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A Árvore da Vida: o infinito entre as coisas e sua explicação

Em PRETEXTO, 30 30UTC setembro 30UTC 2011 às 20:37

A esmagadora maioria dos comentários que, sem procurar muito, tenho lido sobre A Árvore da Vida o definem como uma reunião de imagens desconexas ou como um filme religioso. Não me parece que ele possa ser reduzido a qualquer um desses termos, a não ser por uma boa dose de preguiça. Admito que o filme é cansativo e pode causar certa má-vontade. Mas isto não é o principal.

Meu comentário não será muito rigoroso (não analiso declarações do diretor ou sua história, nem me apoio em outros comentários), nem muito preguiçoso. Só paro alguns minutos para pensar e escrever algumas impressões, sem nenhum esforço de pesquisa ou revisão.

ATENÇÃO: Se você ainda não viu o filme, contarei detalhes que podem cortar o seu barato.

Tudo começa com uma história familiar confusa, envolvendo a morte de um jovem filho e o desespero dos pais, que procuram um sentido para tal acontecimento. A pergunta da qual parte o filme é clássica: Se Deus é bom e todo-poderoso, como pode haver o mal? “Como isto pôde acontecer?”, pergunta-se após todos os desastres.

Então Deus “responde”, ou melhor, conta-se a história da criação de um ponto de vista sobrehumano, mas que não coincide com as tradicionais narrativas religiosas. Não encontramos nenhum responsável. A criação é o caos. A vida surge como um movimento intenso e sem sentido. Nada no filme explica sua razão de ser. Nenhum gênio divino, nenhuma força vital. Apenas caos, forças que colidem, imensas, inexplicáveis e inapreensíveis. Não há sentido em uma explosão cósmica ou nas zilhões de combinações que, por acaso, levam até nós, hoje. Por isso não há narrativa nesta parte do filme. Nada se diz nem tem sentido.

Mas deste nada ressurge a voz da mãe pedindo uma explicação. A terceira parte do filme (que não se encontra assim dividido a não ser na minha tentativa de explicação) reintroduz o humano em meio aos caos. É a parte mais bonita. A mesma dança que se via entre estrelas, planetas, meteoros, vulcões, mares, células, etc., aparece agora no movimento que dá origem a vida de uma família. O mesmo caos. A mesma falta de desígnio. Surge o bebê e ele é como qualquer outra forma de vida que surge sem saber sua causa. Lançado, desafiado, exposto.

Mas esta vida é lançada em uma forma peculiar de mundo e apreende suas regras, de forma talvez tão natural quanto um peixe aprende a nadar. Ela está imersa em sua família, seu país, sua história. Assim adquire (ou aprende, o que também não é o melhor termo) a linguagem, a moral e o senso do absoluto, especialmente nas poderosas imagens do pai e da mãe, que lhe revelam e escondem o mundo, o vendam e desvendam, dizendo o que deve e não deve ser dito e feito.

De fato, a linguagem e o absoluto possuem uma relação complicada. As coisas nelas mesmas, tal como vistas na parte anterior, não possuem nome (nada se diz) e não remetem a nada exterior a elas. Mas, de algum modo, surge a língua, diabólica, que divide as coisas e seu sentido. É preciso dizê-las, explicá-las. Mas nada que se diga pode apreender totalmente aquilo que é. A linguagem não pode se grudar novamente nas coisas. E este espaço, este vazio, é infinito, absoluto, não pode ser preenchido. Mas nele colocamos Deus, o Senhor de tudo, nossa maior esperança, nosso Bem e salvação. Seria preciso tudo dizer para explicá-lo. Ou então, calar-se.

Mas não calamos. E da impossibilidade do bem absoluto, da ausência do pai, de suas faltas, surge a possibilidade do mal. Aquilo que contraria as regras vira o mundo do avesso. A natureza tirânica de que falava a mãe no começo do filme se manifesta no filho que sente a concreta falta de limites, a incapacidade das regras e palavras cobrirem toda a realidade. A família não fala sobre a morte, a doença, o mal. Tampa os olhos das crianças. Decide sobre o certo e o errado. E assim se protege e se mantém. Um mundo que tudo permitisse seria destruído ou transformado em instantes. Mas nenhuma aldeia jamais fechou suas portas para sempre.

A abertura desestabiliza e confunde o menino que só queria ser a imagem do pai, o todo-poderoso, o forte, o senhor das coisas. Já adulto, busca novamente este absoluto. Tal como seu pai, fracassa. Quer retornar a Deus, reencontrar o sentido. O que também é retornar a infância e reencontrar as primeiras imagens do mundo. Mas entre aquele mundo e a vida adulta, a realidade foi partida em incontáveis palavras, fragmentada em uma infinidade de sentidos que nunca mais se totalizarão. A não ser sob o nome de Deus, aquele que É.

Há muito mais para ser dito. Mas aqui me deixo tomar pela preguiça. E algumas linhas já me parecem o bastante para rejeitar tanto a tese da mera confusão de imagens sem sentido quanto a do filme religioso. Ainda que o final seja mesmo meio Chico Xavier.

Quando o juiz apita

Em PRETEXTO, 16 16UTC agosto 16UTC 2011 às 14:38

Texto escrito sob encomenda de um novo jornal de Curitiba e recusado por ser “meio complexo”. Considerando a média do que é escrito sobre futebol na cidade e supondo que eles foram honestos (e não acharam uma grande porcaria), vou tomar isto como meio elogio e estímulo para continuar escrevendo coisas “meio filosóficas” no meu blogzinho.

As regras do futebol são praticamente as mesmas desde 1863, quando onze ingleses se reuniram em um bar para criar as normas daquele se tornaria o mais belo esporte produzido pelo espírito humano. Mas com algumas cervejas na cabeça, deixaram de pensar um detalhe: quando termina o jogo? Mais do que mero esquecimento, isto se tornou uma marca indelével do futebol.

Depois de causar muita briga, o tempo da partida foi regulamentado em 1877 e ainda levou mais de 50 anos para que nós, brasileiros, aceitássemos jogar 90 minutos. Mas a confusão não acabou quando o tempo foi definido. Diversas vezes as partidas terminaram antes do estabelecido ou foram rigorosamente encerradas em momentos decisivos, prejudicando as equipes. Nos últimos anos surgiu ainda a aberração dos acréscimos, que dá ao juiz o poder de prorrogar a disputa para compensar o tempo de bola parada, sem que se apresente um critério confiável.

Mesmo quem não gosta de futebol deve imaginar o problema causado por esta determinação, digamos, meio variável da duração de uma partida. Afinal, todos os jogos precisam ser definidos por limites espaciais e temporais, como bem afirma Johan Huizinga em um dos mais importantes estudos já feitos sobre a natureza dos jogos em geral (Homo Ludens). “O jogo distingue-se da vida ‘comum’ tanto pelo lugar quanto pela duração que ocupa”. As linhas do campo estão bem marcadas, mas até hoje ninguém sabe realmente quando termina um jogo de futebol.

Recentemente, nós atleticanos experimentamos o doce e o amargo desta situação, amaldiçoando os acréscimos no jogo contra o Ceará e louvando-os na partida seguinte, contra o Santos. Tivesse o árbitro uma indisposição estomacal que o obrigasse a terminar aquele primeiro jogo alguns segundos antes e pronto, a testada do Nicácio não existiria jamais. E toda a raça rubro-negra contra os campeões da América seria em vão se o homem decidisse não apontar nenhum dedo para o quarto árbitro.

Como não existe contagem regressiva, o apito final costuma soar como alívio ou golpe fatal, anúncio de bem-aventurança ou trombeta do Apocalipse, paradoxalmente aguardado e inesperado. Para o bem e para o mal, segue valendo a anta-lógica frase do ex-presidente das galinhas paulistas, que deveria ser incorporada às regras da International Board: “o jogo só termina quando acaba”, ou seja, quando o juiz apita. E pela graça do futebol, também deveria estar nas regras do jogo que a honestidade e competência do juiz deve sempre ser questionada.

A verdade é que um bom jogo nunca acaba. O problema da duração, assim como outras fissuras em seu regulamento, amplia os efeitos do futebol sobre a vida comum. É claro que todo jogo surte efeitos e reverbera sobre a vida de seus participantes. “Mesmo depois de o jogo ter chegado ao fim, ele permanece como um tesouro a ser conservado pela memória. É transmitido, torna-se tradição.” Ele continua, inclusive, em uma outra forma de jogo, que é a linguagem: “toda metáfora é jogo de palavras”. Por isso continuamos falando sobre o jogo que acabou e disputando seu sentido. Mas isto é ainda mais gostoso no futebol. Outros esportes produzem lançes memoráveis, mas nenhum gera polêmicas incontornáveis como o futebol.

Enfim, não existe jogo ganho e muito menos jogo perdido. Isto não significa deixar de reconhecer a vitória do adversário, nem de lamentar os erros de seu time. Acontece que a explicação do que aconteceu é uma disputa à parte. Disputa que só começa quando o jogo acaba e ultrapassa os muros do estádio. Isto é verdade para uma partida e também para um campeonato. Por isso, rivais, podem esperar para nos encher com esse papo de série B (torneio que conhecem tão bem). O Brasileirão só termina em dezembro.

19.07.2005

Em PRETEXTO, 25 25UTC maio 25UTC 2011 às 13:12

Alguém procurou meu nome no Google e encontrou um velho blog, do qual eu mesmo não tinha qualquer lembrança. Esta pessoa deve ter solicitado a chave do blog clicando em “esqueci a senha” e a mensagem foi parar na minha caixa de e-mails (óbvio). Agradeço a recordação e a oportunidade de republicar aqui alguns escritos que de outro modo estariam perdidos. E talvez continuem perdidos de qualquer modo.

Trabalhava no shopping havia exatamente noventa e três dias e tinha uma coisa certa: existem pessoas com absolutamente nada pra fazer. Não estou falando das “desocupadas” que enchem a praça Tiradentes ou os botecos ao redor da rodoviária, nem de qualquer pessoa com uma flanela na mão e um colete velho no corpo, alguém com um bebê no colo te pedindo uma moeda. Essas pessoas têm trabalho, não importa o que você me diga.

Não é fácil viver de caridade num lugar onde Cristo fugiu da cruz e a religião do momento é um culto à sua própria personalidade. Não é, de jeito nenhum, fácil esmolar qualquer migalha num lugar onde há tantas revistas de moda e de decoração e de música e de comida e de cinema e tantos canais de tv e academias e cinemas e teatros pra mostrar a miséria e a plenitude do ser humano. Onde você precisa ter câmeras e seguranças e pagar um plano de saúde e ter um carro legal e talvez uma arma, juntar uma grana pra casar também. Um lugar onde há tantas festas e tantas bebidas e tantas drogas e computadores como esse que abrem janelas para o mundo e celulares que o fotografa e ah… Todas essas maravilhas que tornam nossas vidas tão mais…. frias? Mas com tudo isso, quem precisa acreditar numa mudança? Tudo leva a nada e não há lugar para ir, nem porque sair. É só acabar com a corrupção. Mas tire meia-nota, ok? porque o governo morde tudo. E me arrume uma receita e aqueles remédios tarja preta vão deixar mais tranqüilas essas nossas mentes tão terrivelmente stressadas. Afinal, o mundo anda tão complicado, não é mesmo?

Ah sim, aquelas pessoas nas ruas, já estava quase me esquecendo delas, olha que cabeça a minha! Eu tenho certeza que não é fácil fortalecer seus anticorpos contra o frio e todo tipo de infecção quando se come lixo. Nem apanhar da polícia cada vez que uma madame se sente ameaçada porque você está cantando alto e dançando cambaleante, abraçado com a garrafa que te fez esquecer por um momento a miséria que você é. Deve haver uma longa história de hematomas e hemorragias e dores infernais até você desistir de limpar e curar as feridas porque o hospital é sempre uma humilhação, perda de tempo, sair de lá com a fome arranhando sua barriga e correr atrás de uma sopa quente antes de descobrir que algum filhodaputa queimou seu cobertor de papelão quando o céu despeja o frio com toda fúria de um deus que te odeia e só o inferno deve estar quente esta noite. E o inferno, o inferno são essas casas que você passa em frente e os senhores e os doutores entram em grupo para trair suas esposas com lindas mulheres que eles chamam de putas.

Demora muito, eu acho, pra você passar a desacreditar em tudo e odiar tudo e achar que não importa o esforço, porque tudo leva à nada e não há lugar para ir, nem a chance de sair. Anos de humilhação e de fome e frio e políticos e promessas e igrejas, padres, curas, procuras, sonhos feitos em pedaços e então, mais humilhação e dor. Até que você desiste. E o desequilíbrio no seu coração se transforma em ódio puro ou indiferença para com você mesmo. Um silêncio de morte toma seus ouvidos e nada mais faz qualquer barulho, pro bem ou pro mal. Isso deve ser a paz ou a dor absoluta.

Quanto mais quanto é necessário para construir um ser humano sem humanidade? Alguém cujos olhos não vêem arte, os ouvidos não escutam música, a cabeça não tem um teto e os pés não tem chão? Quanto mais quanto nossa humanidade precisou trabalhar e acumular e roubar (o que nesse mundo parece ser parte imutável do mesmo processo produtivo) para garantir que exista este tipo de…. monstro? Alguém a sua imagem e semelhança, mas tão impiedosamente distante que você pode colar uma etiqueta em um punhado e chamar de “eles”. Mas quem são eles? Quem somos nós? Quem é você?

A diferença entre quem tem e quem não tem pode ser sempre definida por uma palavra simples, como trabalho, família ou então esforço e qualificação. É sempre algo que você tem ou não tem. Sempre a culpa é sua.

A culpa, não a responsabilidade, porque o mundo é assim mesmo e tudo é tão maior que você e eu juntos. Reclamar não vai adiantar, você tem a chance de fazer alguma coisa importante dentro das instituições. É a única forma, não é? Mudar a vida das pessoas. Entrar para um partido. Montar uma ONG. Pagar os impostos. Votar. É isso. Um dia você se pega votando no menos pior e acha que o G8 podia mandar uma ajuda pra África e que os políticos são todos corruptos, que o imposto é alto demais e cada um devia ter seu plano de previdência e, afinal, eu trabalho a semana inteira, me dê um pouco de tranqüilidade, ta bem? Eu não preciso resolver os problemas do mundo uma vez que eu já tenho os meus! Então, você cresceu. Passou a desacreditar em tudo e duvidar de todo mundo e achar que não importa o esforço, porque tudo leva a nada e não há lugar para ir, nem a chance de sair.

Que coisa, eu descubro que a semelhança entre quem tem e quem não tem, nos mais diversos degraus que acumulação permite, é que todos e eu digo absolutamente todos estão com suas cabeças fodidas e dominadas pelo mesmo processo de trabalhar e acumular e roubar. E todos se ajoelham na frente do maldito altar que não tem mais uma cruz, senão uma cifra. E as pessoas desocupadas da rua enchem o corpo de álcool e pedra e qualquer coisa barata, enquanto os patrões e patroas desocupadas, os herdeiros e herdeiras desocupadas, passeiam o dia inteiro nesse lugar onde o ar de verdade nunca chega e gastam um pouco mais em remédios que os fazem inchar e dormir e emagrecer e enlouquecer mais ainda, infartar e morrer. Mas elas morrem por cima. Elas morrem com um nome e deixam por aí tudo que puderam juntar numa vida tão dedicada ao seu deus-dinheiro. Como aqueles faraós talvez, que mandavam escravos construir suas pirâmides, morriam e deixavam todo o esforço e a privação dos outros por aí. Um grande monte de pedras, suor e sofrimento para o turismo. Um monumento da extravagância e me pergunto quando será o tempo em que turistas vão visitar os shopping centers e as mansões o os iates e se as roupas da Gap, Armani, ….. as bolsas da Louis Vitton e os bonés Von Dutch vão durar alguns milhões de anos ou não. Talvez as jóias e as canetas Mont Blanc….

Para garantir o futuro absoluto das coisas nós vivemos este presente estúpido.

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