos pra trás. Mas se a imagem refletida nunca é a imagem verdadeira, o passado que lembramos não é senão uma imagem presente. A saudade é vontade. A lembrança é novidade. O arrependimento, outra chance. E a morte não é de fato morte, mas a vida que ainda nos chama. Não é o fim da linha, mas uma margem. Só na margem se constroem pontes e é preciso sair de si para encontrar o outro.