projetopretexto

Posts de Outubro, 2008

Por um novo Messias! Por uma nova Revelação!

In PRETEXTO on 17 17UTC Outubro 17UTC 2008 at 17:54

Nos quatro primeiros jogos do Atlético no Campeonato Brasileiro deste ano a equipe somou apenas 5 pontos. Olhando hoje para a tabela e para a atual ameaça de rebaixamento, aquela situação inicial não parece assim tão dramática. Estes resultados, por si só, não explicam a mudança de comando técnico e a preocupação da torcida. Mas perder o título Paranaense depois do desmonte do time fez com que o Brasileirão começasse como se estivéssemos correndo atrás do prejuízo.

Diante da primeira goleada (5 x 0 no Goiás), tive uma visão nítida de que o time embalaria. Mas não aconteceu. Perdemos os dois jogos seguintes e tive que esperar até a 13ª rodada, diante do Vasco, para escutar, novamente, aquela voz que me dizia: “agora vai!”. Galatto foi o herói daquela partida, o profeta que anunciaria dias melhores ou o próprio messias. Mas como reza a tradição, o messias só vem quando a lei está consumada e, de fato, não se precisa mais dele. A salvação não chega a não ser no fim dos tempos, ou no fim do campeonato, que tem sempre um novo começo. Enquanto isto, todos são heróis ou profetas, vilões ou demônios, que farão cumprir ou descumprir as promessas. Geninho é sem dúvida a nossa última esperança, mas além de todo o respeito que ele possui por parte do clube e de sua torcida, todos sabem que ele não pode mudar o mundo sozinho e ninguém vai crucificá-lo. Creio que tanto ele quanto o próprio Galatto são ainda, para a torcida, uma espécie de herói. Mas em que pesem sua fundamental importância, falta ainda ao Atlético (entre outras coisas) a figura do matador. Durante o campeonato todos nós acreditamos que ele estava por vir. Uma dúzia de atacantes entrou em campo com a camisa rubro-negra e… nada. Pouco a pouco vamos deixando de acreditar em uma nova benção.

No último sábado tivemos um almoço animado aqui em casa, cujo tema principal foi a Revelação. Minha mãe contou a estória de uma mulher muito pobre que, durante uma oração, recebeu a mensagem de que uma benção estaria a caminho. Tudo o que ela deveria fazer era entrar com a sua família em um determinado supermercado e encher o carrinho com tudo o que fosse necessário. Nada de exagero, somente o necessário. Com o carrinho cheio, a mulher se encaminharia para o caixa de número 7 e puf!, as compras seriam suas. Sem dinheiro, sem desculpas. Foi o que ela fez, meio a contragosto do marido que esperava do lado de fora e cercada pela triste desconfiança das crianças. A mulher e suas compras ficaram paradas no caixa, esperando a decisão do gerente diante da Verdade Revelada. Uma cena comovente mesmo. Mas com um final feliz porque, segundo a minha mãe, o dono do supermercado resolveu fazer uma promoção especial naquele dia e liberar as comprar do cliente que estivesse, naquele momento, passando pelo caixa… 7!

Bem, desconsiderando o fato de que minha irmã mais nova disse ter ouvido uma outra versão da mesma estória, emendei outra, sobre a Revelação que teve a mãe de um amigo meu. Sua mensagem apareceu em sonho e dizia que, naquele dia, ela ganharia um carro! Acordou o marido logo cedo e contou a ele exatamente o nome do carro, a cor, o modelo e inclusive a concessionária que lhes daria a graça. Tenho certeza que a estória fica muito mais interessante com a voz e a expressão deste meu amigo, que é muito mais engraçado do que eu. Mas o resumo da ópera é que, depois de perguntar absolutamente tudo a respeito do carro, a mulher parou em frente ao vendedor, estática, com cara de quem está tendo uma visão, esperando o momento em que as portas do céu se abrem como naquele programa do Silvio Santos. O vendedor provavelmente não teve o mesmo sonho e a mãe do meu amigo voltou pra casa de carona no carro do marido, que estava puto da cara.

Não é mole discernir se a voz que você escuta é de um anjo ou de um demônio, real ou imaginária, digna de confiança ou pura charlatanice. Tanto faz se a voz é de outra pessoa ou se a mensagem é transmitida direto para sua consciência. Jean Paul Sartre, em um texto chamado “O existencialismo é um humanismo”, coloca exatamente o mesmo problema ao evocar a evangélica imagem do anjo que ordena a Abraão que sacrifique seu filho. Como ele poderia saber que era um anjo? Como poderia ter certeza de que o anjo falava mesmo com ele e de que ele havia compreendido bem a mensagem? Sou sempre eu mesmo, diz Sartre, que decido se devo ou não devo agir.

Comigo costumam ocorrem algumas revelações mais ou menos sérias, mas igualmente problemáticas. Arrumar outro emprego? Pegar o guarda-chuva? Comprar aquele livro? As mesmas inquietações devem passar pela cabeça do dirigente de clube que, em meio a todas as contas e considerações possíveis, tem sempre no final uma voz que diz fazer ou não fazer. Contratar? Mandar embora? Quanto aos próprios jogadores, o espaço entre a Revelação e a Ação é menor ainda e muitas vezes mais decisiva. Chutar naquele exato momento ou tentar mais um passe? Tocar para o companheiro ou dar mais um drible? A indecisão ou a decisão precipitada parecem ferrar nosso time. Afinal, por que diabos o Rafael Moura botou a mão na bola?! Você tem aquela inclinação, mas é sua a decisão e a responsabilidade. Afinal, hoje em dia, você não vai poder culpar o anjo ou o demônio que te deu a dica. Não vai colar.

Política depois das eleições

In PRETEXTO on 15 15UTC Outubro 15UTC 2008 at 19:42

Neste dia 18 de outubro, sábado, o CEPAT continua com o ciclo de debates “O capitalismo visto pelo cinema”. O filme da vez é “Adeus Lênin” (Good Bye, Lenin!), de Wolfganger Becker. Começa às 8h30min no auditório do Sindicato dos Engenheiros – SENGE (CCI – Marechal Deodoro, 630 – 22º andar).Saiba mais: http://www.senge-pr.org.br/eventos/evento3.asp

No mesmo dia, o Movimento Passe Livre – MPL promove uma palestra com o professor Paulo Bearzotti sobre a história do planejamento urbano de Curitiba. Começa às 15h na reitoria da UFPR.
Mais informações: http://www.fureotubo.blogspot.com/

O silêncio atencioso ou a discórdia operante

In PRETEXTO on 13 13UTC Outubro 13UTC 2008 at 13:02

Das significações brotam palavras.

M. Heidegger

Este é um novo começo sem linha de chegada. Outro projeto que pode durar ou ser esquecido. Fluído e aberto como toda boa conversa. E como toda boa conversa, deve nascer da discordância, do problema que uma situação qualquer implica. Qual é o problema aqui senão, em primeiro lugar, o próprio ato de escrever ou falar sobre alguma coisa?

Palavras, por si mesmas, não têm lá muito sentido. O que faz dos jornais grandes folhas de papel cheias de buracos. Meus olhos atravessam, passam correndo. Engulo tudo bem mais rápido que o café da manhã. Uma média e pão com manteiga. Há muita coisa pra ler no jornal, mas o sabor é sempre o mesmo. Também há muita coisa pra ler na Internet, esta tela cheia de buracos que se move uma porção de vezes mais rápido que a realidade.

No momento em que quase todas as preocupações se voltam para os problemas da poluição, é preciso prestar atenção para o nosso exagerado modo de produzir lixo. Para que fazer jorrar mais letras no mundo? Mesmo neste caso, sem tinta ou papel, não estou longe da destrutiva dinâmica produção-consumo. Pelo contrário, uma publicação como esta é consumida tão rapidamente que desaparece dentro de algumas semanas. Em nossos dias, uma montanha de “obras” virtuais é escrita com tinta descartável e, ao contrário do que parece, deixa uma série de resíduos não-recicláveis. De tudo o que foi escrito, restam apenas os refugos tecnológicos e um pouco do que a memória guarda. A informação é produzida para durar pouco, sem grandes consequências. Um esforço repetitivo de quem produz o intangível comunicável, o comum e mediano, a opinião.

Com palavras, criamos e partilhamos o mundo. Mas falar também pode ser apenas o exercício egoísta de um sujeito “isolado”, uma mente sem corpo, um indivíduo sem raízes, um falar sobre nada, o mastigar da boca vazia. Para dizer algo relevante é preciso primeiro escutar, o que pressupõe certo silêncio. Apenas em silêncio podemos compreender o outro e também há um silêncio “interior” na compreensão de nós mesmos e do mundo em que estamos mergulhados. Silenciar nem sempre é igual a morrer. Na realidade, silenciar como ato é necessariamente o oposto.

Tendemos a tomar posições. O mundo contemporâneo pede nossa opinião e dá os mecanismos para uma participação sempre muito bem administrada. Os meios se multiplicam. Todos podem falar e todos falam ao mesmo tempo. Porém, na mesma medida, este falatório coloca as palavras dentro da nossa boca e encobre aquilo sobre o que se fala. Falamos por falar e escutamos sem prestar atenção no que ouvimos. Com a escrita não se passa nada muito diferente. Em todos os modos desta falação desenfreada perdemos o contato com o mundo, deliramos! Repetindo e repetindo as palavras que um dia brotaram da realidade, perdemos o contato com este sentido original e deixamos de compreender este solo real, como a criança do século 21 não conhece a terra de onde vem seu alimento. Daí a superficialidade e banalidade do que se diz.

Se há uma pretensão neste projeto de tomar o mundo como pretexto para a conversa, é que este espaço seja mais do que a repetição do enorme e sufocante “consenso” em que nada se discute.